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Notícias Ana Regina Rêgo

13 de dezembro de 2018

Relatório Global "Re|pensar as políticas culturais"

O documento analisa todos os avanços que os países-membros da Convenção de 2005 obtiveram desde a última edição do relatório

O Global Report 2018 - Relatório Mundial 2918 – Repensar as Políticas Culturais: Criatividade para o Desenvolvimento lançado no Brasil em novembro configura-se como um instrumento importante para implementar a Convenção de 2005 sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais nos países. Ele avalia os progressos realizados e os desafios encontrados no avanço das metas da convenção, ratificada por 146 países-membros. 

É, portanto, uma espécie de guia  de ação da UNESCO para o fortalecimento de capacidades para produção, criação e disseminação de bens, atividades e serviços culturais. A convenção apoia o direito soberano dos Estados de implementar políticas públicas destinadas a fortalecer e dinamizar os setores das indústrias cultural e criativa e promover a diversidade das expressões culturais. O documento também contribui para a execução da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Um segundo relatório também lançado mês passado pela Representação da Unesco no Brasil se mostra muito importante para os setores criativos. O The Brazilian Creative Economy foi desenvolvido pela Tom Fleming Creative Consultancy, por intermédio da parceria entre o British Council e a Fundação Newton. Nele, é apresentado o panorama da economia criativa no Brasil, o programa de avaliação e uma proposta metodológica para a avaliação de programas de economia criativa em áreas vulneráveis. Além disso, conta com um Guia UK-Brazil para compartilhamento de boas práticas em economia criativa, com casos inspiradores de diversos países.

O Relatório Global “Re|pensar as políticas culturais” ou “ Re-shaping cultural policies” (disponível em: https://en.unesco.org/creativity/global-report-2018) analisa todos os avanços que os  países-membros da Convenção de 2005 obtiveram desde a última edição do relatório, em 2015, além de refletir sobre os desafios para os próximos anos.

O relatório possui quatro principais objetivos, quais sejam:_ Apoiar sistemas sustentáveis de governança para a cultura; Alcançar um fluxo equilibrado de bens e serviços culturais e aumentar a mobilidade dos artistas e profissionais da cultura; Integrar a cultura nos marcos de desenvolvimento sustentável, e, Promover os Direitos Humanos e as liberdades fundamentais. Estes objetivos coincidem com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Vale destacar que o primeiro objetivo do relatório se coloca como principal e engloba os quatro primeiros capítulos do documento, onde inicialmente se faz uma análise sobre as políticas que podem e devem ser adotadas para que se possa impulsionar a diversidade cultural.

Posteriormente, o documento se debruça sobre os meios de comunicação públicos como produtores, multiplicadores e espaço de fruição para manifestações culturais. Nesse ponto se aborda o crescimento da visibilidade das mais diversas manifestações na mídia como um todo, o que reflete   uma mudança de postura governamental no que concerne a promoção dos valores plurais e do respeito a todas as identidades. 

O Relatório também aborda uma certa preocupação com as consequências das sociabilidades no ambiente digital e com a cadeia produtiva dos produtos culturais que possui  um lado positivo ao atuar de forma reticular na captação e recursos, fruição e divulgação da arte.

As contribuições da sociedade para as políticas públicas também são abordadas e diagnosticadas como um momento positivo do incremento à produção cultural em nosso país.

 O segundo objetivo: a mobilidade dos artistas e de outros profissionais de cultura é abordado na segunda seção do relatório. 

Vale lembrar que a Convenção atualizada em 2015 tem debatido a importância de garantir que se mantenha pluralidade de pensamento e de valores. O diagnóstico realizado demonstra que é visível a grande desigualdade no que diz respeito à mobilidade entre os países do hemisfério norte e do sul global. 

Por outro lado, é importante ressaltar a visível a aproximação e o grande interesse, em se estreitar as relações de mobilidade entre os países do hemisfério sul, a partir de redes regionais, plataformas de intercâmbio e centros criativos.

Por outro lado, o documento revela que os fluxos de bens e serviços culturais estão em crescente evolução tendo chegado em 2014, a computar cerca de 45% do comércio mundial. 

Sobre a integração da cultura nos marcos de desenvolvimento sustentável que se apresenta como terceiro objetivo, o documento revela um crescimento positivo, tendo em vista um maior reconhecimento do papel da cultura no desenvolvimento sustentável. Todavia, e , em antítese, terminou havendo uma queda significativa na assistência ao desenvolvimento dedicada à cultura e ao lazer. 

O último objetivo debatido no Relatório, trata da promoção dos Direitos Humanos e da garantia das liberdades fundamentais, de expressão, informação e comunicação. A Convenção exige que os países-membros tomem medidas para promover a igualdade de gênero no meio artístico e ofereçam suporte a mulheres que produzam cultura. 

Por fim, é válido ressaltar que o documento é um guia importante para os gestores culturais de países como o Brasil, para que possamos permanecer no caminho certo com uma política cultural de democracia participativa, em que as comunidades produzem sua cultura e tem condições de fazê-la fruir. 

Com informações da Unesco-Brasil: 

http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/cultural-diversity/global-report-reshaping-cultural-policies/

06 de dezembro de 2018

Sem CULTURA, sem TRABALHO, sem DIREITOS, sem EDUCAÇÃO PRESENCIAL...

Das recentes pérolas do inominável eleito destacamos algumas para ficar na memória coletiva e quiçá histórica deste país sem memória.

1-“É difícil ser patrão no Brasil!”  (04 dez 2018) 

( Para saber mais,  veja a matéria disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/12/e-dificil-ser-patrao-no-brasil-diz-bolsonaro.shtml )

Pois bem, se é difícil ser patrão no Brasil: 

Imaginem ser empregado sem direitos trabalhistas, com carga horária excessiva, com salário insuficiente para se manter, quiçá manter uma família.

Imaginem ser empregado sem ter um Ministério que fiscalize as relações trabalhistas e investigue denúncias de trabalho escravo e aplique multas quando as empresas não cumprem a legislação. 

Imaginem ser empregado sem direito a férias e décimo terceiro salário, licenças para tratar da saúde, licenças para acompanhar parente enfermo, etc. 

Imaginem ser uma mãe trabalhadora sem ter direito a uma licença para cuidar dos filhos recém-nascidos. 

Imaginem trabalhadores em situação de risco, sem ter adicionais compensatórios, nem políticas de prevenção. 

Imaginem trabalhadores sem direito a plano de saúde, nem creche para os filhos pequenos.

Imaginaram tudo isso! Pois bem é o que nos espera no modelo de gestão governamental para as relações de trabalho que já está curso com o governo do atual temerário e que devem se agravar com as ações divulgadas pela equipe do próximo governo. 

Tudo se desenha para um país propício ao empresariado, em detrimento dos trabalhadores cujos direitos estão descendo pelo ralo. Teremos um governo para a elite, quando a maior parte da população brasileira é formada por uma grande massa de pobres. 

2-“Índios em reservas são como animais em zoológicos” ( 30 nov 2018)

( Para saber mais, veja a matéria disponível em : https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2018/11/30/indios-em-reservas-sao-como-animais-em-zoologicos-diz-bolsonaro.ghtml )

A criatura eleita considera “os índios inferiores e diz que eles desejam o que nós queremos”, no sentido de desejar uma vida de “progresso” na pseudo-civilização em vivemos. 

Em uma só fala, o futuro excelentíssimo Presidente do Brasil  manifestou todo seu desrespeito para com as civilizações, culturas e comunidades dos povos que já estavam nas terras do nosso atual país, muito antes do encontro cultural com os europeus em 1.500 d.C. 

Em uma só fala, a futura autoridade máxima deixou claro que as terras devem se tornar produtivas e que os índios não são prioridades, assim como, o meio ambiente, tema sobre o qual, por sinal, tem avançado e recuado em declarações também absurdas. 

3- “ Conversei muito sobre ensino a distância. Me disseram que ajuda a combater o marxismo” – ( 07 AGO 2018) 

Para saber mais veja a matéria disponível em : https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-defende-educacao-distancia-desde-ensino-fundamental-22957843

O governo eleito defende o ensino à distância e defende que os alunos devem frequentar a escola só o que for indispensável, evitando assim contato com os professores. 

A proposta do governo é investir menos no ensino superior e mais no ensino técnico. As áreas vinculadas às Humanidades estão sob ataque e devem sofrer redução/cortes de verbas ou mesmo extinção de cursos nas Universidades Federais. 

Além do ensino superior, o Ensino Médio cuja reforma foi aprovada recentemente, deverá ser alvo de ações da denominada “Escola sem Partido” que visa tolher o desenvolvimento do pensamento no Brasil e formar técnicos sem formação crítica e portanto, sem condições de combater a burguesia e o empresariado que desejam um país de analfabetos culturais para poder dominar ad infinitum. A intenção é formar levas e levas de trabalhadores em pensamento e sem direitos. 

4- Nesta semana foram anunciadas  extinções e/ou junções de vários Ministérios, dentre eles o Ministério do Trabalho e o Ministério da Cultura, duas pastas de grande importância para o povo brasileiro, em que os avanços dos direitos foram maiores nos últimos anos, sobretudo, a partir da Constituição Federal de 1988 e dos últimos governos.  A extinção dos dois Ministérios configura-se como um ataque direto aos trabalhadores do Brasil, mas também, um ataque ao que representa o campo cultural como lugar de tensionalidades constantes e formação crítica de um povo. Sem incentivos culturais o governo pretende minar as resistências e eliminar os opositores, começando pela classe artística. Fiquemos de olho e sejamos Resistência sempre!

22 de novembro de 2018

Por que precisamos de um dia da consciência negra?

Notadamente, porque somos um povo inconsciente de forma quase holística.

Então, quando no dia da consciência negra ( efeméride incluída no calendário escolar e de algumas cidades brasileiras tardiamente, somente há 15 anos) vemos pessoas que se auto denominam “cidadãos de bem” protestarem contra a data, como protestam contra as cotas nas universidades e contra os programas de inclusão social, temos que retornar ao nosso lugar de fala e tentar esclarecer aos pensamentos naturalizados e hipócritas deste país cada vez mais louco, porque precisamos ter um dia para o despertar da consciência negra.

Primeiro, porque a sociedade brasileira é racista sim. Racista e hipócrita. O mito da democracia racial tem servido para esconder nossa verdadeira essência violenta e preconceituosa que retornou à superfície no último pleito eleitoral, mostrando a face da injustiça social que justifica privilégios de poucos como direitos e arrola os direitos dos mais pobres como privilégios.

Partindo, portanto, do reconhecimento de que somos uma sociedade preconceituosa e racista, um pouco de história, como sempre, faz bem, sobretudo, a quem não possui consciência nem de si, que dirá do outro, ou, da humanidade, como propagavam os “cidadãos de bem”, em posts nas redes sociais esta semana afirmando que: “não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina...precisamos de 365 de consciência humana”.

Podemos inicialmente, relembrar os quase 400 anos de escravidão institucionalizada em nosso país, se incluirmos a escravidão dos indígenas, verdadeiros donos deste país. Mas a escravidão que a Lei Áurea aboliu se travestiu, posteriormente, de inúmeras outras formas de dominação que tem acompanhado os negros e descendentes até os dias atuais. Inclusive, se consolida nas desigualdades sociais do nosso Brasil que condena os negros ainda hoje à pobreza, violência e exclusão.

Mas, podemos ainda começar também pelo viés da própria língua, principal veículo de dominação. No português, como na maioria das línguas de países que também sofreram com a escravidão do povo negro, muitos vocábulos que servem para denominar coisas ruins se referem ao negro, tais como: denegrir, por exemplo. No mesmo mote negativo inúmeras metáforas são usadas por nós, sempre anexando o que é ruim ao negro. Nesse sentido, Vera Lúcia Paiva e Edna Menezes lançaram o livro intitulado Metáforas do Cotidiano, em que relacionam frases que utilizamos com grande frequência e que não nos damos conta do quão perverso é para com os nossos irmãos negros. Exemplos: Cambio negro – comércio ilegal; mercado negro- comércio ilegal; caixa-preta- falta de transparência; lista negra- relação de coisas prejudiciais; magia negra- bruxaria; humor negro- humor com elementos macabros; peste negra- doença que assolou a Europa na idade média; ovelha negra- pessoa que possui mau caráter; besta negra- inimigo, etc.. E como não citar: o lado negro da força- o lado do mal, do perverso Darth Vader da saga Star Wars.

Aqui, como já sabem meus leitores, vale lembrar Nietzsche para quem o bem só bem porque alguém em condição de poder assim o forjou e denominou. E, portanto, o mal só é mal pelo mesmo motivo.

Do ponto de vista histórico se voltarmos à Constituição de 1824 o negro, nas palavras de Verônica Baravieira (2005) “ [...] situava-se em região limítrofe entre coisa e pessoa, mas na pior das situações, pois seu interesse era o último que prevalecida, ou seja, conforme o interesse dos senhores, o negro adquiria e perdia sua precária personalidade”.

Cem anos depois, na Constituição de 1934 falava-se em todos iguais perante a lei, entretanto, esse todos não eram todos, visto que essa pretensa Carta magna era de grande inclinação eugênica e pregava a educação eugênica, separando o lugar dos negros nas escolas. Mas ia bem além e até mesmo aos imigrantes eram imposto que seriam bem recebidos somente os que provassem ter boa ascendência europeia, vide a própria Constituição de 34, Art. 2º: “Atender-se-á, na admissão de imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia”.

Essas imposições históricas e contumazes do Estado brasileiro ao povo negro se naturalizaram a tal ponto, que toda a sociedade chegou a considerar e em grande medida ainda considera, que os negros são inferiores. O absurdo dos absurdos, no entanto, se consolida como discurso de dominação através dos fetiches e seduções da hegemonia branca em um país de mestiços, mulatos e caboclos que se pretendem brancos, pois mesmo quando brancos são e possuem ascendência europeia, essa é não é das melhores, se formos considerar o status social construído naquele continente, visto que para cá, vieram os pobres, os indesejados, os fracassados, os que não conseguiram se incluir em seus países, por inúmeros motivos. Então o preconceito não se justifica, muito menos a falácia de inferioridade dos negros.

“Sim, mas hoje o Brasil não vive essa realidade, somos todos fraternos irmãos e o racismo é mimimi, vitimização de negro”. Não sei em que país vivem os hipócritas que acreditam nisso, mas não é no Brasil que mata negros em proporções infinitamente maiores que brancos, que violenta e mata mulheres negras a cada minuto. Que trata como marginais qualquer negro ou mulato simplesmente pela cor. Que discrimina professores universitários, médicos, artistas e todos os profissionais negros minimizando o valor de seu trabalho simplesmente pela cor da pele. Que ainda hoje discrimina negros no acesso a prédios de luxo em localizações privilegiadas deste país, portanto, repito em alto e bom som: hipócritas!

Depois de tudo isso, obviamente, “muitos cidadãos” de bem ainda acham que não precisamos ter consciência da importância da inclusão do negro na sociedade. Contestam cotas para universidades públicas porque consideram privilégios dados a uma cor. Que tal lembrarmos que a igualdade de que fala a nossa Constituição só pode ser conquistada se todos tivermos as mesmas oportunidades. Isso significa comer a mesma comida, estudar nas mesmas escolas, dormir em camas similares, ter conforto no calor ou no frio, ter acesso a transporte de qualidade de forma igualitária, ter acesso a saúde de qualidade do mesmo modo igualitariamente...

As políticas públicas de cunho social procuram exatamente diminuir as disparidades construídas em uma sociedade predatória que não possibilita condições de vida igualitárias para todos. Bolsa família não é privilégio, é necessidade. Já auxílio alimentação de valores absurdos para o Judiciário é privilégio e não direito. Cotas para universidades não constituem privilégio, constituem uma reparação das desigualdades sociais. Meritocracia caríssimos, que me parece só existe enquanto discurso, só funciona quando a linha de partida na corrida social é igual para todos. Fica a dica!

15 de novembro de 2018

Micro dicionário do esclarecimento 2

Revisionismo histórico

É ponto pacífico entre historiadores e pesquisadores da história, que a historiografia admite interpretações diversas sobre os mesmos fatos.  A revisão é constante e até necessária quando visa sanar lacunas e atender questões de identidade, dentre outras.

Entretanto, o revisionismo que se pretende realizar no Brasil e em outros países da América do Sul, que tanto tiveram regimes ditatoriais em períodos correlatos, quanto redemocratização recente, como no nosso caso; tem em si, não somente um intuito ideológico, mas uma ideologia fechada em si mesma e calcada em certezas e não em problemas e inquietações que os documentos, emolumentos, testemunhos, rastros e vestígios podem ou não comprovar. Ou seja, o revisionismo pretendido no Brasil tem como intuito pautar uma versão da história que seja favorável aos militares e civis que apoiaram o regime, sobretudo, procurando justificar a violência do Estado, como algo necessário e mais ainda, como algo natural e direito do Estado.

Tudo se configura em prol de uma disputa pela memória coletiva e, principalmente, pela memória histórica, que é, em si, um espaço de disputas discursivas pelo poder.

Ouvimos cada vez mais, com certa recorrência, muitas pessoas que não viveram ( ou viveram a ditadura na bolha da alienação, visto que a imprensa era censurada, por exemplo), não pesquisaram, não leram, não estudaram;  argumentando que não houve golpe em 1964 e sim revolução. Também argumentam que no Brasil não houveram assassinatos, desaparecimentos, exílios, demonstrando um total desconhecimento tanto dos resultados das pesquisas e das apurações da Comissão Nacional da Verdade, quanto de toda uma historiografia que focada em diversos campos do conhecimento procura dar visibilidade a atos de violência cometidos pelo Estado brasileiro e que não podem vir ser repetidos, pois configuram crimes contra a humanidade.

O mais incompreensível talvez seja a concordância com os atos de censura e cerceamento das liberdades individuais e coletivas e dos direitos civis. Assim como, a concordância com a “licença para matar” que o Presidente eleito pretende implantar. 

O fato é que o revisionismo pretendido diverge e muito de uma pretensão de verdade tendo como pauta acontecimentos e documentos, tudo se assemelha ao achismo em prol do negacionismo e do justificacionismo. O Estado brasileiro pretende justificar suas ações no passado, como aparelho de cerceamento do pensamento e da livre prática da violência. 

Essa intencionalidade, no entanto, não é por acaso, visto que o governo eleito necessita sensibilizar a sociedade não crítica, para os atos que pretende cometer, objetivando eliminar a oposição incômoda, enquadrando partidos políticos e movimentos sociais legítimos na marginalidade da lei Anti-terrorista. 

O fato é que isso está se tornando possível, porque no Brasil nunca fizemos o dever o de casa, nunca encontramos o passado ou punimos os abusos do regime ditatorial, assim, ele retorna como uma sombra que com seus tentáculos pretende se instalar totalitariamente, impondo versões do passado, para justificar os abusos do presente. 

Na América do Sul, Argentina e Chile puniram os ditadores e os militares culpados pelo desaparecimento, torturas e assassinatos de pessoas em massa, mesmo assim, a onda conservadora está negando tais acontecimentos e procurando uma revisão que seja favorável aos militares daqueles países. 

Já no Brasil, a Lei da Anistia (Lei 6.683/1979) propôs o silenciamento dos crimes militares ao anistiar o que denomina de crimes políticos dos torturadores e assassinos que estavam a serviço das forças armadas. Essa Lei impôs o silenciamento e não abriu brecha, nem mesmo no século XXI, após as apurações da Comissão Nacional da Verdade, para que os chefes de Estado e de governo no regime civil-militar e comandantes fossem punidos, como aconteceu em inúmeros países que passaram por processos traumáticos.

A Lei da Anistia foi um mal que hoje revela seus frutos. Temos um Presidente eleito não apenas favorável à ditadura, como também, favorável à tortura, favorável ao assassinato em massa, com a licença para matar (já comentada) e temos uma população favorável a essas condutas. 

No Brasil então, a banalidade do mal, enfatizada pela Hannah Arendt que tanto já comentei nesta coluna, está tão disseminada que parte da nossa população que apoia o governo eleito, considera não somente tolerável e aceitável, mas necessária a violência autorizada para as forças armadas e polícias, como se violência não trouxesse como consequência, mais violência. Muitos apoiadores, inclusive, são alvos fáceis para este tipo de violência estatal.

O ver o outro, o aceitar o outro, o combate aos crimes de feminicídio e de homofobia que nos colocam nos piores rankings de violência no mundo, não interessam aos eleitos, tudo a que se propõe é liberar armas e autorizar chacinas. 

Incentivos para educação livre e condutoras de processos de consciência não interessam, visto que as ações totalitárias podem ser contestadas a partir do desenvolvimento do pensamento e da disseminação do conhecimento. Assim, até Paulo Freire, um dos autores mais lidos no mundo no campo educacional, está sendo criminalizado. 

Loucos tempos esses em que o saber e poder se distanciam completamente, para dar lugar a uma aliança entre poder e alienação. 

Já pensaram na revisão do nazismo na Alemanha? Dificilmente isto poderá ocorrer de forma fácil, visto que lá o dever de memória e o dever de justiça foram cumpridos. Os criminosos de guerra foram julgados e condenados. E os lugares de memória e a educação não deixam que a população esqueça ou cresça alienada.

Já pensaram na versão dos nazistas justificando o extermínio em massa dos judeus? Já pensaram na versão dos nazistas negando as atrocidades cometidas?

Pois é, brasileiros alienados já pensaram e até contestaram o governo Alemão dizendo que não houve Holocausto, o que obrigou o governo Alemão a preparar um vídeo explicativo para a embaixada deles aqui no Brasil, explicando aos brasileiros, o que as crianças alemãs aprendem desde os primeiros anos escolares.

Mas no Brasil, não punimos os criminosos do regime. No Brasil não tivemos tribunais como na Argentina e no Chile, não condenamos ninguém. Nem fizemos como na França pós-guerra. Isso demonstra o quanto no Brasil temos uma justiça partidária (do ponto de vista que possui lado). Isenção, imparcialidade da justiça constituem uma mera utopia que está se transformando em uma distopia crescente e temerária.

O revisionismo pretendido pelos generais e pelos partidários do governo eleito tem como intuito legalizar a violência do Estado, para tudo e contra todos que tiverem pensamentos distintos.

Redes de televisão já veicularam Vts com o lema ditatorial Brasil: ame-o ou deixe-o!

Em suma, era sobre tudo isso que eu falava há dois anos quando contestava as falas do Bolsonaro, ou seja, nada do que ele pregava e ainda prega, embora as pressões internas e externas estejam fazendo ele mudar de opinião todos os dias. Bem o que eu falava era que ele não se enquadrava em nenhum escopo democrático e que, portanto, nossa frágil democracia enquanto fenômeno, com os apoios que deu ao eleito, guardava e guarda em si, grande potência anti-democrática.

Tempos difíceis. Em que os direitos caem por terra e o policiamento se levanta como norma e ordem do dia.

01 de novembro de 2018

Desconfie de quem diz que quer silenciar um pensamento opositor

Para Norman Fairclough “as ideologias são representações que contribuem para a constituição, a reprodução e a transformação das relações sociais de poder e dominação.

Micro dicionário do esclarecimento

Ideologia

Para Norman Fairclough “as ideologias são representações que contribuem para a constituição, a reprodução e a transformação das relações sociais de poder e dominação. Há muitos pontos de vista diferentes sobre ideologia, mas uma grande divisão é entre os conceitos “críticos” versus os conceitos “descritivos” de ideologia, e o que caracteriza essencialmente os conceitos críticos é que as ideologias são vistas como uma modalidade de poder, uma modalidade que constitui e sustenta relações de poder por meio da produção de consenso ou, pelo menos, aquiescência, poder mais por meio da hegemonia quer da violência e da força”.

Para Thompson as ideologias são “maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação”, possui um caráter de ilusão ou de falsa consciência e trabalha em prol da dominação. Para Karl Marx como para os pensadores da Escola Frankfurt na Alemanha, a ideologia mascara a realidade revelando apenas sua mera aparência.

DESSE MODO desconfie de quem diz que quer silenciar um pensamento opositor seja ele, político, econômico, social ou religioso, visto que ao impor um único modo de pensar, um único modelo econômico, a dominação dos ricos sobre os pobres, ou um único Deus, afirmando que está eliminando ideologias; em verdade, o que está tentando fazer é eliminar pensamentos contrários objetivando fazer valer um pensamento dominante único, isso sim é a ideologia da dominação. O recurso discursivo se pauta na negação da ideologia, quando na verdade está se utilizando dela para se impor hegemonicamente.


Verdade

Friedrich Niezstche contesta veementemente a verdade naturalizada, institucionalizada e que serve a estruturas de poder e de moral dominantes. Instigando os filósofos trabalha a vontade de verdade como o desejo que move tantos os filósofos como as sociedades e pergunta por exemplo, como poderia a verdade nascer de seu oposto, o engano. Para Niezstche, as filosofias como as sociedades mentem ao afirmarem verdades, visto que em tese, se pautam em enganos ou mentiras.

Para Niezsche “ a falsidade de um juízo não chega a constituir para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranha. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie; e a nossa inclinação básica é afirmar que os juízos mais falsos ( entre os quais os juízos sintéticos a priori), nos são os mais indispensáveis, que, sem permitir a vigência das ficções lógicas, sem medir a realidade com o mundo puramente inventado do absoluto, do igual a si mesmo, o homem não poderia viver - que renunciar aos juízos falsos equivale a renunciar à vida, negar a vida. Reconhecer a inverdade como condição de vida: isto significa, sem dúvida, enfrentar de maneira perigosa os habituais sentimentos de valor; e uma filosofia que se atreve a fazê-lo se coloca, apenas por isso, além do bem e do mal”.

Michel Foucault trabalhando sob a influência de Friedrich Niezstche desenvolve inúmeros trabalhos/tratados sobre a verdade partindo da vontade de verdade passando pela história da verdade enquanto conceito mutante ao longo dos séculos, pelos jogos da verdade, regimes de verdade, economia da verdade e política da verdade que se modificam a cada sociedade e a cada temporalidade.

Nesse sentido Foucault nos diz que “ creio que o importante é que a verdade não está fora do poder nem carece de poder (ela não é, [...] a recompensa dos espíritos livres, ou a filha

das longas solidões, ou o privilégio daqueles que souberam libertar-se”. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a coerções múltiplas. E ela possui nele [mundo] efeitos regrados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política’ geral da verdade, isto é, os tipos de discursos que ela aceita e faz funcionar como verdadeiros, os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sancionam uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que tem a função de dizer o que funciona como verdadeiro”.

ENTÃO que tal nos perguntarmos que regime de verdade, economia da verdade, políticas da verdade estamos adotando nos dias atuais no Brasil? Será que estamos mais inclinados a uma vontade de tratar a mentira como verdade, por mais estapafúrdia que ela seja, como kit gay e congresso gay para crianças, para justificar nossos enganos?


Política

Para Jacques Rancière a política existe onde quer que a contagem das partes e das “partes” da sociedade é perturbada pela inscrição de uma parte dos sem-parte. Ela começa quando a igualdade de qualquer um com qualquer um inscreve-se como liberdade do povo. Essa liberdade do povo é uma propriedade vazia, uma propriedade imprópria pela qual aqueles que não são nada colocam seu coletivo como idêntico ao todo da comunidade. A política existe enquanto formas de subjetivação singulares renovarem as formas da inscrição primária da identidade entre o todo da comunidade e o nada que a separa de si mesma, quer dizer, da mera contagem das partes. A política deixa de existir ali onde não tem mais lugar essa distância, onde o todo da comunidade é reduzido sem resto à soma de suas “partes”.

DESSE MODO a política deve ser exercida de modo consciente e deve para servir para a libertação e não para dominação de uns sobre os outros.


Poder

Para Michel Foucault o poder não é privilégio de uma classe dominante, não se detém em cargos públicos de exercício de um poder, não se restringe ao topo da pirâmide, não emana somente de instituições e mecanismos que regulam e gerem o Estado, mas pode nascer, se estruturar e se revelar em todos os relacionamentos e de diversos modos. Dito de modo simples, o poder, para Foucault é onipresente e exercido por todos em algum momento, como uma espécie de coextensão das relações sociais, onde se manifesta e se revela.

O poder, portanto, se constitui a partir de uma multiplicidade de relações cuja natureza é de imanência ao lugar de sua própria operação, por outro lado, como nos diz Foucault não se detém o poder, mas somente se exerce , pois “[...]não há poder que seja exercido sem uma série de metas e objetivos”, que serão classificados pelo autor como táticas e estratégias, portanto, “[...] não se trata do privilégio adquirido ou preservado, da classe dominante, mas do efeito global das suas posições estratégicas”, nessa roda infinita de relações de poder que tem lugar no cenário social.

Para Foucault o poder nasce e se constitui na diversidade das relações que iniciam em baixo e que se sobrepõem umas às outras, entrelaçando e estruturando o que se conformará no exercício do poder. Para este autor, não é o soberano quem se investe de poder, mas são as relações de poder que tornam possível o exercício do poder, pelo soberano. Portanto, em Foucault, o poder é sempre intencional, e, em antítese, subjetivo.

PARA PENSAR: que relações de poder estamos estruturando para permitir um país mais justo e igualitário ? Estamos? Ou, nosso trabalho é no sentido de nos distanciarmos do pobre a quem desejamos sempre pobre para podermos fazer caridade?





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