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Notícias Andarilhos

03 de janeiro de 2017

Uma carta para deixar ir

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Minha irmãzinha de cachos! Hoje quase chorei. Ou chorei de verdade, você nunca vai saber – ou meu orgulho bobo nunca vai dizer. Tanto tempo sem escrever com o coração... acho que perdi um pouco o jeito. Ou o esqueci em uma das esquinas dessa vida. Mas me arrisco aqui a escrever para você.

É estranha essa sensação de seguir os caminhos com meus próprios passos. Hoje fiz toda a tarefa quietinha e dei conta de tudo! Você estaria orgulhosa de mim, como sempre foi, né? Mas agora nem tem mais tanta graça assim. Lembrei agora daquela carta que escrevi para nossa amiga Geena falando sobre como eu nunca aprendi a partir e eu tola, afirmei com aquela convicção juvenil que eu sabia ir. Acho que até eu tinha um pouco de razão. Até sei ir... Mas só quando tinha a certeza de que você estaria me esperando na volta.

Seria egoísta de minha parte exigir que você me acompanhasse de perto em todos os meus voos. Você tem os seus próprios e eles são maravilhosos, eu sei. E fico feliz que você tomou uma decisão difícil sem voltar atrás, minha querida amiga de alma. Seu coração tão puro e tão leve me empurrou todas às vezes por entre as nuvens em todos aqueles projetos malucos – que também acabei convencendo você a me acompanhar. Nunca saberei agradecer todas as coisas que você fez por mim.

Você merece o mundo, minha querida! É preciso correr mundo, correr perigo - não esqueça!. Apesar desse mundo tão maldoso não merecer alguém tão doce. Estarei aqui crescendo e, de longe, também te vendo crescer mais e mais. Você merece o mundo, eu já te disse isso?

Bons voos, minha amiga. Vou deixar para você algumas preciosidades para você sentir pelo caminho.

Canção Para Você Viver Mais - Pato Fu 

Amigo é Casa - Lenine e Zé Renato 

Curta-Metragem: Mãos de Vento e Olhos de Dentro 


ps: prometa que continuará a escrever que eu também farei o mesmo, minha amiga!

18 de novembro de 2016

Três contos fora do comum

Amor ou Os anjos também choram

Lembrei de um provérbio que diz que “o amor é para os tolos”. E é. E para os sábios,  e para os loucos, para os comunistas, para os cegos, para os poetas e a comunidade em geral. Só não é para os solitários - pobres de nós ou que sorte a nossa! - que os desejam tanto; que torturam-se pela menor desventura que seja, a qual possam chamar amor. 

Pois bem. Alguns vivem a própria história de amor. Outros apenas escrevem...

O amor um dia pegou a rota contrária a que sempre fazia e, ao cruzar a esquina, encontrou um anjo triste. Quis aproximar-se, mas antes ficou observando a fisionomia angelical, lânguida, sem expressão alguma. “É de cera?”- pensou consigo. 

O anjo gemeu: 

-Ai!

-Que houve? – perguntou o Amor.

-Perdi a vida!- o Anjo lhe disse.

-Perdeu?

-Perdi! Agora não consigo encontrá-la. Decidi ficar aqui para ver se ela passa.

- E por que disse “ai”? 

-É que dói viver sem vida! – respondeu o Anjo.

-Quanto dói?- quis saber o amor.

-Tanto quanto a morte!

-A morte!? 

-Sim! O que é a morte senão ausência de vida?

-Então você morreu?

- Morri. Preciso encontrar a vida. Você por acaso não a viu? - perguntou o Anjo ao Amor.

- Na verdade não. De que outra forma poderia ajudar?

-Chore comigo, quem sabe a vida não volta – o Anjo com ar de súplica.

Foi assim que o Amor sentou-se ao lado do Anjo e choraram juntos toda uma tarde. O Anjo a ausência de vida, o Amor por solidariedade. E depois saíram cambaleando pela rua, ainda embriagados pelas lágrimas, isso por volta da meia-noite.

A Lua viu toda a cena. Ficou preocupada, pois em todas as suas fases jamais vira o Amor tão convalescente, ainda mais por uma vida qualquer. Ficou cheia de tudo aquilo, e desceu do céu para compreender melhor o que se passou. O Amor lhe contou, pois o Anjo estava tão compenetrado e absorto em sua falta que não conseguia falar, tampouco bater as asas.

A Lua entendeu tudo. Entendeu a dor do Anjo melhor que o Amor. Ela sabia exatamente o que era viver sem vida; apenas ficar em algum lugar do universo, reinando sozinha em meio à escuridão. Aproximou-se do Anjo e tocou delicadamente sua face dourada, agora sem brio. Não lhe disse nada. Sentou-se ao seu lado e beijou-lhe a testa. O Anjo pousou a cabeça em seu colo e cobriu-se com seu manto de cristal. Por fim, a Lua o levou consigo. Levou o Anjo sem vida para o céu, para adormecer para sempre em seus braços. 

Mas então foi o Amor quem se viu sozinho. Sozinho em plena madrugada. Todos passavam à sua volta, mas ninguém se interessou por sua dor. Ninguém lhe perguntou o que houve, nem chorou com ele. Ele chorou só e seguiu sem rumo até chegar a uma plataforma de trem. O último expresso passou e o Amor entrou, e se acomodou no último vagão. No banco em frente ao seu, uma criatura deslumbrante olhava pela janela. Ele teve a impressão de conhecê-la, mas não teve coragem de se aproximar. Mas reconheceu. Era a Vida. O Amor pegou o trem da Vida, com ela dentro. Ele não acreditava. A Vida que deixou o pobre Anjo em prantos e acabou por lhe acarretar parte daquele sofrimento por ter sido deixado só. 

O Amor foi então cortado por um sentimento frio, que de súbito tomou-lhe conta e o fez levantar-se sangrando. Ferido, aproximou-se dela, da Vida e indagou-lhe furioso:

- Apenas diga por quê? Por que o deixou? 

-Para morrer- respondeu-lhe secamente.

-Morrer? Você o queria morto?

-Não, eu é que queria morrer.

Amor ficou confuso.

-Para que queria morrer? 

-Para subir ao céu. Para morar na Lua! 

Vida olhou bem para Amor e viu que este sangrava. Então perguntou-lhe estremecida:

-O que houve?

-O Anjo morreu. Morreu por tua causa. A Lua o levou, e eu fiquei só. Uma dor atravessou-me  e me feriu profundamente.

-Por minha culpa...

-Sim, por tua culpa. 

Vida chorou, chorou tão alto e tão forte que sua alma se rasgou.

-Agora os dois sangramos. Abraça-me! Abraça-me Amor! - suplicou estendendo seus braços trêmulos.

O Amor a abraçou e choraram juntos. E beijaram-se. Estavam gelados quando foram encontrados pela manhã. "O Amor morreu pela vida. A vida morreu por Amor", era a manchete do jornal.

Aldenice Sousa


23 de setembro de 2016

Para quando você tiver a vida por um fio

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Querido leitor!

Não é querendo contestar o seu dia ruim, o ônibus quebrado que levou ao atraso no trabalho, a coca-cola quente, o mau atendimento no supermercado, a lentidão do servidor da internet e a briga com o parceiro. Não me leve a mal de jeito nenhum por todas as coisas que pretendo dizer a você pelas próximas linhas.

Eu sei que diariamente a sensação é de que nada vai melhorar. Na vida pessoal, profissional ou o que quer que seja. Me permita discordar de você. Desculpa querer ser a dona da razão, de querer falar sem ter conhecimento de causa. Mas queria mesmo era conversar assim, francamente com você, leitor. E, se você vem aqui ler minhas palavras é porque, de alguma forma, elas são consideradas importantes. Então sejamos sinceros um com o outro para quando você realmente tiver a vida por um fio.

Mas fica tranquilo, que vou ser breve. Dessa vez, não quero me estender. Ainda estou com tudo aqui atropelado no meu peito. Com certeza essa não é uma de minhas melhores cartas, confesso. Mas é que eu tenho pressa para dizer para você o quanto é bom está vivo. E o quanto que é incrível o poder de um dia ruim no futuro da gente. Uma vez eu perdi a oportunidade de viajar o mundo e, pouco depois, todas as coisas inimagináveis de boas surgiram na minha vida. Mas isso foi só um fato na minha vida, outras coisas vieram depois. Esse ano de 2016 é uma prova - viva!

É bom está vivo para resistir. Para lutar. Para amar. Para apenas e simplesmente viver e gargalhar por todas as conquistas. Porque a vida é esse clichê todo que a gente se esforça para mudar todos os dias. A gente oscila entre os dias difíceis, entre os impossíveis e saí do baque cambaleando e, pouco a pouco já está intacto. Prontos para outras. Porque viver é deliciosamente incrível.

ps: agradeça todos os dias, meu querido desconhecido. E tenha fé.

17 de setembro de 2016

Uma crônica de amor na mesa de bar

(ou: Procura-se a menina de vestido meio roxo que enlouqueceu a pessoa anônima)

O papel meio amassado estava grudado na parede ao lado do espelho que fica em cima das pias de lavar as mãos. Havia também uma cópia do mesmo desenho, e com os mesmos dizeres, grudado dentro do banheiro feminino, em um lugar estratégico. O recado, com um autorretrato desenhado cuidadosamente à mão, dizia assim:

“Procura-se esta garota. Estava aqui no Orelha na véspera de feriado (dia 06/09/2016), acompanhada de 3 amigas, vestia um vestido meio roxo, um colar grande, sandálias e usava os cabelos presos. Fofura demais!!! Pode ser que ela saiba quem eu sou pq eu ñ parava de olhar.

p. s.: se for comprometida eu espero!”

Sem telefone para contato. Sem identificação do anônimo apaixonado. Olhei o anúncio uma vez. Duas vezes. Na terceira, ainda não estava acreditando no que via. Tirei a a foto do desenho ainda comovida e não quis perguntar para ninguém do bar se esse recado foi motivado realmente por amor. Certas coisas merecer o ar do mistério.

Pelo desenho feito a mão, a garota que enfeitiçou (ainda se utiliza esse termo para falar de amor?) o autor ou a autora do recado, parecia ter um coração leve. Seus olhos deviam sorrir junto com sua boca, quando acabava uma música entediante e começava a sair Marisa Monte das caixas de som daquele bar. Pelo dia que foi o pivô de uma nova paixão, devia está em um happy hour.

Aposto que se sentava naquela mesa lá do canto, muito disputada. E que também interrompia a conversa com as amigas, já um pouco bêbada, para levantar o coro quando a música começava: “1,2,3.... Depois de sonhar tantos anos, de fazer tantos planos, de um futuro pra nós. Depois de tantos desenganos, nós nos abandonamos como tantos casais. Quero que você seja feliz. Hei de ser feliz também...”. E, como frequentadora assídua do bar, já sabia a playlist daquela noite decorada e esperava ansiosa para cantar: “Mal acostumaado você me deixooooou, mal acostumadoooo, com seu amoooor” e emendar, ela e as amigas, com a próxima da lista – agora com os celulares servindo como microfone –, “E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração?”.

Se o anônimo ou a anônima ainda estiver com o coração meio comovido com a beleza da garota-da-véspera-do-feriado, aí vai uma sugestão: se ela não tiver com as amigas na mesa do Orelha de Van Gogh, dê mais uns passos, no rumo do posto que ela deve está sentada no banquinho do Select, acendendo um cigarro e louca para acender também o coração.

p.s.: se o encontro acontecer e não acabar em um relacionamento duradouro, espero que pelo menos o sexo seja bom!

Boa sorte querido anônimo ou anônima apaixonado.

Para ouvir: É ela - Teatro Mágico 

13 de setembro de 2016

Dos emaranhados da vida no cabelo cor de mel

(a vida quase sempre por um fio)

São os vários quase que tiram os fios da vida emaranhados do cabelo cor de mel. A gente vai puxando, vai puxando, até desembaraçar e sacar por fim o todo do nada. É que às vezes tudo por dentro está às favas – o mundo vai desfalecendo e fica só um eu ao reverso. Ontem naquela pracinha de sempre, com o trago de sempre eu descobri! Exatamente no momento em que aquela manga caiu do pé bem pertinho de mim. Estava eu, as cinzas e uma música do cazuza. Na verdade não exatamente a música, mas aquela frase recitada escondida do disco, quase como um desabafo, um pedido de socorro do poeta vida louca apaixonado. Eu descobri que o campo de batalha fica aqui dentro, bem cuidado que só vendo! Pronto para tornar-se o ringue das brigas internas – nossas contra os monstrinhos da mente e do coração. Mas perdemos tantas forças ao final de cada luta, aposto que você não sabe. Às vezes é fácil se reerguer, mas transpor o muro que separa o nosso mundo da vida lá fora é a fase mais difícil do jogo. Lutar contra nós mesmo é o pior. Quando não consigo subir o muro e atravessar o caminho é que sinto o quanto que dói aqui dentro, nessa escuridão onde nada se encontra e os abraços são meros faz de conta. Me desculpa a péssima rima, tanto tempo sem fazer poema a gente acaba enferrujando. Que saudade! É que tudo lá fora soa como medíocre. “É engraçado, teus problemas só são relacionados a trabalho, futuro. Você parece gente grande”. Uma vez isso doeu. Como doeu aquela vez que desconfiaram da capacidade, da competência, da qualidade. Como doeu uma só vez aquela brincadeira aleatória de todo dia que nunca tinha me incomodado. E foi aí que vi tudo. Que eu entendi tudo. Mundo mundo vasto mundo cheio de problemas medíocres. Nunca sou nada, nunca serei. Uma vida inteira acumulada! Pra quê, minha amiga? Se tudo que eu queria era a sorte de um amor tranquilo... Tantos sonhos para quê? Se a vida corre quase parando, como aqueles filmes de faroeste ao final de cada luta. Ninguém na rua, os bares fechados, vento quente e forte na janela e meu coração em sangue.

São os vários quase que tiram os fios da vida emaranhados do cabelo cor de mel. Não esquece disso quando eu me for, meu amor.

Vida louca, vida - Cazuza 

"O amor é o ridículo da vida. A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói."

15 de junho de 2016

Duas cartas de amor no jornal - Parte final

Enfim, o fim...

Passaram-se várias semanas desde que dois desconhecidos trocaram correspondências em uma página aparentemente menos valorizada do jornal local. A primeira se dirigia à moça que um dia disse adeus; a segunda uma resposta, ou quase isso, ao remetente da missiva que deu início a uma pequena agitação nos leitores, cujos e-mails chamaram a atenção do editor para aquela história entre duas pessoas, para ele desconhecidas.

Como bom investigador o editor chefe acabou descobrindo que o autor da primeira carta tinha uma certa amizade como o dono do jornal, do qual ele era funcionário. Não sabia ao certo qual o interesse de seu superior na publicação da missiva; poderia ser por amizade, por apadrinhamento. Duvidava que fosse algum jabá – no jargão jornalístico uma publicação paga. E prosseguiu analisando as entrelinhas daquela história.

As assinaturas não ajudavam muito. Pepeu? Parece um apelido de um adolescente de 15 anos. Ana P. ? “P” podia ser de qualquer sobrenome. Pereira. Pádua. Pacheco. Padilha... Padilha... Esse último nome lhe pareceu familiar por alguma razão. Lembrou-se do último jantar de que participou, uma homenagem prestada aos figurões da “sociedade”. Alguém de sobrenome Padilha foi lembrado na mesa em que se ele estava, na companhia de alguns conhecidos. Comentavam de uma filha desse cidadão, cujo casamento fracassou e que estava de volta a cidade. Na hora ele não deu muita atenção. Dispensava fofocas aos colegas de colunas mais afeitas a este tipo de informação – sem muita importância para ele. Mas agora... Aquilo começou a fervilhar na cabeça do jornalista da velha guarda... Foi atrás de alguns colegas para ver se conseguia alguma coisa.

O faro do homem estava certo. Padilha era o sobrenome da moça. Ana Joaquina Padilha Neta. Ela havia voltado para a cidade após um casamento realizado às pressas que culminou em separação pouco tempo depois. Ficou pensando se devia entrar em contato. A curiosidade foi maior. Não apenas falou com a moça como conseguiu informação suficiente para escrever uma semana depois, ele mesmo, sob o título Duas cartas de amor no jornal

Muitos leitores devem lembrar de que este informativo publicou há algumas semanas duas missivas de autoria desconhecida. Como vários dos amigos - alguns que incentivaram a publicação da segunda carta a partir de seus  e-mails solicitando mais informações a esta redação – o editor chefe ficou interessado em mais detalhes da história, por incrível que pareça, pois isso mais se assemelhou a aguardada continuação de um folhetim, gênero que sinceramente nunca foi do meu agrado.

Pois venci meus receios – além de meu preconceito para com essas notícias, ditas de cunho social- e resolvi investigar mais a repeito dos tais remetentes anônimos. Para satisfação do público informo que o encontro entre os dois aconteceu pouco depois da publicação da segunda carta. Os dois amigos, por força do destino acabaram por se separar. Por causa das publicações em nosso jornal reataram a amizade e estão fazendo planos para o futuro...

Ana P. Tem um filhinho de um ano e agora deverá dedicar-se à maternidade e as aulas de canto, que abandonou ao se casar. Pepeu pretende abrir a sua própria padaria. Por sinal, as padarias são
bem frequentadas. Inclusive por executivos, empresários de vários ramos... Segundo ele, a padaria que passou a frequentar na pracinha lhe abriu portas.

Os dois não dão muitos detalhes a repeito do que aconteceu. Isso ficará para imaginação dos amigos leitores. Posso sugerir que se trata de um caso de palavras não declaradas a tempo. Espera-se que haja tempo
agora para os acertos. 

Posso adiantar também meus sinceros votos de felicidade a um certo casal, e claro ao pequeno Nicolas – filho de nossa remetente, de cuja história tenho a satisfação de dizer este jornal fez parte de forma decisiva como em poucas vezes este editor foi capaz de testemunhar.  

The End 

Aldenice Sousa

20 de maio de 2016

A matemática do amor

“O que era sonho se tornou realidade, de pouco em pouco a gente foi erguendo o nosso próprio trem, nossa Jerusalém, nosso mundo, nosso carrossel. Vai e vem vai e não para nunca mais” *

Se fosse para calcular milimetricamente o amor, a equação teria como fator principal o destino, que como diz aquela música da Estrela Leminski, “é linha que não se acompanha, é surpresa, façanha, desvio e, por um fio, é uma espera que não amansa”**. Eu preciso dizer isso, caro leitor, para você entender o quanto que as linhas tortas da vida foram importantes para unir duas pessoas que, a princípio, não imaginavam que os encontros nas festas universitárias os levariam para um futuro de casados, após um relacionamento intenso de quase 10 anos.

Mayara Santos entrou no curso de Matemática apenas para conhecer o Nelson Belchior. Afirmo isso com convicção. Ela nunca concluiu a carreira que, apesar disso, foi fundamental para que ela aprendesse a calcular a matemática do amor. 

Mas esse relacionamento precisou usar várias fórmulas do coração para resistir a tudo o que aconteceu. Para quem não sabe, com seis anos de namoro, vivendo juntos como uma só pessoa no cotidiano, eles tiveram que aguentar a distância, devido a uma oportunidade de emprego que surgiu para Mayara. Na época, eles não sabiam ao certo quanto tempo iam ter que viver dessa forma. “A gente não tinha previsão de nada. Não sabíamos que seriam três anos. A gente só sabia que, a partir daquele momento, eu ia está aqui e ela lá. E tudo isso serviu para mostrar que a gente se gostava realmente”, Nelson confessa.

Durante todo esse tempo, eles passaram por um processo de readaptação. “A gente fazia tudo junto e passou a estar sozinho em todos os momentos. Ter que aprender a ir ao cinema, ao bar com amigos, festa de família sem o outro. E isso colocou em prova o nosso relacionamento”, revela o noivo.

Quando a Mayara conseguiu transferir seu trabalho para Teresina, no ano passado, o sonho estava voltando a se tornar realidade. E, de pouco a pouco, o casal foi erguendo o próprio apartamento, o próprio mundo, com todos os detalhes de amor e paixão.

De tanto não parar, eles chegaram aqui, na porta do altar, onde cada um segura o olhar cúmplice do outro. De mãos dadas, abraçados eles sentem o doce futuro, além da porta da igreja, da festa, da porta da casa. Estão em sintonia, relembrando mentalmente tudo que passou e tentando adivinhar o que está por vir. Quem vai sorrir? Quem vai chorar?


*Música: Pra Sonhar - Marcelo Jeneci

**Música: Ávida - Estrela Leminski e Teo Ruiz

29 de abril de 2016

A saudade está guardada nas palavras...

E isso é tudo que eu sei

Quando Taynara Barros veio de mudança para cá, ela trouxe nas costas uma mochila carregada de saudades de casa. Natural de Balsas, no Maranhão, a jovem, que na época tinha acabado de completar 18 anos, não tinha certeza do que encontraria em Teresina, mas sabia que teria que arriscar.

Chegar sozinha numa cidade, até então desconhecida, nunca foi tarefa fácil para ninguém. Foi por isso que Taynara juntou seus medos e suas incertezas com outra jovem da sua cidade. Duas pessoas que não tinham tanta intimidade entre si, mergulhando em um lugar que não transmitia nenhuma lembrança. De que seus corações iriam se alimentar? Qual colo iria acolher lágrimas da distância agora tão presente?

Juntas, as duas maranhenses enfrentaram o mundo guardado dentro de cada uma e ultrapassaram a ponte que separa o Maranhão do Piauí, em busca de um único propósito: dar continuidade aos estudos. As duas meninas haviam sido aprovadas em cursos distintos em uma das principais universidades públicas do Piauí.

O peso da mudança veio com as responsabilidades diárias de contas, estudos mais puxados, casa nova, cidade nova. No início, Taynara questionava o fato de ter que tomar café da manhã em silêncio. Com sua amiga estudando no turno matutino, Taynara acordava, preparava alguma coisa para comer e permanecia sozinha em um flat qualquer, sem muitos móveis, na zona Leste de Teresina; enquanto as saudades, que foram trazidas na mochila, espiavam sorrateiramente os movimentos de Taynara pela casa – prontas para dá o bote. “Durante 18 anos, eu acordava de manhã e tomava café com meus pais e meus dois irmãos. E quando me mudei para cá, eu passei todo esse tempo acordando sem ter para quem dá um bom dia, sem ter alguém para tomar café junto e isso me maltratava bastante”, relembra Taynara.

Em 2011, nos primeiros meses, que duraram pouco mais de um ano, ainda sem as redes sociais terem tanta força como atualmente, a estudante de Engenharia de Produção descobriu uma solução para preencher o vazio da ausência. Com a ponta de um lápis mal feita, escrevia em folhas de papeis em branco, igual a que ela mantém desde que chegou a Teresina, grudada na parte de dentro da porta de seu quarto.

A rotina do café da manhã sem ninguém, ainda permanecia, mas todas as vezes que Taynara sentia um aperto no peito, corria para escrever aos seus familiares. As cartas eram enviadas por parentes até chegar a sua casa de origem, no Maranhão. Durante um ano e meio, o coração da jovem também era ocupado pela espera de palavras de sua mãe, escritas com carinho, coragem e esperanças.

A mãe preocupava-se com o bem-estar da filha e, periodicamente, enviava um caixote de mantimentos para ela. No depósito que era carregado por alguns lances de escada e colocado na sala de estar, tinham os principais ingredientes para uma universitária conseguir manter-se longe de casa e dos familiares e seguir estudando: arroz, feijão, produtos de limpeza e cartas escritas a punho pela mãe. Algumas vezes, também escrito por seus sobrinhos pequenos.

Taynara está há cinco anos morando 656 km longe de casa e, sempre que a saudade sufoca, uma das formas que ela encontra para abafar o sentimento é reler as palavras cheias de força guardadas em uma caixa de sapato velho em uma prateleira que se tornou um guarda-roupa improvisado.

15 de abril de 2016

Duas cartas de amor no jornal - II parte

"As estranhezas se completam"

Passadas duas semanas após a publicação da primeira carta, o editor do jornal já havia desistido de receber algum sinal da destinatária. Uma tarde quando voltava do Café da Esquina – onde se encontrava com o dono de uma banca de revistas e taxistas, com quem jogava conversa fora para espairecer antes de voltar ao clima de deadline da redação – encontra em cima de sua mesa um envelope, cuidadosamente lacrado com um selinho dourado. Ao se dirigir à secretária, esta explica-lhe que uma jovem senhora solicitou que a carta que fosse entregue diretamente a ele e que havia acrescentado um pedido: que fosse encaminhado ao dono de uma certa carta publicada pelo jornal. Tão logo recebeu a resposta da secretária, dirigiu-se rapidamente ao escritório com o envelope na mão, fechando rapidamente a porta atrás de si. Enfim o mistério seria solucionado. Mal podia esperar para descobrir quem era a tal “moça que disse adeus”.

Mas de repente ficou diante de um dilema. Tratava-se de uma missiva de foro íntimo. Teria ele o direito de violar a intimidade alheia em nome da curiosidade, que para bem ou para mal, fazia dele o editor de uma redação jornalística? Passava o envelope de uma mão a outra pensativo... Até se dar conta de que não poderia entregá-lo ao remetente da primeira carta, que apenas assinara como Pepeu. Ele sequer sabia de quem partira a ordem para que fosse publicada. Assim, passou o dedo pelo lacre e em segundos estava com a resposta nas mãos.

No dia seguinte, uma chamada discreta na primeira página anunciava ao interessado que a íntegra de uma certa mensagem, por ele aguardada, estaria publicada na página de Informações e Novidades.

Ao moço de cabelos caídos na testa,

Cheguei por esses dias de viagem e dei de cara com um jornal deixado na recepção do meu prédio com um bilhete de minha irmã - que mais tarde me reclamou as várias mensagens não respondidas, e as milhares de ligações perdidas em meu celular, sem retorno. O bilhete dizia “ aquele teu amigo estranho, de cabelos caídos na testa escreveu para ti. Olha!”. Antes de analisar o conteúdo da mensagem publicada, pensei no que ela escreveu a teu respeito. O jeito como sempre me censurou por ser amiga de um rapaz estranho.

Eu mesma te achava estranho e comentei com outro amigo nosso. Mas isso foi antes de sermos amigos, e faz muito tempo que talvez não valha a pena recordar. Digo isso porque me culpei centenas de vezes por tê-lo julgado mal. Acho que nunca te disse, mas me senti mal de verdade por tê-lo alcunhado estranho.

Li a tua carta e desabei a chorar logo na primeira linha. Então... fui eu que te disse adeus! Mas creio que o motivo não tenha ficado muito claro para você, meu querido. Essa chateação sobre Marx, foi apenas uma desculpa. Talvez eu levasse a política mais a sério na época - isto é, há dois anos atrás - mas não foi a principal razão para nossa ruptura. Fomos bons amigos, confidentes, mas houve uma coisa que nunca te disse (fora a questão da alcunha de estranho!). Não sei se agora teria coragem para contar também. Muita coisa aconteceu comigo. Acho que com você também, mas não da mesma maneira. Você falou de sua mãe e isso me leva a crer que ainda viva na casa de seus pais. Eu... me casei! Quer dizer fui casada por um ano e uns poucos meses e durante esse tempo morei me mudei para outro estado. Essa revelação pode tê-lo assustado. Posso mesmo ver a tua cara de assombro!

O fato é que senti a tua falta durante esse tempo. De como ficava horas na pracinha olhando para o nada. E quando eu perguntava no que estava pensando sempre respondia a mesma coisa: o tempo está bonito hoje, não é? Outro dia me peguei com esse mesmo olhar perdido – longe do tempo, longe do barulho da vida, longe de tudo. Foi um pouco antes de voltar para cá. E o engraçado foi a conclusão a que cheguei: também sou estranha. Talvez nossas estranhezas se completassem e não tivesse percebido isso antes.

Espero que essa carta chegue até você. Eu até gostaria que fosse publicada, como foi a tua, como uma espécie de “estamos quites”. Embora eu saiba que no meu caso o pedido de desculpas faça mais sentido. Gostaria de vê-lo Pepeu.

Também com saudades,

Ana P.

O dono da banca de revistas comentou à tarde com o editor - que saíra como de costume, para espairecer – que naquele dia vendeu todos os jornais, sem entender a princípio a razão do próprio lucro. Alguém lhe comentou sobre a história das cartas, mas ele não achou isso grande coisa. O editor, que parecia mais empolgado com o resultado da última publicação, atribuía a falta de sensibilidade do vendedor a seu estado contínuo de “homem livre”. Voltou ao seu escritório pensando sobre a história daquelas duas pessoas. Quais os detalhes não revelados pela mulher na carta? Haveria algo mais que amizade nas entrelinhas daqueles escritos? Como se daria esse encontro? 

(Continua) 

Aldenice Sousa  

23 de março de 2016

Duas cartas de amor no jornal

"As trivialidades são o demônio!"

Estava escrita na página de Informações e Novidades, próximo às cruzadinhas; muito discretamente inserida no jornal de terça-feira:

À moça que me disse adeus,

Outro dia passei de ônibus em frente ao banco que fica naquela pracinha onde costumávamos nos encontrar para conversar sobre as contradições da vida. Cortaram a amendoeira onde você marcou suas iniciais. Achei absurdo destruirem uma árvore tão antiga por um motivo trivial - alegaram que seus galhos estavam atrapalhando o trânsito ou as raízes aprodeceram, uma coisa assim. Trivial.

Comentei em casa que a senhorinha que vendia bolos próximo ao ponto de ônibus nunca mais apareceu. Acho que ela sentiu mais que todos nós a perca da árvore, que lhe servia de abrigo contra o sol escaldante dessa cidade. Então eu disse em casa que os cortes de árvores motivados por trivialidades acabariam por colocar a economia do país em risco. Imagine que aquela vendedora de bolos não tem mais sua sombra, não há como ficar ali naquele concretão escaldante, sob o risco de desmaiar e adoecer, o que lhe acarretaria na verdade uma grande despesa. Aquele dinheirinho que ela fazia vendendo bolos deixa de circular, e as pessoas ficam reféns das padarias, que a mim se assemelham a cárteis, cujos pães tem todos o mesmo salgado valor de R$ 0,45 centavos, e as fatias de bolo custam uma verdadeira fortuna. Um absurdo! As pessoas não vão poder pagar por muito tempo e se conformarão em comer biscoito, desses chamados "àgua e sal". O que acontece às padarias? E aos fornecedores? E por último aos produtores rurais? Sim, porque no fim das contas serão eles os maiores prejudicados com a falência das padarias e dos fornecedores. Terão de vender os grãos e o leite a um ínfimo valor que lhes baste para sobreviver. Os transportes ferroviários vão falir - já que não terão mais tantos grãos para carregar - a bolsa vai despencar, e a economia do país se acaba. "As trivialidades são o demônio!", eu dizia em casa. Mas ninguém deu ouvidos à minha análise. Mamãe ainda me olhou de uma maneira... Como se eu tivesse algum transtorno mental. Aí eu percebi o quão sozinho estava no mundo.

Se você estivesse me ouvindo riria de toda essa conversa e acrescentaria " vamos passar na padaria antes do caos, querido! Quero meu pão com manteiga!". Sinto falta disso. De seu bom humor suavizando meu pessimismo quanto ao futuro. Estou escrevendo para pedir notícias suas, porque depois da última vez em que nos vimos você parece ter se esquecido de mim, do meu telefone e e-mail, da minha rua.

Minha querida, uma discussão tão à toa de dois anos atrás terá toda essa força de separar-nos assim dessa maneira? Então me enganei. Me enganei sobre tudo. Pois para mim naquele momento não passava de trivialidade a sua obssessão por Marx e essas coisas. Você por outro lado não considerou que atacar a raiz do progresso - que é a economia- seria como uma punhalada neste seu amigo. Achei que você, com todo o seu bom humor iria acabar relevando. Mas o tempo passou e nunca mais ouvi a sua voz ao telefone, nem na praça que acabei de mencionar. Prometi a mim mesmo não procurá-la, por não querer importuná-la mais com minhas objeções ao seu posicionamento político. Mas já que estamos caminhando para o caos, eu decidi arriscar e estampar - ainda que neste ignorado espaço do jornal- minhas desculpas e meu apelo a que retomemos os laços de amor e amizade que nos uniram um dia.

Saudades,

Pepeu

Na mesma terça-feira à tarde o chefe de redação recebe uma enxurrada de e-mails comentando a tal publicação da carta, da qual ele sequer cogitava a existência. Descobriu depois que um diagramador recebeu ordens superiores para inserir o tal conteúdo no impresso, num local discreto, geralmente preenchido com notas sobre a vida de famosos. Não era nada grave, mas como se poderia responder aqueles milhares de leitores que exigiam- por sentimentalismo, ou curiosidade- uma resposta a carta? Tinha de esperar a destinatária responder ela mesma. Mas o jornal não recebeu nenhuma ligação, e os e-mails eram todos de leitores ou de agências de notícias enviando matérias prontas. Ao fim da noite ele mesmo já estava interessado em saber o final daquela trama. Resolveu ele mesmo inserir um anuncio na capa do jornal, com uma nota que dizia:

Levando em conta o grande número de leitores que procuraram a redação acerca de uma carta publicada ontem, terça-feira(09), resolvemos nos colocar à disposição da pessoa para a qual a publicação se destina, para a resposta à solicitação feita pelo remetente. Caso alguém tenha conseguido identificá-la e possa informá-la, ou até nos procurar para que tenhamos alguma satisfação aos nossos leitores, por favor entre em contato. A redação agradece.

(Continua)

Aldenice Sousa

25 de fevereiro de 2016

Procrastinação

s. f., ato ou efeito de procrastinar; adiamento, demora, delonga.

A mesma carinha insossa de sempre. Um sorrisinho. Um olhar fixo em qualquer canto. Nem fede, nem cheira. E todo mundo passa. A escola passa. A banda passa. Até uva passa. Ela: imóvel.

Doer doía, mas não havia como ninguém saber. Era só ficar ali sorrindo. Uma musa pronta para ser retratada, mas sem nenhum pintor. Depois de algum tempo essa mesmice, esse de sempre... Isso cansa. É cômodo, só que cansa.

Queria subir no alto de uma torre e gritar a plenos pulmões. Queria xingar todo mundo. Usar todas as palavras sórdidas que conhecia. A palavra com p, com f, com c... Uma depois da outra. Ao invés disso sentou-se com uma calma invejável, e levou uma xícara de chá vagarosamente à boca. O chá era uma maneira de dizer aos nervos para se aquietarem, que tudo aquilo não passava de tolice, de um momento de fúria e descontrole pelo qual não valia a pena perder a compostura. Mas, intimamente se perguntava o que aconteceria se perdesse. E devagar, bem devagar tal qual sua própria figura, começou a simular o plano que iria mudar sua vida dali por diante.

"Sim senhor, sim senhora", e ao repetir isso algumas vezes por dia, caminhava exausta até o ponto de ônibus mais próximo do trabalho, o que ficava ao lado da drogaria de esquina. Mas nesse dia não fez o mesmo trajeto. Pegou uma van até a rodoviária, e pagou uma passagem para outro estado. Assim do nada. Sem malas, sem livros, sem despedidas. Apenas o necessário na bolsa.

Ninguém mais viu, nem ouviu falar nada a respeito. A não ser sobre a rescisão que recebera um dia antes e um bilhete que deixou:

" Você fez suas escolhas, estou fazendo as minhas. Te amo. Adeus mamãe!".

Culpou alguém por sua mórbida infelicidade? Não. A única culpada era ela mesma. Ela sabia. Esperou que os céus se abrissem para abençoá-la? Não. Não havia porque esperar, ou por quem. Só havia ela e ali estava em direção ao desconhecido. Ninguém sentiu sua falta, nem nada no mundo mudou por causa disso. Mas ela mudou. Ela sorriu com vontade até a barriga doer. Mandou o mundo às favas que ela estava se lixando. "Chá? Não, obrigada. Prefiro um rosé!".

Alguém chamou por seu nome. Ela voltou do devaneio ainda com a xícara de chá morna. Um dia isso poderá ser real. Hoje não.

A.S. 

18 de fevereiro de 2016

Fiat Lux

“As palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô”. Paul Simon

Outro dia eu caminhava pela passarela da BR 316, à altura do bairro Lourival Parente, e observei as luzes dos postes que se enfileiravam, uma após outra, bem à minha frente. Era noite e a lua estava cheia; estrelas cintilavam no céu da Zona Sul e carros passavam velozes com faróis ligados. Tudo tão iluminado que achei bonito. Contudo, dei conta de algumas pessoas que caminhavam ao meu lado, cujas expressões contrastavam com o cenário descrito. Por um momento senti medo. Não por ser mulher e estar andando sozinha à noite; de ser assaltada ou abordada por algum estranho. Tive medo do vazio que vi ali estampado naquelas faces pesadas, arrastadas por corpos cansados e para quem o céu estrelado, ou a lua fulgurante não significavam grande coisa.

Na manhã seguinte, de dentro de um coletivo, olhei pela janela e percebi mais algumas pessoas que transitavam - sob a luz do sol imperioso de Teresina - como se fosse noite. A noite mais escura. E cada vez mais encontrava, numa esquina onde um malabarista se preparava para fazer um número no sinal; na escada onde um casal trocava beijos e até nas igrejas estavam pessoas inertes. Ignorando todos os sinais em volta.

É um fato incontestável: as luzes estão se apagando. Existem os astros, os postes espalhados pelas cidade e o abajour que enfeita o canto da sala. Mas a vida parece que está descarregando, e aos poucos estamos todos parando, se já não estivermos parados.

Alguém anuncia no jornal que o número de mortes aumentou na capital. Eu me pergunto: e o número de vivos que estão mortos? Eles andam, falam, compram mas não estão realmente ali. Estão mortos-vivos.

E eu tenho medo. Tenho medo dessa apatia que está tomando conta dos dias e das noites; da omissão aos gritos silenciosos; das angústias expressas em spray nos muros que não obtém respostas, pois não há quem veja ou escute. E a impotência de certa maneira também mata.

Então se você, querido leitor, pode ler estas linhas eu recomendo-lhe fortemente a cantar suas canções, chorar suas dores, recitar seus poemas e abraçar aos seus com toda a força, até deixá-los sem ar. Ouça, veja, ame. Depois disso vá para a frente do espelho e certifique-se de que a pessoa ali refletida está viva. Se estiver é porque ainda resta uma luz acesa, e se está acesa, ilumine. Por favor, ilumine.

Aldenice Sousa