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Notícias Lasciva

19 de junho de 2017

Péssimo dia para ser mulher

Dói na alma ouvir que outra mulher foi morta pela arma do machismo

Hoje sangra o coração de todas as mulheres que ficaram sabendo sobre mais um caso de feminicídio em Teresina. Dói na alma ouvir que outra mulher foi morta pela arma do machismo.

Revolta e ao mesmo tempo amedronta imaginar quantas pessoas estão tentando achar a justificativa para o crime. “O que será que ela fez pra ele agir dessa forma?”, “Um rapaz tão novo, bonito, com um futuro pela frente...”, “Será que não tava mesma fazendo alguma coisa?”, “Será que ela é vítima?”.

Não há motivo, a não ser o machismo que faz os homens e boa parte da sociedade acharem que o comportamento da mulher pode ser reprovado. Que a nossa roupa é da conta de alguém, que a nossa vida pode ser retirada se não agirmos de acordo com os padrões ditados pela sociedade feita de “cidadão de bem”.

O machismo matou mais uma mulher na madrugada da área nobre da capital, assim como mata diariamente na periferia. Amanhã poderá ser qualquer uma de nós. Hoje é um péssimo dia para ser mulher, é um péssimo dia para viver nessa sociedade formada por valores distorcidos, por hipocrisias e por violência. Só que hoje também é um ótimo dia para refletirmos, para nos unir.

Luto não é apenas um sentimento, pode também ser verbo. Por outras, por nós mesmas, lutemos, mulheres!

12 de junho de 2017

Compatibilidade sexual

Hoje, 12 de junho, flores, chocolates e corações podem ser legal, mas o romantismo não é mais importante que uma noite de sexo

No Dia dos Namorados todo mundo fala de amor, do quanto a outra pessoa é especial e carinhosa. As fotos nas redes sociais exaltam os longos anos juntos, a felicidade a dois e o companheirismo. É lindo, emocionante e tal, mas eu sempre fico pensando se aquele casal tem algo que é tão importante quando o amor e o respeito: compatibilidade sexual.

Claro que ninguém vai sair expondo a vida íntima, mas se a gente vivesse em um mundo menos conservador, o sexo seria mais valorizado. Não aquele valor distorcido, dado pela indústria pornográfica. Falo dos casais terem consciência de que a qualidade e a frequência sexual completam a felicidade no relacionamento.

Poucas pessoas admitem, mas os namoros e até os casamentos terminam quando acaba a sintonia na cama (ou na mesa, no sofá, no banheiro...). A prova disso é o início dos relacionamentos. A vida sexual de um casal que está se conhecendo é sempre muito intensa, cheia de descobertas e aventuras. É nesse período que as duas pessoas estão mais apaixonadas.

Mas passa o tempo, as coisas vão ficando diferentes e aí o negócio começa a desandar. O casal vira amigos dividindo a mesma rotina, a mesma casa, as mesmas contas. O sexo acontece vez ou outra - quando acontece - de forma quase automática, por obrigação.  O casal de desapaixona, às vezes se trai e o fim é o único caminho possível.

Sim, esse texto está bem dissonante da data festiva, mas era necessário dizer isso tudo como uma forma de alerta. Hoje, 12 de junho, flores, chocolates e corações podem ser legal, mas o romantismo não é mais importante que uma noite de sexo. O verdadeiro Dia dos Namorados pode ser a data apropriada para reviver aquela chama que está se apagando, ou para jogar mais lenha na fogueira que já está bem acesa.

Obviamente, ninguém deve se sentir obrigado a faze sexo de forma compulsiva. O essencial é que o casal valorize a sexualidade na mesma medida. Se uma pessoa gosta muito de sexo e a outra não faz tanta questão assim, essa conta não fecha.

A questão é que as pessoas não deveriam se acomodar em um namoro ou casamento com sexo ruim ou sem sexo, assim como ninguém é obrigado a aguentar cobrança por sexo o tempo todo. Por isso é tão importante a compatibilidade sexual para manter um relacionamento feliz de verdade.

Se você não está sexualmente feliz, a data de hoje serve também para reavaliar essa relação.  

31 de maio de 2017

Manda nudes

Sugiro que experimentem. E se não acontecer nada disso do que estou falando, é provável que a falha esteja no relacionamento, e não na técnica

Tem apenas uma coisa melhor do que falar sobre sexo, é praticá-lo. Só que às vezes existem algumas impossibilidades, como a distância, os pais em casa, os filhos no quarto, alguém que adoece e que a gente precisa ir lá socorrer, enfim, não podemos fazer sexo na hora que queremos (porque o mundo é assim mesmo, cruel).

Mas nós podemos driblar esses problemas e tornar nossas relações amorosas menos serenas (chatas, mesmo) e mais lascivas. E é aí que eu defendo uma prática arriscada em tempos de revenge porn, mas também bastante prazerosa: os nudes! 

Claro que não é pra sair mandando fotos à la Mulher Melão pra qualquer pessoa. Não, pera... se quiser mandar, pode sim. Se tem uma coisa que a mulher pode, é fazer o que ela quer. Mas eu me refiro aos riscos de ter suas fotos vazadas por aí. Os transtornos são grandes e tem muito homem que não merece nem mesmo seu "oi", imagine a linda imagem dos seus seios.

Pois bem, tomados os devidos cuidados com esse tipo de babaca, enviar e receber nudes é quase uma terapia. Serve à auto estima, torna a relação mais quente, surpreende quem recebe e estimula uma conversa interessante.

O que eu já tinha comprovado na prática, foi confirmado por uma pesquisa realizada no Laboratório de Psicologia da Saúde das Mulheres da Universidade Drexel, nos Estados Unidos. O estudo sugere que casais que trocam nudes são mais felizes. 

Para as pessoas que descreveram seus relacionamentos como sendo "muito sérios", não houve relação entre a prática de trocar nudes e o nível de satisfação. Já para todas as outras, os cientistas constataram que, quanto mais o participante trocava mensagens de conteúdo sexual com o parceiro, mais feliz ele era no relacionamento.

E você aí pensando que a base de um casamento ou namoro duradouro era paciência, respeito e amor. Sim, isso também é importante, mas deixem que as coisas caiam na rotina e vocês vão se transformar em amigos dividindo um mesmo lar.

Algumas pessoas dizem que não gostam da ideia de mandar nudes. Talvez imaginem que as fotos precisam ser explícitas, como a imagem de um exame ginecológico. Pode ser isso também, mas um detalhe do decote ou da parte do corpo que a pessoa goste mais, vai estimular bastante a imaginação, tanto de quem recebe, quanto de quem envia. Ganhar o feedback será animador!

Sugiro que experimentem. E se não acontecer nada disso do que estou falando, é provável que a falha esteja no relacionamento, e não na técnica.

24 de maio de 2017

Sexo anal: o tabu

A anatomia masculina é que foi criada para dar prazer através do ânus, porque são eles quem têm a próstata

Estamos em 2017 e tudo que se relaciona à sexualidade ainda é um tabu. Certamente eu usarei essa afirmação em outros textos, porque é uma coisa que me deixa abismada. Os tabus que envolvem o sexo tornam-se maiores de acordo com algumas variáveis, como o sexo anal, por exemplo.

Após conversar e ler muito sobre esse assunto, concluí que a prática deveria ser adotada principalmente pelos homens. Sim, a anatomia masculina é que foi criada para dar prazer através do ânus. São eles quem têm a próstata, uma glândula que quando estimulada causa intensa sensação de prazer. E o estímulo a ela é feito por onde?

Certamente a maioria dos homens nunca pensaram em testar, então desconhecem essa possibilidade. É que o machismo prega que sentir prazer anal é ser gay. Mas, anatomicamente, a mulher é que não tem possibilidade de alcançar um orgasmo com penetração anal, pelo simples fato de que não possuem próstata e nenhum outro mecanismo que a substitua.

Veja bem, me refiro à anatomia. Não posso, obviamente, dizer que todo homem sentirá prazer com sexo anal e que a mulher jamais sentirá, porque tudo depende do tesão que a relação sexual provoca em cada um, do quanto a pessoa está aberta a novas experiências e, claro, das preferências sexuais do indivíduo.

Entretanto, posso afirmar que o sexo anal exclusivamente para as mulheres atende a um pensamento machista de dominação, fortalecido pela ideia de submissão ao homem. A própria posição em que a mulher fica, já é um indício.

Isso pode ser prazeroso pra ela também? Com certeza. Inclusive, muito, desde que essa seja uma vontade não apenas do homem. Mas o que vemos, na maioria das vezes, é eles insistindo na prática do sexo anal compulsivo, como se o prazer da mulher não tivesse importância. É novamente o machismo limitando o prazer, retirando possibilidades de descobertas e impondo práticas que não são necessariamente agradáveis.

Moral da história: sem o machismo, homens e mulheres teriam mais orgasmos. #ficaadica  

22 de maio de 2017

Pornografia feminista existe?

Entrevistamos a mestranda Samira Ramalho, que estuda sobre gênero e pornografia, com epistemologia feminista

O blog Lasciva entrevistou a mestranda Samira Ramalho, que estuda sobre gênero e pornografia, com epistemologia feminista. Confira o que ela fala a respeito das vertentes favoráveis e contrárias às produções ponográficas, bem como as indicações de sites que trazem outra abordagem para os filmes do setor.


As diversas vertentes do feminismo pensam diferente sobre a pornografia. Quais são as teorias mais comuns e divergentes?

Sim, há debates de feministas sobre a pornografia. De maneira resumida, posso dizer que a vertente anti-pornografia é mais conhecida e até antiga. Na década de 80, Katherine Mackinnon e Andrea Dworkin ocupavam os espaços nos Estados Unidos com discursos anti-pornografia. Elas são as representantes mais famosas que eu posso lembrar no momento.

Nesta mesma época, Mackinnon esboçou um projeto de lei que foi analisado em alguns estados americanos, mas considerada inconstitucional por parecer censura à liberdade de expressão. No entanto foi apreciada no Canadá devido à relação de causalidade que as feministas apontavam à pornografia e a percepção sobre as mulheres no espaço público, como se a pornografia estimulasse o assédio e demais violências contra mulher.

O argumento principal é de que a sexualidade era para a mulher, assim como o trabalho era para o proletariado na teoria Marxista, um meio pelo qual se possibilita a exploração de um grupo. E ainda temos representantes com discursos bem contundentes contra pornografia.

Há também uma vertente pró-pornografia que não apoia essa censura do grupo contrário e discorda de que a sexualidade seja um campo de exploração da mulher. Rejeita teorias deterministas e essencialistas sobre a sexualidade, sobretudo da mulher. Acredita que a sexualidade, e até mesmo a prostituição, possa ser espaço de disputas, veem que essas relações podem acontecer de maneira fluida e acreditam na criticidade das pessoas que participam dela. Não acreditam em relação de causa e efeito entre pornografia, prostituição e sujeição de mulheres. 

Algumas cenas me parecem bem incômodas para as atrizes, como sexo anal, por exemplo. Qual é o limite para que não haja, de fato, a exploração da mulher?

Não tenho como responder sobre esses limites, mas a pornografia contemporânea mainstream, aquela mais comum de se encontrar na internet gratuitamente, tem roteiros que se repetem com muita frequência, como uma quantidade enorme de cenas com sexo anal, dupla penetração, sexo grupal com uma única mulher, etc. Também não posso dizer que essas práticas não são prazerosas para as mulheres em geral, pois isso seria um reducionismo ou uma doutrinação.

Existe uma diversidade muito grande em relação às práticas sexuais e são válidas desde que prazerosas para as pessoas envolvidas. Sobre consentimento, nem preciso falar, né?  Mas esses vídeos são feitos para homens. É para o público masculino heterossexual, sobretudo. Então se entende que o protagonismo é dos homens, por mais que a imagem da mulher seja a mais destacada naquele vídeo. É sobre o prazer de um homem, pode ser do ator, do produtor, do diretor, etc, mas é de um homem. Então isso por si só já merece uma problematização da parte de quem consome, principalmente se for uma mulher. 

Por que o público feminino não vê tanto pornografia quanto o masculino? É mais pelo conservadorismo, pela cultura machista que impede, pelo formato dos filmes ou tudo junto?

A resposta para isso também é difícil. Na minha pesquisa de campo, que ainda está sendo pensada, talvez apareçam posicionamentos sobre isso, mas de antemão, assim como disse anteriormente, esses vídeos são tradicionalmente feitos para homens. Os homens são aqueles que mais aparecem como usuários. Então esse fato já deve ter afastado muito o público feminino.

E sim, uma cultura machista onde as mulheres são socializadas de maneira diferente e têm uma percepção diferente da própria sexualidade também as afastou. Mas a internet está aproximando as mulheres da pornografia. A facilidade de acesso e a privacidade está mudando isso. Uma vez vi uma pesquisa de dois desses sites famosos de pornografia mainstream (XVídeos era um deles) afirmando que 35% dos acessos eram de pessoas que respondiam como mulheres. 

Antigamente, era com as prostitutas que os homens "aprendiam" a fazer sexo. Hoje o "ensinamento" vem dos filmes pornôs? De que forma isso deturpa as relações sexuais e a valorização do prazer da mulher?

Em todas as mídias eu vejo referências às práticas e performances da pornografia sendo utilizadas como exemplos para o que se considera um bom desempenho sexual. Vejo em filme, novela, desenho, séries,  programas diversos.

Há também pesquisas das correntes anti-pornografia (tanto feministas, como religiosas), assim como documentários, com discursos de que a pornografia molda garotos, homens e isso deturpa a maneira como eles constroem a sua sexualidade e a relação com as mulheres, atribuindo até a pornografia como influenciadora importante em episódios de crimes sexuais.

No momento, ainda com o pouco tempo de estudo que tenho sobre o tema, não acredito que as pessoas moldem sua sexualidade só com isso. Tem pessoas que sequer consomem pornografia, ou tiveram pouquíssimo contato, mas já possuem roteiros sexuais bem definidos e falocêntricos, incluindo o sexo anal. E isso é anterior ao pornô como conhecemos.

Há até mesmo uma teoria Freudiana do início do século XX que diz que os homens separam sexualidade de afetividade, como se uma mulher A fosse um objeto do desejo e a B fosse do afeto. O que se faz com A, não se faz com B. Pu seja, essa questão do prazer da mulher em relações heterossexuais é histórica e, dentro da mesma história, ela foi diferente. Não há linearidade.

Acreditar em efeitosdo pornô sobre meninos, é o mesmo também que acreditar piamente na antiga teoria da Agulha Hipodérmica. As pessoas não recebem da mesma forma um conteúdo, nem mesmo precisam ser atravessadas por ele. A pornografia pode não influenciar em nada, assim como pode impactar a vida de alguém. Cada indivíduo tem autonomia para definir seus próprios comportamentos e filtrar suas influências. E se há algo moldado aqui, acredito que é mais provável que seja a pornografia, que é um produto feito a partir de concepções, visões, interesses e fantasias da pessoa ou do grupo que a produz.

Não estou querendo isentar a pornografia, só acredito que não há uma única maneira de pensar sobre ela ou sobre as pessoas que a consomem.

Cenas de sexo lésbico são sempre irreais, com práticas que claramente não são prazerosas. Por que os produtores de filmes repetem tanto essa fórmula?

Então, assim como outras fórmulas que eu mencionei, essa é uma bem recorrente. No senso comum é bem divulgado que homens sentem tesão em ver duas mulheres transando. Em conversas do cotidiano já ouvi bastante isso também. Assim como eu disse anteriormente, quem faz o pornô coloca aquilo que ele acredita, que ele gosta ou que ele acha que vai atrair consumidores.

O pornô tradicional é masculino mesmo, então não há nenhum compromisso em agradar as mulheres lésbicas nem hétero, nem trans. Ninguém que não seja do gênero e do sexo masculino. E parece que por todo esse tipo de pornografia passam práticas e discursos que penalizam o corpo feminino. Como muitas mulheres relatam, as práticas parecem causar dor, então denotam punição.

É possível falar em um pornografia feminista? Os filmes da Erika Lust poderiam sem chamados assim?

Esse é um campo de intensos debates, mas acho que é possível. Talvez até as feministas anti-pornografia acreditem que ele possa existir, só não há nada no momento. Talvez seja coisa do futuro.

A pornografia que se intitula feminista já tem um diferencial em relação ao mainstream: não tem violência. Nisso todo mundo concorda. Além disso, ela geralmente tem preocupação estética, com a narrativa, com os corpos e pode ser considerado de fato um cinema pornô. É um produto com uma qualidade cinematográfica.

A Erika Lust é uma das mais famosas e é a pornógrafa cujas produções eu tenho mais contato. Ela produz seus roteiros baseados em fantasias enviadas por mulheres e, por isso, ela considera que atende às expectativas femininas. Mas também é muito possível que muitas dessas fantasias femininas também sejam heteronormativas, permeadas por algum machismo. Há feministas que não concordam que ela denomine a pornografia dela como feminista, mas ela reivindica o título para si. Há também outras diretoras de sucesso como a Tristan Taormino, Candida Royale e Petra Joy.

Existe uma série de documentários curtos chamada Hot Girls Wanted: turned on que está na Netflix. A Erika Lust aparece no primeiro episódio e ela diz que outro diferencial dela é todo o clima de sororidade que há no set, uma equipe quase toda de mulheres, os atores que em geral não são profissionais e por isso não fazem "pornografia" e sim "sexo", que a mulher é realmente a protagonista do desejo, entre outros argumentos que ela utiliza para defender a própria pornografia. Lógico que após esse episódio apareceram muitas críticas à posição de "exploradora de outras mulheres", pois ainda há problemas em relação ao uso da imagem das mulheres para as feministas críticas. Mas é melhor que possamos produzir diferentes reflexões sobre o tema e ampliar o debate. 

Poderia citar filmes ou sites que reproduzem pornografia diferente dos modelos mais conhecidos?

Não vou indicar a pornografia diretamente, mas é bom dar uma olhada no site do Feminist Porn Awards, que é uma premiação criada por uma marca de brinquedos sexuais e que tem dado visibilidade ao cinema pornô feminista. Lá tem diversas informações sobre diretoras, atrizes e atores, além dos nomes das produções. Mas aviso que os filmes delas são pagos, em sua maioria. 

16 de maio de 2017

Carta para um aliciador

A sua vítima, hoje aos 30 anos, me contou chorando o que você fez. “Ele estragou o único sonho que eu tinha na vida”

Acho que você vai se surpreender de estar recebendo essa carta. Afinal, isso aconteceu há pelo menos 15 anos e talvez nem lembre mais. É que pra você não teve importância nenhuma. Mas, mesmo assim, eu decidi te escrever. É como uma forma de exorcizar o que você fez na vida daquela menina. Ou de muitas outras que você provavelmente aliciou. Ou será que ainda alicia? Você ainda é professor de educação física?

A sua vítima, hoje aos 30 anos, me contou chorando o que você fez. “Ele estragou o único sonho que eu tinha na vida”, disse ela, com um sentimento de tristeza que rasgou meu coração e encheu ele de revolta.

Logo você, que deveria alimentar sonhos, que deveria descobrir potenciais atletas e estimulá-los a serem campeões, acabou com a carreira de uma menina antes que ela começasse. E tudo por causa dessa doença que homens como você possui. Uma doença de caráter, pra dizer o mínimo.

Acho que ainda não conseguiu identificar sobre o que estou falando, então vou ser mais direta. É sobre uma menina magrinha, de cabelos longos cacheados, que sonhava em ser uma grande corredora. Tinha chegado a São Paulo recentemente, vinda do Nordeste para fugir da fome. De tão pobre, ela não poderia comprar um tênis novo. Usou o do primo, até rasgar.

E foi aí que você, com sua mente doentia, decidiu se aproveitar. Se ofereceu para remendar o tênis. Tão bondoso, né? Até parecia um cidadão de bem. Pois é, mas aí você chamou a menina pra longe das pessoas e começou a passar suas mãos sujas nela. Disse que tinha dinheiro, que poderia ajudá-la... Você é nojento, sabia!

Assustada, ela nunca mais voltou pra sua aula. Também não contou nada à mãe, que até hoje não entende por que a filha não quis mais correr. “Ele estragou o único sonho que eu tinha na vida”... Essa frase se repete na minha cabeça o tempo todo.

Eu não sei o seu nome, mas isso não faz tanta diferença agora. Me interessa mais saber que tipo de gente é você? Será que tem filhos? Filhas! O que seria capaz de fazer com elas? Quantos sonhos você já estragou?

Me preocupa imaginar que você pode ser qualquer um que anda por aí vomitando regras para sociedade. Pode ser considerado um pai de família, um bom marido, um bom filho. Pode nem ser tudo isso, mas dificilmente foi desmascarado como um abusador, aproveitador, estuprador (?), destruidor de sonhos.

O bloqueio que você causou naquela menina há 15 anos, só começa a ser desfeito agora, mas ainda lentamente. “É como uma coisa me segurando, dizendo que eu não sou capaz”, diz.

Mas ela é capaz, sim. Ela é maior do que o dano que você causou. E um dia você ainda verá aquela menina, hoje uma mulher, voltando a competir e, melhor, vencendo. E eu espero que você olhe pra ela, no topo do pódio, e lembre de tudo que fez. E que o remorso seja tão grande, a ponto de transformar você em um ser humano de verdade.

*Essa história é real. A vítima autorizou o blog a contá-la e leu o texto antes da publicação. "É preciso se libertar para dar continuidade ao meu sonho", disse ela.

15 de maio de 2017

Aceitação seletiva do LGBT e os diferentes níveis de homofobia

O fato é que aqueles que aceitam, respeitam e convivem com um casal homoafetivo exatamente da mesma forma como fazem com os héteros, são muito poucos

Se tem uma coisa sobre a qual eu reflito todos os dias, essa coisa é a homofobia. Durante muito tempo eu achei que não era vítima, porque o restrito círculo de amizades ao qual pertenço me coloca em uma situação privilegiada. 

Claro que sempre tem aquele homofóbico na família, sempre tem aquela pessoa que diz que você está apenas querendo chamar atenção, sempre tem alguma recriminação ao te verem fazendo um carinho na sua namorada, tem sempre aquela pessoa para qual sua namorada é apresentada como “amiga”, sempre tem... mas, peraí, se tem tudo isso, eu sou vítima de homofobia, sim. 

Então, em uma das muitas reflexões, eu me deparei com dois conceitos: a aceitação seletiva do homossexual e os vários níveis de homofobia. E a partir disso, identifiquei sete tipos diferentes, com os quais lido frequentemente. 


Segue a lista:

1 - Existem os assumidamente homofóbicos, com atitudes, palavras, atos e omissões (quase aquela oração). Esses são os mais fáceis de lidar, acreditem. Embora possam ser bem perigosos.

2 - Existem aqueles que dizem "respeito, mas não aceito". Esses nos deixam um pouco de mãos atadas porque, se a gente for contestar o que eles dizem não aceitar, parece que somos nós, vítimas de intolerância, os intolerantes. 

3 - Existem ainda aqueles que aceitam o LGBT, mas só os que não parecem LGBT. "A lésbica feminina tudo bem, mas aquela que parece homem é muito feio. Pra que isso? Por que não usa roupas de mulher mesmo?". Esses eu quero pensar que, se lessem um pouco mais sobre identidade de gênero, poderiam até rever seus conceitos, mas eles dificilmente se predispõem a isso.

4 - Tem aqueles que aceitam um casal homoafetivo entre eles, desde que não haja qualquer manifestação de carinho. Não estamos falando aqui de beijos arrebatadores. Basta um toque na mão ou um olhar apaixonado pra ser reprovado. "Não precisa isso, tem que respeitar as pessoas que estão no mesmo ambiente", dizem.

5 - E tem os LGBTs que reproduzem alguns desses discursos e ainda acrescentam que "o preconceito não vai acabar nunca, temos que entender".

6 – Para finalizar, acrescento nessa lista os que tentam se livrar dos pensamentos homofóbicos, mas que não conseguem por questões religiosas, culturais ou porque nasceram em tempos e/ou lugares conservadores.


Com certeza tem muitos outros perfis, mas os que eu conheço se enquadram em pelo menos um desses aí. São pessoas já me fizeram ouvir coisas meio doloridas, que vão machucando de pouquinho, mas também vão acumulando, até você pensar que nem vale mais a pena insistir. Cansa ficar mendigando aceitação, respeito, compreensão, tolerância.

Mas aí a gente respira e a vida vai seguindo, nos obrigando a lidar com os perfis, tentando reagir da melhor forma com cada um, porque não dá para usar os mesmos argumentos com o perfil 1 e com o 6, por exemplo.

O fato é que aqueles que aceitam, respeitam e convivem com um casal homoafetivo exatamente da mesma forma como fazem com os héteros, são muito poucos. Não devo conhecer mais que 15. 

E olhe que eu via o meu círculo de familiares e de amizades como os mais progressistas. Ou talvez até sejam, diante de tanto conservadorismo se disseminando por aí.

11 de maio de 2017

Uma homenagem às mães imperfeitas

Cobramos das mulheres que não errem no exercício da maternidade. Fazemos isso com os homens? Não, né.

Quando eu me resolvi sexualmente, decidi que não queria viver dentro do armário. Namorar escondido foi uma das piores experiências da adolescência e depois de adulta, responsável e independente, não tinha porque passar por isso novamente. Então saí de Teresina rumo ao Mundo Novo, zona rural do sertão pernambucano, determinada a contar.

No último dia da viagem, aproveitei que painho e mainha estavam deitados na cama e me coloquei ali entre eles. A frase saiu gaguejante. “Sabe aquela amiga que veio pra festa da minha formatura? A gente está namorando”.

E é agora que eu começo a minha homenagem pelo Dia das Mães. Não aquela homenagem clichê, de que eu tenho a melhor mãe do mundo. Mas posso dizer que tenho a mais amorosa.

Nesse dia em que eu contei sobre a minha orientação sexual, a reação de mainha veio em um tom engraçado. “Valha, minha nossa senhora!”. Depois ela disse a frase que cortou um pouco meu coração. “Vou ficar com vergonha da minha família”. Não foi fácil ouvir isso, viu. Mas pra ela também não foi fácil ouvir o que eu tinha acabado de falar. 

Uma vez uma amiga me disse que as mães não são perfeitas. E ela tem rezão. Cobramos das mulheres que não errem no exercício da maternidade, que sejam sempre compreensivas, amorosas e atenciosas. Fazemos isso com os homens? Exigimos deles o mesmo cuidado com a paternidade? Não, né.

Portanto, nesse texto, eu quero homenagear as mães imperfeitas. A minha própria mãe, as minhas tias, as minhas amigas, a minha namorada, a minha colega de trabalho que teve depressão pós-parto e superou com terapia. A verdade é que não existe um modelo de maternidade. O que não pode faltar é o amor.

A minha mãe me ama incondicionalmente, mesmo com as imperfeições (de nós duas). Ela já me disse coisas que magoaram muito, mas abre mão de continuar falando quando percebe isso. “Eu já tinha dito que não ia mais falar nessa história”. Ela continua tendo vergonha por eu ser lésbica, mas nega até a morte. “Eu só me preocupo, minha filha”. Ela certamente queria netos, mas disfarça essa vontade com uma inquietação. “E quem vai cuidar de você quando tiver velha?”.

O meu lado militante não me deixa fechar os olhos para algum preconceito camuflado nessas frases, mas me digam se aí não tem mais amor do que qualquer outra coisa!

E quem precisa de perfeição, quando existe um sentimento tão nobre como esse? Um amor grande assim, minha gente, é coisa muito rara nesse mundo. 

09 de maio de 2017

Moça, você merece um orgasmo

Há quem diga que o Ponto G não existe, mas que tem alguma coisa lá dentro que, quando bem estimulado, faz um estrago (dos bons) danado, isso tem

Quero começar essa conversa pedindo que você lembre quais os melhores orgasmos que já teve. O que aconteceu nesse dia, ou seja, o que a outra pessoa fez pra levar você a ter todo esse prazer?

Provavelmente você recordou de duas situações: ou um momento muito intenso e inesperado, um sexo bem arrebatador; ou o contrário disso: um momento bem demorado, com preliminares bem feitas, com uma pessoa que se dedicou a explorar todas as partes do seu corpo e que tinha como maior objetivo te dar prazer. 

O fato é que dar prazer a uma mulher não é tarefa fácil. Eu brinco que houve um equívoco quando foram pensar a anatomia feminina, principalmente se levarmos em consideração uma relação heterossexual. Por que o clitóris fica lá em cima, se a penetração acontece embaixo?

Mas, quando a gente conhece de verdade o corpo da mulher, percebe que não existe erro algum. O clitóris, na verdade, é só a pontinha de um órgão que continua até lá dentro, formando o tão falado, mas tão desconhecido Ponto G. Ele fica a alguns centímetros da entrada da vagina e, quando bem estimulado, leva a mulher a um orgasmo que os homens dificilmente já tenham conseguido igual. 

Há quem diga que o Ponto G não existe, mas que tem alguma coisa lá dentro que, quando bem estimulado, faz um estrago (dos bons) danado, isso tem. Portanto, não é a anatomia dela que está errada, é o desconhecimento a respeito disso que está. 

E o desconhecimento vem de uma cultura machista voltada apenas para o prazer masculino. Eles acham que é o pênis, unicamente, que dá prazer. Não se interessam em conhecer formas de estimular uma mulher. Acham que já aprenderam tudo com os filmes pornôs. Péssimos exemplos, por sinal.

As mulheres, por sua vez, não conhecem o próprio corpo. Vítimas dessa cultura machista, não se tocam, acham que se masturbar é ruim. Resistem ao uso de um vibrador, por exemplo. Deixam que os homens conduzam a relação sexual, preocupam-se mais com o prazer deles e, pior, fingem orgasmo para atender ao ego do companheiro.

E, por causa de tudo isso, é que é possível você ter chegado ao final desse texto sem conseguir responder à pergunta que está no primeiro parágrafo desse texto. É uma pena... 

Moça, você merece um orgasmo! 

08 de maio de 2017

Alerta! Este blog atenta contra a moral e os bons costumes

Esse é um texto de apresentação do Blog Lasciva, e também de alerta

Talvez você não tenha lido, ali no canto superior direito, a descrição deste blog. Então eu vou repeti-la aqui, porque esse é um texto de apresentação e também de alerta. “Esse blog é escrito por uma mulher feminista, lésbica, e às vezes (?) irritante. Aqui se fala de sexo, de amor, de luta, de política e de outros assuntos que podem incomodar os mais conservadores. Se você é um deles, feche esta aba, ou permaneça nela e tente enxergar outros ângulos”.    

Pronto! Todas as pessoas estão avisadas e eu não quero ninguém, depois, reclamando que os textos aqui atentam contra a moral e os bons costumes. Atentam sim, é por isso que o blog se chama Lasciva, é por isso que fala de assuntos que, em pleno 2017, ainda são tabus. 

Quando digo, na descrição, que sou irritante, é tomando como base o que dizem de mim. Minha família acha que sou polêmica, que falo ou faço as coisas pra “causar”. Talvez, não seguir as convenções sociais e ser contestadora, leve a esse tipo de interpretação sobre a minha personalidade. Ou eu posso ser irritante mesmo, daquelas bem chatas que as pessoas querem manter certa distância.

Falo um pouco sobre mim, porque o que eu escrever aqui, revelará parte de quem sou e da forma como vejo e como reflito sobre os fatos. E você pode não estar nem um pouco interessada (o) nisso, mas talvez se identifique, compartilhe ou reflita sobre o que eu estou dizendo. 

Meu nome é Nayara Felizardo, nasci no Crato-CE, morei no Mundo Novo-PE e atualmente vivo em Teresina-PI. Sou jornalista. Tenho um gato chamado Pâssy (isso mesmo, pronuncia pussy). 

Gosto de debater sobre tudo. Adoro ser confidente. Amo cerveja gelada em um barzinho onde eu possa me sentar pra conversar e ouvir música que eu considere boa. 

Não tenho medo de mudanças, pelo contrário, elas me motivam. E é por isso que me lanço a esse desafio de ser blogueira. Já posso fazer a foto procurando algo no chão?