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Notícias Andarilhos

30 de janeiro de 2015

Apontador de Ideias: Liberdade de Expressão - Parte I

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Devo admitir, nas minhas poucas linhas que apresento para vocês agora: não é fácil dizê-las essas poucas 304 palavras. Esta é a segunda semana em ponho os dedos no teclado para tentar dizer as coisas que venho sentindo, e elas não saem. Elas ficam aqui mesmo, e antes de passar pela garganta ou escorrer pelos meus dedos longos, elas se encrustam no meu coração, remexem o meu estômago e o meu silêncio me faz tão escrava quanto as minhas palavras. E devo dizer, que este meu senhor não é tão carrasco quanto pensam.

Ainda que alguns dos castigos do meu silêncio doam, devo dizer deles que em geral eu me comprazo. à sacrifício e deleite, sim. à meio sobre essa verdade incômoda que devo falar a vocês: o nosso mundo interior é uma coisa indescritível, e no fundo há milhões de coisas acontecendo, sem que se diga uma só palavra. Os acontecimentos dos silêncios são de todas as cores, de todas as formas, temperaturas⦠E infelizmente, toda linguagem é curta, é inadequada, é supostamente incompleta para abarcar esse mundo intrínseco.

Mas, ocasionalmente, conseguimos fazer com que o mundo interior pessoal se entrecruze com o das outras pessoas, e pode ser uma explosão linda de toda e qualquer linguagem. Uma coisa de beleza tamanha que vaza pelos olhos, quando os dedos calam, quando a boca não emite um som sequer. Também pode ser uma coisa pavorosa que vejam um lampejo de tudo o que você não diz, pelo seu silêncio. A indiferença, o amor, o carinho, a compaixão, o ódio⦠Estão lá, no meu silêncio também, para além dos meus gritos, dos meus poemas, dos meus textos que eu amasso e queimo, do bate-bate dessas teclas pretas.

A liberdade de expressão que me perdoe, mas o meu silêncio fala também, e muitas vezes é fundamental.

29 de janeiro de 2015

Carta de despedida

Da escritora triste e solitária

 Queridos,


Os meus olhos tristes choraram por quase toda a madrugada. Numa prisão de amor não correspondido, onde os pássaros compunham uma melodia infeliz por quase todas as estações do ano.
Sentia meus ossos doerem. Já estava velha o bastante para qualquer manobra arriscada com meus pés e para me importar sobre o que os outros teriam a dizer sobre mim. Nada mais importava (mesmo).
Moro só. Só com as minhas pilhas de livros e personagens. Criei tantos que as vezes era difícil diferenciar se existiram ou não. Talvez alguns tivessem mesmo tido vida, mas é claro que eu sempre acrescentei em todos eles a minha dose de imaginação.
Uma velha quase louca. Sorrio quando tenho vontade e choro toda vez que penso em felicidade. Não sou amarga, não sou rancorosa, nem guardo nenhuma mágoa. Sou só triste.
Triste porque nunca vivi nada do que escrevi nos meus milhares de textos. Nunca pude ter uma única realização da minha imaginação. Tão fértil...
Meus livros sempre figuraram nas listas dos mais vendidos. Ganhei muito dinheiro com as publicações. Viajei para lugares interessantíssimos e conheci pessoas importantes. Mas se eu pudesse... Se eu pudesse ter só um desejo com certeza escolheria morar dentro de um livro e escrever a minha própria história sem nenhuma interferência.
Uma dor agora invade o meu peito. Ela devasta todas as coisas ruins que nele existem. Meus olhos estão se fechando involuntariamente. Vejo uma luz. Finalmente meu desejo será realizado. Irei para o outro mundo.

Laura.


Carta de despedida

Da escritora triste e solitária

 Queridos,

Os meus olhos tristes choraram por quase toda a madrugada. Numa prisão de amor não correspondido, onde os pássaros compunham uma melodia infeliz por quase todas as estações do ano.
Sentia meus ossos doerem. Já estava velha o bastante para qualquer manobra arriscada com meus pés e para me importar sobre o que os outros teriam a dizer sobre mim. Nada mais importava (mesmo).
Moro só. Só com as minhas pilhas de livros e personagens. Criei tantos que as vezes era difícil diferenciar se existiram ou não. Talvez alguns tivessem mesmo tido vida, mas é claro que eu sempre acrescentei em todos eles a minha dose de imaginação.
Uma velha quase louca. Sorrio quando tenho vontade e choro toda vez que penso em felicidade. Não sou amarga, não sou rancorosa, nem guardo nenhuma mágoa. Sou só triste.
Triste porque nunca vivi nada do que escrevi nos meus milhares de textos. Nunca pude ter uma única realização da minha imaginação. Tão fértil...
Meus livros sempre figuraram nas listas dos mais vendidos. Ganhei muito dinheiro com as publicações. Viajei para lugares interessantíssimos e conheci pessoas importantes. Mas se eu pudesse... Se eu pudesse ter só um desejo com certeza escolheria morar dentro de um livro e escrever a minha própria história sem nenhuma interferência.
Uma dor agora invade o meu peito. Ela devasta todas as coisas ruins que nele existem. Meus olhos estão se fechando involuntariamente. Vejo uma luz. Finalmente meu desejo será realizado. Irei para o outro mundo.

Laura.

28 de janeiro de 2015

27 de janeiro de 2015

À solidão - Parte I

Sobre ser só

 Ninguém vai me esperar no aeroporto.

Depois de uma longa viagem para a Europa ou de um fim de semana de aulas de pós-graduação naquela cidadezinha do interior do sul do Brasil. Inevitavelmente vou olhar para todos os lados ao desembarcar, procurando um amigo, um familiar, a plaquinha de âbem-vinda!â, âsaudadesâ, querendo achar o melhor abraço, ou apenas um braço para me enlaçar e jogar as malas no chão num impulso. Mas ninguém estará a postos, me esperando.

Ninguém também vai me dá carona.

Não chegarei a tempo para o embarque. E voltarei para casa, com um novo voo agendado, torcendo para que o horário remarcado para amanhã dê certo. Minhas malas pesadas? São exercícios pré-viagem. Subirei de madrugada todos os lances de escada do meu condomínio sozinha, pois o elevador nunca foi consertado (e eu nunca fui de muitas amizades durante cinco anos morando no mesmo apartamento).

Ninguém vai me receber em casa.

Eu vou chegar ao meu apartamento, as luzes estarão apagadas e os móveis empoeirados. O leite continuará em cima da mesa, apodrecido dentro da xícara pela pressa e pelo esquecimento em guarda-lo na geladeira. O banheiro estará imundo. Todas as correspondências acumuladas, contas a serem pagas e nenhuma mensagem perguntando se eu cheguei bem.

Nem minha própria casa vai estar me esperando.

Acabei de chegar de viagem e já ia embarcar novamente. Minha casa parece que não é meu lar. Depois de cinco anos ali, ainda existem coisas empacotadas. Nunca arrumei meu lugar do modo como sempre quis, desde pequena: com quadros na parede, um lugarzinho reservado para eu fumar e beber sem ser incomodada, e nunca mandei consertar minha máquina de escrever para servir-me de inspiração. Tudo está ali, no canto da sala, apenas esperando minha disposição e um pouco do meu tempo que gasto em bares e em salas de aula.

Ninguém vai comprar uma cerveja para mim.

Até porque nunca gostei do gosto amargo dessa bebida. Mas vou preparar vários drinks sozinha, ao som de uma dessas bandas nacionais independentes que pouca gente conhece. Estarei dançando no meio da sala â  vazia e tão pequena. Depois descerei novamente as escadas e caminharei em direção a rua, em plena madrugada. Logo após alguns quarteirões, verei o mar e me sentarei na areia fria.

Ninguém vai caminhar comigo na orla da praia.

De tantas vezes percorrer esse caminho entre meu condomínio e a brisa marítima, é que me dou conta do motivo pelo qual escolhi esse lugar para morar: amo a praia de madrugada! Sento sozinha na areia com meu drink forte e fico horas ali, até me dá conta de que posso me atrasar novamente para o meu voo.

Ninguém vai me indicar a direção.

Com medo de está novamente atrasada, levanto rapidamente e sinto que estou um pouco tonta. Preciso voltar para casa, preciso viajar a trabalho e, no entanto, o que mais quero é permanecer ali naquela praia até o dia amanhecer. Sigo caminho de volta ao meu apartamento empoeirado, jogo o leite apodrecido no lixo, volto a desligar as luzes, desço as malas pela escada escura e pego um táxi em direção ao aeroporto. Onde, para mim, não há ninguém.

Consegui embarcar. Comemoro silenciosamente e sigo viagem. Eu e minha solidão.

26 de janeiro de 2015

Meu aviso é um conto ainda

(ou "Dias em que nos importamos com algo mais")

Queridos e queridas, (roubei, sim, isto das quintas de Gabriela Aguiar)


meu coração dói ao anunciar que por uns tempos (e uns tempos pra mim é quase metade deste ano), não postarei mais contos. Por motivos superiores de ordens astrológicas objetivando a lógica do alinhamento das galáxias supremas sob a ordem de algum deus que vocês acreditam, vou ausentar-me desta vida de escrever uma página de historinhas, fábulas, narrativas de lauda, narrações, reinações, lendas, contos-do-vigário, causos, casos, fatos, estórias, embustes e outros magníficos sinônimos que a internet acabou de me ensinar. Porém, o Andarilhos já entrou de tal forma nas minhas segundas-feira (segunda-feiras, segundas-feiras, segundo dia da semana) que torna-se inconcebível para mim não entregar-lhes um presentinho nestes dias em que nos importamos com algo mais. Então, você não terão mais contos, mas terão minicontos e respostas sobre a vida. Por minipartes:

- os minicontos são contos menores que podem ter qualquer tamanho, desde que seja menor do que um conto;

- respostas sobre a vida: fui agraciado com um livro chamado "Q&A a day" (foto aqui embaixo, recomendo comprarem). E o que é isso, Victor? Isto, meus senhores e minhas senhoras (pois não sou nada sexista), é uma maravilha que acompanhará meu crescimento e meu amadurecimento (ou a completa falta dele, pois parece que quanto mais velho fico, mais desajuizado me vejo) durante cinco anos. O livro tem 365 perguntas, uma pergunta para cada dia do ano, com espaço para você responder por cinco anos seguidos. Então, tenho certeza de que rirei demais das minhas respostas já no ano que vem. E quero retorno de vocês. Se vocês se sentirem à vontade, respondam comigo estas questões maravilhosas existenciais que o livro me traz! Portanto, jovens de alma, escolherei toda semana 3 perguntas que este incrível livro me fizer para provocar em vocês uma crise existencial, tanto quanto está fazendo comigo. Ainda assim, é uma jornada fantástica!

Daí me pergunto, será que já começo hoje ou deixo para semana que vem?

HOJE!


Miniconto: Polígrafo

Em algum lugar do mundo antigo, inventaram o polígrafo, grandiosa máquina detectora de mentiras, utilizada em depoimentos policiais, judiciários ou de ordem de segurança nacional. Recentemente, tiveram a brilhante ideia de inventar o antipolígrafo, uma máquina detectora de verdade. Foi descartada na primeira semana por falta de uso pela sua inutilidade. Nestes dias, quase ninguém mais diz a verdade.


As 3 perguntas desta semana:

O que faz de você "você"? A atenção dada às pessoas que gosto, a criatividade, a paixão pelo cinema e a vontade de mudar o mundo de alguma forma.

Olhe para a frente. O que você vê? Materialmente, um computador. Metaforicamente, uma nova experiência com esta mudança no Andarilhos e na minha vida.

O que você gostaria de esquecer? Nada. Gosto de acreditar que até as coisas ruins que acontecem na vida servem para aprender com a dor.


Agora como eu me despeço? Deixo um "tchau e boa semana" ou simplesmente vou saindo? Esqueci como a Gabriela faz. Acho que vou só saindo mesmo, assim, de boa.


19 de janeiro de 2015

Minha Bardot é brasileira

(ou “Deus criou a mulher”)

Deus criou a mulher e Deus criou Brigitte Bardot (lê-se âBardôâ), personificação de todas as paixões dos anos 50 e 60. Francesa que cativou o cinema e a moda, ainda hoje mantem aquele ar de beleza insolente cheia de calor íntimo. Alguém com forças universais maiores poderia ter se contentado em criar apenas uma musa dessas por século, mas guardou o modelo para refazê-la nos anos 90. Assim, surgiu a Bardot brasileira.

Ainda não se sabe o quão influente a brasileira será frente à francesa, mas quanto à beleza, as semelhanças são estonteantes, de cima a baixo. Como os cabelos, ambos longos e com seus tons de loiro, como amarelos trampolins para a sedução e crença de que no fim dos fios haverá uma boca disposta a um beijo.

Os olhos são curiosamente safados. Enquanto os de Bardot tem o formato de gatinhos, os olhos brasileiros guardam a natureza saliente de uma floresta de frutas afrodisíacas; uma mordida, um toque na maçã de suas bochechas roseadas de maquiagem e a perdição recairá sobre seus dias, como um vício não letal, para as sortes.

A Bardot de lá é defensora perseverante dos animais e entregou-se à idade como recusa a maltratá-los. A daqui é quase assim, mas ela prefere focar sua atenção aos gatos. Irrita-se com quaisquer artigos que cite-os como seres malignos e não se limita a sujeira ou menção a bactérias quando vê um gato desfilando na sua frente.

Antes de anunciar o fim de sua carreira, a francesa dissera que, sem o cinema, poderia ser uma mulher serena. Isto seria uma injúria e nunca se aplicaria para a Bardot do Brasil, já que, para a de cá, os filmes são como uma criança incompreendida que corre da sua realidade para a praia buscar seu final minimalista feliz. Com o cinema, ela já aprendeu que Viena não fica na Itália, que é possível existir uma doença caso você faça amor sem amar, que 12 anos de sua vida podem passar em um instante ligeiro, que neste mundo você deve ser esperto ou agradável e que, principalmente, o amor verdadeiro te encontrará no fim.

Passando de uma máquina para outra, paparazzis invadiram e manipularam praticamente toda a vida da Brigitte de lá. A daqui não aprova muito isto; ela prefere controlar apenas o botão das câmeras fotográficas, levando para sua lente as belezas que pousam em seus olhos refletindo e revelando a sua existência.

No fim, de todas as semelhanças e diferenças, destaca-se mais ainda aquela dita há muitos anos, quando a francesa declarou que representara a liberdade, a juventude e a felicidade. Ora, a brasileira é exatamente assim: não restringe seus pensamentos a políticas sociais, não deixa de se permitir um momento de espontaneidade por olhares aversos e nada, nada mesmo a deixa mais feliz do que balões e bolhas de sabão. A Brigitte Bardot brasileira é a representação de uma feliz criança livre e, naturalmente, insolentemente bela.


Imagem: Reprodução/Internet

15 de janeiro de 2015

Carta ao texto

Quer dizer... À Vida!

Queridos,

Uma página em branco com linhas pretas delimitadas esperando que alguém, algum dia venha a escrever algo. Imaginem que seja mais ou menos como funciona a nossa vida. No início ainda há muito que percorrer e conhecer, mas o que será escrito depende de nós.

O início de um texto é sempre mais complicado porque não sabemos exatamente como introduzir algo que é desconhecido para nós e para os outros. Existem alguns rabiscos, mas como sabemos que é possível melhorar no decorrer da narrativa deixamos que as palavras corram. Assim, podem ser desenvolvidas com mais calma depois.

Quando o texto já está mais encaminhado é necessário mais atenção. Muito parecido com nossas vidas, em que uma escolha pode comprometer todas as estruturas. A diferença é que as palavras (unicamente escritas) podem ser apagadas. As ditas são irreversíveis. O texto em seu desenvolvimento exige uma boa elaboração, para convencer o leitor do que você quer que ele acredite. Na vida real é exatamente assim, mesmo que alguns digam não se importar com a opinião dos outros. Entretanto, se importam sim, mesmo que às vezes queiram só a desaprovação. E claro que você quer despertar uma reação em que lê, seja boa ou má.

E no final... Bem o final geralmente nos deixa querendo mais. Porém por algum motivo não nos é permitido continuar escrevendo. Provavelmente porque o desfecho exato não nos cabe ou não é compreensível. Ao findar um texto, colocamos nossa conclusão sobre as palavras, os atos ou pensamentos. Geralmente acompanhado de possíveis soluções ou dissoluções. Parecido com que o fazemos quando passamos por alguma experiência e tiramos conclusões do que ocorreu.

Não necessariamente o fim de um texto compete ao término o fechamento de um ciclo. Ele apenas encerra uma etapa para que uma nova, seja ela diferente ou não da anterior, possa ser iniciada. Exatamente como acontece com as nossas vidas.

Somos nossos próprios deuses interiores. Temos a capacidade de escrever nossas vidas, embora não sejam com fatos pré-meditados, mas escolhemos o caminho a seguir, as ideias a defender e os motivos para lutar. O que irá acontecer depois é impossível dizer, pois cabe apenas ao Deus exterior escrever tudo no papel infinito do universo.

Com carinho,

13 de janeiro de 2015

Súplica de botequim

apelo de um quase poema

 Para escutar sambando: Roberta Sá - Ah, se eu vou! 


Não venha me acordar

com filosofia barata,

abraços apertados,

e café amargo


Chegue na madrugada devassa

- de mansinho

traga minha cachaça com mel

beijos de botequim,

samba no pé

e muito gingado.


E venha rodar comigo!


Isso não é um poema. à um apelo.

12 de janeiro de 2015

Meu amor é teu

(ou “Theo, não demorarei mais do que o necessário para voltar”)

Pegou caneta, papel e coragem para escrever esta carta:

Theo,

Tenho muito a te ensinar em uma página, mas buscarei deixar aqui só o essencial para que você cresça como o homem que merece ser. Por favor, só não encare esta carta como feita para autoajuda. São apenas ensinamentos tortos de alguém que te ama e que não sabe quando o verá novamente.

Seus dentes cairão umas duas ou três vezes durante a vida, Theo, mas não se preocupe, eles voltam. E se não voltarem, foque em ser mais bonito no coração do que na boca. à bem melhor ser uma boa pessoa a uma pessoa âboaâ.

A saudade sempre aumenta aos domingos. Quando estiver distante de tudo importante, não se prenda às paredes chorando. Saia. Não se entregue à tristeza de uma televisão quadrada o dia inteiro com um mundo bem mais redondo lá fora. Troque a TV por uma janela, um aquário ou algo com alta definição de vida.

Não coce o nariz e não se explique demais. Estes são os principais sinais de que você está mentindo e você não vai querer ser associado a mentiras entre seus conhecidos. Você vai precisar mentir em algum instante da sua vida, mas sua consciência irá lhe indicar os melhores e mais oportunos momentos para isso.

Não há problema em se deixar levar pelo desejo, contanto que não machuque nenhuma pessoa. Entregue-se sem medo e com amor aos relacionamentos e às paixões, mesmo que platônico ou que doa. O samba canta que âo amor só é bom se doerâ e toda decisão sua vai acabar machucando alguém. Sua maior preocupação é não machucar as pessoas certas, mas saiba que, em um triângulo amoroso, sempre dois dos três irá se chorar.

Que seu maior medo seja perder suas asas ou sua vontade de voar. Não se deixe algemar-se por alguém ou por alguma coisa em um lugar miserável de coração. âSeja sempre um peixe grande demais para o aquário em que viveâ é meu mantra que roubei de um filme. Se suas asas um dia caírem ou se a chuva derramar em cima dos seus sonhos, seja Ãcaro e voe até o Sol. Aquilo de ser ambicioso e morrer queimado é mera fantasia dramática grega.

Infelizmente, Theo, você nunca vai ser o melhor dos melhores do mundo em algo. Sempre terá um asiático de sete anos de idade com mais habilidade em tudo. Você pode focar em ser um dos melhores e isso já é bom o bastante, pois você irá preferir ser um destes e virar tópico em uma conversa de amigos do que ser o melhor e morrer sozinho sem amigos por te acharem, por vezes, arrogante.

A pior coisa que se pode ser na vida é extremista ou partidário. Nunca defenda ferrenhamente uma causa, pois isto te deixará cego para as falhas desta causa. Saiba ver os pecados de tudo o que faz parte de você, sem medo de ficar em cima do muro. Saiba que esta é uma visão privilegiada de todos os pontos de vista a serem considerados.

Por último, sempre haverá um espaço para você na virada do mundo. Você pode temer diariamente pelo que será de seu futuro, mas nem crie rugas precoces por isso. A segunda maior certeza da vida é de que ninguém nasce em vão. Um dia você vai encontrar a razão de seu coração acordar batendo naquela manhã.

A vida corre rápido demais, meu filho, e, quando vê, chega sua hora, como chegou a minha agora. Mas, ei. Sem choro. Meu amor é todo teu todo dia, toda noite, por toda a vida. Te amo demais e relaxe, Theo, não demorarei mais do que o necessário para voltar.

Mais que tudo,

Seu pai.