• Banner OAB
  • Campanha da Santa Missa
  • Vencer 03
  • Vencer 02
  • Vencer 01
  • Prerrogativas da advogacia
  • Peregrinos da fé
  • Novo app Jornal O Dia

Notícias Ana Regina Rêgo

02 de abril de 2020

O mal nunca dorme: o Brasil, os brasileiros e o governo sem gestão coordenada

O atual governo tem nos provado que o mal nunca dorme, seja com ou sem pandemia.

Todos os dias, ao longo do último ano, o governo e o corpo de ministro que o compõe tem se esforçado para editar Medidas Provisórias e aprovar Projetos de Lei que reduzem o alcance do Estado na economia, na educação, na cultura e na saúde, prejudicando os brasileiros, sobretudo, os mais pobres de forma holística. 

Com a pandemia e a bipolaridade das declarações do representante máximo da nação, Sr. Jair Messias Bolsonaro, os ministros que o apoiavam na redução das medidas de isolamento social, inclusive o Ministro da Saúde que semana passada andou recuando em suas próprias decisões;  terminaram cedendo ao avanço da doença em nosso território e passaram a não mais apoiá-lo, isolando-o em suas falácias diárias. Na última terça-feira, o Presidente fez pronunciamento no sentido de se alinhar ao Ministério da Saúde, finalmente, e procurando manter a mesma linha adotada por Donald Trump no hemisfério norte, como também, procurando se equilibrar na linha tênue que o afasta do cargo, visto que o número de pedidos de impeachment se acumulam e agora se juntam às notícias crime que estão sendo protocoladas junto ao Supremo Tribunal Federal. 

Para além disso, um pouco antes, mas no mesmo dia, o Presidente e sua equipe de comunicação, formada ao que parece, pelo seu trio de  filhos manipuladores, editaram fala do Diretor Geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus, colocando-o contrário às medidas de isolamento social, contrariando toda a fala do próprio Diretor Geral da OMS, como também, a todas as orientações que a instituição tem repassado em nível mundial diariamente. O próprio Tedros Ghebreyesus teve que vir a público para desmentir as informações falsas do clã que desgoverna o nosso país. 

A resposta de Tedros no twitter, pontua claramente que só a transferência de renda dos governos pode ser a resposta mais correta para manutenção das famílias carentes em momentos de isolamento. “Pessoas sem rendas regulares ou outro suporte financeiro merecem políticas sociais que garantam dignidade e os permita cumprir com as medidas de saúde contra #COVID19 aconselhadas pelas autoridades nacionais and @WHO [conta da OMS no twitter]”.

Por acaso,  a manipulação visível  e acima mencionada não me surpreende, visto que concluída minha pesquisa de Pós-Doutorado sobre a produção intencional da ignorância no Brasil e em países como Estados Unidos e Inglaterra, temos um mapa da produção diária de narrativas falsas que ganharam e ganham os milhares de grupos de família no Brasil, tornando-os os maiores divulgadores de fakes News do mundo. 

O que me assombra, porém não me surpreende, é a aceitação do público a esse tipo de narrativa sem a menor criticidade, do mesmo modo como aconteceu no processo eleitoral. Todavia, passados mais de um ano de governo, e agora com os desmandos e desencontros durante a pandemia, muita coisa foi sendo revelada, mas as fábricas de informações falsas trabalham a toda, sem a menor ética, conseguindo manter os seguidores firmes em sua cegueira. Dupla ação do mal, pois faz com que o povo se coloque contra sua própria vida. 

Temos então problemas de diversas naturezas potencializados por três vertentes, duas relacionadas ao desgoverno neoliberal, a primeira e já mencionada é concernente à redução intencional do Estado brasileiro e de seu alcance de benefícios e de prestação de serviços, com redução dos orçamentos de todas as pastas, diminuindo a capacidade de resposta de Estado para com a sociedade. Estado mínimo não reage em momentos de crise, visto que privilegia o mercado, que por sua vez, também não pode reagir e termina necessitando do Estado, como no momento atual.

A segunda intimamente ligada à primeira, é o crescimento de medidas que privilegiam o grande empresariado, em detrimento da classe trabalhadora, agora sem grande parte de seus direitos, anteriormente, garantidos.  E por último, o grave problema de saúde pública que vivenciamos em todo o mundo. 

Todavia, os três problemas podem ser minimizados e/ou resolvidos de forma unificada se os que ocupam os cargos decisórios conseguirem praticar a empatia para além dos manuais de economia liberal, e perceber que o desenvolvimento só pode acontecer se vier junto com garantias e direitos ao povo, ou, como nos diz Amartya Sen, se vier como prática da liberdade. 

Câmara e Congresso conseguiram aprovar medidas contrárias ao governo que desejava um auxílio de R$ 200,00, conseguindo aumentar para R$ 600,00 o auxílio emergencial para trabalhadores informais de baixa renda durante a pandemia,  deixando claro que a transferência de renda é o meio para fortalecer a nação neste momento, visto que pode fortalecer os mais necessitados. O governo agora precisa sancionar e começar a pagar. Vamos ver!

Por outro lado, o governo anunciou um pouco antes, o pacote de auxílio para as micro e pequenas empresas no valor de R$ 40 bilhões destinados a 1,4 milhões de empresas e 12,2 milhões de trabalhadores.  Trata-se de um empréstimo para ajudar as empresas a pagar os trabalhadores nesse momento de isolamento. Ponderações: _ trata-se de uma linha de crédito a juros de 3,75% aa  e deverá ser paga e, por outro lado, não contempla todo o universo de microempresas do país, deixando uma boa parcela de fora. Além de não beneficiar os 16,2 milhões de microempreendedores individuais. 

Enquanto isso, a bipolaridade das narrativas que apoiam o isolamento em falas oficiais e, contrariamente, continuam relutantes em narrativas via redes sociais ( escritas, por áudio ou vídeo) revela que a prática da construção mentirosa é uma constante no aparelho do governo brasileiro nos dias atuais, e visa, de um lado, manter a reputação desgastada junto ao grande público onde o Presidente vem perdendo espaço, enquanto que, por outro lado, mantém seus seguidores, muitos donos de blogs e redes de comunicação que incluem produção de informações falsas para mídias sociais, fiéis a seu posicionamento. 

Diariamente, recebemos um sem número de informações falsas que tentam desqualificar o trabalho da OMS, do próprio Ministério da Saúde e afirmar que os números de infectados e mortos são mentirosos, com o intuito de provocar o fim do isolamento em favor da economia. 

A incompreensão do movimento pró-mercado, extrapola as carreatas que ganharam cidades como Curitiba e Goiânia no último fim de semana e que em Teresina foi cancelada pelos organizadores, e chegam até nós por fotos de reuniões em que empresários piauienses, aparecem de máscaras conclamando o povo a voltar ao trabalho, enquanto tentam se proteger e se manter distantes, o que vai ao encontro das afirmações do Presidente Bolsonaro e de apoiadores do grande empresariado de que as mortes de idosos e mesmo de outros brasileiros não são suficientes para parar a nação. Deixo então a pergunta: QUEM DA SUA FAMÍLIA VOCÊ DESEJA SACRIFICAR PARA A ECONOMIA NÃO PARAR?

26 de março de 2020

Pandemia e irresponsabilidade governamental – repensar o nosso modo de viver

Agora em contexto de pandemia mundial da COVID 19 temos que lutar sem termos “armas” contra o corona vírus, mas também temos que lutar contra o Presidente Bolsonaro.

Sem procurar culpados, uma vez que a teia é grande e envolve governos de esquerda e de direita até chegar ao desgoverno vigente, vale pensar que o Brasil já se encontrava em uma grave crise econômica, agravada paulatinamente pelas medidas governamentais neoliberais que visam beneficiar o mercado predatório, em detrimento dos trabalhadores e do povo em geral, assim como, pelas narrativas imprecisas do governo e muitas vezes compradas pela mídia de que a crise econômica seria vencida com as reformas trabalhista (governo Temer), previdenciária ( governo Bolsonaro) e com os projetos de reformas cujos textos se colocam mais como deformas, visto que concentram a maior parte de todo o sacrífico no povo e não tocam no aumento de impostos para bancos e demais instituições financeiras, nem tocam na taxação das grandes fortunas, por exemplo.

Esse cenário excludente, injusto e completamente manipulador já estava instalado em nosso falido país. Agora em contexto de pandemia mundial da COVID 19 temos que lutar sem termos “armas” contra o corona vírus, mas também temos que lutar contra o Presidente Bolsonaro que contraria diariamente as orientações da OMS-Organização Mundial de Saúde e do próprio Ministério da Saúde do Brasil que está sob seu comando.

Para além da irresponsabilidade das manifestações do dia 15 de março contra os poderes Legislativo e Judiciário, apoiadas por ele e que contaram inclusive, com a sua participação, consistindo em grave agravo à Constituição Federal. Quase que diariamente o Senhor Representante máximo da Nação faz transmissões ao vivo pelas suas redes sociais e por fim, pronunciamentos oficiais favoráveis ao retorno da população brasileira ao trabalho, às escolas e as ruas, deixando somente idosos e demais dos grupos de risco em isolamento social. O que contraria efetivamente todas as orientações repassadas pelo campo da saúde em nível mundial e nacional.

Por outro lado, não tendo quem culpar pelo declínio da economia, Bolsonaro culpa a mídia pela crise do corona vírus que, por sua vez, é agora o principal responsável pelos problemas econômicos. É bem verdade que parte da grande mídia brasileira apoia a pauta neoliberal predatória e que exige sacrifícios dos mais pobres, o que é imperdoável. Por outro lado, o jornalismo dos mesmos meios de comunicação, procura atuar de formar coerente informando o necessário, para que a população esteja consciente e esclarecida sobre os riscos que corre e sobre as possibilidades de morte em massa, caso não sigamos as recomendações da OMS.

A antítese caracterizada pelo pensamento desencontrado, acontece nas mentes e posturas dos apoiadores do Presidente Bolsonaro e seu clã. Muitos seguem copiosamente as orientações do mestre e não obedecem as orientações dos Ministro da Saúde e da Justiça, por exemplo, muito menos da OMS, colocando um grande número de pessoas em risco. Já outros, minimizam as incoerências das falas do Chefe de Governo e de Estado e obedecem as orientações da OMS, pois não desejam correr riscos, mas continuam apoiando o desmonte da nação.

Nesse cenário, ontem anunciado pela OMS como de grande risco de pandemia com dimensões apocalípticas, vale repetir o que afirmamos semana passada; “Mais do que nunca necessitamos da ciência e não é somente das ciências naturais para quebrar códigos genéticos, para construir vacinas eficazes contra o novo corona vírus e, principalmente, a cura, mas precisamos também de cientistas da comunicação para revelar os interesses por trás das informações falsas, precisamos dos jornalistas para levar informação de qualidade à população, necessitamos das agências de checagem para quebrar a cadeia de informações falsas, quebrar as informações sobre falas de si e suas experiências não científicas que somente confundem a sociedade. Então, diferentemente do que pensam alguns ministros e ministras do atual desgoverno, a ciência é para cientistas e não para pastores ou amadores”

Por outro lado, este é um momento de oportunidade para repensarmos o nosso modo de vida predatório que tanto mal faz aos mais pobres e a natureza. A natureza, por sua vez, tem a potência para renascer, e assim está fazendo nas últimas semanas em que muitos países estiveram em quarentena. Já nós humanos, não temos. O mal que praticamos retorna para nós.

Esperamos que a cura seja encontrada pelos cientistas, pois é neles que devemos confiar. Esperamos que a solidariedade aflore em cada coração endurecido. Esperamos que a banalidade do mal e a ausência completa de uma eticidade pública ceda espaço para as boas ações e para uma comunicação positiva que informe sem alarmar, mas principalmente, que combata as informações falsas que circulam com grande velocidade, diariamente.

Núcleo de Pesquisa em Jornalismo e Comunicação da UFPI lança site para unir as pessoas que precisam de ajuda com quem pode ajudar

Professores, alunos e ex-alunos dos cursos de Jornalismo e do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Piauí, além de jornalistas que abraçaram a ideia, lançaram esta semana, a página nujocsolidariedade.site, com o objetivo de fazer uma ponte entre quem necessita de ajuda nesse momento e quem pode ajudar.

Inicialmente, o grupo está focando em seis tipos de atendimento: 1. Quem necessita de sabão e/ou demais materiais de higiene e limpeza; 2. Quem necessita de alimentos não perecíveis; 3. Quem necessita de medicamentos; 4. Quem necessita de alguém para conversar; 5. Quem necessita de alguém para fazer comprar e, 6. Quem necessita de materiais de proteção contra o corona vírus (hospitais públicos e serviços de saúde).

No site estão disponibilizados dois formulários. O primeiro para quem precisa de ajuda, onde as pessoas colocarão seus dados de identificação, endereço e contato e destacarão suas necessidades. O segundo formulário deverá ser preenchido pelos anjos, ou seja, pelas pessoas e grupos que podem ajudar. O objetivo da nossa equipe é promover o contato entre ambos.

Ainda esta semana o NUJOC estará lançando mais uma página. O site NUJOC checagem é também uma iniciativa da equipe da UFPI com o apoio de voluntários, com o objetivo de checar e esclarecer informações falsas, imprecisas e manipuladas que sejam concernentes à pandemia da COVID 19/corona vírus. 

19 de março de 2020

A comunicação contra o desgoverno e a ignorância em tempos de Covid 19

No Brasil vive há mais de quatro anos outra pandemia, a proliferação de informações falsas, as fake news.

A comunicação de qualidade e a solidariedade contra o desgoverno e a ignorância em tempos de Covid 19

Estamos vivenciando uma pandemia protagonizada pelo novo corona vírus que se transforma em nossos organismos na doença denominada de COVID 19. Todos tem ciência desse fato em nível mundial. Todavia, no Brasil e em algumas outras partes do globo, estamos vivenciando já há mais de quatro anos, outra pandemia e que interfere diretamente na compreensão dos cuidados básicos com a saúde em tempos de corona. Trata-se da proliferação de informações falsas impulsionadas pelas fábricas de fake News, pelos robôs (bots) e pela trollagem (fábricas de trolls), que correm as infovias através do algoritmo nosso de cada dia, que rege o que vemos e o que consumimos, enquanto narrativas na virtualidade.

Mais do que nunca necessitamos da ciência e não é somente das ciências naturais para quebrar códigos genéticos, para construir vacinas eficazes conta o novo corona vírus,  mas precisamos também de cientistas da comunicação para revelar os interesses por trás das informações falsas, precisamos dos jornalistas para levar informação de qualidade à população, necessitamos das agências de checagem para quebrar a cadeia de informações falsas, quebrar  as informações sobre falas de si e suas experiências não científicas que somente confundem a sociedade. Então, diferentemente do que pensam alguns ministros e ministras do atual desgoverno, a ciência  é para cientistas e não para pastores ou amadores.

Precisamos dos médicos, sobretudo, dos infectologistas para guiar os procedimentos dentro e fora dos hospitais, postos de saúde, etc. E precisamos abrir espaços para estes profissionais nas mídias para que possamos disseminar somente informações que possam contribuir com o momento, esclarecendo sem causar pânico.

O grande problema é que no Brasil, segundo pesquisa divulgada pela Empresa de cibersegurança Kaspersky em fevereiro último, 62% dos brasileiros não sabem reconhecer uma notícia falsa e preferem acreditar em narrativas que vão de encontro a seus valores pessoais do que na facticidade. Esse cenário desolador nos revela que a ignorância intencional não está situada somente em classes sociais que não tiveram acesso a um processo educacional pleno, mas encontra-se em todos os extratos sociais. Vai de profissionais da saúde que replicam nos grupos familiares informações falsas por desejarem acreditar que a mensagem que passam é verdadeira, a políticos irresponsáveis que comandam a população através de narrativas pessoais e falsas, descredibilizando e ignorando não somente o trabalho do campo da comunicação, mas do campo da saúde, inclusive, da equipe governamental que no momento se esforça para evitar um caos maior em nosso país. 

E não falo somente do Senhor Presidente, Jair Bolsonaro, cuja incapacidade para governar um país já estava visível muito antes de sua eleição, bastava olhar com cuidado toda a sua trajetória política. Falo também dos nossos políticos no Piauí, o ex-governador Mão Santa, atual prefeito de Parnaíba, fez declarações esdrúxulas nas redes sociais, em concordância com as declarações do senhor que ocupa, no momento, o Palácio do Planalto, desdenhando do vírus e de sua letalidade. Tudo isso, enquanto os líderes das grandes potências mundiais, inclusive, o insensato do Trump nos Estados Unidos, pedem cautela e pedem a seus conterrâneos que fiquem em isolamento preventivo, para não acontecer em seus países, o que aconteceu na Itália. 

Todavia, o Brasil apesar de ter 11 milhões de cidadãos que acreditam que a terra é plana, índice que revela o tamanho da ignorância fabricada em nosso país nos últimos anos. Apesar de possuir também, uma massa de praticantes neófitos de igrejas neopentecostais que não acreditam em vacinas, parece ser mais sensato do que o nosso representante máximo e seus seguidores acéfalos. O Brasil é maior do que a ignorância. 

O Brasil está parando paulatinamente, orientado pelos cientistas, pelos médicos, pelos profissionais da saúde que em parceria com o campo jornalístico e comunicacional estão tentando prestar um serviço de qualidade para a nossa população, dentro dos limites estreitos que a nossa infraestrutura permite, sobretudo, após a redução das verbas para a saúde nos últimos anos e a tentativa de quebra o SUS- Sistema Único de Saúde, abrindo espaço para a privatização plena do sistema, o que configura uma necropolítica de intenções maléficas para a população.

Por outro lado, um pouco de sensatez emana do desgoverno atual e vem do atual Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta que tem se esforçado em medidas e declarações, contrariando, inclusive, as posturas do mandatário do país que segue se comportando como alguém que não se importa com a Nação. O Ministério da Saúde está protagonizando as ações e orientando o público, como deve ser. 

Entretanto, as previsões são de que, mesmo com as medidas de conscientização social, afastamento e isolamento comunitário, fechamento temporário de universidades e escolas públicas e privadas, o número de casos no Brasil, possivelmente, venha a ter um incremento de 2.400% nos próximos dias e que o contágio passe a ocorrer comunitariamente. Isso por si só, já levará um grande número de pessoas para o sistema de saúde, sobretudo, o público. 

Nesse momento, o mais importante, portanto, é seguir as recomendações de higiene pessoal e de condutas sociais de prevenção, assim como, a solidariedade para com os principais grupos de risco: idosos, pessoas com doenças crônicas, tais como asma e diabetes, dentre outras. 

Chegou a hora do Brasil se unir contra a ignorância reinante em parte do nosso desgoverno e em uma minoria populacional, pois somente assim, poderemos vencer o corona vírus.

Sejamxs solidários! A maior lição que o corona nos traz é a de que, para viver em sociedade, precisamos sempre uns dos outros. Como a saúde precisa da boa comunicação para ter êxito. Como os cientistas das ciências naturais necessitam do apoio dos cientistas das ciências humanas e sociais. Como o sistema de saúde, necessita do sistema de comunicação. Todos em prol do bem comum.

06 de março de 2020

Em ano de eleição é bom ficar atento

Entre a nova dieta de mídia, a produção e a circulação de informações falsas

Saímos de modelos comunicativos e de marketing em que a comunicação de massa de grandes corporações eram pensadas e direcionadas a audiência em seu grosso potencial, que mesmo tendo especificidades de público tratados no marketing como público-alvo ou target, chegavam a um grande número de pessoas a partir de uma construção estratégica da mensagem e emissão por canais controlados. Todavia, a considerada “dieta” de mídia do brasileiro, assim como, da maioria dos cidadãos, sobretudo, dos países ocidentais, sofreu considerável transformação com as três décadas de internet. O processo comunicativo reticular se sobrepôs ao anterior e também se tornou central na vida dos indivíduos e das sociedades. A principal mudança, entretanto, não é a possibilidade de acesso que também é controlado pelas multinacionais que nos usam como escravos de produção de conteúdo, mas a possibilidade de se ter uma pluralidade infinita de novos atores na produção de conteúdo, fazendo com que nenhuma corporação de mídia tradicional tenha controle sobre as narrativas emanadas pelas infovias. Houve, portanto, não somente uma proliferação de canais acessíveis para produção de narrativas em pontos distintos da rede tornando a comunicação reticular possível de obtenção de grande repercussão, desde que se trabalhe dentro dos padrões das grandes empresas/plataformas multinacionais, proporcionando para estas, grandes lucros. Mas essa possibilidade de que todos somos potenciais produtores de conteúdo de toda e qualquer natureza, modificou o conceito de audiência que por sua vez, tornou-se híbrida  e consumidora, mas também produtora e partícipe do processo de negociação das narrativas no mercado virtual em que tudo é negociado.

Essas duas pontas do processo em que o público se encontra inserido, aliado à comercialização indiscriminada de dados pessoais e ao uso indevido que se faz das informações de cada cidadão, tem possibilitado a manipulação reticular, porém segmentada  (em antítese) da massa. Como todos podem atuar no campo da construção de narrativas em diversas plataformas e torna-las viáveis através das ferramentas ofertadas por cada empresa/plataforma, e, considerando que apesar do Marco Civil da Internet no Brasil ser referência para muitos países e termos um considerável arcabouço de leis, não é possível coibir diretamente a entrada de atores perniciosos à sociedade. Assim, blogs, sites ou portais são lançados com aparência de jornalismo e passam a vender não verdades, como os que mencionamos aqui e como um grande número de páginas deste tipo que está sendo revelado através  da CMPI das fake News. Muitas dessas páginas se lançam como jornalismo, mas em essência, trabalham propaganda política partidária, disfarçada, e com grande incidência trabalham informações falsas, pautadas em depoimentos de difícil comprovação.

A legislação eleitoral brasileira  ainda engatinha no campo da comunicação na cibersociedade e não tem mecanismos que possam distinguir esse tipo de produção, muito menos, que possam diferenciar uma propaganda política de uma manifestação espontânea de um eleitor que replicou um vídeo com informações falsas ( que ele acredita  ou não como verdadeira, mas com o qual concorda), mas que prejudica a reputação do candidato que ele desgosta. Há, portanto, uma inadequação jurídica que se resume a reação e se concentra em retirar do ar vídeos e matérias que veiculam informações falsas, mas somente, depois que foram veiculadas e que foram comprovadas como falsas, logo o estrago nas reputações já está em nível bem elevado e muitas vezes, irreversível. O Judiciário brasileiro aparenta não está preparado para compreender a abrangência da indústria das informações falsas e parece perdido no meio do jogo. Os ataques cibernéticos acontecem de forma livre, transparente e contumaz.

Em audiência na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito-CPMI das fake News em 19 de novembro de 2019, Francisco Brito Cruz, Advogado e Diretor do InternetLab além de realizar um diagnóstico sobre a Internet e as eleições no Brasil em 2018, trabalhou também as novidades e os problemas ocasionados pelas novas formas de sociabilidade e aquisição da experiência, e ao final de sua fala fez algumas proposições que podem sinalizar para processos mais transparentes que ultrapassem a linha do simples controle.  Para Brito Cruz é preciso, inicialmente, discutir os valores da sociedade brasileira e nele a questão primordial da necessidade de igualdade de chances para os eventuais candidatos políticos no que concerne ao uso e visibilidade na rede mundial de computadores, a questão da liberdade de expressão e os limites do agravo ao outro, a questão da privacidade e do acesso à informação de qualidade. Para ele é preciso combinar ação de controle com inibição do uso de robots e do uso indevido dos dados dos cidadãos, independentemente de onde esteja acontecendo este uso, ou seja, independentemente de partido ou ideologia.  Trabalhar padrões para desenvolvimento de boas práticas em potenciais digitais influencers, visto que enquanto potenciais comunicadores virtuais pautados em falas de si, suas experiências e valores, muitas vezes desconhecem os direitos do outro, extrapolam a eticidade pública, quando não os limites da legalidade. Apresentar a estes personagens padrões de atuação na rede pública pode fazer a diferença no contexto do respeito social.

Um ponto de grande relevância para Brito Cruz é desenvolver um trabalho de cibersegurança em que a sociedade brasileira como um todo esteja envolvida e seja protegida, e que, portanto, não se restrinja ao mercado e ao Estado.  O Brasil precisa ainda regulamentar de forma mais dura as relações do cidadão com as grandes plataformas multinacionais, sobretudo, no item transparência. A veiculação de publicidade dentro das redes deve ser transparente e a sociedade brasileira tem o direito de saber quem paga, qual o público a que se destina e quanto se paga. Por outro lado,  o advogado Francisco Brito Cruz propõe ainda uma agenda estratégica  que defina tanto o que pode ser considerado propaganda política na internet, que possa estabelecer qual o verdadeiro prazo de início de uma campanha, visto que no espaço virtual pode-se iniciar vários anos antes, como pudemos ver nas últimas eleições e, principalmente, que defina o perfil das mensagens a serem veiculadas, sem apelo emocional, sem mensagens de ódio ou em bloco formando uma frente de guerra.  Por último, ele propõe uma responsabilização dos candidatos sobre excessos cometidos na rede. 

Por fim, vale lembrar que em 2018 as eleições foram poluídas e definidas pelas fake News. Segundo dados do estudo realizado pela Organização Avaaz através do IDEA Big Data sobre o último processo eleitoral no Brasil, cerda de 98,21% dos eleitores de Jair Bolsonaro foram expostos a uma ou mais notícias falsas durante o pleito. Destes 88,7% chegaram a acreditar que as narrativas continham um fundo de verdade. A pesquisa ainda investigou por exemplo, as fake News sobre o kit gay. Entre os eleitores de Bolsonaro, 85,2% leram notícias sobre o kit gay e 83,7% acreditaram ser verdade que Haddad havia criado e mandado distribuir o material nas escolas do Brasil.

O mais preocupante dos resultados de pesquisas foi o divulgado pela empresa de cibersegurança Kaspersky no dia 13 de fevereiro último, em que se constata que 62% dos brasileiros não sabem reconhecer uma fake News.

27 de fevereiro de 2020

O Papa, o Padre, a Mangueira e os cristãos inconscientes

A grande Mangueira deixa a lição: NÃO EXISTE MESSIAS DE ARMA NA MÃO. Aceite a verdade e abandone as fakes News ! Defenda o Brasil e suas instituições.

Recentemente, o Papa Francisco tornou-se um dos maiores inimigos dos autointitulados cristãos em nosso país. E a legião dos que o odeiam, condenam e perseguem não se restringe aos fundamentalistas neopentecostais, mas também, encontram-se entre os católicos de várias vertentes. Em suma, o Papa que para a Igreja Católica é o representante vivo de Deus na terra, transformou-se para muitos fiéis, em comunista e usurpador. Seu grande pecado, na verdade vários pecados contra o Brasil, na visão do que os perseguem: _ lutar pela Amazônia e seus povos e se declarar contra os desmandos do atual governo brasileiro. Defender a vida e não as armas. Receber Lula no Vaticano e juntos renovarem os votos pelos pobres. Vale lembrar que Lula já foi recebido por dois outros papas, anteriormente. 

O Padre Júlio Lancelotti, sacerdote católico que trabalha na zona central da cidade de  São Paulo, acolhendo jovens dependentes químicos e em situação de rua. Contexto cada vez mais comum, visto que São Paulo hoje possui uma população de rua de mais de 30 mil habitantes, completamente abandonados e ainda perseguidos pelo poder público. O Padre Júlio vem sofrendo ameaças de morte desde 2018 e, em janeiro de 2020, as ameaças vieram de policiais e foram acolhidas pelos comerciantes e outros simpatizantes da violência contra moradores de rua.

O Padre Júlio e o Papa Francisco são tão humanos, quanto Cristo o era em sua vida terrena e tanto quanto Cristo, vivem para defender os mais necessitados, isso de acordo com seus valores pessoais e coletivos, que nem sempre estão em acordo com os Cristãos que do alto de seus condomínios fechados ou de seus carros blindados, ou mesmo dos bancos da Igreja, não conseguem ver Cristo na mulher drogada, estuprada e assassinada. Não conseguem ver Cristo na criança abandonada que se transforma em delinquente para poder sobreviver. Não conseguem ver Cristo no negro perseguido apenas pela cor da pele, nesse país de hipócritas de plantão que afirmam não haver racismo no Brasil.

Tudo se trata de valores e não de verdades já nos dizia Descartes em suas Meditações há algumas centenas de anos. O Papa só é santo se não falar de política, mas para alguém que escolheu viver para os outros, falar de política e tentar esclarecer criticamente uma massa acrítica, significa lutar pela vida, pois se não falamos e não nos posicionamos ideologicamente, estamos condenando os oprimidos históricos a mais e mais opressão. Não falar de política e não falar de ideologia somente interessa aos dominantes que desejam ver o restante do povo calado e trabalhando sem direito a pensar, como uma massa que nem a cabeça levanta. 

Mas os focos de resistência são muitos e aí vem a Estação Primeira de Mangueira entrando na avenida com o Samba A Verdade vos fará livre em alusão à fala de Cristo a Verdade vos libertará. Nada mais oportuno nesse momento de obscurantismo e conservadorismo extremo em nosso triste Brasil. O título que faz alusão tanto à necessidade de olharmos para o nosso país por narrativas que não cheguem até nós pelas mídias sociais do Presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. O título faz indicação direta a necessidade de desmascararmos as fábricas de fake News que elegeram e sustentam esse governo. Mas é a letra que é extremamente profunda e apresenta um Cristo que é a representação do sofrimento brasileiro contemporâneo, pois  denuncia a violência sofrida pela MULHER, pelo NEGRO, pelo ÍNDIO e pela CRIANÇA abandonada. 

A letra representa um Cristo em sua essência mais pura, ou seja, traz um Cristo não das famílias abastadas, não dos doutores da lei, não dos templos imensos, mas o Cristo que dividia o pão, que curava as dores, as feridas e as doenças e que foi perseguido por simplesmente pensar diferente de um status quo vigente e dominante. Um Cristo das ruas, da fome, da pobreza e da dor humana.

Nosso Cristo hoje é MULHER SIM e provavelmente negra e pobre.  Nosso Cristo hoje é NEGRO SIM, provavelmente pobre, perseguido e assassinado diariamente. Nosso Cristo não usa arma na mão, algo, aliás, impensável para seus ensinamentos. 

O Presidente Jair Bolsonaro e sua legião de seguidores, sobretudo, evangélicos, condenaram o samba-enredo e a Escola de Samba, declarando que a mesma afrontou os valores cristãos. Que valores? Os de Cristo a Mangueira exaltou. Os de Cristo a Mangueira fez lembrar aos Cristãos hipócritas que rezam nas Igrejas e ficam com o dinheiro dos pobres. A Mangueira trouxe Cristo negro sendo açoitado por policiais. Para muitos a transgressão está no Cristo negro, hora quanta inconsciência histórica para não saber que Cristo nunca foi branco, não teve cabelo liso e muito menos olhos azuis. Talvez ele tivesse esta aparência se tivesse nascido na cultura eurocêntrica, mas ele apenas foi apropriado por ela, 300 anos depois de sua morte, já com Constantino. Trazer a violência policial na Escola de samba, por outro lado, revela os dados ignorados por Moro quando retira as mortes causadas por policiais do Mapa da Violência do Brasil em 2019, mentindo descaradamente para toda a nação.

E Cristo muito bem abençoou a Mangueira. O samba-enredo é narrado pelo próprio Cristo:

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra no Buraco Quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem Messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço Fé na minha gente

Que é semente do seu chão

A grande Mangueira deixa a lição: NÃO EXISTE MESSIAS DE ARMA NA MÃO. Aceite a verdade e abandone as fakes News ! Defenda o Brasil e suas instituições. 

20 de fevereiro de 2020

A desconstrução do Brasil - Ensino público e gratuito sob ataque direto

A meta é “estrangular” as IFES até que não possam funcionar.

Insatisfeito com a não adesão das Universidades e Institutos Federais ao Future-se, Programa que prevê a “privatização” da gestão das Instituições de Ensino Superior gratuito no Brasil, o Ministro da Educação, Sr. Abraham Weintraub, continua com suas empreitadas diárias de ataque a todo o sistema educacional de nível superior no Brasil.

Os professores, profissionais mais respeitados em países em que o processo democrático é avançado, passaram no Brasil a ser, não apenas discriminados, visto que esta postura discriminatória é antiga e poucos querem ser professores porque a remuneração é baixa, mas passaram também a ser perseguidos e declarados como inimigos do atual Estado brasileiro que pretende deixá-los à mingua e sem direitos.

Em meio a choques de informações que emanam do governo e enxurrada de portarias que procuram reduzir o orçamento das Instituições Federais e reduzir os direitos dos Professores e servidores, o Ministério da Educação, ora informa que não gastou o orçamento de 2019, ora informa que é necessário reduzir despesas e, portanto, os Reitores devem escolher onde cortar na carne, mas o próprio MEC sugere que seja dos adicionais noturnos, horas extras e promoções garantidas por lei, visto que investimentos e outras despesas já foram cortadas. A meta é “estrangular” as IFES até que não possam funcionar.

Por trás do ataque generalizado ao Sistema de Ensino Superior Público e gratuito duas intenções estão bem claras desde o início do governo de Jair Bolsonaro, de um lado, reduzir a formação do brasileiro a um nível funcional, operacional sem desenvolvimento do pensamento humano e crítico, transformando o brasileiro em homem/mulher lavoro, dócil e de fácil manipulação e dominação, não envolvido com política e que acredita que política se faz sem ideologia. E, por outro lado, fomentar o mercado educacional com abertura para o capital, inclusive, na gestão das Federais.

Essas mudanças propostas, caso obtenham êxito, deixarão o Brasil na mesma posição contumaz de consumidor de tecnologia e ciência externa, visto que maior parte da produção científica do país se realiza dentro das Universidades Federais. Por outro lado, a dominação continuará a se estabelecer até que não se tenha mais direitos e o sistema neoliberal venha a implodir, como ocorrido no Chile recentemente.

A mentira como padrão comunicacional

Em outubro de 2019 foi instalada no Congresso Nacional a CPMI- Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, Presidida pelo Senador Ângelo Coronel do PSD- Bahia tendo como Relatora a Deputada Federal Lídice da Mata do PSB-Bahia. A CPMI tinha como meta inicial investigar os impactos das “fake news” na sociedade; o Cyberbullying enquanto aliciamento e orientação de crianças para o cometimento de crimes de ódio e suicídio; as consequências econômicas da produção e disseminação das notícias falsas que atentam contra a democracia no mundo; e o esquema de financiamento de informações falsas durante o pleito de 2018.

Desde novembro, portanto, a Comissão vem tentando desvendar o que o Brasil e o mundo já sabem: que é o lucrativo mercado da mentira, primeiro como motor de construção da campanha eleitoral e depois como política comunicacional do atual governo.

Nesse contexto, a Deputada Federal Joice Hasselman do PSL de São Paulo e ex-líder do Governo na Câmara, em depoimento afirmou haver um gabinete do ódio nas estruturas do governo e que teria como líderes o Deputado Federal, Eduardo Bolsonaro e o Vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, ambos filhos do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Segundo a ex-aliada do Presidente, todos que discordam da família Bolsonaro são colocados numa lista e passam a sofrer ataques diretos dos robôs e das milícias digitais vinculadas a estrutura de poder do clã dos Bolsonaros ( disponível em: < https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/12/04/ex-aliada-de-bolsonaro-joice-detalha-a-cpmi-da-fake-news-como-atua-gabinete-do-odio.ghtml>. Enquanto isso, o Governo tenta minimizar os prejuízos de imagem com a CPMI e orienta os assessores convocados a depor. As atividades da CPMI ainda continuam, mas foram convocados nomes como Alan Lopes dos Santos do Portal Terça Livre (https://www.tercalivre.com.br/ ), além de especialistas em tecnologia virtual social e estratégia de comunicação política, deputados e senadores, dentre uma extensa lista. Nomes como Luciano Ayan do blog de extrema direita Ceticismo Político e Paulo Oliveira Eneas do blog Crítica Nacional, foram mencionados durante as audiências como fabricadores contumazes de fake News.

Vale destacar aqui, que não se trata de um esquema, mas de um grande mercado da mentira contumaz utilizada a partir da inspiração no modelo psicológico do FIVE 5 ou, como preferem alguns do modelo OCEAN, que detalha o perfil do público, dentre outras coisas, em termos de valores pessoais/coletivos e crenças e, a partir de então, trabalha informações falsas travestidas de notícias para conseguir a adesão massiva de parte do povo brasileiro, que muito embora, muitas vezes, tenha consciência de que se trata de fake News, ainda assim, adere e compartilha, visto que concorda com seus objetivos finais.

A misoginia como arma

A misoginia no Brasil é uma prática corriqueira de homens heterossexuais e, por vezes, de homossexuais também. As mulheres sofrem assédio, abusos, são estupradas e mortas. Nossos índices de feminicídio são estarrecedores e já tratei milhares de vezes deste tema nesta coluna. Enquanto isso, o povo brasileiro inconsciente de si, prefere debater, discutir e combater pelas redes sociais o feminismo e não o feminicídio, e continua imputando a culpa pelos crimes que sofrem, às próprias mulheres. Para além dessa aberração que é cognitiva, mas é, principalmente, uma política de dominação androcêntrica, consciente ou não; temos agora a misoginia como arma no governo brasileiro, sendo praticada pelo Presidente, seus filhos e seus seguidores em massa. A jornalista Patrícia Campos de Melo que em 2019 fez uma matéria sobre os disparos de mensagem em massa por empresas em apoio ao candidato Bolsonaro, foi atacada pelo ex-funcionário da empresa de marketing digital Yacowns Hans River do Nascimento, que em depoimento na CPMI e sem argumentos que pudessem contrariar a fala da jornalista, mentiu ao falar que Patrícia Campos propôs trocar informações por favores sexuais. Como se não bastasse, o Presidente, Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo Bolsonaro, fizeram o mesmo e para além de assediadores, se transformaram em autorizadores do assédio e da misoginia no Brasil, visto que ocupam cargos públicos de grande relevância e reflexividade. O fato é que essas ações e falas misóginas visam desqualificar o trabalho da jornalista e atinge todas nós que precisamos andar de acordo e cumprir com o estipulado na cartilha machista para podermos sobreviver neste país de hipócritas. Sejamxs todxs feministas!

13 de fevereiro de 2020

A perfeição (im)perfeita, os valores e nós: os produtos mais lucrativos

Ana Regina Rêgo - Jornalista

Jean Baudrillard, filósofo francês, em algumas de suas últimas obras, se pôs a analisar a virtualidade da vida e o que ele denominava, ora de assassinato do real, ora de cadáver do real, e foi um contumaz denunciador da complexidade que iniciava a envolver a sociedade ocidental no adormecer do século XX e que viria a se potencializar no século XXI, cujos primeiros anos ele ainda viveria.

A tecnologização da vida em sociedade, a centralidade midiática e a internalização dos processos virtuais como inerentes à vida humana passaram de processos de interação externos ao corpo e ao espírito, para compor uma essencialidade da vida no século atual. Não somente os suportes tecnológicos que nos auxiliam na comunicação, interlocução, como nos são extremamente necessários para a realização de serviços de qualquer natureza.

Nos dias atuais, um aparelho celular carrega em si, toda as potencialidades da vida na virtual, fazendo-nos sumir dos espaços reais de convivência, negociação e aprendizagem, por exemplo. Pelo celular ou pelo relógio digital, vamos ao banco, pagamos contas, conversamos diretamente, por áudio ou vídeo, enviamos e recebemos mensagens de áudio e vídeo, lemos as últimas notícias, fechamos as portas da casa, observamos o que acontece em nossas casas em nossa ausência. Respondemos mensagens por e-mail, pedimos um transporte através dos vários aplicativos, pedimos comida, compramos entradas para shows, compramos roupas, equipamentos, passagens aéreas, reservamos hotéis, planejamos viagens, batemos fotografias, filmamos nosso cotidiano e, principalmente, expomos nossa vida em nossos perfis ( avatares) virtuais nas redes sociais, dentre um sem fim de atividades diárias que realizamos.

O aparelho que carregamos em nossas mãos como se fossem uma extensão do corpo, especificamente, como extensão dos membros superiores, mas também dos olhos, pois representam uma janela infinita para um mundo infinito, encontra-se ligado a um número considerável de aplicativos que por sua vez, pertence a empresas que conformam o mercado virtual e possuem grande poder sobre os usuários. É bom pensar, que a maioria dos aplicativos que utilizamos nos chegam de forma gratuita e aparentemente nos empoderam do ponto de vista da fala, da reverberação do nosso discurso e da reflexividade desse em determinado contorno social.

Já na década de 1990, Braudrillard percebia que as sociedades caminhavam movidas por uma forte compulsão e por necessidades criadas mercadologicamente, que se revelavam através de uma nova bios, que por sua vez, agindo sobre todos, por meio das tecnologias da comunicação que agregam interação e afetividades, se expande por meio do que denominamos de “[...] rodovias da informação, que bem poderiam ser chamadas de rodovias da desinformação”.

Para Baudrillard, o desaparecimento do real frente ao que denominava de crime perfeito, ou seja, o tempo real, a instantaneidade aliada à ubiquidade informacional, tem em seu processo não uma ausência de realidade, mas um excesso. O deslocamento para um mundo virtual teria em sua visão provocado uma superação da alienação, e teria nos levado a um estado de privação do Outro, de qualquer alteridade ou negatividade. A exposição de um mundo perfeito em um tempo perfeito, em uma realidade pura e absoluta, livre de todo e qualquer mal, sem doenças, sem feiura, sem infelicidade, comporiam o crime perfeito, que contra o próprio atingiria sua perfeição que seria também o momento de desaparecimento. Mas como diz o próprio Baudrillard o crime não é perfeito e as fissuras que então se anunciavam e eram vistas por poucos, tornaram-se hoje, verdadeiras crateras da infelicidade e da manipulação que pregava ultrapassada pelo empoderamento social nas infovias.

Como bem afirma este autor, a visão mais comum aponta o virtual como oposto do real, todavia, em seu entendimento, o real é inapreensível, portanto, em essência uma simulação de si mesmo. O que há em sua visão, são efeitos de real que se coadunam com efeitos de verdade, efeitos de objetividade, mas o “ real em si não existe”, logo para Braudrillard, o virtual seria o hiper-real. Um lugar que nasce tendendo a perfeição e que hoje se lança no abismo dos acirramentos traçados no hiper-real e que chegam ao espaço social concreto, contudo, sem essa consciência contida no pensamento do filósofo em pauta. O virtual “é o que nos pensa: não há mais necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas”.

Ao pensar a relação entre o objeto de acesso ao virtual no que ele denomina de senhas, ou seja, os códigos e os signos, a linguagem, os discursos e o que tudo o que poderia produzir lugares de trocas simbólicas e o sistema de valores, Baudrillard avalia que poderia ser possível uma possibilidade das coisas circularem sem que as trocas fossem forjadas pelo valor de uso ou pelo valor de troca, muito embora houvesse a presença de uma consciência, de que ao lado dos valores mercadológicos, existem os valores morais, como também os estéticos, que terminam por estruturar um sistema de valores em que se determina o bem e o mal, numa concepção mais próxima de Nietzsche. Entretanto, ao pensar a possibilidade sociedades não pautadas em valores, Braudrillard já alertava para um possível “[...]curto circuito no sistema de valores e na esfera de influência que ele alicerça”.

Todavia, na contextualidade analisada por Braudillard diferentemente dos dias atuais, o espaço virtual teria supostamente aberto mão dos valores em favor de uma compulsiva promoção da informação, através de um processos tecnológicos e computacionais que fariam os efeitos de real desaparecem. Entretanto, o filosofo parecia desconfiar de que o crime perfeito teria algo a mais em sua aparente transparência holística, guardando nas sombras suas verdadeiras intenções, visto que, “ [...] podemos igualmente pensar que tudo isso não passa de caminho mais curto para uma jogada que não podemos ainda discernir qual seja”.

Efetivamente, são os valores que vão implodir com o crime perfeito baudrillardiano, são valores expressos e expostos em nossos perfis que após minerados, garimpados e vendidos, permitem a polarização das sociedades nos dias atuais e, portanto, são as nossas essências tornadas transparentes e muito distantes da perfeição pensada, que em si, são os principais produtos de um mercado virtual, pautado em ideologias potencialmente, morais e posições econômicas neoliberais.

Nesse cenário de uma vida virtual, enquanto projeção do real ou como uma hiper-realidade nos termos de Braudillard que nos tornamos escravos de um sistema de valores e de um grande mercado informacional e simbólico, em que somos os produtos principais.

06 de fevereiro de 2020

Controlados, vigiados e manipulados

Os processos comunicativos e tecnológicos terminam, nesse contexto, a intervir na percepção temporal social, criando um tempo contínuo e intermitente no qual não é possível parar.

Nasce com Gilles Deleuze o conceito de sociedade do controle e este o constrói a partir de uma distinção potencial em relação à sociedade disciplinar trabalhada anteriormente por Michel Foucault. Para Deleuze a sociedade do controle teria nascido nas últimas décadas do século XX e seria marcada por uma crescente intromissão das instituições estruturais da sociedade na vida cotidiana dos cidadãos. Uma sociedade sem limites definidos composta por redes que se interconectam de forma crescente, e que possuidora de uma potencial e crescente centralidade na vida das pessoas, passa a regular as camadas sociais, a partir do Estado ou do mercado.

Os processos comunicativos e tecnológicos terminam, nesse contexto, a intervir na percepção temporal social, criando um tempo contínuo e intermitente no qual não é possível parar. Nessas sociedades em que o controle passa a se estabelecer, a participação social não se dá mais por uma assinatura ou marca de cada indivíduo, que o separa e o une à massa, mas se consolida pelo o que autor denomina de cifra, que em tese seria uma senha que permite ou não permite o acesso ao mercado informacional.

Essa passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do controle é simbolicamente, representativa do processo de desconstrução do sujeito social e sua transformação em dados e em produto de um mercado virtual.

Marcados por números que vão do cadastro de Registro Geral, passam pelo cadastro de Contribuinte Pessoa Física, pelo cadastro do Sistema Único de Saúde e nos leva aos números de cada cartão de crédito ou débito, assim como, contas bancárias e todas as movimentações do sistema financeiro das quais participamos, terminamos de modo crescente nos transformando em números e senhas. Isso nos torna dados informacionais e tudo o que fazemos no espaço físico ou no mundo online, nos transforma em público consumidor e, ao mesmo tempo, em produtos.

Vale, portanto, pensar que se nas sociedades disciplinares a organização e circulação das informações se dava em um fluxo vertical, notadamente de cima para baixo. Na sociedade do controle a informação circula de modo reticular e permite a visualização de uma aparente liberdade tanto para produzir, quando para consumir informações.

O nascimento da web trouxe à tona a possibilidade de uma potencial cibersociedade e de uma holística e compartilhada cibercultura. A crença nas possibilidades positivas do mundo virtual como um lugar perfeito, desmorona tão logo percebemos que muitos aspectos da liberdade possibilitada para empresas e pessoas, terminam exacerbando o seu uso e trazendo consequências éticas e grandes problemas sociais.

Em grande medida as potencialidades do mundo da web ao tempo em que possibilitaram e possibilitam ações sociais locais e globais de caráter positivo e construtivo, também em igual força e vigor, possibilitam movimentações mercadológicas controladoras e centralizadoras, assim como, a organização de pensamentos perniciosos ao contexto geral para comunidades e sociedades.

Aparentemente as instâncias de poder estão diluídas e não podem ser localizadas facilmente, visto que todos podem produzir conteúdos e se tornar influencers, contudo, ao se observar o fenômeno de perto verificamos que o capital se transferiu para as infovias e nelas criou novos modos de atuação, atração e controle dos públicos com práticas de recompensa não mais diárias, mas a cada segundo, ou cada like.

Empresas e seus aplicativos, possuem todos os dados de seus consumidores, fazendo-os avaliar os serviços que utilizam e serem avaliados por suas ações de reciprocidade. Nossas ações nos dias atuais já estão tão naturalizadas que passamos a defender o controle/julgamento do outro e dos serviços ofertados em um mercado cada vez mais universal. Dos aplicativos de transporte sem regulamentação trabalhista, onde avaliamos os motoristas a cada corrida e somos avaliados, aos aplicativos de entrega de comida em que avaliamos o alimento e a pontualidade dos restaurantes que estão ofertando seus serviços no aplicativo, passando pelos aplicativos de busca de relacionamento ou pelos sites e aplicativos que pontuam restaurantes, hotéis, pousadas, pontos turísticos de todo o mundo, ou ainda ao sites e aplicativos em podemos reservar hotéis, ou onde reservamos casas ou apartamentos de particulares para temporadas de férias, ou seja, por onde nos movemos na intersecção entre os espaços físicos e hiper-reais, somos controlados, vigiados e somos agentes do controle e do julgamento e também vigiamos a tudo e a todos.

Nas redes sociais como vimos acima, essa estrutura de ação é potencializada pelas possibilidades postas e pelo trabalho direcionado para cada perfil. Um like traz até nós uma mensagem política/ideológica, ou, determinado livro ou produto. Uma curtida nos expõe e nos oferta como produto que somos, ao tempo em que recebemos pontualmente os produtos que devemos consumir ou as mensagens com as quais parecemos concordar a partir dos valores que manifestamos.

Em alguns espaços da web, a questão tem sido motivadora de potencialidades complicadas, por exemplo, a ferramenta do Google: Google Adsense que incentiva a monetização de sites a partir da visibilidade que os conteúdos de cada site, possa vir a ter. Essa ferramenta tem sido uma impulsionadora contumaz de práticas que levam a produção e circulação de informações falsas, propagadas em época de polarização política. Obviamente, pressupõe-se que lucrar com notícias falsas parece ser um efeito colateral da ferramenta e, portanto, não intencional em sua base.

Para o site The Intercept Brasil, no entanto, nem tudo parece ser somente consequências não previstas. Em matéria veiculada em 19 de novembro de 2019 e denominada Grana por cliques: Fake News a 25 mil por mês: como o Google treinou e enriqueceu blogueiros antipetistas. Na matéria, os jornalistas Roberto Ghedin, Tatiana Dias e Paulo Victor Ribeiro afirmam que seis blogueiros se reuniram na Google Brasil em São Paulo ainda em julho de 2016, a convite da própria Google que ofereceu um treinamento de como aumentar os lucros do site ou blog a partir do Adsense, que facilita o encontro entre quem produz conteúdo e quem veicula anúncios publicitários. Os sites e blogs, cujos donos foram treinados nessa ocasião se especializaram em divulgar informações falsas durante o processo eleitoral de 2018, arrebatando lucros com o aumento do público.

Ainda segundo a matéria, alguns blogs viraram canais no You Tube e continuam se utilizando de ferramentas de potencialização de visibilidade e aumento dos lucros. O Top Tube Famosos (do mesmo dono do The News Brazil) possui 851 mil assinantes e mais de 150 milhões de visualizações – faturando, no mínimo, R$ 6 mil por mês com anúncios, segundo informação do The Intercept Brasil. 

31 de janeiro de 2020

A desilusão democrática

Na última década tem crescido em todo o mundo ocidental, um sentimento negativo em relação a democracia e seus processos.

Nas décadas finais do século XX a maioria dos cidadãos de países ocidentais ainda eram adeptos e defensores do sistema democrático, principalmente, pela experiência vivenciada, tendo em vista as violências vividas e o estado de exceção em que muitos estiveram mergulhados. Essa posição pró-democracia tinha como base, sobretudo, a experiência de regimes totalitários e ditatoriais em muitos países, assim como, as grandes guerras mundiais, além das guerras setoriais em que os Estados Unidos e vários países do ocidente estiveram envolvidos. Todavia, na última década tem crescido em todo o mundo ocidental, um sentimento negativo em relação a democracia e seus processos. Jacques Rancière tratou deste tema em seu livro O ódio à democracia publicado nos primeiros anos do século XXI.

Ao que parece, pessoas com idade superior a 40 anos possuem uma relação de confiabilidade maior para com a democracia, do que os jovens. Todavia, este é um parâmetro complexo e deve relativizado conforme a temporalidade e contextualidade da amostra analisada. Mas o fato é que o quadro de desilusão democrática vem crescendo de forma galopante e tem atingido as inúmeras faixas etárias em vários países, incluindo Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Suécia, países que historicamente se colocaram como pilares do sistema.

Essa insatisfação com a democracia tem possibilitado a ascensão de líderes populistas e autoritários tanto de extrema direita, quanto de extrema esquerda, inclusive com grande apoio popular. Na década de 1990 cerca de 34% dos jovens norte-americanos apoiariam um líder autoritário sem parlamento ou eleições, contra 44% dos jovens entrevistados em 2011. No que concerne aos adultos, em 1995 cerca de 24% apoiariam um tirano contra 32% dos entrevistados na última pesquisa, apontando um crescimento no sentimento de ódio à democracia e de apoio a regimes totalitário. 

No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha durante o processo eleitoral de 2018 apontou que 69% dos brasileiros preferiam a democracia naquele momento, contra 12% dos que apoiavam um regime ditatorial, embora o resultado eleitoral viesse dias depois a apontar para outro caminho. Entre os eleitores do atual presidente, Jair Bolsonaro, no entanto, 22% apoiavam uma ditadura. 

Esse índice de apoio a democracia vem caindo e uma pesquisa atual realizada pelo mesmo Instituto Data Folha, revelou uma queda de 7% entre os brasileiros que acreditavam e apoiavam um regime democrático. Todavia os adeptos de um regime ditatorial permaneceram no mesmo patamar de 12%, o que cresceu foi o número de indiferentes a qualquer dos sistemas avaliados. 

Uma pesquisa realizada em 2017 revelou que o número de eleitores alemães que apoiariam um líder totalitário cresceu de 16% para 33%. Já entre os franceses o número saltou de 35% para 48%. No Reino Unido, onde há duas décadas cerca de 25% apoiariam um déspota, hoje 50% dos eleitores estão favoráveis à um líder autoritário.

Os motivos para a desilusão democrática que cresce a passos largos em todo o globo, são muitos e possuem contextualidade e temporalidade definidas por cada espacialidade que vem vivenciando as variações do sistema democrático.

Teoricamente, a democracia liberal deveria congregar a satisfação da vontade popular estruturada pelo Estado de Direito, todavia, muitas vezes, o Estado de Direito parece ir contra não só a vontade popular, mas contra os direitos individuais. Aquilo que deveria ser proteção se transforma em opressão e limitador da vida em sociedade. Quando isso acontece, como nos dias atuais em nosso Brasil, a democracia embora mantenha características macro definidas, não mais atende aos seus propósitos universais.

Como bem nos alerta Amartya Sem, características como o voto secreto e universal são importantes para a instauração e sucesso de uma democracia, assim como, para expressão pública em um contexto social, todavia, o voto por si só, pode ser, inclusive, inadequado ao processo democrático, como podemos visualizar nos inúmeros casos de tiranos eleitos que se perpetuam no poder pelo apoio popular. Para este pensador indiano e professor de Harvard, o sucesso de uma eleição depende do contexto que a acompanha, como o nível de liberdade de expressão de uma sociedade, o acesso que esta sociedade possui a informação de qualidade e a liberdade de pensamento e discordância.

Entretanto, os problemas não se restringem a pressão política em volta dos eleitores, mas também a censura, pelo silenciamento de informações primordiais, pela manipulação midiática articulada pelos grandes conglomerados de mídia, ou pela fábrica de informações falsas e de construção de um processo ignorância intencional.  Como bem afirma Amartya Sem, na “verdade, um grande número de ditadores no mundo tem conseguido gigantescas vitórias eleitorais, mesmo sem coerção evidente sobre o processo de votação, principalmente suprimindo a discussão pública e a liberdade de informação, e gerando um clima de apreensão e ansiedade”.

Um sistema democrático liberal legítimo deveria estruturar suas Instituições e torna-las sólidas com vistas a garantir os direitos do cidadão em todas as esferas, garantindo igualdade de direitos e oportunidades para todos os participantes de uma Nação. Todavia, sendo articulado a partir de um sistema de poder que se estrutura em cima de um modelo de convencimento social, termina sendo prostituído por uma rede de indivíduos que tem como intencionalidade a manutenção do poder em detrimento da grande maioria da população. Para tal feito, terminam por legislar em causa própria e excluir grande parte da sociedade, dos direitos que deveriam ser garantidos pelo Estado e que lhe proporcionaria igualdade de condições de vida.

Em última instância, vale lembrar que uma democracia possui uma ampla estruturação institucional que se destina a manutenção e estabilidade do sistema e que circundam a estruturação dos poderes. Desse modo, uma democracia liberal necessita que todas as instituições funcionem muito bem, e que os princípios democráticos e liberais estejam afinados entre si.  Entretanto, embora teoricamente as democracias liberais possuam inúmeros meios e instituições de controle e de manutenção do sistema, os líderes de inclinação autoritária podem se apropriar do próprio aparato democrático para dissolver as bases da democracia, transfigurando o modelo governamental, a partir da transformação dos direitos em não direitos, por via legal.

Por fim vale lembrar as palavras de Christian Dunker, psicanalista brasileiro, quando este nos fala sobre as diferenças entre uma democracia inclusiva e uma democracia que exclui seus cidadãos da esfera dos direitos. Para ele, uma democracia inclusiva tem a pretensão de ampliar o escopo dos que dela participam, enquanto que uma democracia exclusiva, se resigna a manter ou reduzir a extensão do sujeito democrático no contexto do horizonte político. Excluir ou incluir depende de como negociamos nossa condição de indivíduos diante de formações de grupos, de classe e de massa.  Fica a dica para pensar em nosso Brasil nos dias de hoje.

23 de janeiro de 2020

Nota de repúdio à portaria nº 2.227 de 31 de dezembro de 2019

A Portaria 2.227 além de potencializar a burocracia dos deslocamentos nacionais e internacionais que agora passam todos pela vigilância e total controle do MEC.

A SOCICOM e as Associações Científicas e Acadêmicas do Campo da Comunicação abaixo assinadas, vêm a público repudiar a Portaria 2.227 publicada pelo Ministério da Educação no dia 31 de dezembro de 2019 e que “dispõe sobre os procedimentos para afastamento da sede e do país e concessão de diárias e passagens em viagens nacionais e internacionais, a serviço, no âmbito do Ministério da Educação”.

O documento configura-se como uma normatização de extremo controle e visa, notadamente, limitar o acesso dos servidores/professores/cientistas/pesquisadores a eventos de diversas naturezas, em que apresentam o resultado de suas pesquisas e em que, ao mesmo tempo, mantém interlocução com os pares, objetivando o aprimoramento e a troca de conhecimentos.

A Portaria 2.227 além de potencializar a burocracia dos deslocamentos nacionais e internacionais que agora passam todos pela vigilância e total controle do MEC, define no Capítulo XVI das Disposições Finais, em seu Artigo 55 que a “ participação de servidores em feiras, fóruns, seminários, congressos, simpósios, grupos de trabalho e outros eventos será de, no máximo dois representantes para eventos no país e um representante para eventos no exterior, por unidade, órgão singular ou entidade vinculada”. E vai além no Parágrafo Único do mesmo Artigo, ao detalhar que somente o Secretário-Executivo do MEC poderá autorizar um número maior de participantes em eventos, desde que devidamente justificado.

Já o Artigo 62, embora delegue competência “aos dirigentes máximos das universidades, institutos federais e demais autarquias, fundações e empresas públicas vinculadas ao MEC para autorizarem, no âmbito de suas respectivas entidades, o afastamento da sede e a concessão de diárias e passagens para deslocamentos nacionais e internacionais [...]”, o faz dentro do que dispõe a presente Portaria, não permitindo, na prática, que as Instituições Federais tenham liberdade para autorizar um número de afastamentos superior, mesmo que seja do interesse das Universidades e seus Programas de Pós-Graduação, por exemplo.

Vale, portanto, ponderar que o Artigo 55 da Portaria 2.227/19 fere o Artigo 207 do Capítulo III da Constituição Federal, que diz que as “ Universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”; visto que limita a liberdade de gestão das Instituições Federais, por um lado, e, por outro, objetiva destruir a tridimensionalidade do conhecimento e os vínculos indissociáveis entre ensino, pesquisa e extensão, limitando inicialmente a visibilidade da produção científica das IFES, e objetivando a médio prazo coibir ações de pesquisa no âmbito das Universidades Federais, responsáveis pela maior parte da produção científica do Brasil.

Tal medida tem a intencionalidade clara de desarticular o sistema de produção e circulação de conhecimento em nosso país, potencialmente articulado pela rede de associações científicas que fomentam a pesquisa e fazem circular o conhecimento entre os públicos de interesse e a sociedade, a partir de eventos, revistas científicas e demais publicações.

Os eventos científicos serão prejudicados, tanto quanto os pesquisadores. E mais, a Portaria em pauta, também desarticulará as redes nacionais, uma vez que são compostas por grupos e/ou núcleos de pesquisa que trabalham com temáticas e observáveis comuns, logo a imposição do controle e restrição da participação de pesquisadores nos encontros das redes, intenciona quebrar a “coluna vertebral” da construção do conhecimento em nosso país.

Esse movimento imperativo contraria a política nacional de pós-graduação que, por sua vez, impõe produtividade anual aos docentes/pesquisadores e avalia os programas, além de fomentar a participação em redes nacionais e internacionais de pesquisa, configurando, inclusive, a necessidade de internacionalização da produção cientifica.

O Ministério da Educação no atual Governo segue em seu firme propósito de desmantelar o sistema público de ensino superior construído ao longo de décadas, assim como de desarticular toda a cadeia de construção da pesquisa, direcionando a política nesse âmbito, para uma atuação mercadológica, o que limitará o acesso da população mais pobre às universidades, como também, restringirá as investigações científicas ao interesse do mercado.

Pelo exposto repudiamos e conclamamos as forças democráticas brasileiras a agir contra tal medida que se configura como uma imposição autoritária.

São Paulo, 21 de janeiro de 2020

SOCICOM-Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação

ABCIBER-Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura

ABEJ- Associação Brasileira de Ensino em Jornalismo

ABP2- Associação Brasileira de Pesquisadores em Publicidade

ABPCOM- Associação Brasileira de Pesquisadores e Comunicadores em Comunicação Popular, Comunitária e Cidadã

ABRAPCORP- Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas

ALCAR- Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia

COMPÓS- Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

FOLKCOM- Rede de Pesquisadores em Folkcomunicação

FORCINE- Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual

INTERCOM- Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação

SBPJOR- Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo

ULEPICC- União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura- Seção Brasil

19 de dezembro de 2019

Paulo Freire x O Energúmeno

Já sobre o energúmeno verdadeiro e atual em nosso triste Brasil: Nada a declarar. O desprezo é a melhor resposta.

Quando muita gente faz discursos pragmáticos e defende nossa adaptação aos fatos, acusando o sonho e a utopia não só de ser inúteis, mas também de ser inoportunos enquanto elementos que necessariamente formam parte de toda prática educativa que desmascare as mentiras dominantes, pode parecer estranho que eu escreva um livro chamando Pedagogia da Esperança um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.

Paulo Freire

Em 2009 enquanto fazia estudos de doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona, me deparei com Paulo Freire novamente, a primeira vez foi aos 17 anos quando ingressei no curso de Letras na UFPI, mas na Espanha o encontro foi muito mais provocador, visto que durante uma mesa redonda, fui confrontada com a realidade da desigualdade social do nosso país. Mais de um interlocutor presente naquele encontro de um março frio, me perguntava como o povo brasileiro pode aceitar tanta desigualdade social. Eu era indagada sobre o porquê a sociedade não ser solidária, me perguntavam porque preferíamos fazer caridade a mudar realidades. Eu não tinha as respostas e ainda não as tenho, apesar de todas as teses de um povo inconsciente de si, conservador e opressor.

Uma pergunta em particular nunca saiu da minha cabeça: _como um país que tem um dos maiores pensadores do século XX, um dos maiores transformadores das práticas educacionais em todo o mundo, pode ser tão ignorante do ponto de vista de uma cegueira moral generalizada? Paulo Freire era então citado, como o é hoje, como uma das grandes referências do pensamento em todo o mundo. Com inúmeros livros publicados e traduzidos para inúmeros países, o educador pernambucano é a nossa maior referência.

Então porque tanto ódio à sua pessoa e sua obra? E de onde vem esse ódio? À primeira vista é preciso perceber que esse ódio é histórico e sua narrativa remonta a década de 1950 quando Paulo Freire começava os primeiros passos com a educação popular com o intuito claro de transformar a realidade do povo pobre brasileiro. Essa narrativa, assim como, a narrativa anticomunista com seus estereótipos sintéticos, retornam sempre que o status quo da classe dominante se vê ameaçado. Retornamos sempre ao mesmo ponto, ou seja, não conseguimos ver os componentes do povo, como detentores de direitos e mais, criamos em nossa sociedade, o ódio e o desprezo ao pobre, preferindo não enxergar que a pobreza é uma construção social injusta em um país de egoístas e gananciosos que na luz, se colocam como benfeitores, fazendo da caridade o passaporte para o lugar de um bem que acreditam existir em seus mundos, mas que muito dista do real.

Paulo Freire, assim como, muitos de nós, enxergava na educação e não no assistencialismo, o poder para a transformação social. Seu primeiro livro Educação como prática para a liberdade, lançado no início da década de 1960, trazia na educação enquanto um processo dialógico e dialético, conformador de trocas entre alunos e professores, a chave transformadora, deixando de ser um processo de transmissão de

ideologias dominantes e de opressão, para se tornar o caminho para a liberdade e o encontro. O livro Pedagogia do Oprimido lançado alguns anos depois tornou-se universal e foi traduzido para várias línguas e vendido em vários países. Nele, Paulo Freire apresenta uma pedagogia emancipatória para o povo oprimido. Lembrando sua realidade de observação era o Brasil e o nordeste. A sua preocupação era trabalhar a educação para transformar o sujeito consciente de sua importância social e de seu lugar no mundo. Ele propunha uma educação unificadora em que ação e reflexão caminhassem juntas. Dar ciência ao sujeito de que ele não é pobre porque um Deus quis, mas porque os homens assim o mantiveram, não somente com imposição e dependência econômica, mas também pelo discurso de superioridade, aceito sem questionamentos, pela ausência de uma educação libertadora e crítica.

Para Paulo Freire, mais do que a conscientização do povo, a educação deveria ser o encontro entre saberes, portanto, em sua pedagogia há uma centralidade do sujeito enquanto ser transformador em um mundo. Paulo Freire valorizou a cultura, a memória, a oralidade, os saberes tradicionais e provocou uma sociedade tradicional conservadora, que se achava e se acha dona do processo civilizatório e trabalha para que este esteja sempre a favor da manutenção de seus privilégios. Ao revelar o silêncio imposto pelos opressores aos oprimidos, Freire expôs a sombra coletiva de uma sociedade injusta e de um povo hipócrita, características que aliás ainda continuam conosco. Todos vão a Igreja rezar e arrecadar donativos para o Natal, mas não desejam ver os filhos desses mesmos pobres nos bancos das universidades junto com seus filhos.

O aluno, enquanto sujeito histórico é, para Paulo Freire, a chave principal para o processo de transformação dos sujeitos individuais e da coletividade. Através das palavras geradoras e comuns às ações do cotidiano, o eterno patrono da Educação brasileira, abriu para os educadores o caminho para o desenvolvimento e para o encontro do pensamento com os educandos, sobretudo, com os adultos. Educar não se trata de transmitir conhecimentos, mas de reconhecer no educando os seus saberes e construir um processo inter relacional.

Paulo Freire publicou mais de 40 livros. Atuou como professor em várias universidades pelo mundo, com destaque para Harvard ( EUA) e Cambridge ( Inglaterra). Recebeu mais de 40 títulos de Doutor Honoris Causa em universidades brasileiras e estrangeiras.

Mais de vinte anos depois do lançamento de Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire lançou Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, livro também traduzido, ao lado de quase toda sua obra, para as línguas mais faladas no mundo. Nesse livro o educador, [...] sintetiza os temas gestados em meio às lutas sociais que convulsionam a América Latina e os povos do Terceiro Mundo e que provocaram suas reflexões, formuladas no ritmo dessas lutas, sobre a necessidade de sobreviver e vencer a opressão da dominação”. Em suas palavras, localizadas no último livro mencionado aqui, a esperança é outra chave para a vida, logo, “ Por outro lado, sem poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessidade de luta por melhorá-la sem a esperança e sem o sonho. A esperança é uma necessidade ontológica, a desesperança é esperança, que perdendo sua direção, se converte em distorção da necessidade ontológica”.

Então tenhamos muita esperança para o Brasil em 2020!

Já sobre o energúmeno verdadeiro e atual em nosso triste Brasil: Nada a declarar. O desprezo é a melhor resposta.

12 de dezembro de 2019

Agnotologia e a produção da ignorância

Tornou-se comum e corre de boca em boca, tomada de forma crítica, mas também, apropriada pelos produtores intencionais de ignorância.

Caríssimos leitores! Hoje vamos falar de ignorância produzida a partir da instauração de um processo de dúvida no seio da sociedade. Vivemos em um momento em que a palavra mediocridade, como sinônimo de uma concentração da ignorância, sobretudo, relacionada ao pensamento, relacionada a ética e a uma boa educação, que nada tem a ver com um processo civilizatório eurocêntrico, mas que tem a ver com índole e com as boas intenções; tornou-se comum e corre de boca em boca, tomada de forma crítica, mas também, apropriada pelos produtores intencionais de ignorância.

Estamos vivenciando uma proliferação de contra-narrativas científicas, históricas, educacionais em vários pontos do planeta que, teoricamente, já haviam ultrapassado o estágio da ignorância e onde a cientificidade aparentava ter voz preponderante. Ledo engano, os indivíduos e as sociedades encarceradas em valores, em muitos casos de um conservadorismo que remete à idade média, tem abraçado com grande empolgação os discursos que descredibilizam a ciência, a história e os avanços da medicina, por exemplo.

Nesse contexto o historiador americano Robert Proctor da Universidade de Stanford cunhou na década passada, o termo Agnotologia e publicou em parceria com Londa Schiebinger o livro Agnotologia da construção e descontrução da ignorância, disponível no site da própria universidade no link https://www.sup.org/books/title/?id=11232 .

A agnotologia dedica-se a estudar os meios utilizados para produção de um processo coletivo de ignorância no seio da sociedade, como temos visto com maior clareza, recentemente, nas eleições de 2016 nos Estados Unidos, nas eleições de 2018 no Brasil, um pouco antes em países da África, assim como, no processo do Brexit na Inglaterra, dentre vários outros países e contextos.

Em síntese, dedica-se a estudar os fenômenos da desinformação deliberada produzida culturalmente e socialmente com o intuito claro de promover um processo de ignorância social e coletivo, tendo a dúvida como motor desse processo de construção de outras versões que se afastam da factualidade, muitas vezes inegável e redundantemente visível.

Vale destacar que o mainstream político atual adotou e acolheu essa prática a partir de uma contextualidade complicada que, infelizmente, não temos espaço ou tempo para aqui detalhar, contudo essa prática de produção intencional da ignorância a partir das fábricas de desinformação (fake News, pós-verdade, etc.), impulsionadas pelas possibilidades tecnológicas com o uso de bots, trolls, algoritmos, etc., mas também com a apropriação dos métodos jornalísticos e históricos para construir as verdades em seus campos; nasceu no campo mercadológico e, mais especificamente, na indústria do tabaco, embora as raízes históricas estejam no começo do século XX.

As grandes corporações da indústria do tabaco ainda nas décadas de 1970 e 1980, momento em que se começava a questionar as consequências do consumo de tabaco para a saúde e a sociedade civil norte-americana se organizava para limitar as formas de visibilidade do produto, de modo a diminuir a influência no público que se via seduzido pelos lindos comerciais em que o cigarro era sempre associado à juventude, beleza, sucesso e saúde.

O documento O tabagismo e a proposta de saúde escrito pela empresa Brown & Williamsom que deveria ter sido adotado pela indústria do cigarro e outros produtos tabagistas, para tentar neutralizar as ações dos grupos sociais antitabagistas naquele país, revela os passos necessários para criar no público, primeiro a dúvida, depois a certeza e a garantia da parcela de mercado consumista.

A primeira das estratégias seria o trabalho a partir da mídia de massa. Mapear os locais em que se há necessidade e abertura para especialistas colocarem seus posicionamentos, de preferência, contrários ao que diziam os cientistas. Cooptar especialistas favoráveis à sua causa e colocá-los em locais chaves da mídia, contrapondo, no caso do tabaco, a ideia de que o cigarro faz mal à saúde. Nesse sentido, os cientistas que desenvolveram e desenvolvem trabalho sério para tentar impedir que o câncer provocado por determinados produtos se torne epidêmico, passa a ser contestado por pessoas alçadas midiaticamente à condição de cientistas/especialistas, mas cujos trabalhos são apenas produções narrativas sem base real. Esse processo tem sido adotado de forma generalizada para as questões do clima e da sustentabilidade ambiental, por exemplo, mas também para a questão da eficiência das vacinas.

Como suporte a essa primeira ação, a ciência também precisava ser cooptada para gerar credibilidade e é aí que se entra com a criação de pseudocientistas, pseudojornalistas, pseudohistoriadores que são pagos para tratar temas favoráveis aos grandes mercadores. Como também pseudocientistas políticos que dão base a um pensamento medíocre que procura fundir as bases do totalitarismo sob o manto democrático. Nessa trajetória de construção da ignorância vários institutos think thanks criam formas e fórmulas de construção de pseudoverdades a partir da utilização artificial de métodos utilizados no campo científico. Chegando, inclusive, a criar cópias dos relatórios de instituições renomadas como a ONU e seu relatório sobre as mudanças climáticas, obviamente, inserindo dados fictícios.

O último pilar de implantação da estratégia da ignorância é também o primeiro, ou seja, é trabalhar desde a base, desde o processo de educação, portanto, são contra-narrativas que visam trazer a ignorância para o berço, por esse motivo, Paulo Freire está sendo tão escrachado. Um pensador brasileiro (do sul do planeta) que influenciou e é referência em todo o mundo, por ter criado métodos de educação crítica, que não só ensina a ler e escrever, mas que ensina a pensar, é de fato um homem pensamento que ameaça as intenções da dominação medíocre e conservadora que hoje tenta se impor em nosso país, a partir da cooptação das mentes e corações abertos a esse tipo de discurso.

Quantos e quantos vídeos, criados intencionalmente, para geral a ignorância chegam a nós através dos grupos familiares (vale destacar que os grupos familiares no Brasil são os maiores difusores de fake News) e que falam que as mudanças climáticas são invenções. Esses são repassados como verdades por uma grande porcentagem de brasileiros, mesmo que os problemas estejam batendo à nossa porta, com vários tipos de desastres ambientais acontecendo e se anunciando pelo mundo.

Quantos e quantos vídeos em formato jornalístico chegam a nós enviados pelos nossos parentes e que tratam de elogios aos governos da ditadura civil-militar negando que houve um processo ditatorial e elogiando os processos econômicos daquele tempo, assim como, a sensação de segurança que aparentava existir, quando a aparência somente encobria os rastros de sangue da violência governamental, em que o pensar diferente era crime.

Nos grupos evangélicos a produção da ignorância passa por ataques ao movimento feminista, pelos ataques aos avanços da medicina e pela louvação extrema a palavra de um Deus que discrimina o outro e não respeita as demais crenças, não respeita o direito à liberdade de pensamento e de expressão. Condena as religiões de matrizes africanas e seus deuses. Condena as culturas indígenas e querem “evangelizar” em um processo de dominação similar ao que sofremos no “encontro” cultural de 1500.

Fiquemos todos atentos. Somos todos alvo das estratégias de construção da ignorância. Fica a dica!

05 de dezembro de 2019

Rancière, a atualidade e as polêmicas “democracias” no Brasil e nos EUA

Confira o texto publicado pela colunista Ana Regina Rêgo no Jornal O Dia.

Em entrevista concedida ao jornalista Joseph Confavreux e publicada no site MEDIAPART em 03 de dezembro do corrente ano, Jacques Rancière, filósofo francês analisa a ordem dominante e as complexas confusões políticas do momento e, em várias respostas, Rancière se refere ao presidente do nosso país, Jair Bolsonaro, assim como, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Vale ressaltar que estes se destacam no cenário mundial como personagens de um mundo da política de tendências não democráticas e que se mantém no poder graças aos esgarçamento dos valores das instituições que se dizem democráticas, mas que ao final, servem ao poder dominante, diga-se de passagem ao capital.

Lembrando que há cerca de 15 anos, Rancière lançou um pequeno e polêmico livro em  que denunciava o ódio das elites à democracia. Na visão deste autor, o ódio à democracia não é novo, no entanto, a potencialização do mesmo ao status democrático é algo contemporâneo.  Em sua percepção é possível identificar a expansão desse sentimento negativo há algumas décadas, visto que o governo democrático passou a ser entendido como “mau” quando privilegia os direitos da coletividade.  Enquanto que os “bons” governos democráticos se voltam para a liberdade e direitos individuais. Trata-se do modelo de democracia liberal em que o individualismo pregado pelo mercado do “eu” iphone, imac, iphop, etc., rege não só a esfera privada, mas pública.

O novo discurso antidemocrático faz um retrato da democracia com traços que eram atribuídos antigamente ao totalitarismo. Esse retrato, fala o autor, passará por um discurso de desfiguração como se, tendo se tornado inútil o conceito de totalitarismo, se pudesse aproveitar seus traços que podem ser compostos e recompostos para refazer o retrato daquilo que se supunha ser o seu oposto, exatamente a democracia.

Já na entrevista publicada esta semana, Rancière ao ser perguntado sobre os cenários do passado (em que analisou o ódio à democracia ) e o atual, responde afirmando que o  discurso intelectual  republicano do final do século passado e início do século XXI terminou se espalhando e alimentando o pensamento da extrema direita e foi usado para justificar restrições de liberdades, assim como, para reforçar argumentos racistas e homofóbicos que subsidiam as bases políticas de vários líderes no mundo atual, como no Brasil e nos EUA. Nas palavras de Rancière: pode-se dizer ao mesmo tempo que esses temas estenderam seu império e mostraram mais claramente sua obediência às potências dominantes. O ódio intelectual à democracia tem sido cada vez mais visto como mero acompanhamento ideológico do desenvolvimento vertiginoso de desigualdades de todos os tipos e do aumento do poder policial sobre os indivíduos.

Ao  ser perguntado sobre o uso pejorativo do termo populismo como forma de exercer o processo político, Rancière responde que populismo  não é uma forma política, mas tão somente uma interpretação, para ele o uso do termo tem como objetivo fortalecer uma personalização do Estado e alerta que o discurso dominante distorce a realidade visto que : ainda é o mesmo grande argumento de dizer que, se nossos estados são cada vez mais autoritários e nossas sociedades são cada vez mais desiguais, é por causa da pressão exercida pelos mais pobres que são, naturalmente, os mais pobres, mais ignorantes e que, como bons primitivos, querem líderes, autoridade, exclusão etc. É como se Trump, Salvini, Bolsonaro, Kaczyński, Orbán e sua raça fossem a emanação de um povo pequeno que sofria e se revoltasse contra a elite. Mas são, na verdade, a expressão direta da oligarquia econômica, da classe política, das forças sociais conservadoras e das instituições autoritárias (exército, polícia, igrejas).

Sobre a fragilidade das instituições democráticas no mundo ocidental, Rancière responde que as instituições que sustentam a democracia enquanto regime político, em verdade, não são em essência, democráticas. Eles são representativas, portanto oligárquicas. A teoria política clássica é clara sobre isso, mesmo que nossos governos e suas ideologias tenham trabalhado para confundir tudo. Instituições representativas são, por definição, instáveis. Eles podem deixar um certo espaço para a ação das forças democráticas - como foi o caso dos regimes parlamentares nos dias do capitalismo industrial.

Quando Joseph Confavreux lhe pergunta sobre o que enfrentar quando denúncias sobre governos carregam em si, apenas uma fachada democrática, quando leis e instituições são apenas aparências para o exercício do poder pelas classes dominantes e quando tudo isso dá lugar a personagens como Bolsonaro e Trump provocando o aumento das desigualdades e autoritarismo; Jacques Rancière responde dentre outras coisas, que não há fachada democrática sob a máscara da qual a realidade do poder das classes dominantes seria exercida. Existem instituições representativas que são instrumentos diretos desse poder. Para ele é preciso sair das confusões conceituais e separar o joio do trigo, entender que democracia não é o mesmo que representação, ter maioria nas urnas não garante um regime democrático, e, ao contrário pode dissolvê-lo completamente. Nesse sentido o autor é enfático ao se referir a Trump e Bolsonaro que seriam dois personagens que dificilmente poderiam representar os Estados que representam na atualidade. A primeira tarefa é sair da confusão entre democracia e representação e todas as noções confusas dela derivadas - do tipo "democracia representativa", "populismo", "democracia iliberal" etc. As instituições democráticas não devem ser preservadas contra o perigo "populista". Eles são para criar ou recriar. E é claro que, na situação atual, eles só podem ser contra-instituições, independentes de instituições governamentais.

Joseph Confavreux lhe pergunta  para onde devemos direcionar o nosso olhar quando o ódio à democracia comparável a uma nostalgia ditatorial de Bolsonaro ou quando este sentimento se revela em um aparente bom humor de Junker, visto que ambos são ameaças ao processo democrático, ou seja, pergunta se as diferenças entre uma extrema direita autoritária (Bolsonaro) e tecnocratas capitalistas (Junker), ambos dispostos a reprimir violentamente seus povos, são apenas ameaças com níveis de força diferente, ou se estes,  guardam em si, natureza similar, ao que Rancière responde afirmando que: há todas as nuances que queremos entre suas várias formas. Pode basear-se nas forças nostálgicas das ditaduras de ontem, de Mussolini ou Franco a Pinochet ou Geisel. Pode até, como em alguns países do Leste, combinar as tradições das ditaduras "comunistas" com as das hierarquias eclesiásticas. Pode ser mais facilmente identificado com as necessidades inevitáveis de rigor econômico, incorporadas pelos tecnocratas de Bruxelas. Mas sempre há um núcleo comum.

Para Rancière a resistência às oligarquias em todo mundo, nasce das forças autônomas que se movem dentro do sistema representativo e, em geral, se ligam aos partidos de esquerda. Infelizmente, a lógica da escolha entre os menos maus, prevalece, o que fortalece o poder oligárquico. Fica a dica!

Para ler a entrevista completa, acesse: https://www.mediapart.fr/journal/culture-idees/031219/jacques-ranciere-defaire-les-confusions-servant-l-ordre-dominant?onglet=full

28 de novembro de 2019

O golpe dentro do golpe

Confira o texto publicado pela colunista Ana Regina Rêgo no Jornal O Dia.

Conhecido como o Golpe dentro do Golpe, o Ato Institucional de número 5, AI-5 foi promulgado em 13 de dezembro de 1968 pelo então Presidente Artur da Costa e Silva, cujo governo potencializou a violência de Estado, dando início aos conhecidos “anos de chumbo” da ditadura civil-militar brasileira. Costa e Silva morreria alguns meses depois. O AI-5 nasceu dentro da ala mais conservadora e reacionária dos militares em disputa pelo poder no Brasil e veio como resposta a uma parte da sociedade que protestava e desejava o retorno da democracia e das liberdades civis e individuais. Mas, o AI-5 seria nas palavras de Carlos Castello Branco, um ato completo, não deixando nenhuma área do governo descoberta, abrangendo o setor econômico, com a unificação das caixas de poupança, abrangendo a previdência, o trabalho, a censura, autorizando a violência de Estado já mencionada e dissolvendo o Congresso e os partidos políticos. Em outros moldes, mas com motivações similares, o governo de Costa e Silva instaura a seu modo, um governo mais que ditatorial, um governo autocrático, totalitário e violento, em que o pensar diferente, passa a ser o maior crime. 

Nesse meio, a educação, a cultura e o esporte, são chamados a participar de um projeto de Brasil, cuja visão de mundo, muito se assemelha à dos ocupantes dos cargos do poder em nosso país, nos dias atuais. Os valores cristãos, tanto quanto hoje, foram acionados para justificar a violência contra os que pensavam diferente, como na atualidade se propõe fazer em nosso país, com as declarações dos filhos do Presidente Jair Bolsonaro e de seus Ministros, em favor de um novo AI-5. 

A censura na época, terminou por provocar o exilio dos nossos artistas, enquanto que o projeto de cultura a partir de uma visão ditatorial unificada trabalhou em prol da manipulação do pensamento de uma sociedade cega, por não ter acesso a realidade, visto que a imprensa e a mídia como um todo, não podia divulgar ou denunciar os abusos do poder, visto que a censura prévia seria detalhada dois anos depois do AI-5 e intensificada em todo o Brasil. 

A música, o teatro, o cinema tudo vai ser controlado e as narrativas passam a ser as narrativas desejadas por um governo que pautado nos valores positivistas primitivos que enfeitam nossa bandeira, Ordem e Progresso, deseja pela força, construir as bases de um país conforme seus valores, não considerando o pensamento e os valores dos demais, perseguindo e matando os dissidentes. 

O projeto educacional pautado em um nacionalismo exacerbado que acionou valores do passado das nações, a exemplo, do nazismo procurou forjar um sentimento nacionalista, um senso de responsabilidade sobre a pátria e um envolvimento com os valores cristãos conservadores, a partir de um conjunto de ações acionadas a partir dos projetos pedagógicos e de disciplinas como EMC-Educação Moral e Cívica, que intentava plantar nas crianças a alma de um país que ainda hoje se engana como democrático e forte moralmente.

Há que se considerar que o projeto de nação dos militares e dos civis que os apoiavam, cooptou os grandes conglomerados midiáticos, assim como, muitos artistas e fez do esporte, sobretudo, do futebol um elemento constituinte de uma identidade, que forjada no contexto das ditaturas do século XX, segue como elo de ligação e afetividade entre os brasileiros, mas que na verdade se constitui, como o ópio do povo, tendo desempenhado e ainda desempenha na atualidade, um papel importante na formação das almas do povo deste país de desiguais, onde a hegemonia econômica, masculina, branca se consolida como natural e, onde, sobretudo, os dominados defendem os seus dominadores consolidando visivelmente o conceito de hegemonia. 

Nesse complexo contexto em que a sociedade foi agente e vítima, ao mesmo tempo, de um processo político ditatorial, o AI-5 se constituiu como o marco que aprofundou as divisões e permitiu a abertura de feridas profundas em nossa sociedade. Feridas nunca curadas, visto que a absurda lei da Anistia de 1979 se constitui como um perdão estatal que nivela assassinos de Estado às vítimas de seus crimes. 

Para conhecer mais sobre o AI-5 deixo as próximas palavras para Carlos Castello Branco, jornalista piauiense e apoiador do que denominava de revolução de 1964, que nos anos seguintes ao AI-5 passa a ser preso e perseguido, embora tenha sido uma das poucas vozes da imprensa brasileira  a falar abertamente sobre os atos dos governos ditatoriais, sobretudo, por sua ligação com uma das alas dos militares.

No dia 14 de dezembro de 1968 na Coluna do Castello no Jornal do Brasil, Castelinho asseverou: 

Ao Ato Institucional de ontem não deverá seguir-se nenhum outro ato institucional. Ele é completo e não deixou de fora, aparentemente, nada em matéria de previsão de poderes discricionários expressos.                                                      [...].

O Congresso, posto em recesso por tempo indeterminado, está praticamente fechado e tudo indica que se cumprirão as profecias de um expurgo no Poder Judiciário. A possibilidade, mantida pelo Presidente, de convocar o Congresso sem compromisso de data indica que somente para resolver uma crise eventual ele o fará. Mais provavelmente, contudo, Câmara e Senado somente voltarão a se reunir para constituir o Colégio Eleitoral que, no tempo próprio ou no momento designado pela revolução, formalizará a escolha do sucessor do Presidente Costa e Silva.

Os partidos não foram expressamente suprimidos, mas perderam a função. A Arena está praticamente dissolvida, pois nos considerandos do Ato se afirma que ela falhou na sua missão de defender no Congresso o movimento revolucionário. O Governo dissociou-se do seu Partido, e o despediu, sem agradecer os serviços, antes pelo contrário. Uma conseqüência, que não estava inicialmente prevista, desse novo Ato Institucional será a intervenção federal nos Estados, na forma que se estabeleceu. Somente na tarde de ontem circularam informações relativas à disposição do Governo revolucionário de afastar governadores que são dados como comprometidos no processo contra-revolucionário. Tudo indica que algumas intervenções estão em vias de ser consumadas.

A imprensa aparentemente foi poupada. Na realidade, deverá o tema ser tratado num ato complementar, tal como antecipavam ontem deputados do esquema situacionista.

O Ato também autoriza o Governo a confiscar bens adquiridos ilicitamente, numa ameaça que vem cobrir antigas decepções dos militares encarregados de IPMs.

A medida estancou todas as fontes políticas de resistência ao Governo, não deixando nenhuma válvula. A Oposição não terá a menor possibilidade de produzir-se, a não ser que seja respeitada, e até quando o for, a liberdade de imprensa. Mesmo assim os políticos estão de tal modo contidos que seu acesso aos jornais importará num risco certo para cada um deles. ( Para saber mais leiam a Coluna do Castello de 14 de dezembro de 1964, disponível em http://www.carloscastellobranco.com.br/sec_coluna_view.php?id=6950).

Conhecer o passado, conhecer a história é sempre importante! Fica a dica! 

21 de novembro de 2019

A inconsciência, o preconceito, o genocídio e a hipocrisia reinante no Brasil

Confira o texto publicado pela colunista Ana Regina Rêgo no Jornal O Dia.

De acordo com o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 2019, entre os anos de 2017 e 2018, 75,4% dos mortos pela polícia no Brasil eram negros ou pardos, enquanto que 24,4% eram brancos. O mesmo documento informa que um jovem negro no Brasil tem duas vezes e meia de chance a mais de ser morto, do que um jovem branco, mesmo que estejam na mesma faixa econômica e educacional e residam na mesma comunidade. Por outro lado, em 2018 de cada 100 pessoas mortas em nosso país, cerca de 11, ou um pouco mais de 10%, foram assinadas pela polícia, instituição que deveria proteger o cidadão em todas as situações e não o contrário.

Embora, cada caso seja distinto. Embora muitas mortes aconteçam em combate contra o tráfico, não há como negar que existe um genocídio da população negra jovem no Brasil. Não há como negar que vivemos em um país desigual que condena o negro a uma vida de sofrimento, preconceito e bastante complicada desde o berço.

Na última terça-feira (19), o deputado do ex-Partido do Presidente Jair Bolsonaro, o PSL,  Coronel Tadeu quebrou/rasgou um painel de uma exposição contra o genocídio da população negra que estava exposto no túnel entre o Anexo II e o Plenário da Câmara dos Deputados. A mediocridade e a hipocrisia de muitas mentes reinantes nos palácios de Brasília  aceita que tamanha agressão seja considerada um direito democrático, quando se configura como uma postura fascista e totalitária que não respeita o direito de manifestação das minorias.

Já afirmei e repito neste espaço de jornalismo opinativo: - democracia não é e nunca foi o lugar do pode tudo. Democracia é o lugar do respeito. A imagem quebrada pelo inconsciente deputado, aliás o Congresso está repleto de pensamentos laterais absurdos na atual legislatura, pois bem, a imagem continha a representação da violência policial contra a população negra, cujos dados acima, são exemplares. O referido deputado se sentiu agredido e considerou que a imagem depunha contra a reputação da polícia no Brasil.

Não seria mais sensato treinar melhor os policiais? Não seria mais sensato educar os policiais para a tolerância e para a convivência? Não seria melhor dar melhores condições para o trabalho de risco nas ruas? Não seria mais viável pagar bons salários e diminuir a exaustiva jornada de trabalho desses profissionais que se expõem todos os dias? Não seria mais civilizado reconhecer os erros e tentar melhorar a convivência entre polícia e sociedade?

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública já mencionado, divulgou que no Brasil o número de policiais que comentem suicídio é superior aos que são mortos em confronto com o tráfico ou em outras situações de violência e risco. Isto significa que temos problemas estruturais na política de segurança pública brasileira que não atende a sociedade, visto que não prepara os profissionais para atuarem em defesa desta. Inúmeros jovens e crianças, moradores de comunidades espalhadas por todo o Brasil, são mortos diariamente sem ter qualquer envolvimento com drogas ou com condutas ilícitas.

E, considerando os números de suicídio no ambiente policial, percebemos que o problema é bem maior, visto que os próprios policiais não estão preparados para a cruel realidade diária e para uma vida de violência, quando deveriam, em tese, promover a paz.

O fato é que nessa guerra entre policiais e população, considerando todos os níveis, os negros são os mais perseguidos, prejudicados e mortos.  Desse modo e considerando o dia da consciência negra, comemorado ontem em várias partes do Brasil, vale reafirmar que a sociedade brasileira é racista sim. Racista e hipócrita. O mito da democracia racial tem servido para esconder nossa verdadeira essência violenta e preconceituosa que retornou à superfície no último pleito eleitoral, mostrando a face da injustiça social que justifica privilégios de poucos como direitos e arrola os direitos dos mais pobres como privilégios.

Partindo, portanto, do reconhecimento de que somos uma sociedade preconceituosa e racista, um pouco de história, como sempre, faz bem, sobretudo, a quem não possui consciência nem de si, que dirá do outro, ou, da humanidade.

Podemos inicialmente, relembrar os quase 400 anos de escravidão institucionalizada em nosso país, se incluirmos a escravidão dos indígenas, verdadeiros donos deste país. Mas a escravidão que a Lei Áurea aboliu se travestiu, posteriormente, de inúmeras outras formas de dominação que tem acompanhado os negros e descendentes até os dias atuais. Inclusive, se consolida nas desigualdades sociais que condenam os negros à pobreza, violência e exclusão.

Do ponto de vista histórico se voltarmos à Constituição de 1824 o negro, nas palavras de Verônica Baravieira (2005) “ [...] situava-se em região limítrofe entre coisa e pessoa, mas na pior das situações, pois seu interesse era o último que prevalecida, ou seja, conforme o interesse dos senhores, o negro adquiria e perdia sua precária personalidade”.

Cem anos depois, na Constituição de 1934 falava-se em todos iguais perante a lei, entretanto, esse todos não eram todos, visto que essa pretensa Carta magna era de grande inclinação eugênica e pregava a educação eugênica, separando o lugar dos negros nas escolas. Mas ia bem além e até mesmo aos imigrantes eram imposto que seriam bem recebidos somente os que provassem ter boa ascendência europeia,  vide  a própria Constituição de 34,  Art. 2º: “Atender-se-á, na admissão de imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia”.

Essas imposições históricas e contumazes do Estado brasileiro ao povo negro se naturalizaram a tal ponto, que toda a sociedade chegou a considerar e em grande medida ainda considera, que os negros são inferiores.

O mito da democracia racial abriga os racistas que inconscientes ou conscientes de si, procuram justificar suas ações discriminatórias. Na verdade não sei em que país vivem os hipócritas que acreditam neste mito, mas não é no Brasil que mata negros em proporções infinitamente maiores que brancos, que violenta e mata mulheres negras a cada minuto. Que trata como marginais qualquer negro ou mulato simplesmente pela cor. Que discrimina professores universitários, médicos, artistas  e todos os profissionais negros minimizando o  valor de seu trabalho simplesmente pela cor da pele. Que ainda hoje discrimina negros no acesso a prédios de luxo em localizações privilegiadas deste país, portanto, repito em alto e bom som:  hipócritas!

Depois de tudo isso, obviamente, “muitos cidadãos” de “bem” ainda acham que não precisamos ter consciência da importância da inclusão do negro na sociedade. Contestam cotas para universidades públicas porque consideram privilégios dados a uma cor. Que tal lembrarmos que a igualdade de que fala a nossa Constituição só pode ser conquistada se todos tivermos as mesmas oportunidades. Fica a dica!