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Notícias Carlos Brickmann

13 de março de 2019

Assuntos essenciais parados e o país discutindo bobagens. Ainda bem

E estamos discutindo tweets e fake-news que, seja a razão de quem for, fazem tanta diferença quanto o resultado de um jogo sub-15. É triste.

Discutindo bobagens. Ainda bem

A reforma da Previdência, assunto essencial, está no Congresso. Outra reforma com alto potencial de controvérsia está para ser enviada: a que devolve ao Congresso sua missão básica de determinar o Orçamento, dando fim às porcentagens obrigatórias para Educação, Saúde, etc. O Ministério Público desistiu de criar uma fundação para lutar contra a corrupção, com verbas recuperadas após investigações. Um pacote anticrime, proposto por Sérgio Moro, está pronto para exame pelos parlamentares. Para o bem ou para o mal, são propostas que modificam muito a estrutura do país.

E estamos discutindo tweets e fake-news que, seja a razão de quem for, fazem tanta diferença quanto o resultado de um jogo sub-15. É triste.

Ou não: um leitor desta coluna, advogado e ex-ministro, lembra que, por menos relevantes que sejam esses temas, pelo menos não discutimos hoje alguns bilhões de reais em propinas, nem somos surpreendidos porque um diretor de estatal devolveu R$ 90 milhões – que tinha na conta! - para se livrar da prisão fechada. As notícias de hoje são sobre indecências no Carnaval ou declarações atribuídas a uma repórter que estaria se esforçando para que suas descobertas derrubem o presidente. Coisa mais micha!

O comportamento é ilegal? Cabe à Justiça decidir. A discussão é boba? É. Mas os temas são menos escandalosos que construir uma refinaria como Hugo Chavez mandou sem ele botar um centavo na obra. Esta coluna quer esquecê-los. Mas admite que é melhor discutir besteira do que ladroeira.

Passagem rápida

Discussões sobre um episódio do Carnaval e uma entrevista a um site francês, que nega ter feito a entrevista, são chatas demais. Não deve ser impossível que governistas defendam o projeto de reforma da Previdência e oposicionistas mostrem suas falhas. É melhor até para ler a notícia!

Os lucros do assassínio

Dois presos são apontados como assassinos de Marielle. Cessa com isso a choradeira de que o Governo não queria esclarecer o crime? Não: para os radicais que dividem o mundo entre nós e eles, o assassínio continua sendo culpa de Bolsonaro – embora as prisões tenham ocorrido em seu Governo, embora ele tenha dito que é preciso chegar aos mandantes. Sérgio Moro é criticado por não ter dito nada sobre as prisões – embora tenha emitido nota oficial sobre o tema. Ô, gente chata! Será que só pensa em lucro político?

Os ausentes

Há quase 50 anos, 1972, Tom Jobim já falava nas “águas de março fechando o verão”. Mas o prefeito da maior cidade brasileira, Bruno Covas, escolheu justo esta época para tirar férias na Europa. A tragédia atingiu São Paulo e alcançou Covas, obrigado a trabalhar na época de trabalho! Mas ele não está só. O Congresso começa a discutir a reforma da Previdência; o projeto anticorrupção também será debatido; o superministro Paulo Guedes anuncia uma mudança na estrutura do país, eliminando gastos obrigatórios e liberando os parlamentares para definir despesas e investimentos. É bem nessa hora que o articulador político do Governo, Onyx Lorenzoni, decide fazer um passeio à Antártida. Entre uma fria e outra, escolheu a fria errada.

Rico...

A Assembléia do Mato Grosso do Sul aprovou e o governador Reinaldo Azambuja, do PSDB, sancionou: a partir de agora, e com efeito retroativo a 1º de fevereiro, os salários do Tribunal de Contas do Estado podem ser aumentados em até 90%. Quase dobram. Quem decide os beneficiários é o presidente do TCE – sim, o próprio. Previsão de gastos? Não foi divulgada. Afinal, quem é rico de verdade não precisa perguntar o preço de nada.

...ri...

O Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul tem uma lista com uns 90 juízes e desembargadores que ganham bem acima do teto constitucional de R$ 39,2 mil. O salário mais baixo da lista é de R$ 64.812,58. O mais alto atinge R$ 135.576,90 – pouco mais que o triplo dos vencimentos de um ministro do Supremo, que deveria ser o servidor público mais bem pago. Ainda bem que o agronegócio anda próspero e paga as contas do Estado.

...à toa

E, completando o quadro, o governador Reinaldo Azambuja nomeou 27 comissionados (cargos de confiança) com salários que começam na faixa de R$ 28 mil. Cinco superam o teto, e deles o mais bem pago recebe R$ 92.985,55 mensais. O Estado é generoso e ninguém regula merreca.

Ninguém é de ferro

Indignado, caro leitor? Então, mais uma: o famoso Carnaval baiano, de longa duração, é para os fracos. A Câmara dos Deputados reiniciou ontem o trabalho, após 13 dias de Carnaval, com reuniões de bancadas estaduais. Resta uma dúvida: se o Carnaval de três dias era Tríduo Momesco, como será apelidado o de 13 dias? Teremos de chamá-lo de Trezena Momesca?

27 de fevereiro de 2019

O próprio governo Bolsonaro atrapalha seus projetos e gera desgaste

Ele não precisa do PT e de seus penduricalhos: o próprio Governo faz o trabalho da oposição

Já se sabe por que o presidente Bolsonaro não convidou os mais radicais partidos de oposição para discutir a reforma da Previdência. É que, em seu Governo, ele é situação e também oposição. Não precisa do PT e de seus penduricalhos: o próprio Governo faz o trabalho da oposição, incluindo a parte difícil, de atrapalhar seus próprios projetos e se desgastar sozinho.

A última do ministro da Educação, por exemplo, nem o mais esperto dos oposicionistas faria melhor: em nome do respeito aos símbolos da Pátria, ordenou que professores, funcionários das escolas e alunos, devidamente perfilados em frente á bandeira, cantem o Hino Nacional e leiam um texto, supostamente patriótico, que inclui o lema de campanha de Bolsonaro, o que é ilegal. E tudo seria filmado para exibição pública, sem que os pais fossem ouvidos. Uma advogada pertencente ao próprio partido do presidente, a campeã de votos Janaína Paschoal, sugeriu que o ministro da Educação arranje com urgência um assessor jurídico.

Não foi necessário: rapidamente, o ministro mudou as ordens. Não é mais preciso ler o lema da campanha do presidente, nem as crianças irão aparecer em vídeos sem autorização dos pais. Ah, agir sem pensar!

E para que? Por que banalizar um símbolo como o Hino Nacional? Já se ouve o hino em jogos de futebol. A torcida nem silêncio faz. Após ouvir a música-símbolo da união nacional, brigam, se machucam, se matam.

Aquele do Japonês

Este colunista nunca cantou hinos: era proibido, por estragar o conjunto. Mas conhecia as letras: “Japonês tem quatro filhos”, “e quando a Pátria amada precisar da macacada”, e o delicioso “eia, sus”, que vinha um pouco antes do Virundum. E pensar que a ideia era estimular o patriotismo!

Louvar o Senhor

Perfeito, até o ministro da Educação percebeu que tinha feito besteira. Mas a ideia original, de exigir que o lema da campanha presidencial fosse obrigatoriamente citado, forçava ateus ou seguidores de religiões não monoteístas a prestar homenagem ao Deus dos cultos abrâmicos, com origem em Abrahão: judeus, cristãos e muçulmanos. E talvez violassse até um dos Dez Mandamentos, “não usarás o nome de Deus em vão”.

Jogo fácil

E, não fossem os inimigos internos, até que a situação não estaria difícil: a oposição é comandada por Gleisi, algo com que sonha qualquer Governo do mundo. O ministro da Justiça é ídolo popular, o ministro da Economia tem amplo trânsito no mercado, o agronegócio disputa a liderança mundial com os Estados Unidos, o presidente Bolsonaro continua em lua de mel com o público. Diz a pesquisa da Confederação Nacional da Indústria que ele é bem avaliado por 57,5% da população (43,4% são favoráveis à reforma da Previdência). O Governo é ótimo ou bom para 38,9%; e ruim ou péssimo para 19%. Excelentes índices. Mas o eleitor está atento: 56,8% acham que os filhos estão interferindo nas decisões de Bolsonaro.

Amadorismo, não

Embora o Governo tenha agências de publicidade escolhidas legalmente em concorrência, quis criar a campanha da reforma da Previdência com uma equipe interna da Secom, Secretaria de Comunicações. Não passou: o ministro da Economia, Paulo Guedes, a considerou “tosca”, e vetou-a. Foi tudo refeito por uma agência de verdade, a Artplan. Agora está em ordem.

Brumadinho no mar

A Assembleia paulista acaba de convocar os responsáveis pela operação da cava subaquática de Cubatão – um buraco abaixo do nível da água que armazena 2,4 bilhões de litros de materiais tóxicos. A cava, entre Cubatão e Santos, é operada pela VLI, cuja maior acionista é - adivinhe! - a Vale.

A cava tem 25 metros de profundidade e 400 de largura, ao lado de um manguezal. Ali estão os resíduos tóxicos de meio século de exploração do Polo Industrial de Cubatão. Até há pouco tempo os resíduos estavam no fundo do canal de Piaçaguera. Com a escavação da cratera, o canal foi dragado (para aumentar sua profundidade e permitir a passagem de navios maiores) e os resíduos amontoados num só lugar. Os planos são cobrir a cava com 1,5 metro de altura de material limpo, que taparia o material tóxico, até o final deste semestre. E o risco de contaminação seria afastado.

O grande risco

O problema é que não dá para combinar com o mar, nem exigir que as águas tenham bom comportamento. Que acontece com o material tóxico em caso de movimentos anormais da água, causados por exemplo por tempestade? É isso que a Assembléia estadual quer apurar agora. Porque um vazamento naquela região, dentro do mar, como será contido?

Pois é

Eduardo Bolsonaro defende o muro entre EUA e México. E daí?

24 de fevereiro de 2019

Unir, jamais. Desunir sempre

A base parlamentar de Bolsonaro é insuficiente para garantir a vitória da reforma

A proposta de reforma da Previdência não foi ainda integralmente enviada ao Congresso, e a parte que foi enviada está sob análise de quem entende: não é de um dia para outro que se vai avaliar toda a reforma. Mas, mesmo assim, mesmo sem saber muito bem de que se trata, o mercado se animou: já aceita receber juros menores em títulos do Tesouro (caíram de 13,5% para 9,5%) e o dólar deu uma boa descida diante do Real.

A base parlamentar de Bolsonaro é insuficiente para garantir a vitória da reforma – mas a força de sua expressiva vitória eleitoral, somada à boa reação do mercado, pode perfeitamente levar o Governo à vitória, a menos que, insatisfeita pela fraqueza da oposição, a família do presidente a reforce. É o que está ocorrendo: o senador Flávio, o filho 01, propõe que o Congresso mude a reforma. Se o filho do presidente deixa de defender suas propostas e sugere mudanças, como convencer quem nem parente é?

Todo o planejamento da reforma está baseado na redução das diferenças entre aposentadorias, hoje imensas: funcionário público aposentado recebe o salário integral dos ativos, filha de militares tem direito a manter a pensão após a morte do pai, assalariados da iniciativa privada têm limite bem mais baixo. Pois o senador 01 quer igualar os guardas municipais, para fim de aposentadoria, a policiais. Pode ter razão, mas não é essa a reforma que o Governo de seu pai propõe. Com união é difícil. Sem união, impossível.

No rumo

Valeu a pena ver, pela TV e pelo YouTube, as cenas da fronteira entre o Brasil e a Venezuela nos últimos dias, antes do fechamento da fronteira pelo presidente Nicolás Maduro. Muita gente cruzava a fronteira, sempre no sentido Venezuela-Brasil; ninguém no sentido Brasil-Venezuela. Se não há problemas na Venezuela, como afirmam os bolivarianos brasileiros, por que há tanta gente saindo? Vale conferir as imagens no You Tube.

Estranha coincidência

Não houve, nos últimos dias, alterações de preço nas refinarias da Petrobras. O dólar caiu. Mas, de quarta para quinta, em Brasília a gasolina passou de R$ 3,80 para R$ 4,23 – de repente, as marcas de todas as grandes distribuidoras tiveram alta parecida, sem maiores explicações. Diz o colunista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br) que, por causa deste surpreendente evento, espera-se que Bolsonaro autorize os produtores de álcool e as refinarias a fornecer combustível diretamente aos postos, sem precisar entregá-lo a distribuidoras que só elevam os custos.

Justiça x distribuidoras

O repórter Cláudio Tognolli foi processado por críticas duras que fez às distribuidoras de combustíveis – entre outros termos, usou “assalto ao consumidor” para definir a atitude das empresas. A Associação Nacional de Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência – Plural - que reúne BR, Shell e Ipiranga, donas de 70% do mercado, entrou na Justiça acusando-o de difamação. O juiz José Zoéga Coelho, do Juizado Especial Criminal, decidiu pela absolvição sumária. Uma derrota importante da Plural: o repórter bateu duro e ficou claro que nada mais fez exceto investigar e descrever os fatos que havia investigado e confirmado.

O falso herói

O principal repórter da principal revista alemã era uma farsa: inventava histórias magníficas e as publicava como se fossem verdadeiras. A revista, com todo seu sistema de controle de qualidade, publicou tudinho, sem nada questionar. E, se não fosse um repórter cujo prestígio não se comparava ao do falso herói, tudo se manteria sem problemas, enganando os leitores.

O principal repórter, um dos mais conhecidos e conceituados da Alemanha, era Claas Relotius; a revista, respeitadíssima, é Der Spiegel. E o jornalista que desmontou a farsa, Juan Moreno, também da Der Spiegel, foi quase massacrado ao colocar em dúvida as verdades do grande repórter. E, no entanto, tinha razão: hoje, a Der Spiegel adverte no site, onde há matérias de Relotius, que não há como garantir que sejam verdadeiras.

Lutar e provar 

Moreno, jornalista nascido na Espanha e criado na Alemanha, desconfiou de Relotius depois de uma reportagem que fizeram juntos. Moreno deveria acompanhar um grupo de migrantes até a fronteira e contar a viagem; Relotius, nos Estados Unidos, se infiltraria num grupo civil de milicianos dispostos a bloquear a passagem dos migrantes. Estranhou as informações do colega e começou a verificá-las. Aos poucos, descobriu que Claas Relotius entrevistara pessoas que nunca havia visto, descrevia locais em que nunca havia estado. Demorou até que alguém prestasse atenção no que dizia; nesse período, perdeu oito quilos.   

Hoje, a Der Spiegel reformulou seu controle de qualidade e abriu uma investigação interna: como pôde ser tão enganada por tanto tempo?

13 de fevereiro de 2019

Que ninguém se iluda: há divergências entre os filhos de Bolsonaro e o vice

Mas alguém me disse que essas divergências, embora continuem a existir, serão dia a dia menos barulhentas.

A hora dos generais

Que ninguém se iluda: não há divergência séria entre Bolsonaro e o vice. Há divergências entre os filhos de Bolsonaro e o vice; mas alguém me disse que essas divergências, embora continuem a existir, serão dia a dia menos barulhentas. Olavo de Carvalho, ideólogo de boa parte do Governo, autor da indicação de pelo menos dois ministros, Educação e Relações Exteriores, da total confiança de Eduardo Bolsonaro, tem seguidores e já abriu fogo contra o vice Mourão. Olavo é ouvido. Mas muito mais ouvido do que ele é um ministro que fala baixo, porém silencia as estridências de outros: o general Augusto Heleno, respeitadíssimo, principal contato de Bolsonaro com as Forças Armadas. Augusto Heleno, por sua força, evita ao máximo os conflitos abertos. Mas, em caso de divergência, é ele que ganha.

Heleno tem excelentes relações com Mourão e com Bolsonaro. Dizem que já pediu aos filhos de Bolsonaro que, exatamente por ser filhos, não se sintam tentados a pressionar o pai. Tudo indica que foi ouvido.

Um bom exemplo da ação de Heleno é o Sínodo da Amazônia, que se realiza em outubro, no Vaticano. Governistas radicais acusaram a Igreja de dar voz à esquerda para atacar Bolsonaro. Heleno disse que o Brasil deve só defender a Amazônia brasileira, sem se envolver em nada que envolva soberania de outros países ou temas religiosos. O Brasil não aceita lições de países que desmataram mais do que nós. Foi duro – e sem ataque à Igreja.

Bem aposentados

Há meses o país debate a reforma da Previdência – e fomos informados de que, se não houver reforma, o Tesouro quebra. Goiás, depois de longo período de Governo tucano, está em situação de emergência financeira. Mas nem todos ficam tristes: a folha de pagamento oficial de auditores fiscais, alguns na ativa, alguns aposentados, mostra que em dezembro o menor salário foi de R$ 54.893,00 – mais de 50% acima do recebido pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, o máximo que poderia ser pago se no Brasil a lei fosse cumprida. O maior pagamento é de R$ 58.797,00.

Muito bem aposentados

Mas não inveje os auditores fiscais de Goiás: na Bahia, igualmente com imensas dificuldades financeiras, há pagamentos mais substanciosos. Bom exemplo é a folha de dezembro de desembargadores ativos e inativos. O mais bem aquinhoado recebeu, líquidos, após os descontos, R$105.346,66. No meio há quatro ganhando pouco acima de R$ 95 mil (e um, menos favorecido, ganhando apenas R$ 90 mil e algumas quireras). O mais mal pago das Excelências tem de sobreviver com R$ 32.370 mensais – e, como é salário líquido, também superior aos vencimentos dos ministros do STF, que deveriam ser o teto dos pagamentos feitos a servidores públicos.

Claro, este salário é em folha. Vantagens extras, como carro com chofer, gasolina, plano de saúde e vale-refeição, são pagas por fora.

Ideia de fôlego

O Governo e a indústria química acabam de lançar um projeto que, além de suas finalidades específicas, sejam quais forem, já que pelo título fica difícil entender quais serão, testará o fôlego de quem se envolver nos trabalhos. Nome: "Programa de Articulação Nacional entre Empresas, Governo e Instituições Acadêmicas para a Prevenção e Mitigação  do Risco de Eventos Químicos, Biológicos, Radiológicos e Nucleares Selecionados". O programa já nasce com um apelido: Pangeia. O nome é grego e significa “toda a Terra”. E todo o ar, para respirar enquanto se diz o nome da coisa.

Muitos em um

El Salvador, na América Central, escapou à disputa tradicional entre os dois maiores partidos e elegeu presidente da República um deputado não muito conhecido: Nayib Bukele, 37 anos. Sua avó paterna, católica romana, nasceu em Belém, na área que hoje é administrada pela Autoridade Palestina; o avô paterno, ortodoxo grego, nasceu em Jerusalém. Seu pai se converteu ao islamismo. Sua esposa é judia. Um exemplo de conciliação, num país que enfrentou décadas de guerra civil e ainda hoje tem as marcas.

Não para

Bolsonaro se recupera bem, mas enfrentou há pouco uma séria cirurgia e teve pneumonia. Aparentemente, não dá importância a isso: tem viagem para os Estados Unidos de 18 a 20 de março, a convite de Trump. Passa rapidamente por Brasília, rearruma as malas e segue para o Chile, de 22 a 23 de março. Aí tem um mês e pouco de permanência no Brasil e volta aos EUA, em 14 de maio, para receber o título de Pessoa do Ano, conferido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos - “reconhecimento de sua intenção fortemente declarada de fomentar laços comerciais e diplomáticos mais próximos entre Brasil e EUA e seu firme comprometimento em construir uma parceria forte e duradoura entre as duas nações”. O título é entregue num jantar de gala no Museu de História Natural de Nova York.

10 de fevereiro de 2019

A vida é apenas um detalhe

Não, não foi um incêndio que matou dez crianças e feriu três no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio.

Quem os matou pode ser descoberto sem o rigoroso inquérito. Basta verificar quem mandou abrigar as crianças em contêineres, num terreno que, sem condições, não poderia ser usado.

Não, não foi a ruptura da barragem de Brumadinho que deixou mais de 300 mortos e desaparecidos e envenenou os rios que levavam água para a população. Dois dias antes da ruptura, revelam e-mails trocados entre duas empresas que cuidavam da segurança da barragem e funcionários da Vale, a mineradora tinha sido avisada dos problemas nos sensores que deveriam monitorar a estrutura de Brumadinho. Que fez a Vale, nesses dois dias? Na melhor das hipóteses, orou para que nada ocorresse. Na pior, nem deu bola: seu negócio é minério, não vidas humanas. Não verificaram nem as sirenes.

Não, não será um acidente, nem uma fatalidade, se Itabira, muito maior que Brumadinho, for vítima de uma barragem com 200 vezes a capacidade da que se rompeu. O repórter Rodrigo Hidalgo, da Band, filmou as brechas na segurança e a matéria foi ao ar, em rede nacional. E a Vale? Silêncio.

Não, não são casos isolados, o do Flamengo e o da Vale, o de Mariana e o de Brumadinho, ou, que Deus não o permita, o que ameaça Itabira. São todos o mesmo problema: o importante é cuidar exclusivamente do negócio e não se mexer para torná-lo seguro. A vida humana é apenas um detalhe.

Assassínio a prazo

Não, não foi um temporal inesperado o culpado pelas mortes e o caos no Rio. Os radares detectaram a movimentação da tempestade de Paraty para o Rio com quatro horas de antecedência. Se ninguém se mexeu, não é culpa dos radares. O fato é que há muitos anos as verbas para proteção da cidade contra temporais foram reduzidas a uns 30% do que se gastava – e que já era pouco. Percorra o Rio (não só o Rio, boa parte de nossas cidades, mas lá a área é sujeita a chuvas muito fortes) e verá que os esgotos estão fora de uso há tempos, até com capim nascendo nas bocas de lobo. A ocupação desordenada de morros eliminou as árvores que reduziam a velocidade das águas. As favelas estão em áreas de risco. Desculpe, caro leitor: já não há mais favelas, há comunidades. O nome é outro, apenas o risco é o mesmo.

A saúde do presidente

Um deputado federal do PSOL disse que o presidente Bolsonaro estava às portas da morte. Some-se a isso a pneumonia, uma doença perigosa; as fotos em que o presidente, com sonda nasal e provavelmente irritadíssimo por não poder sair logo do hospital, mostrava péssima aparência; e houve uma onda de boatos sobre a saúde de Bolsonaro. Seus médicos foram direto ao ponto: a pneumonia cedeu, o presidente voltou a comer (era alimentado, antes, por sonda), sua recuperação é boa. Fica mais alguns dias no hospital, mas vai bem. E aos poucos vai sendo autorizado a receber seus ministros.

Sarar é preciso

O ideal, acredita este colunista, seria que Bolsonaro aceitasse relaxar: no hospital, cuidaria exclusivamente da saúde, sem tentar ao mesmo tempo exercer a Presidência. Tem um vice, que ele escolheu, e se assumir por uns dias permitirá que Bolsonaro fique um pouco mais tranquilo. E é bom para o Governo: hoje, falta a voz do presidente bem na hora das reformas.

Impunidade, não

Lembra da juíza que colocou uma adolescente numa cela em que só havia homens adultos? A juíza Clarice Maria de Andrade foi severamente punida pelo Conselho Nacional de Justiça: está sem trabalhar (“em disponibilidade”) mas ganha seu salário direitinho, como se estivesse em plena atividade. A maldição bíblica - “ganharás o pão com o suor de seu rosto” - não a atinge. Mas não imagine que esta é uma situação provisória, imposta pelo CNJ: já foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal.

Lula, segunda sentença

Com a condenação a 12 anos e 11 meses (esta pelo sítio de Atibaia), Lula acumula pouco menos de 25 anos de pena – e restam ainda sete outros processos. Caso a nova condenação seja confirmada em segunda instância, Lula, mesmo que seja absolvido em todos os demais processos e libertado o mais rapidamente possível, terá quatro anos e alguns meses a cumprir. E o pior, para o PT, é que está havendo dificuldade para mobilizar militantes para manifestações em favor do ex-presidente. Na última, em seu reduto de São Bernardo, com todo o comando petista, não havia nem mil pessoas.

Nos tempos da ditadura

Agora, que está meio na moda negar que tenha havido ditadura militar, vale a pena ler a revista Zumbido, editada pelo SESC: em boa reportagem de Chico Spagnolo e Wagner Amorosino, surgem os pareceres da Censura vetando letras de músicas de que os censores não gostavam. E é de graça: está no site https://medium.com/zumbido. Vale a pena.

30 de janeiro de 2019

Uma tragédia como a de Brumadinho tem tudo para unir o país.

Mas há quem pense e torça para que as coisas piorem, ainda mais

Histórias de horror e ódio

Uma tragédia como a de Brumadinho tem tudo para unir o país. Tirando os responsáveis por ela, que devem ser identificados e processados, o Brasil todo, sem distinção ideológica, torcendo para que mais sobreviventes sejam encontrados, e enaltecendo todos os que participam das buscas. Só que não.

E o ódio ideológico não está apenas na Internet: transparece também nos jornais. Israel mandou uma força-tarefa para ajudar nas buscas? Junta-se o antissemitismo (“o dono da Vale é judeu, Israel usou a chance para ocupar Brumadinho”) – o dono da Vale não é judeu, a Vale não tem um dono, mas pertence a grupos econômicos e a fundos de pensão estatais – mas isso não é problema: o importante é espalhar o mal. O senador Roberto Requião diz que o grupo israelense veio é para derrubar o Governo da Venezuela. Desde quando Minas está perto da Venezuela? O importante é desmerecer a ajuda, como se fosse fruto de um pacto entre Bolsonaro, a quem odeiam, e os judeus, a quem têm horror. Têm de culpar alguém pelos problemas de Maduro – por que não Bolsonaro e os israelenses da equipe de salvamento?

Antissemitismo existe faz tempo. Mas torcer para que o equipamento de Israel não funcione, e assumir essa torcida, é coisa que não se via desde o nazismo. Como não se via alguém torcer contra as vítimas só para culpar o presidente que odeiam. Citando Nelson Rodrigues (a quem essa gente também odiava) há situações em que até os idiotas perdem a modéstia.

O horror

Enquanto se perde tempo discutindo se o equipamento israelense de busca é ou não melhor que o brasileiro (não faz a menor diferença: no caso, mais equipamento e mais gente é melhor do que menos), vai-se perdendo o foco da discussão – ou os focos: a) quem deveria manter a barragem em boas condições; b) quem atestou que a barragem estava em boas condições; c) várias pessoas disseram que esse tipo de barragem é inadequado – é ou não é?; d) um empresário disse que ofereceu à Vale uma nova solução em que os rejeitos de minério são separados da água, que é tratada e lançada de novo nos rios, e transformados numa pasta, que ocupa menos espaço e não está sujeita a mudanças no regime de chuva ou a pequenos abalos de terra. É claro que ele quer vender seu produto. Mas, se o produto contribui para reduzir os riscos da mineração, por que não? A Vale tem recursos para estudar essas soluções e escolher a melhor. Nos últimos três anos não o fez.

O ódio

E, no momento em que é preciso pensar em salvar vidas, localizar quem não pôde escapar, há cretinos discutindo “o plano judaico de conquistar o mundo”, ou sugerindo que 132 israelenses ocuparam parte do território nacional. Reclamam até da bandeira brasileira no ombro da farda, ao lado da israelense. Mas ajudar no trabalho, doar algo – ah, isso não, isso é caro.

Rigoroso inquérito

Claro, claro, há multas gigantescas aplicadas à Vale, além da realização de um rigoroso inquérito para apurar responsabilidades. Multa? Então, tá. Há três anos, a barragem da Samarco matou gente, poluiu rios, destruiu o meio-ambiente. A Samarco – pertencente à Vale e à BHP Billiton – foi pesadamente multada, em R$ 350 milhões. Hoje, a Samarco deve R$ 350 milhões em multas. Perguntar não ofende – que é que pagou em três anos? E não foi por falta de dinheiro: o lucro da empresa no ano anterior foi de R$ 7,6 bilhões. Mas, convenhamos, é melhor não pagar do que pagar, né?

Nenhum executivo da Samarco foi condenado criminalmente. Há processo contra 21 réus na Justiça Federal em Minas (depois há recursos!), ainda na fase de ouvir testemunhas. Há muito, muito tempo pela frente.

E citemos Luís Fernando Veríssimo quanto ao rigoroso inquérito: não é a mesma coisa que inquérito rigoroso. É exatamente o contrário.

Acredite se quiser

O ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, disse que o Governo dará prioridade à fiscalização das 3.386 barragens de alto risco. No Brasil há mais de 20 mil barragens, supostamente menos perigosas.

Renovação

No dia 1º, sexta-feira, Senado e Câmara elegem seus novos presidentes. O caro leitor certamente se lembra da surpresa com o índice de renovação das Casas do Legislativo, o que incluiu a derrota de nomes eternos como Romero Jucá, Eduardo Suplicy, Eunício Oliveira, Magno Malta. Pois bem, a renovação tem agora seu primeiro teste: o favorito para presidir a Câmara é Rodrigo Maia, que está no cargo desde 2016; e o favorito na disputa pelo Senado é Renan Calheiros, que tenta seu quinto mandato como presidente.

A grande frase

Do venezuelano Nicolás Maduro, que tenta se segurar no poder: “Já fui ao futuro, voltei e vi que tudo está bem e a união cívico-militar garante a paz e a felicidade ao nosso povo”.

23 de janeiro de 2019

Bolsonaro usou só 9 minutos para falar com a cúpula da economia mundial

Em Davos, fez um discurso simples e colocou diante do público suas ideias básicas de Governo

A favor do bem, contra o mal

Havia amplo tempo disponível, mais de meia hora, dos quais Bolsonaro usou só nove minutos para mostrar suas ideias à cúpula da economia mundial. Nada contra falar pouco: um dos melhores discursos da História mundial, a consagração do Cemitério de Gettysburg por Lincoln, durou menos de dois minutos (“o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da Terra”). Mas Bolsonaro não é Lincoln, sabe disso, e não se arriscou à eloquência. Em Davos, fez um discurso simples e colocou diante do público suas ideias básicas de Governo – que, de maneira geral, coincidem com o pensamento liberal do Fórum Econômico Mundial.

Confirmou, internacionalmente, o papel predominante de Sérgio Moro e de Paulo Guedes em seu Governo. Prometeu fazer “as reformas que o mundo espera”, “transformar o Brasil num dos melhores países do mundo para fazer negócios”, investir pesado em segurança pública para permitir que turistas se sintam à vontade para conhecer regiões como o Pantanal e a Amazônia, simplificar impostos para facilitar a vida dos empreendedores.

Salientou, enfim, a interrelação entre agropecuária e meio-ambiente, um dependente do outro; ressaltou a vontade do Brasil de exercer a diplomacia sem nenhum viés ideológico; e se referiu à busca de novos mercados. Considerando-se o público a que se dirigiu e com quem o Brasil vai lidar, foi como se dizer a favor da saúde e contra a doença. Deve ter funcionado.

Aceno

Davos é uma reunião de expoentes do capitalismo; mas fazem questão de se considerar expoentes do capitalismo moderno, com preocupações ambientais e sociais. Bolsonaro fez citação específica sobre o tema: que o Brasil é o país que mais preserva florestas no mundo (há um estudo com os números, para que não restem dúvidas). Faz parte da postura moderna.

Sob nova direção

Com Jair Bolsonaro em Davos, o Brasil tem novo presidente: Hamilton Mourão, que continua despachando do gabinete de vice. Bolsonaro volta e, logo depois, faz uma nova cirurgia, para retirar a bolsa de colostomia que usa desde o atentado e religar o intestino. Embora Bolsonaro tenha pedido que seja montado um escritório para que possa despachar em seu apartamento no Hospital Albert Einstein, SP, Mourão deve continuar em exercício até que o presidente tenha alta médica e possa voltar ao Planalto. Quanto tempo isso leva? Depende da evolução do caso. Mas não será surpreendente que demore de dez dias a duas semanas, se tudo correr bem.

Herança maldita

O eleitorado goiano derrotou os tucanos de ponta a ponta: elegeu para o Governo o oposicionista Ronaldo Caiado, contra José Elinton, o tucano candidato à reeleição, e surrou exemplarmente o tucano-chefe, Marconi Perillo, que se julgava favorito na disputa pelo Senado (no lugar dele, quem se elegeu foi o jornalista Jorge Kajuru). Mas as marcas do tucanato ainda estão vivas: o governador Ronaldo Caiado, diante do déficit fiscal, causado pelo aumento das despesas públicas nos governos anteriores, teve que decretar situação de calamidade financeira, por 180 dias. Só assim poderá combater o aumento das despesas públicas e reduzir o déficit que herdou.

O tempo tudo encobre

Um dos homens mais influentes do Brasil, Jorge Serpa, que atuou na política desde o segundo governo Vargas até o segundo governo Fernando Henrique (e talvez no primeiro de Lula), morreu neste domingo, dia 20, aos 96 anos. Serpa foi possivelmente o principal assessor de Roberto Marinho desde o início do regime militar. Quem o conhecia preferia não se referir a ele pelo nome (indício de respeito por sua atitude discreta): era O Onça, um mago capaz de conversar com todos os envolvidos em qualquer questão.Sinal dos tempos: não havia políticos no sepultamento. Nem integrantes da família Marinho. Nem representante das Organizações Globo. Serpa deixou viúva dona Vicentina, neta do ex-presidente Eurico Dutra.

Os dias de hoje

Serpa influiu poderosamente em todos os veículos de imprensa de Roberto Marinho. Hoje não há ninguém, nos meios de comunicação, que se aproxime de seu porte. O jornalista Fernando Albrecht, em seu ótimo blog (http://fernandoalbrecht.blog.br/), descreve a imprensa, hoje: “Foram-se os tempos em que as direções dos jornais controlavam as redações. Há muitos anos as direções perderam o controle das redações. Pior: não sabem lidar com isso, não sabem recuperá-lo. Todos falam línguas diferentes e o resultado – óbvio – é a formação de nichos ou de tribos que controlam até territorialmente um determinado espaço das redações.”

O próximo passo

Do promotor Roberto Livianu, sobre corrupção empresarial: a pena mais importante para empresários corruptos é fazer com que percam suas ações.

16 de janeiro de 2019

O primeiro-ministro comunista da Alemanha Oriental, Erich Honecker, foi deposto.

Pediu asilo a seus aliados da União Soviética, tão comunistas quanto ele

Hasta la vista, bambino

O primeiro-ministro comunista da Alemanha Oriental, Erich Honecker, foi deposto. Pediu asilo a seus aliados da União Soviética, tão comunistas quanto ele. Os soviéticos o devolveram ao Ocidente para ser julgado.

Césare Battisti buscou a proteção de Evo Morales, seu aliado de esquerda. Só que uma coisa é ser de esquerda na época dos vizinhos bolivarianos; outra, hoje. As coisas mudaram. E Césare Battisti não viu.

Acabaram com a prisão na Bolívia os 38 anos de fuga de Battisti à pena de prisão perpétua. Mas sua história está longe de ser esclarecida. Quem pagou as despesas de Césare Battisti nestes 38 anos? Quem pagou seus quase 12 anos de Brasil? A venda de seus livros? Seria caso quase único.

Quem é, de verdade, Césare Battisti, para motivar o envolvimento de tanta gente, em tantos lugares do mundo, nas campanhas em seu favor? Apenas membro do grupo terrorista Proletários Armados pelo Comunismo, e sem qualquer relevância, já que diz nunca ter participado de terrorismo?

Preso na Bolívia por policiais bolivianos e agentes italianos, Battisti foi enviado direto à Itália, sem passar pelo Brasil. Ao chegar à Itália, disse uma frase curiosa: “Agora sei que vou para a prisão”. Por que apenas naquele momento, já na Itália, ele se convenceu de que iria para a prisão? Estaria tão convencido de que brasileiro é muito bonzinho que, mesmo com a extradição decidida por Temer, mesmo sendo Bolsonaro o sucessor, com o STF contra ele, daria um jeitinho de se livrar? Quem saberá as respostas?

Completando o Governo

Bolsonaro escolheu dois novos auxiliares de excelente reputação: um é o porta-voz do Governo, outro é o líder do Governo na Câmara. Vão dar certo? Condições, têm. Mas tudo depende da coerência governamental.

O gato de Alice

O porta-voz do Governo, general Rego Barros, foi bem recebido: teve ótimo desempenho como chefe da Comunicação do Exército, entende-se com jornalistas e com ministros como o general Augusto Heleno. Mas há um problema: como dizia o Gato, em Alice no país das maravilhas, o caminho certo depende de para onde se queira ir. Se o presidente anuncia medidas que os assessores desmentem, se os assessores anunciam medidas que Bolsonaro desaprova, não há porta-voz que consiga fazer seu trabalho.

Líder e amigo

A outra escolha correta de Bolsonaro é de um político novo: o Major Vitor Hugo, deputado federal eleito pelo PSL de Goiás. Os jornais dizem que ele é bem aceito por vários militares do Governo, e é; mas sua escolha vem de cima. É velho amigo de Bolsonaro. Tem bom currículo primeiro colocado nas academias militares, advogado, consultor legislativo (primeiro lugar no concurso) na Câmara. Promete reconstruir as relações entre Executivo e Legislativo, esquecendo o toma lá dá cá. Tarefa pesada: passa por sua articulação, por exemplo, a reforma da Previdência.


Retrato do Brasil

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, doou dois carros da frota do palácio ao Hospital Materno Infantil, em Goiânia. Os carros são Equus, os Hyundai construídos para concorrer com Mercedes, BMW, Lexus, Audi. Os dois, diz Caiado, serviam para transportar o governador Marconi Perillo e esposa. Espera-se obter, com o leilão dos dois carros, algo como R$ 650 mil. Não resolve o problema todo do Hospital Materno Infantil, mas ajuda.

13 de janeiro de 2019

O Governo anunciou mas nada do que foi anunciado era bem assim

Mas não diga que aquilo que o Governo diz não se escreve: escreve-se, sim, e muito, em twitters, redes sociais, imprensa. Só não vale o escrito.

Tira, põe, deixa ficar

O Governo anunciou a redução da alíquota do Imposto de Renda, a criação de um novo imposto que substituiria quase todos os outros, o aumento do IOF, o aproveitamento da reforma da Previdência proposta por Temer, um regime único de aposentadoria para todos, incluindo os militares e os servidores civis, e nada do que foi anunciado era bem assim.

Mas não diga que aquilo que o Governo diz não se escreve: escreve-se, sim, e muito, em twitters, redes sociais, imprensa. Só não vale o escrito.

E daí? Boa pergunta: este colunista acredita que o Governo tem vários núcleos, mas só alguns são importantes. Paulo Guedes, general Augusto Heleno, Sérgio Moro, Tereza Cristina, da Agricultura, talvez Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia. Outros podem até ganhar estatura, mas por enquanto só servem como cortina de fumaça, como Damares ou Onyx. Fazem barulho, mas o que definirá o sucesso ou não de Bolsonaro são a Economia e a Segurança. Enquanto, seguindo Damares, se discute a cor das roupas de meninos e meninas, Paulo Guedes e Moro podem trabalhar mais tranquilos. Augusto Heleno é a voz que Bolsonaro ouve. Tereza Cristina só tem de manter o dinamismo do agronegócio. E Pontes – quem sabe? Se der para encaminhar a solução do problema de água no Nordeste, vira herói.

Com a economia indo bem, até Médici foi aplaudido no Maracanã. Se o combate a PCCs e CVs alcançar êxito, o Governo terá sido um sucesso.

Quem sabe fala

O economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas, disse à jornalista Sonia Racy, do Estadão, que as trombadas até agora ocorridas no Governo são desimportantes. “O que vale, de fato, é que Paulo Guedes e equipe estão preparando uma reforma da Previdência de impacto”.

Sem abusos

Economia é o mais importante, um golpe nas facções criminosas é uma façanha, mas a promoção do filho do vice Hamilton Mourão no Banco do Brasil, com um belo aumento, e a demora nas explicações de Queiroz, que trabalhava com o filho de Bolsonaro, são fonte de problemas. Não importa que o filho de Mourão mereça a promoção (seu currículo é ótimo), nem que parente algum de Bolsonaro tenha algo a ver com Queiroz, como dizem. Se fatos como esses ocorreram em outros governos, que não se repitam hoje.

Curiosidade

No WhatsApp de Sérgio Moro, a foto é de um jacaré devorando outro. Que significa? Nas diversas mitologias, segundo o Dicionário de Símbolos, várias versões. Na chinesa, o jacaré controla o ritmo e a harmonia do mundo e da vida. Em outra, carrega os mistérios da vida e da morte.

Globo em risco (falso)

Não, não é verdade que o presidente Bolsonaro tenha mandado cobrar uma suposta dívida da Rede Globo. Fala-se em R$ 380 milhões, calculados não se sabe onde – e a Globo, que tem distribuído dividendos de bilhões, certamente não iria quebrar se a dívida fosse essa e se houvesse cobrança.

Globo em risco (real)

Mas há poucos dias Bolsonaro falou num tema que ameaça não apenas a Globo (embora possa ser a principal vítima), mas todo o setor de TV. O tema é a BV – Bonificação de Volume, uma remuneração extra, mas legal, paga conforme o volume de compras de publicidade de cada agência, sem que o cliente seja informado.

A BV estimula a agência a anunciar em quem remunera melhor o volume. Funciona como esse sistema de acumular pontos em compras, só que é para valer: quem põe mais anúncios, sejam quais forem os clientes, ganha mais. O veículo fatura o valor do anúncio em nome do anunciante, que paga a porcentagem combinada à agência. E a agência recebe o por fora, com nota fiscal, tudo certinho. Sem a BV, muda tudo, inclusive a análise de onde colocar os anúncios dos clientes.

O perigo

Algumas agências, graças à BV, preferiram oferecer seus serviços de graça. Nada recebem dos clientes, mas a BV lhes dá bom faturamento. Há alguns anos, o Ministério Público quis agir contra a BV: achava que, se o veículo devolvia parte do que lhe foi pago, isso deveria ser entregue ao cliente, não à agência. As agências brigaram e ganharam. Há publicitários contra a BV, que consideram um tipo de suborno, induzindo as agências a anunciar em quem tem BV maior – ou seja, a Globo. Questão explosiva.

A explosão

O deputado federal Alexandre Frota só aguarda a posse para apresentar projeto que proíbe a BV. Ele é Bolsonaro e odeia a Globo desde criancinha.

Dilma e o general

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, que comanda os serviços de inteligência e informação do Governo, disse que Dilma não acreditava em inteligência. O general está errado: Dilma jamais deixaria de acreditar em algo que nem conhece.

09 de janeiro de 2019

Tá todo mundo louco, oba!

“Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”.

O autor da frase, Octavio Mangabeira, foi modesto: no Brasil todo há precedentes de tudo.

Grupos do PT articulam a indicação de Lula ao Prêmio Nobel da Paz. Bom, se for contemplado, ficará ao lado de Obama, que ganhou o prêmio ao chegar à Casa Branca e foi o primeiro presidente americano a passar em guerra todos os dias de seus dois mandatos. Mas o objetivo dos lulistas não é figurar na galeria ao lado de Obama, que afinal de contas era presidente “duzianqui” e o surpreendente líder “dos galeguinho di zóio azul”: é criar um paralelo com Nelson Mandella, que saiu da prisão para dirigir a África do Sul, e deixar mal o Governo, que teria de soltar Lula para receber o prêmio ou mantê-lo preso enquanto o Comitê Nobel tentaria homenageá-lo.

Em Sinop, no Mato Grosso, a mãe foi a um bar com amigos e deixou os quatro filhos pequenos sozinhos. Ao voltar, viu um homem de 36 anos nu na cama com sua menina de cinco anos. Espancou-o com cabo de vassoura e cano de PVC. O cavalheiro foi para o hospital. Ela foi presa por agressão. Lembra um caso recente, em que os mesmos bandidos invadiram a mesma casa três vezes, roubando tudo e espancando os moradores. Na terceira, o dono da casa tomou o revólver de um bandido e matou-os. Foi preso na hora, pela mesma polícia que, enquanto ele era assaltado repetidas vezes, não tinha sequer sido vista nas proximidades do local dos crimes.

Bobeou, dançou

O ator José de Abreu pisou em falso: em seu twitter, acusou o Mossad, serviço secreto israelense, de ter tramado e executado um atentado falso a Bolsonaro, com a cumplicidade do Hospital Israelita Albert Einstein, onde o então candidato, segundo ele, se fingiu em risco. A prova disso, disse Abreu, é que o primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu veio ao Brasil para a posse de Bolsonaro. Vieram também dezenas de chefes de Estado e de Governo, mas não eram judeus, e Abreu não quis culpá-los.

A reação

O Einstein, um dos melhores hospitais do país, internacionalmente reconhecido pela qualidade de seus serviços, foi difamado: Abreu lhe atribuiu comportamento criminoso, por dizer que as cirurgias que salvaram a vida de Bolsonaro eram apenas parte de uma farsa. E ainda nesta semana o Einstein entra com queixa-crime, por difamação, contra José de Abreu, Propõe também ação civil de reparação de dano moral, sendo a indenização destinada a obras beneficentes. Na ação civil, os advogados do Einstein são Hilton e Décio Milnitzki. Na criminal, o caso está com o escritório de Carlos Kauffmann.

Tentando escapar

José de Abreu postou a mensagem em que culpa os judeus pelo atentado a Bolsonaro e, não muito tempo mais tarde, a retirou. Mas a mensagem já tinha sido gravada: Abreu se esqueceu de que, depois de desferida, não há como esconder a difamação, nem fazê-la simplesmente desaparecer.

Igualdade seletiva

Hélio Negão, o negro mais bem votado nessas eleições, com pouco mais de 345 mil votos, tomou posse como deputado federal do Rio sem notícias especiais, sem manifestações do movimento negro, sem ONGs a apoiá-lo. Há motivo para essa indiferença: Hélio Negão é negro, luta contra o racismo, mas é do PSL, partido de Bolsonaro. E sofre agressões por isso, de cunho discriminatório: um músico ligado a partido adversário o chamou de “Negão do Bolsonaro”. Pelo jeito, um cidadão negro tem o direito de votar em quem quiser, desde que seja no partido dos bem-pensantes,

O grande dia

Sim, a previsão existe – mas nunca se sabe, pois Bolsonaro diz e desdiz, é desmentido por auxiliares de primeiro e segundo escalões, o que fala não se escreve (talvez um twitter, mas nem isso é definitivo), Enfim, prevê-se que as ideias do Governo sobre Previdência sejam reveladas na quarta-feira. O Governo está no início, mas o assunto é urgente: ou consegue votá-lo ainda sob o impacto da vitória eleitoral ou fica para o longínquo futuro.

Olha a chance!

Bolsonaro, falando na posse de presidentes de bancos estatais, prometeu dividir a verba oficial de publicidade de acordo com o retorno oferecido pelos veículos. Perde uma oportunidade única: a de cortar dramaticamente a gigantesca verba de publicidade, mantendo-a apenas para as empresas federais que disputem mercado. As monopolistas, para que publicidade? O Governo, para que publicidade? Para dizer que o presidente come cachorro-quente e hambúrguer? Este colunista também come e não é nem candidato. Que cada veiculo lucre com consumidores e patrocinadores – e apenas eles.

Faz-se a luz

Palocci está depondo sobre fundos de pensão. Ele conhece.

02 de janeiro de 2019

Torcer muito, acreditar um pouco

É tolice querer que o piloto do avião em que todos voamos cometa erros graves.

Até domingo, o clima era dominado pelas esperanças de que o voo dê certo. Há boas notícias da economia, que se recupera – lentamente, mas melhora. O desemprego é um pouco menor (e o índice melhora se forem levados em conta os informais). A expectativa da população é boa, segundo a pesquisa Datafolha: 65% acreditam que Bolsonaro fará um bom governo.

Mas há problemas. Michel Temer sancionou o aumentão dos ministros do Supremo, porém não decretou o novo salário mínimo. Nada de especial: de R$ 954 iria para R$ l.006 mensais. Deixou o aumento de despesas para o novo Governo. E nomeou o inacreditável Carlos Marun, amigo de fé de Eduardo Cunha, para o Conselho de Itaipu, com mandato até 2020. Pelas normas das estatais, um conselheiro precisa ter atuado dez anos na área, ou ter quatro em empresa do ramo, de igual porte. Marun – bem, é do MDB. Bolsonaro pode demiti-lo, mas o MDB não aceita bem a perda de cargos.

Há Ônyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil de Bolsonaro. Já responde por caixa 2 no Supremo. Já foi perdoado por Moro por ter pedido desculpas em outro caso de captação de recursos. E descobre-se que, na campanha de Bolsonaro, cobrou da Câmara as passagens aéreas. Ficou bravo: disse que não precisa explicar nada, porque não gastou em sua campanha, mas na do presidente. Ônyx já é um peso para Bolsonaro. Ao falar, ainda se complica.

Calma geral

Houve preocupação, muitos temiam um atentado, mas correu tudo bem. Bolsonaro desfilou de carro aberto pela Esplanada dos Ministérios, sem qualquer problema. O Gabinete de Segurança Institucional, do general Augusto Heleno, foi ótimo na prevenção de anormalidades. Muita gente, provavelmente o recorde de público de posses presidenciais, e nenhum incidente sério. Houve um caso em que o general falou sem necessidade (nota abaixo), mas inaugurou sua temporada no GSI de maneira impecável.

Calma, general

Poucos dias antes do fim do ano, Bolsonaro anunciou que, por decreto, iria facilitar a posse de armas. Nada a explicar: era sua promessa de campanha, e os eleitores o respaldaram. Mas o general Augusto Heleno, hoje chefe do Gabinete de Segurança Institucional, quis ajudar, dizendo que morrem 50 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito e nem por isso se proíbe a venda de automóveis. Argumentou mal: os carros têm uma finalidade e as mortes ocorrem por falha ou imperícia. Já as armas só têm uma finalidade. Não podem ser comparadas com carros.

Calma, governador

O novo governador de São Paulo, João Dória, anunciou ao tomar posse sua primeira providência: não vai morar no Palácio Bandeirantes, sede do Governo paulista. Disse que o Bandeirantes será “o palácio do trabalho” e não de moradia – a seu ver, corta assim privilégios e mordomias para sua família. Só que não é bem assim: o palácio tem um corpo de segurança que garante tanto o ambiente de trabalho como a família do governador. Agora será preciso montar mais um corpo de segurança, para a casa de Dória. Os serviços de apoio para este grupo, já existentes no palácio – academia de atletismo, intendência, atendimento de emergência – terão de ser duplicados. Em termos de economia, não passa de uma falsa boa ideia. A propósito, Collor teve ideia semelhante, e ficou morando na Casa da Dinda.

Bate-bate

Dória fez duro discurso contra os adversários – mas adversários de seu próprio partido, o PSDB. Disse que “a partir de agora” São Paulo vai mudar, “vai ter comando”. E que no palácio haverá mais trabalho e menos cafezinho para os visitantes. O PSDB governa o Estado desde 1995, com Mário Covas, Geraldo Alckmin (três vezes), Alberto Goldman e José Serra, com pequeno intervalo de Cláudio Lembo, quando Alckmin se afastou para candidatar-se à Presidência. Antes desse período, Franco Montoro (que seria um dos fundadores do PSDB) governou o Estado, eleito pelo PMDB.

Para apadrinhar Dória, Alckmin brigou com Serra, Goldman, Fernando Henrique, Andrea Matarazzo e outros caciques. Agora, só lhe restam eles.

O recordista

Michel Temer deixa o Governo batendo uma série de recordes. Apesar da crise, deixou a inflação estabilizada, abaixo da meta; encaminhou a reforma da Previdência; reformou a lei trabalhista; encerrou tecnicamente o período de recessão; e manteve os juros Selic em níveis mais civilizados.

Mas tem recordes para o bem e para o mal. Um presidente nunca havia sofrido, como ele, três denúncias durante o mandato. Não são as únicas: no total, há sete, que incluem de questões envolvendo o Porto de Santos até pedido de propinas em troca de favores. Como Temer está sem mandato, todos os processos deverão ser enviados a juízes de primeira instância.

31 de dezembro de 2018

As previsões do Pai Gordo

Um novo Governo assume depois de amanhã.

O Pai Gordo, famoso por ler o futuro no fundo de um prato de macarronada, prevê suas promessas:

1 – Repensar e reduzir o gasto público e reduzir o peso dos impostos;

2 – Realizar imediatamente as reformas necessárias, aproveitando o momento político da grande vitória eleitoral;

3 – Cortar na própria carne e reduzir o tamanho do Estado, que vai custar menos e atender melhor à população;

4 – Eliminar as indicações políticas. Agora é meritocracia: só os mais competentes serão nomeados, sempre por concurso;

5 – Chega de mordomias: cada membro do Governo viverá com seu salário, modestamente, sem auxílios, sem carros oficiais, sem penduricalhos.

6 – Todas as acusações contra gente do Governo serão rigorosamente investigadas, sem favorecimentos, antes que sejam atribuídas aos vermelhos petistas que deveriam arrepender-se de seus maus feitos e ir morar em Cuba.

7 – Caso as acusações, mesmo investigadíssimas, se provem verdadeiras, serão imediatamente comparadas com escândalos iguais ou até maiores praticados por governos anteriores, tornando-se, portanto, injustas quaisquer punições – pois, afinal, se todos já fizeram, é sinal de que todos fazem.

8 – Sérgio Moro não perdoará malfeitos nem de colegas de Governo, a menos que, como Ônix Lorenzoni, sejam rápidos para pedir-lhe desculpas.

Sugestão

Arquive esta coluna. Daqui a quatro anos, mantenha-se atualizado lendo tudo de novo.

Assim será

A posse de Bolsonaro ocorrerá em 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal. O PT já avisou que não tem confraternização: não vai à posse, porque a seu ver Bolsonaro ganhou graças ao górpi e “à injusta prisão de Lula, condenado sem provas”. O PT detesta Bolsonaro e o bolsonarismo, mas encara do mesmo jeito que o adversário as acusações contra petistas: a culpa é do acusador, sempre fascista, racista, inimigo do empoderamento feminino e lacaio duzianqui. Pelo jeito, chamar de “neoliberal” caiu de moda

Suplicy vai preparar a candidatura a senador, em 2020. Se não der, talvez tente algum prédio simpático que esteja sem síndico.

Lula pedirá o centésimo oitavo habeas corpus, que será negado. O PT dirá que isso é prova de que Lula é um preso político e Gleise insistirá: é górpi.

O vice Hamilton Mourão assume quando Bolsonaro fizer a cirurgia que falta. E, embora vá negá-lo, se transforma de fato no líder da oposição. Ele fala o que pensa. Quer até que o tal Queiroz explique o dinheiro. Mas como irão chamar o general de petralha vermelho e exigir que vá para Cuba?

Corta mas deixa

Bolsonaro distribuiu aos futuros ministros um manual de conduta nos primeiros cem dias, que inclui a revisão dos últimos atos do presidente Temer, previsão de corte de despesas, etc. Mas não toca em despesas que poderiam ser reduzidas: a da profusão de carros oficiais, ou a dos cartões corporativos, ou a dos imóveis funcionais. Continua grande o número de auxiliares. O vice Hamilton Mourão, por exemplo, poderia preencher 140 cargos e reduziu bem esse número. Mas fica com 65 – isso para ajudá-lo a esperar as ocasiões em que tiver de substituir o presidente.

Há males...

Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho de Bolsonaro, que movimentou R$ 1,2 milhão aparentemente sem condições para isso, não é ligado ao presidente eleito, não é considerado investigado, mas testemunha, e não há nenhuma conexão visível entre esse dinheiro e Flávio Bolsonaro. Mas depositou R$ 24 mil na conta da esposa de Bolsonaro, como parte da devolução de uma quantia que o presidente eleito disse ter-lhe emprestado (o que ele confirmou), explicou o caso a Flávio Bolsonaro, que achou as explicações “plausíveis”, faltou a dois depoimentos no Ministério Público por motivos de saúde, mas deu entrevista ao SBT. Na entrevista, explicou só parte da história: disse que ganha dinheiro com comércio de carros usados.

...que vêm para bem

Por que seu saldo cresce logo após a data de pagamento dos funcionários de Flávio Bolsonaro no Legislativo? Essa pergunta Queiroz deve demorar a responder: apresentou atestados que, segundo ele, comprovam câncer no intestino, que deve ser operado rapidamente. Só após a operação será ouvido.

Cadê Battisti?

Césare Battisti, condenado na Itália por quatro homicídios e com ordem de extradição do Brasil, continua foragido. Há quem suspeite que continue no país, escondido na casa de alguém que o apoie, talvez importante, para reduzir as chances de uma batida policial. Mas também já pode ter saído do país. Teve tempo suficiente para planejar a fuga e buscar um governo amigo.

26 de dezembro de 2018

A situação econômica, embora ruim, é bem melhor do que já foi

Enfim, uma boa notícia

O dia é bom: a ceia de Natal normalmente é caprichada, os religiosos ou foram à Missa do Galo ou a viram pela TV, houve presentes, famílias se reuniram (claro, com brigas, mas isso faz parte: acaba se incorporando ao folclore da festa). Há boa disposição, portanto. E a boa disposição faz com que a boa notícia possa ser bem recebida, sem o mau humor habitual de quem se habituou a ouvir lorotas.

A notícia: embora a situação econômica seja ainda muito ruim, é bem melhor do que já foi. E indica a possibilidade real de que possamos chegar a um ritmo aceitável de crescimento e acelerar a criação de empregos. O desemprego é de 12%, altíssimo, mas há um ano o número de desempregados era quase 1,5 milhão superior ao atual. O PIB, produto interno bruto, cresce a lentíssimos 1,3% no ano, quase nada diante dos 7% de queda com Dilma. Ainda se gasta muito, mas o déficit público está longe do buraco de 3,7% do PIB na época do impeachment. A inflação, que com Dilma flertava com 10%, está dentro da meta de 4%.

Falta muito: é preciso reduzir despesas, baixar os gastos da Previdência, negociar com o Congresso a aprovação de reformas importantes, verificar se é politicamente possível mexer na estrutura tributária na hora em que os Estados estão sem dinheiro e temem a possibilidade de perder receita. Falta dar impulso à indústria, estudar como outros setores da economia poderão repetir o êxito do agronegócio – quase tudo, enfim. Mas se vê que há saída.

A má notícia

Há saída, claro, se houver esforço conjunto para conter despesas. Estão os políticos tentando economizar? Não: há dias, o Congresso aprovou verba de R$ 927,7 milhões, em 2019, para o Fundo Partidário. De 1996 para cá, a quantia destinada aos partidos cresceu perto de 500%. O Fundo é formado por recursos do Orçamento, mais multas eleitorais. Seu crescimento explica a febre de criação de partidos políticos no país. Em 1996, segundo levantou O Estado de S. Paulo, havia 19 partidos com acesso ao Fundo Partidário. Hoje, são 30. Ter um partido vale a pena: dá dinheiro. A propósito, o Fundo existe para custear a estrutura dos partidos, mas é usado na eleição.

Diferente, mas igual

Como agora existe a cláusula de barreira (um número mínimo de votos para que o partido seja representado no Legislativo, e o dinheiro do Fundo só é dado a quem tenha representantes), muitas legendas devem se fundir, para que continuem a receber suas verbas. Reduz-se assim o número de partidos? Talvez – mas há também os partidos a ser fundados. A disputa no PSDB entre cabeças brancas (que querem o partido na oposição, embora não sistemática) e os cabeças pretas (que querem um partido bolsonarista) deve terminar com o atual PSDB nas mãos da facção Doria e a criação de um novo partido por cabeças brancas como Fernando Henrique, Alckmin, Serra, Tasso, Goldman e outros – como Paulo Hartung, do Espírito Santo, que quer um partido centrista, desejo também de Fernando Henrique.

E, não esqueçamos, o Partido Novo estreou com sucesso, elegendo até mesmo um governador. Seu exemplo deve estimular a criação de outros partidos.

A boa ideia

O deputado Alceu Moreira, do MDB gaúcho, presidente da FPA, Frente Parlamentar da Agricultura, disse que não foi difícil emplacar a candidata do grupo ao Ministério da Agricultura. Em entrevista a Os Divergentes (https://osdivergentes.com.br), contou que Bolsonaro pediu ao grupo uma lista com três nomes, para que ele fizesse a escolha. A FPA atendeu ao pedido: os três nomes eram 1) Tereza; 2) Cristina; 3) Corrêa da Costa Dias. Era o nome da deputada Tereza Cristina, então presidente do grupo, em três pedaços. Bolsonaro gostou da ideia bem-humorada e nomeou a indicada.

A má ideia

Talleyrand, o grande diplomata francês que conseguiu ser ministro no Reinado e na República, com Napoleão e com os inimigos de Napoleão, dizia que a palavra foi dada ao homem para disfarçar seu pensamento. Em boa parte, diplomacia é isto: a troca de confrontos armados por negociações em que as palavras, por definição, não podem transmitir agressividade.

O Brasil age ao contrário, ao retirar o convite para que Cuba, Venezuela e Nicarágua assistam à posse de Bolsonaro, por condenar seus regimes ditatoriais. Tudo bem – e a China, o maior parceiro comercial do Brasil, será uma democracia? Alguém irá “desconvidá-la”? E a Arábia Saudita, o Irã, a Guiné Equatorial, o Sudão, serão por acaso democracias? No fundo, com o sinal trocado, é a mesma posição de Lula ao apoiar abertamente a eleição de Evo Morales na Bolívia, também por motivos ideológicos.

O mundo como ele é

O futuro chanceler, Ernesto Araújo, disse que o Governo “terá postura firme e clara na defesa da liberdade”. Um belo pensamento, digno de aplauso. Mas de quem é que o Brasil vai comprar petróleo quando precisar?

19 de dezembro de 2018

Bolsonaro já desmentiu a notícia. Obras sacras ficam

Mas é errado haver obras sacras (e não sacras) na casa do presidente. As obras deveriam estar em museus, para que todos as vissem.

O certo e o errado

Bolsonaro já desmentiu a notícia, mas até pode só estar voltando atrás. Enfim, as obras sacras do Palácio da Alvorada, em que vai morar, ficam no local de sempre. Certo: se era para evitar o domínio de símbolos de uma só religião, pois o país é laico, teríamos de mudar mais coisas, até nomes com os quais nos acostumamos: São Paulo, Santa Catarina, São Luís, Salvador.

Mas é errado haver obras sacras (e não sacras) na casa do presidente. As obras deveriam estar em museus, para que todos as vissem. O presidente é um cidadão como todos: por que esse privilégio típico de milionários? Sim, o presidente não deve ser privado da arte. Mas boas réplicas – por que não?

Há mais coisas estranhas nessa história da retirada de obras de arte sacra do Palácio da Alvorada. Uma das obras realmente saiu de lá: a estátua de Santa Bárbara, que vem a ser padroeira da Artilharia. Foi para o Palácio do Jaburu, casa que será do vice, Hamilton Mourão. Como Santa Bárbara é a padroeira da Artilharia, e o general Mourão foi artilheiro, por que não?

Porque não; porque é errado. O lugar de uma escultura do século 18, de madeira, é um museu, com temperatura e umidade controladas. Nas mãos de pessoas não-especializadas, numa residência, a tendência é de que se deteriore o que deve ser conservado. Se Mourão for devoto de Santa Bárbara, que mantenha com ele tudo o que se refira à santa. E deixe a estátua, patrimônio cultural do país, para ser vista pelos cidadãos do país.

O homem e sua imagem

João de Deus está preso, e sob intenso ataque; perto de 400 mulheres o acusam de atos que vão de assédio sexual a estupro. Mas a surpresa não tem sentido: houve processos contra ele por contrabando, por exemplo. E por ato libidinoso contra adolescente – isso há mais de dez anos, em 2008. A moça, de 16 anos, fez a denúncia e depois se calou. Qual ato libidinoso? A adolescente foi apalpada; teve a mão colocada no pênis de João de Deus. A Justiça reconheceu os atos libidinosos, mas ele foi absolvido porque “a vítima poderia ter exprimido sua vontade”. A moça lá estava para tratar-se de Síndrome de Pânico. O fato é que, com esses processos e outros, João de Deus foi louvado até por Oprah Winfrey. E, em 2014, foi condecorado pelo governador goiano Marconi Perillo, com a Medalha do Guardião do Estado de Goiás, concedida por “ações reconhecidas como abnegadas”.

Dois pesos

As acusações contra João de Deus lembram muito as referentes a Roger Abdelmassih, que era médico especializado em reprodução humana. Roger Abdelmassih fugiu do país e foi encontrado graças ao empenho de uma das vítimas; condenado a 278 anos de prisão, conseguiu transformar a pena em prisão domiciliar. João de Deus, por atos semelhantes, está trancado numa cela, em prisão preventiva. E nem julgado foi! Abdelmassih saiu-se melhor.

Certo

O deputado federal eleito Tiago Mitraud, do Partido Novo, prometeu em sua campanha que cortaria mais da metade de sua assessoria parlamentar, de 25 para doze assessores. Depois de eleito, Mitraud participou do curso da Câmara sobre o trabalho legislativo e mudou de ideia: em vez dos 12 assessores com que planejava desempenhar seu trabalho, decidiu ficar com seis. Algo mais? Sim: para preencher esses seis cargos, abriu concurso. Se todos fossem como ele, nosso Legislativo seria muito mais ágil e barato.

Errado

A coluna anterior noticiou que o senador gaúcho Lasier Martins viajou de Brasília ao Rio para atender a compromisso familiar, usando as passagens fornecidas pelo Congresso. Esta parte da notícia está certa. Lasier explica que o fornecimento de passagens com nosso dinheiro está amparado no Regimento Interno do Senado, que a passagem aérea para o Rio é mais barata do que para Porto Alegre e que ele gasta menos de 20% da cota de passagens a que tem direito. É verdade; mas o senador não agiu certo. Espera-se que use as passagens a serviço e não para compromissos familiares. A segunda parte da notícia está errada: segundo Sílvio Ribas, assessor de imprensa de Lasier, ele se hospedou no Rio por conta própria. A coluna reconhece o erro cometido, esclarece o caso e pede desculpas.

Chega!

Um dos advogados mais conhecidos do país, Ives Gandra Martins, leitor assíduo desta coluna, discorda de nota publicada na última coluna. Nela, se sugeria que o Governo reduzisse a zero a publicidade oficial e mantivesse apenas a verba para empresas que disputam o mercado, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e outras. Diz Ives Gandra Martins, e com toda a razão: “Banco oficial com clientes institucionais garantidos pela Constituição Federal (art. 164 § 3º), não deveria gastar dinheiro em publicidade”. É isso: não cabe a governos sustentar ou sufocar veículos de comunicação. Eles que sejam independentes e vivam sem o governo.

12 de dezembro de 2018

Não era costume, no Brasil, a Polícia investigar gente importante

Este colunista não sabe qual a parte dos Batista no total de devoluções de dinheiro sujo

De vento em proa

No tempo da ditadura que agora há gente que diz que não houve, corria uma piada sobre delação: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca, quem denunciasse dois comunistas ganharia um Opala, quem denunciasse três comunistas seria preso, por conhecer comunistas demais.

Pois é: a Polícia Federal, com base na delação de Joesley e Wesley Batista, promoveu busca e apreensão na casa de figurões políticos, como Aécio e sua irmã, o senador Agripino Maia, o deputado Paulinho da Força e outros. As delações dos Batista atingiram de empresários, que emitiam notas frias para eles, ao presidente Temer. Beleza: não era costume, no Brasil, a Polícia investigar gente importante. Mas com que resultado?

Como quem conhecia comunistas demais na ditadura, Joesley e Wesley conheciam corruptos em excesso. Isso não os impediu de, na primeiro hora, usar o dedo endurecido para se livrar da cadeia (o que só falhou quando se descobriu que tinham omitido parte da história). E, mesmo atingidos pela lei, estão hoje R$ 2,5 bilhões mais ricos que na época da delação.

Este colunista não sabe qual a parte dos Batista no total de devoluções de dinheiro sujo. Mas as devoluções estão, no conjunto, bem atrasadas: o STF homologou acordos pelos quais 170 delatores teriam de pagar R$ 1,3 bilhão de multas. Teriam; mas R$ 422,9 milhões já vencidos simplesmente não foram pagos. O barco está no rumo certo, mas com vento contra.


Um número, um exemplo

De acordo com Joesley Batista e um de seus diretores, Ricardo Saud, só o JBS deu a Aécio uns R$ 110 milhões em propina. Um governador recebe, em geral, outras ofertas, de empreiteiros, fornecedores, empresários. A quanto podem montar as propinas? Quantos dirigentes as terão recebido?


É golpe

Uma novidade no mercado da invasão de cartões de crédito de outras pessoas: alguém telefona para um telefone fixo e pergunta pelos donos da casa. Quando um dos donos atende, chamam-no pelo nome e perguntam se fez uma compra em loja fina de outro Estado. Quem liga se identifica como funcionário da loja e diz que, se não houve a compra, não fará a entrega da mercadoria. E aconselha quem atendeu a procurar a empresa emissora, cujo telefone está gravado no cartão, e fazer a queixa. Não faz perguntas sobre o cartão, nada. A pessoa liga, é atendida – mas em algum lugar da linha houve um desvio e a chamada é dirigida para o telefone dos golpistas. Ali lhe dizem que, como o cartão foi clonado, deve ser bloqueado. E ao mesmo tempo já providenciam o novo cartão. Na conversa, apuram os dados que lhes faltam (números, etc.) e vão às compras com o dinheiro dos outros.


O cerco a João de Deus

Em quatro dias, desde que foi feita a primeira denúncia contra João de Deus, que se apresenta como médium, o Ministério Público de Goiás já recebeu 78 denúncias de mulheres que dizem ser vítimas de abusos sexuais por ele cometidos. João de Deus é conhecido por promover sessões de cura espiritual em Abadiânia, Goiás, cidade que praticamente vive em torno de suas atividades. diz incorporar o espírito de Santo Ignácio de Loyola, que criou a Ordem dos Jesuítas. Sua fama é tamanha que a cidade vive lotada de pessoas em busca de cura espiritual e é difícil conseguir um horário em sua agenda. Desde que a denúncia foi feita, no programa Conversa com Bial, Rede Globo, no dia 7, João de Deus apareceu em público.


Por trás do Nobel

É um livro grosso, com quase 600 páginas de texto; mas é fácil de pegar e debnão querer largar. Maldito Prêmio Nobel conta as histórias que ninguém contava a respeito do Nobel – inclusive os problemas políticos, inclusive as inclinações ideológicas, inclusive quem é que, na hora da concessão do prêmio, procura influenciar os votantes contra ou a favor de algum dos candidatos. Um exemplo: as tentativas de impedir Albert Einstein de recebê-lo. Um belíssimo trabalho de um grande jornalista: João Lins de Albuquerque, correspondente internacional da Folha de S.Paulo, da revista Visão, do jornal português Expresso. João trabalhou na BBC em Londres, na Swedish Broadcasting Corp. em Estocolmo, foi diretor da Rádio da ONU em Nova York, e por vinte anos cobriu cada edição do Nobel. Ele conhece; pesquisou; e beneficiou-se com a mudança nas normas do Nobel, que passou a divulgar as atas 50 anos após cada prêmio. Boa leitura, ótimo livro, que se transforma em referência para ter em casa.


Homenagem

Neste domingo, no Cemitério Israelita do Embu, SP, a partir das 12 horas, haverá a cerimônia religiosa de descoberta do túmulo de um dos maiores jornalistas do Brasil, Alberto Dines. Dines (um dos padrinhos intelectuais deste colunista) criou no Brasil a crítica da imprensa – que falta isso faz hoje! E em suas mãos o Jornal do Brasil foi o melhor do país.


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