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Prefeitura de São Paulo estuda local para consumo de drogas por usuários

Medida parecida foi adotada em outros países que também enfrentaram o problema de eliminar áreas de consumo de droga ao ar livre.

12/06/2017 14:37h

A Prefeitura e o governo de São Paulo realizaram neste domingo, 11, uma nova ação para a retirada de dependentes químicos e limpeza, desta vez na Praça Princesa Isabel, região central. Horas depois, os usuários já haviam retornado ao local e, segundo o Município, serão impedidos de montar tendas e barracas. O coordenador do programa Redenção, o psiquiatra Arthur Guerra, disse ao Estado que estuda a possibilidade de, no futuro, haver áreas controladas para o consumo de droga na cidade.

A afirmação foi feita por Guerra após a operação, ao explicar o funcionamento das estruturas de acolhimento da Prefeitura. “Hoje disponibilizamos 150 lugares em contêineres e mais 120 lugares em abrigos para que os usuários possam passar a noite e tomar uma canja. Eles não são obrigados a se tratar, se quiserem podem chegar lá drogados, o que ainda não dá é para usar a droga no local. Mas quem sabe, no futuro, passe a poder.” 

O Estado apurou que um dos obstáculos para a decisão é como lidar com o tráfico de drogas. Medida parecida foi adotada em outros países que também enfrentaram o problema de eliminar áreas de consumo de droga ao ar livre. Além da adoção de locais fechados para consumo controlado, ações sociais e de saúde em conjunto tiveram sucesso em cidades como Nova York, nos Estados Unidos e Frankfurt, na Alemanha.

Com 550 PMs, a ação da Força Tática e do Choque começou às 5 horas, quando os agentes cercaram a praça. Ao perceber a movimentação, parte dos usuários e traficantes da nova Cracolândia passou a seguir em direção à Estação da Luz e ao Elevado João Goulart, abandonando as barracas montadas desde 21 de maio, quando houve a ação policial que os tirou da antiga Cracolândia.

Viaturas bloqueavam as Avenidas Rio Branco e Duque de Caxias quando o helicóptero da PM sobrevoou pela primeira vez a área, às 6h25, e mais viciados saíram. Fogueiras – acesas para espantar o frio (a temperatura média à noite foi de 8,7°C) – foram alimentadas pelos dependentes. O fogo atingiu barracos e se espalhou. A PM acionou os bombeiros, e o Choque entrou na praça.

Os policiais percorreram toda a praça em meia hora. Homens do Choque, com escudos, avançaram sem resistência dos que ainda estavam lá. Um viciado acordou no meio do fogo, com queimaduras no braço, e foi socorrido. Agentes da Prefeitura limparam a área.

Três pessoas foram detidas: dois traficantes e um usuário acusado de agredir um jornalista. Denilson dos Santos, de 23 anos, e Elenilson Lopes da Silva, de 39 anos, carregavam 774 gramas de crack, R$ 1.596 e uma balança. Foram levados ao Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e autuados por tráfico.

Na Avenida Rio Branco, um viciado aguardava o fim da limpeza para ver se recuperava uma carroça, abandonada às pressas. “Só deu tempo de pegar o cobertor e uma rapadura”, disse, se recordando depois que salvara a cadeira de metal acolchoada em que estava sentado.

Atendimento

O alojamento para acolhimento em contêineres teve baixa demanda. Apenas quem havia pernoitado no local continuou por lá. Às 9 horas, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, ambos do PSDB, foram à praça, para onde os dependentes voltaram depois de circular pelo centro.

Governo faz ação em praça; Prefeitura estuda local para consumo de drogas: Cerco. Policiais desmontam barraca na Praça Princesa Isabel, a 400 metros da Cracolândia, na região central da cidade; 550 PMs participaram da ação© Gabriela Biló/Estadão Cerco. Policiais desmontam barraca na Praça Princesa Isabel, a 400 metros da Cracolândia, na região central da cidade; 550 PMs participaram da ação

A estratégia, segundo a Prefeitura, era espalhar os viciados para facilitar a abordagem dos agentes de saúde e o encaminhamento para tratamento. “Este é um trabalho permanente, não vai resolver (o problema) do dia para noite. Quando há concentração você facilita a vida do traficante, atrai pessoas e dificulta a abordagem”, afirmou Alckmin.

Operação policial contra usuários recebe crítica e elogio

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremesp), Mauro Aranha, a estratégia de dispersão “não atende à racionalidade de políticas públicas” da área, tendo representado “mais uma ação intempestiva e de pulverização”. “O Estado tem de comparecer intensivamente com agentes de saúde e assistência para, paulatinamente, ir resgatando as pessoas que necessitam do apoio dos equipamentos”, disse. “E a administração pública tem condição de fazer isso, mas opta por essa solução que não me parece a ação mais humanitária.”

O médico sustenta ainda que o projeto atual descarta contribuições externas. “A sociedade civil organizada não está sendo ouvida, apesar da grande experiência dos atores que atuam diuturnamente com essa questão.”

O secretário municipal de Saúde, Wilson Pollara, afirmou que a ação “aconteceu para desmobilizar o tráfico mais uma vez e para que se pudesse realizar a limpeza da praça, que vinha sendo impedida”. Segundo ele, a atuação das equipes de saúde continua “como sempre” e que “confundir a atuação da Prefeitura em relação aos dependentes químicos com o combate ao tráfico feito pela polícia é uma tentativa de confundir as pessoas”.

Já para Fábio Fortes, ex-presidente e integrante do Conselho de Segurança de Santa Cecília, que acompanhou o operação, a ação policial tem de ser “permanente”. “Não se pode dar trégua. O combate tem de ser contra o tráfico, com abordagens todos os dias, e não só de tempos em tempos. Se pegaram dois traficantes hoje (domingo), tem de pegar outros dois amanhã, e assim todo dia. O Denarc precisa entrar, entender como o traficante chegou aqui”, afirma. “E a questão social, de saúde pública, tem de ser tratada em conjunto, também nas regiões de onde essas pessoas vieram. Senão, o problema vai apenas ser transferido.”

Fonte: MSN

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