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Notícias Carlos Brickmann

20 de outubro de 2019

000 e a união nacional

Os três zeros à esquerda, 01, 02 e 03, e seu pai, o presidente Bolsonaro, promoveram a união de todos os partidos.

O Governo Bolsonaro superou, finalmente, o “nós contra eles” em que se havia transformado a política nacional: os três zeros à esquerda, 01, 02 e 03, e seu pai, o presidente Bolsonaro, promoveram a união de todos os partidos. Brigaram com um por um – inclusive o seu, o PSL. Conseguiram ser surrados no partido que antes de sua entrada era também um zero à esquerda.

O líder do PSL de Bolsonaro, Delegado Waldir, chamou-o de vagabundo. Joice Hasselmann, a bolsonarista das bolsonaristas, foi afastada da liderança por Bolsonaro – mas diz que será candidata à Prefeitura paulistana com ou sem ele. O presidente quis afastar o Delegado Waldir e não teve força para isso. Quer se livrar de Luciano Bivar, que comanda o partido, e não sabe como. Se sair, corre o risco de sair sozinho: os parlamentares que saírem com ele sabem que, fora do PSL, não terão dinheiro para tentar a reeleição.

Alguém falou em dinheiro? Que mau gosto! Todos sabem que a briga é ideológica, uma disputa sobre posições políticas e caminhos a seguir – sendo que o melhor caminho é o que leva ao fim do arco-íris. Não que queiram dar um fim ao arco-íris, que simboliza a diversidade sexual e que um partido tão conservador rejeita; mas dizem que o arco-íris termina num pote de ouro.

Mas, nessas brigas todas, quem tem razão? O caro leitor não será ingênuo de pensar que essa questão está em pauta. Como é habitual nas discussões políticas brasileiras, ninguém tem razão, nem pai nem filhos. E não há santos.

Da medalhinha pra baixo...

O presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, pouco depois de Bolsonaro ter-se voltado contra ele, foi alvo da Operação Guinhol, da Polícia Federal. Guinhol é um fantoche– e Bivar, dizem adversários, usava a cota obrigatória de candidatas como se fossem bonecas, com grandes verbas, mas gastas de maneira a voltar a quem as havia concedido. Já Bivar acha que a operação teve algo de guinhol – bonecos que agiam sob controle de seu manipulador. Maldade! Quem poderia acreditar que tudo não foi apenas uma coincidência?

...é canela

Com Federal e tudo, Bivar manteve o comando, afastou bolsonaristas e fala em expulsar Bolsonaro. Cria um problema para os expulsos – podem perder o mandato – e obriga Bolsonaro a abrigá-los em algum bom lugar

2022 chegando

E chega de brigas entre pai, filhos e nada de santos. Já se pensa em 2022. É cedo; até lá, tudo pode ocorrer. Se o julgamento de Lula for anulado e ele percorrer o Brasil em campanha, as condições mudam, para melhor ou pior. Mas o que temos hoje é uma surpresa: Luciano Huck, que nem partido tem, está forte na pesquisa, no segundo turno. Bolsonaro, líder da pesquisa no primeiro turno, tem empate técnico com Huck, no limite, no segundo turno: 38 a 34%. Contra Moro, também haveria empate técnico, mas ao contrário: 38 a 34% contra Bolsonaro. Moro bateria Lula por 50 a 37%. Outros cenários: Huck perde para Moro, tem empate técnico com Bolsonaro (com vantagem numérica para Bolsonaro), bate Lula, Haddad, Amoedo, Dória – todos. Moro tem empate técnico com Bolsonaro (mas com vantagem numérica) e derrota os demais candidatos no segundo turno. Se houver crescimento da economia e do emprego, muda tudo. Por enquanto, a pesquisa é apenas um retrato a ser pendurado na parede, esperando os novos fatos.

A loucura dos juros

O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou a financeira Crefisa a pagar R$ 10 mil de danos morais e devolver em dobro “a quantia cobrada de forma abusiva” de um cliente – um senhor de 86 anos, pobre (“em situação de hipossuficiência social”). A Crefisa, patrocinadora do Jornal Nacional e do Palmeiras, cobrava juros de mais de mil por cento ao ano, informa Pedro Canário, do ótimo portal Consultor Jurídico. Mesmo considerando-se os imensos juros bancários no Brasil, a porcentagem chama a atenção. Os juros foram cobrados em três contratos, todos de empréstimo consignado. Nos três casos, foram superiores a mil por cento ao ano. O primeiro empréstimo, de R$ 325,00, tinha juros de 1.415% ao ano. A dívida de R$ 325,00 passou em três meses a R$ 1.900,00. O segundo, de R$ 1.500,00, com juros de 1.019% ao ano, em oito meses chegou a R$ 3.100,00. O último, de R$ 348,00, em seis parcelas, com juros de 1.032% ao ano, alcançou R$ 2 mil.

O castigo

Além dos danos morais, a Crefisa tem de reajustar os contratos para cobrar os juros da média do mercado, calculados mês a mês pelo Banco Central. O que foi cobrado a mais terá de ser devolvido em dobro, por ordem da Justiça. Diz o desembargador Roberto Mac Cracken, no voto vencedor: “Os juros cobrados são de proporções inimagináveis, desafiando padrões mínimos de razoabilidade e proporcionalidade, e de difícil adimplemento em quaisquer circunstâncias”. O desembargador determinou providências ao Procon de São Paulo, à Defensoria Pública do Estado e ao Banco Central.

16 de outubro de 2019

A guerra sem vencedora: Bolsonaro x PSL

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

A guerra sem vencedores

As notícias ruins são amplamente majoritárias, mas já há coisas boas no ar. A pesquisa XP, realizada por uma empresa financeira para orientação de seus investidores, pela primeira vez mostra crescimento da popularidade do Governo. A porcentagem de quem acha o Governo Bolsonaro ótimo ou bom foi de 30 para 33%, quem o considera ruim ou péssimo caiu de 41 para 38%. As expectativas também melhoram: 46% acreditam que o Governo ainda vai melhorar (antes, eram 43%). Não é apenas questão de opinião: o índice de empregos na construção civil subiu um pouquinho – em vez de apenas cair- e leis antipoluição na China abrem a perspectiva de exportar álcool para lá.

E que é que o Governo faz? Arruma outra briga, agora com seu próprio partido, o PSL. Pede auditoria nas contas do partido no período anterior a seu ingresso – e, em troca, o PSL põe em dúvida os gastos de Eduardo Bolsonaro para organizar o encontro conservador, um milhão de reais. Qual a importância do duelo? Para o país, nenhuma. Para os duelantes, o controle dos apetitosos fundos eleitorais do PSL. No momento, o presidente do PSL, Luciano Bivar, está em desvantagem: a Polícia Federal fez operação de busca e apreensão em seus escritórios, para apurar o uso de mulheres-candidatas que serviriam para desviar verbas dos fundos eleitorais. Mas Bolsonaro pode ter troco: dois de seus filhos dirigem diretórios estaduais do PSL e o acusado de comandar o laranjal é ministro de seu Governo.

Quem bate, leva.

A crise do laranjal

O caso das candidatas é simples: por lei, os partidos são obrigados a lançar um determinado número de mulheres para as disputas legislativas. Acontece que, no caso, as candidatas receberam verbas substanciosas e aparentemente não fizeram campanha – tanto que obtiveram número mínimo de votos. Há suspeitas de que o dinheiro da campanha (que tem origem pública) foi destinado a outros gastos, e por isso a Polícia Federal investiga o caso. Mas Bolsonaro fez questão de manter o ministro que é investigado por isso.

O bate-volta

Bolsonaro disse que o presidente do PSL “está queimado” e há quem ache que quer trocar de partido. Difícil: os parlamentares podem perder o mandato ou, mesmo que o mantenham, ficar sem recursos para disputar a reeleição. A busca e apreensão abre campo para o argumento de que os parlamentares deixaram o partido por problemas éticos. Mesmo assim, é complicado. E os dirigentes do PSL já falam em expulsar quatro parlamentares, o que não só põe seus mandatos em risco como os deixa sem dinheiro para a reeleição. É uma briga ruim para todos. E deixa o núcleo bolsonarista mais reduzido.

Bobos e moleques

Um dos principais alvos de críticas no PFL é Carlos Bolsonaro, o filho 02 de Bolsonaro. O senador Major Olímpio trocou insultos com 02, a quem chamou de “moleque”. O 02 chamou-o de “bobo da corte”. Detalhe: o senador está brigado também com Eduardo Bolsonaro, o filho 03, e é ligado a Joice Hasselmann, a mais votada da Câmara. Joice tem apoio de Olímpio para disputar a Prefeitura paulistana, e o apoia para governador.

Eduardo 03 não quer Joice nem Olímpio: o presidente Bolsonaro falou em lançar José Luiz Datena, que não é do partido, para a Prefeitura, em vez de Joice. Numa tradução simples, o PSL paulista rachou inteirinho após a vitória de 2018.

Quem ganha?

Esta briga de bolsonaristas de primeira hora com os filhos de Bolsonaro tem uma característica diferente: ninguém ganha. Pelo jeito, todos perdem.

Dia quente

O Supremo marcou para amanhã o julgamento de três ações que contestam a prisão de condenados em segunda instância. A Constituição diz que só se inicia o cumprimento da pena após o encerramento do processo – o trânsito em julgado. O Supremo decidiu, em julgamentos anteriores, que a pena pode se iniciar após condenação em segunda instância. Lula foi preso após a condenação em segunda instância, embora o processo não tenha sido encerrado – José Dirceu, também. Caso o Supremo mude de entendimento, o que é provável, os condenados em segunda instância deverão ser libertados. Há quem diga que 190 mil pessoas estão nessa situação (o número parece ser exagerado). Qualquer que seja o resultado, deve ser apertado: algo como 6x5.

Celular especial

A Anatel, Agência Nacional de Telecomunicações, autorizou o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República a usar bloqueadores de celular onde estiverem o presidente Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão. O bloqueio atingirá 200 metros de distância de ambos.

Uma curiosidade: até hoje, alegou-se que bloqueadores de sinal de celulares não funcionariam para impedir que bandidos presos comandassem da cadeia as atividades de suas quadrilhas. Será que de repente apareceu uma invenção tornando possível aquilo que sempre foi dado como impossível?

13 de outubro de 2019

Irmã Dulce, agora canonizada, chama-se Santa Dulce dos Pobres

Certíssimo: aquela que foi santa em vida passa a ser cultuada e a dar seu santo exemplo aos católicos.

Os devotos do luxo

Irmã Dulce, agora canonizada, passa a chamar-se Santa Dulce dos Pobres. Certíssimo: aquela que foi santa em vida passa a ser cultuada e a dar seu santo exemplo aos católicos. Mas, fora isso, está tudo errado: o presidente Bolsonaro não foi à canonização por questões eleitorais, o que é inaceitável, por misturar religião e política, e a comitiva brasileira que está no Vaticano, com algumas exceções, aproveita a inscrição de Santa Dulce dos Pobres no rol dos santos católicos para fazer uma viagem de rico, paga por todos nós.

Bolsonaro deveria representar o Brasil no louvável evento. Não foi por esquecer que, presidente, é presidente de todos. Sua esposa é evangélica, evangélicos são muitos de seus apoiadores. E daí? A Irmã Dulce une, não divide. Une a maioria católica sem ofender outras religiões e deve ser louvada por todos – o que inclui este colunista, que não é católico nem cristão, mas louva quem faz o bem, seja qual for a religião que professe.

Quanto à enorme comitiva que foi ao Vaticano, com tudo de graça, com hospedagem na magnífica Embaixada brasileira em Roma, com diárias, muitos levando esposas, muitos levando filhos, que vergonha! O vice-presidente Mourão cumpriu a missão de nos representar na canonização da primeira santa aqui nascida. Os presidentes de Câmara, Senado, STF, vá lá. O procurador-geral da República viaja por sua conta, ele e a esposa. Certo: mostra sua fé. Torrar dinheiro público e ostentar um terço no bolso, fé não é.

Muy amigo

Bolsonaro acreditou que, fazendo uma série de concessões a seu ídolo Donald Trump, conquistaria o status de aliado preferencial dos americanos. O Brasil foi duríssimo na ONU ao apoiar a posição dos EUA com relação à Venezuela, o filho do presidente se fez fotografar com o boné de propaganda de Trump, e Trump, em troca, prometeu apoio à pretensão brasileira de entrar na OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Mas, em carta à OCDE, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, só citou Argentina e Romênia entre os candidatos à OCDE. Brasil, nem sonhar.

Trump garantiu a Bolsonaro que sua promessa continua valendo e disse que a carta de seu secretário de Estado era fake news. Só que é uma carta, escrita, assinada pelo Governo americano, e a promessa de Trump é verbal. Mas o problema não é só esse: a Europa quer expandir rapidamente a OCDE, para garantir maioria de votos, e os EUA querem um avanço mais lento. Por isso propuseram só dois candidatos, Argentina e Romênia. o que a Europa não pode aceitar: por vários motivos, precisa colocar também a Bulgária. Se o Brasil for proposto, abre-se espaço para a Bulgária, o que Trump não quer. Logo, vale o que Pompeo escreveu, não o que Trump falou. Simples assim.

E faz falta

Para o Brasil, entrar na OCDE seria excelente: as normas do grupo exigem estatísticas precisas, normas rígidas de combate à corrupção, padrões iguais de legislação. Para os investidores (especialmente fundos), estar na OCDE dá a um país um selo de boas práticas comerciais e segurança jurídica. Quem sabe um dia o presidente Trump, nosso muy amigo, muda de ideia?

Bons indícios...

Há indicações de que Estados Unidos e China estejam chegando a acordos que, ao menos parcialmente, resolvam os problemas entre os dois países. A informação da agência Bloomberg foi reforçada pelo presidente Trump que disse que há “boas coisas” entre EUA e China e que, tão logo se confirmem, haverá um acordo “rápido e limpo”. Com base nesses indícios, a Bolsa brasileira subiu, e tudo indica que seu índice ultrapassará 104 mil pontos nos próximos dias. A Bolsa de Nova York subiu 1,5%. Boas notícias.

...mas a guerra continua...

O presidente da República continua a exercer brilhantemente o papel de líder da oposição. Há boas notícias? Então, deflagrou uma guerra com seu partido, o PSL. Bolsonaro sabe que o PSL, antes um partido nanico, cresceu com sua adesão (e com a vitória eleitoral dos bolsonaristas) e se tornou um dos maiores partidos do país. Se ele sair, o PSL volta à posição de partido nanico. É verdade – mas, se os bolsonaristas saírem, poderão perder o mandato por infidelidade. E as suculentas verbas destinadas ao partido ficam com ele, enquanto os parlamentares ficarão sem dinheiro para a próxima campanha. A saída dos bolsonaristas, sob este aspecto, seria ótima para o presidente do PSL, Luciano Bivar: quem ficasse teria verbas muito maiores.

...e se amplia

Houve declaração de guerra também entre aliados. Eduardo Bolsonaro e Major Olímpio, senador por São Paulo, praticamente romperam relações. A luta envolve também a deputada federal mais votada, Joice Hasselmann, que se aliou a Major Olímpio. Joice é candidata à Prefeitura paulistana, mas quem não a quer é o próprio Bolsonaro, que pretende lançar o apresentador José Luiz Datena. Por que Datena? Porque tem prestígio. Porque não é Joice.

01 de outubro de 2019

A volta da pantera cor de rosa

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

A volta da pantera cor de rosa

Meu nome é Rodrigo Janot, mas pode me chamar de Inspetor Closeau. Lembre: o Inspetor Closeau era o atrapalhado personagem do filme A Pantera Cor de Rosa, interpretado por Peter Sellers, um especialista em se meter em confusões. Imitando Closeau, Janot gerou confusão: muito tempo depois dos fatos, decidiu contar que foi um dia ao Supremo Tribunal Federal, armado, para matar o ministro Gilmar Mendes e matar-se em seguida. Mas, diz, a mão de Deus o impediu de fazer a besteira. Guardou-se para fazer a besteira mais tarde, revelando ao país que por pouco um procurador-geral da República, surtado, só não precipitou uma crise graças à intervenção divina. E ainda falam de Damares e de Jesus que ela diz ter visto na goiabeira!

Ter a intenção de matar, desde que não seja consumada, não é crime. Mas Janot, no papel de Closeau, disse que Michel Temer lhe pediu que suspendesse as pressões sobre o deputado Eduardo Cunha. Isso teria ocorrido em 2015. Se o fato ocorreu, e Rodrigo Janot não tomou providências legais, talvez possa ser acusado de prevaricação – falta de cumprimento do dever. E isso é crime. Há mais um complicador no caso: ir armado ao Supremo, com intenções homicidas (embora não executadas), levanta dúvidas sobre o equilíbrio emocional de quem tem porte legal de arma. Tem, não: tinha.

Mas nem tudo no ex-procurador Janot lembra o Inspetor Closeau. Closeau era representado por Peter Sellers. Convenhamos, falta a Janot esse talento.

A ação

O STF reagiu duramente: a Polícia Federal recebeu ordem do ministro Alexandre de Moraes para fazer busca e apreensão na casa de Janot e recolher as armas que fossem encontradas. Janot está proibido de entrar no STF e em qualquer de seus anexos e de se aproximar de qualquer ministro.

A inação

A Polícia Federal vem sendo criticada por ter falhado ao cumprir ordens anteriores do ministro Alexandre de Moraes a respeito da segurança do STF e de seus ministros. O diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, que esteve na mira de Bolsonaro (e se manteve por ter a confiança de Moro), deve balançar. Dificilmente Moro conseguiria agora segurá-lo – e segurar a si próprio.

As duas faces do bem

A irritação de Janot com Gilmar Mendes, que o levou a pensar em homicídio, nasceu da resposta a um pedido do então procurador-geral de suspeição, para que o ministro não votasse em determinado caso. Motivo: sua esposa trabalhava no imenso escritório de advocacia que defendeu Eike Batista. Na resposta, Gilmar afirmou que a filha de Janot tinha trabalhado para empreiteiras envolvidas na Lava Jato. Logo, se um era suspeito, por laços familiares, o outro também o era. Janot, que considerava sua observação sobre a esposa do ministro totalmente adequada, quis matá-lo por fazer referência semelhante sobre sua filha.

Um erro de tempo

Janot deu as entrevistas agora, época em que vai lançar seu livro Nada Menos que Tudo, escrito pelos jornalistas Jailton de Carvalho e Guilherme Evelyn. Esta costuma ser época boa para lançar livros, já que é época de compra de presentes de Natal. Mas, depois do que disse, o ex-procurador-geral Rodrigo Janot faria melhor se o lançasse não perto do Natal, mas do Carnaval.

Lava Jato – e agora?

Duas informações importantes: primeiro, embora já haja no Supremo uma maioria consistente em favor de anular julgamentos em que réus delatores tenham deposto depois dos demais réus, a decisão ainda não foi formalizada: isto deve ocorrer apenas na quarta-feira (e, embora não se acredite na possibilidade, sempre alguém pode pedir vista do processo). Segundo, mesmo que a decisão seja tomada na quarta-feira, sem que haja qualquer novidade, isso não significa que todos os réus da Lava Jato terão o direito de pedir anulação do julgamento. Há vários caminhos e um deve ser escolhido.

Lula lá ou Lula cá?

A tendência da opinião pública é personificar a discussão em torno do ex-presidente Lula. A decisão do STF, tal e qual se espera, irá beneficiá-lo? Em princípio, não: o caso do apartamento do Guarujá, pelo qual foi condenado, não envolveu a participação de delatores. Mas Lula deve deixar a prisão por outro motivo: já cumpriu um sexto da pena, com bom comportamento, e tem direito à progressão de regime penitenciário. Lula não fez o pedido e não quer aceitá-lo, mas é possível que seja obrigado a fazê-lo.

No caso, teria de cumprir algumas exigências legais, como conseguir um emprego fixo.

Como ficam os julgamentos

Isso é algo que deve ser resolvido na quarta-feira. Há diversas posições de diversos ministros. Barroso quer que a medida seja válida apenas de agora em diante: o passado passou. Carmen Lúcia acha que o julgamento pode ser anulado desde que o réu prove que foi prejudicado.

18 de setembro de 2019

O que é valioso desmancha no ar

O que é valioso desmancha no ar

Confira o texto publicado na coluna Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

Há poucos dias, no sábado, fez um ano que a Polícia Federal apreendeu, no aeroporto de Viracopos, SP, 19 malas com dinheiro e objetos de luxo. No total, algo como US$ 20 milhões. Era a bagagem de Teodorin Obiang, filho de Teodoro Obiang, há mais de 40 anos presidente (e homem mais rico) da Guiné Equatorial. Que é que Teodorin veio fazer no Brasil, tão perto das eleições, com tanto dinheiro e tantos objetos de valor? Nas investigações da Lava Jato, a Guiné Equatorial é sempre citada como parceira preferencial de empreiteiras brasileiras, aquelas que acompanhavam as viagens de Lula à África e ganhavam gordas concorrências, com o financiamento do BNDES.

Os relógios trazidos nas malas de Teodorin eram fantásticos: caixas de ouro ou platina, amplamente guarnecidas de brilhantes, de grandes marcas. Relógios ocupam pouco espaço, valem muito, podem ser transformados em dinheiro com facilidade. A propósito: onde estão as joias e relógios trazidos às vésperas das eleições pelo vice da Guiné Equatorial? E o dinheiro, em dólares e reais? Não se fala mais no assunto? Não ficou claro nem quem iria se beneficiar de objetos tão valiosos! Há quem diga que era a contribuição da Guiné Equatorial a seus candidatos favoritos – mas não há prova alguma disso, devem ser apenas comentários maliciosos.


Teodorin Nguema Obiang Mangue / Facebook/Reprodução

De qualquer forma, seria interessante saber se o dinheiro e os objetos de valor estão sob custódia, ou foram devolvidos a quem os trouxe. Imagine, joias tão lindas sumindo no ar!

Rico, rico, rico

Claro que se pode dizer que o assunto não tem a menor importância, que a imprensa canalha faz tempestade em copo de champagne. Afinal, nada é tão normal quanto um país que está em 144º lugar em Índice de Desenvolvimento enviar seus governantes com malas de joias e dinheiro para uma visita turística a uma nação amiga -onde o turismo deve ser caríssimo.

Vergonha pouca...

Pesquisa da Câmara Federal mostra que 71% dos juízes do país ganham mais que o teto constitucional de R$ 39,2 mil. Recebem auxílio-moradia e auxílio-alimentação, muitas viagens com boas diárias, penduricalhos diversos. E, na última semana, o Conselho Nacional de Justiça permitiu que o auxílio-saúde (10% do salário-base de desembargador) não espere ninguém ficar doente: já pode ser pago em dinheiro, mesmo sem problemas de saúde. O colunista Claudio Humberto (www.diariodopoder.com.br) lembra que, há três anos, o Senado aprovou projeto que limitava os supersalários. Agora o projeto está na Câmara, onde dorme esquecido.

...é bobagem

O deputado federal gaúcho Paulo Pimenta, líder do PT na Câmara, usou dinheiro de sua cota parlamentar para visitar o ex-presidente Lula, que está preso em Curitiba. Desde que tenha alguma relação com o exercício do mandato, a cota parlamentar pode cobrir viagens nacionais, seja para onde for. A assessoria de Pimenta diz que foi a uma atividade do PT paranaense, em Curitiba. E aproveitou a oportunidade para pedir instruções na cadeia. Por que deixaria Haddad com o monopólio das conversas do cárcere?

Questão de prioridade

O governador João Doria inaugurou novas e amplas instalações para o 8º Distrito Policial do Brás, em São Paulo. Foram investidos R$ 4,6 milhões nas obras – parte, ao que dizem, de R$ 100 milhões oferecidos pela Febraban, Federação Brasileira de Bancos, para reformas de distritos policiais, tudo, é claro, sem interesse algum. O DP reformado ficou bonito, bem mobiliado, mas talvez não seja esta a maior necessidade da Polícia Civil paulista.

Nela, falta preencher 24 mil vagas, faltam coletes à prova de bala, há coletes com prazo de validade vencido. E o salário dos policiais civis é o mais baixo do Brasil, embora trabalhem no Estado mais rico do país. Delegacias bem montadas e bem equipadas são um excelente cartão de visita. Mas polícia é mais do que isso: exige salários, equipamentos, ciência, quadros completos.

Petróleo sem problemas

O ataque a refinarias sauditas, seja iniciativa iraniana (que disputa com a Arábia Saudita a liderança do Oriente Médio árabe), seja iniciativa dos rebeldes iemenitas contrários ao regime de seu país, apoiado pelos sauditas, está sendo considerado um problema passageiro. Imagina-se que não haverá falta de petróleo, nem alta explosiva de preços. Imagina-se que a situação logo voltará ao normal. Se o que se imagina for otimista demais, há ainda a liberação das reservas estratégicas dos EUA. No Brasil, a Petrobras avalia a situação, mantendo preços. Os juros brasileiros devem cair mais um pouco.

Homenagem bonita

O jornalista Caetano Bedaque foi homenageado no dia 13, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, “pelos excelentes serviços prestados à televisão brasileira”. A homenagem foi comandada pela vereadora Sandra Thadeu e a presidente do Instituto Pro-TV, Thaís Alves. Conheço-o: foi homenagem merecida.

16 de setembro de 2019

Abrir partidos virou bom negócio no Brasil

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

Octavio Frias de Oliveira, o empresário que transformou a Folha no maior jornal do país, costumava dizer que a vantagem de ter idade era ter visto tudo acontecer – e o contrário também. Hoje entendo o que Frias nos ensinava.

Quando eu era garoto, os políticos não eram muito diferentes dos de hoje. Jogavam pesado durante o mandato, faziam o que não deviam na campanha. Mas tudo com dinheiro recolhido por eles: havia quem tomasse algum dos bicheiros, das prostitutas, dos motoristas de táxi, dos pequenos empresários (muitos) e dos grandes empresários (poucos). Havia chantagem, havia toma lá dá cá, havia promessa de favores a quem doasse mais – mas cada partido, cada candidato, cuidava de sua arrecadação, sem botar a mão no bolso dos eleitores. E nunca faltou dinheiro para uma eleição.

Aí inventaram o tal do financiamento público de campanha, pelo qual um eleitor tem obrigatoriamente de contribuir para a eleição de candidatos de que não gosta, de partidos que despreza. E é um monte de dinheiro: no nosso apertado Orçamento, a verba eleitoral atinge R$ 3,7 bilhões. Falta dinheiro para vacinas, falta dinheiro para saneamento, mas não falta dinheiro para dar boa vida a candidatos que, definitivamente, não chegam a nos fascinar.

Fora sustentar os pançudos, há outro problema: abrir partidos virou bom negócio, porque participam da divisão da megaverba. Políticos podem olhar-nos com desprezo. Somos os babacas que pagam quem vai nos desapontar.

Extremos unidos

Os grupos mais felizes com Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro para a Procuradoria Geral da República, são os bolsonaristas e os petistas. Os extremos se tocam. Aras não chega a ser fã da Lava Jato e disse que usará o cargo para fazer justiça e não para perseguir políticos e a política. A leitura bolsonarista: Aras não irá perseguir Flávio Bolsonaro. Disse também que não será só acusador, mas buscará absolver os injustiçados. Leitura do PT: “injustiçado” é Lula. Jaques Wagner pediu aos petistas um voto de confiança a Aras. Nada como ter problemas parecidos para apoiar soluções idênticas.

A chance de Lula

No final deste mês, ou no início de outubro, no máximo, o Supremo deve reexaminar o caso de Lula (que acusa Sérgio Moro de ter sido parcial) e a prisão após condenação em segunda instância (a Constituição determina a prisão após trânsito em julgado, ou seja, quando não houver mais nenhuma possibilidade de recurso). Segundo a Folha de S.Paulo, o ministro Celso de Mello não gostou do conteúdo das mensagens que, segundo The Intercept, Moro trocou com os procuradores da Lava Jato.

Se Celso de Mello, que votava pela prisão após condenação em segunda instância, mudar de posição, o Supremo retornará à posição anterior, de só admitir prisões após o trânsito em julgado. Dizem os lavajatistas que com isso estará liquidada a Operação Lava Jato: sem ameaça de ir logo para a prisão, para cumprir longas penas, por que alguém iria aderir à delação premiada?

Boa pergunta

Será impossível fazer investigações sem o uso da delação premiada?

A guerra dos impostos

A demissão de Marcos Cintra, secretário da Receita Federal e defensor do Imposto Único, deve gerar crises no bolsonarismo. Empresários que lutam há anos pelo imposto único, liderados por Flávio Rocha, que foi candidato à Presidência tendo essa tese como programa, estão insatisfeitos e já chamaram Cintra para trabalhar com eles. Rocha é um dos apoiadores de primeira hora de Bolsonaro. E, exatamente por causa dos impostos do país, levou boa parte da produção de sua Confecções Guararapes para o Paraguai.

O alegre retorno

Aproveitando o clima político contrário à Lava Jato, deputados federais se preparam para proibir que juízes de primeira instância possam mandar quebrar seus sigilos ou prendê-los. Processar, tudo bem, mas sem atingir as autoridades. Além disso, já foi aprovado na Câmara (e será votado depois de amanhã no Senado) um projeto que muda as regras eleitorais e partidárias. A mudança envolve apenas dinheiro: abre brechas mais amplas para Caixa 2 e dificulta a apuração de irregularidades na prestação de contas.

Garantindo o conforto

E, para evitar novos incômodos, um grupo de deputados (do PT e partidos anexos, com a única exceção do pedetista cearense André Figueiredo) propôs uma CPI da Lava Jato. A informação que divulgam é de que já reuniram as 171 assinaturas necessárias. Tudo agora depende de Rodrigo Maia tocar ou não em frente a instauração da CPI. Sem investigações a vida é bem melhor.

Consequências

Em boa parte por causa desta confusão, a confiança na economia piorou para 38,1% dos profissionais de vendas e marketing. A pesquisa foi feita pela ADVB, Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.

11 de setembro de 2019

Carluxo tem razão, Itália e Alemanha abandonaram a democracia

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

NEM SEMPRE É O QUE PARECE

Um dos zeros do presidente, Carluxo, levou cacetadas só por ter dito que, por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer “não acontecerá na velocidade que almejamos“. E, no entanto, Carluxo tem razão. Foi abandonando a democracia que Mussolini fez com que os trens da Itália cumprissem o horário. Tudo bem que algum tempo depois a Itália fosse invadida e ele terminasse seus dias pendurado pelos pés. Mas foi tudo rápido. Como foi rápida a transformação da Alemanha tão logo Hitler fugiu das vias democráticas. Montou avançados campos de extermínio, levou o país a ser atacado com as mais modernas armas então existentes, e depois passar uns 50 anos dividido em dois – algo, convenhamos, transformador, diferente de tudo o que havia antes.

Há quem pense que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, movido pelo fervor fundamentalista, errou feio ao tentar apreender os gibis da Marvel em que dois super-heróis se beijavam. Nada disso: Crivella passou a ser criticado por esquecer que o país é laico, que revista compra quem quer e que a censura é proibida pela Constituição. Enquanto isso, não o criticaram pela total inoperância como prefeito do Rio. Crivella, como o prefeito paulistano Bruno Covas, é simpático, bom de conversa, mas concentra defeitos na parte administrativa. Digamos que Crivella é uma espécie de Bruno Covas capaz de citar longos trechos do Evangelho.

Qual a vantagem?

Parece que está sendo difícil defender a gestão de Crivella como prefeito. Ao brigar com os super-heróis, passa a ser defendido por eleitores que, como ele, se opõem a fotos, desenhos ou frases que pareçam ser contra a religião. Embora o trio Batman, Robin e Alfred, e as duplas Mandrake e Lothar, o Fantasma e Guran, o líder pigmeu, nunca tenham dado margem a dúvidas.

Salvador sem pornografia

ACM Neto, prefeito de Salvador, promulgou a lei que proíbe pornografia em eventos da Prefeitura. OK – mas como definir o que é pornografia? No Carnaval de Salvador dificilmente as letras estão distantes do tema proibido. Nos bons tempos em que Carlos Moreno era garoto-propaganda da Bombril, uma das músicas do Carnaval de Salvador, composta pelo pessoal da agência de publicidade que cuidava da conta, tinha como refrão “Pega no Bombril dela”. Nos tempos da censura do regime militar, as revistas de mulher pelada receberam instruções sobre o que era proibido ou permitido. Mulher nua só podia exibir um dos seios. Mas, com uma camiseta molhada, transparente, podia mostrar os dois. E havia a proibição do impossível: não era permitido mostrar uma foto frontal de bunda. Essa nem Picasso conseguiria.

Boa notícia

O Brasil continua sendo um dos recordistas mundiais de assassínio, mas melhorou um pouco: pela primeira vez em três anos, caiu o número de pessoas assassinadas. Em 2018, houve menos assassínios que em 2014. Não é uma grande redução, mas é uma redução: houve 57.341 pessoas assassinadas. Mas o número de mortos pela Polícia alcançou o recorde de 6.220. Não se sabe se um número deriva do outro. Está aí um bom tema para debates: quando a Polícia mata mais, o número total de assassínios se reduz? Ou, o que também é possível, um número não tem nada a ver com o outro?

O bem-bom, de novo

Deu no Estadão: “Com aval de Rodrigo Maia, um grupo de parlamentares liderados por Luiz Flávio Gomes (PSB de São Paulo) quer impedir que juízes de primeira instância determinem medidas drásticas contra políticos, como prisão, quebra de sigilos bancário e telefônico, além de busca e apreensão.” Isso é para evitar “o ativismo judiciário”, nome que dão ao trabalho do juiz de primeira instância quando determina medidas contra alguma Excelência.

Todos são iguais perante a lei, mas há os que querem ser mais iguais.

Meninos, eu li

O vice-presidente general Hamilton Mourão, comentando a frase de Carluxo Bolsonaro sobre a dificuldade de transformar rapidamente o país por causa da democracia, disse que democracia é o pilar da sociedade. Vivemos todos para testemunhar, caros leitores, um general linha-dura ensinando a importância da democracia a um civil que ganha a vida graças a ela (já que seus salários de vereador são pagos porque foi votado e se elegeu).

Buscando médicos

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, PSDB, propôs o Contrato do Programa de Médicos (sucessor do Mais Médicos), para ampliar o sistema de saúde do município. Os três senadores do Estado o apoiaram e, reunidos com o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, acertaram a assinatura de convênio, já previsto no orçamento municipal. E daí? Daí, nada: Erno Harzheim, secretário da Assistência Básica do Ministério da Saúde, está emperrando, por algum motivo desconhecido, a assinatura do convênio. Quem manda lá?

04 de setembro de 2019

A lição de que a tolerância é essencial ainda não foi aprendida

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

Armai-vos uns aos outros

Faz mais de 500 anos, pouco depois da descoberta do Brasil. Na França, o Governo católico perseguia os huguenotes, protestantes. Numa só noite, só em Paris, três mil protestantes foram assassinados, apenas pela religião (foi a Noite de São Bartolomeu). O líder dos huguenotes era Henrique de Navarra. Certo dia, ele foi informado de que herdaria o trono da França caso se convertesse ao catolicismo. Disse uma frase célebre, “Paris bem vale uma missa”, converteu-se, chegou ao trono. E deu liberdade religiosa aos huguenotes. Depois de mais de 30 anos de guerra, a França voltou a crescer.

Faz mais de 500 anos, mas a lição de que a tolerância é essencial ainda não foi aprendida. Há dias, um restaurante de palestinos refugiados da guerra na Síria foi atacado em São Paulo – parece que apenas por ser palestino. Um humorista, Gustavo Mendes, foi ameaçado de agressão em Teófilo Otoni por fazer piadas sobre Bolsonaro (só ameaças – mas porque ele saiu com escolta policial). Abra o blog de Caio Blinder, há pessoas que o odeiam por ser judeu e postam slogans antissemitas. Só no Brasil? Não, na França há atentados contra judeus e contra imigrantes muçulmanos. Em Londres, manifestantes contrários ao primeiro-ministro Boris Johnson sugerem que ele e seus seguidores sejam mortos em câmaras de gás, “como em Auschwitz”. 

Protestantes, católicos, judeus, islâmicos crêem no mesmo Deus único. Só existe uma raça, a humana. Diante disso, como se pode ser intolerante? 

O Mal, espalhado 

O Irã condena homossexuais à morte, nos EUA, Inglaterra e França, que guerrearam o nazismo, há nazistas. Há quem discrimine negros. No Brasil, alguns antibolsonaristas supõem que 53 milhões de fascistas votaram nele; e alguns bolsonaristas acham que quem é contra Bolsonaro é comunista. Para Bolsonaro, comunistas deveriam ir para Venezuela ou Cuba, apenas por pensarem diferente. Desconhecem a boa política: não fique tão perto que se transforme em adesista, nem tão longe que não possa reaproximar-se. O mundo vai mal, acreditando em loucuras. O Brasil da “solução mulata” de Silveira Sampaio, da abençoada miscigenação, vai aderir à loucura geral?

Os doidos em ação 

Lembra daquele doido que outro dia tentou invadir o Congresso, quebrou as portas de vidro e teve de ser algemado? Há um vídeo dele na Internet, em que promete dar uma facada mortal em Bolsonaro e matar ministros do STF. Precisa surgir alguém propondo trégua e tolerância. Ou vamos acabar mal. 

Morro abaixo 

A popularidade do presidente Bolsonaro está em queda, conforme as duas últimas pesquisas: pelo Datafolha, ele é reprovado por 38%, contra 29% que o apoiam (em julho, eram 33%, contra e a favor). O Atlas Político, citado pelo site O Antagonista, informa que a rejeição ao presidente ultrapassou os 50%, embora por pouco, pela primeira vez: 50,9%. A avaliação positiva, em junho, era de 50,3%. Em julho, de 46,2%. Agora, caiu para 42,9%. 

Moro acima 

Já o ministro da Justiça, Sérgio Moro, mantém sua lenta ascensão, diz o Atlas Político. Está com imagem positiva para 51,7% dos eleitores. Em julho eram 51,4%. Em junho, 50,4%. Aparentemente, a divulgação das conversas entre Moro e procuradores da LavaJato não o prejudicou. Segundo a Paraná Pesquisas, 58,8% querem que ele fique no cargo, contra 34,3% contrários. 

O risco do herói 

Em público, Bolsonaro acostumou-se a desdenhar pesquisas, lembrando que previam que ele perderia o segundo turno contra qualquer adversário. Na prática, já começou a cortar as asas de Moro, dizendo que não prometeu nomeá-lo para o Supremo, chamando-o de “ingênuo” e lembrando que certos cargos são de livre nomeação do presidente, e não de ministro nenhum. Não há quem seja possível candidato à Presidência que deixe de ser atacado: João Doria e Luciano Huck foram apontados como beneficiários de empréstimos privilegiados do BNDES, para comprar jatos executivos da Embraer. Não é verdade: a beneficiária era a Embraer, que ganhava condições de vender seus jatos. E daí? Moro, se continuar em alta, pode ser a próxima vítima. 

Dinheiro falta 

A Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, anunciou que, pelo Orçamento, só terá dinheiro para pagar metade das bolsas de pósgraduação em 2020 – sim, isso significa que teremos menos gente altamente preparada. O CNPq, Conselho Nacional de Pesquisas, anunciou que o dinheiro de suas 80 mil bolsas dura até o quinto dia útil de setembro. 

Dinheiro abunda 

Falta dinheiro para ciência e pesquisa, mas o Orçamento prevê aumento de 48% no Fundo Eleitoral, para pagar a campanha deles com nosso dinheiro. Isso significa que PT e PSL terão R$ 250 milhões, cada, em 2020. Faça as contas, caro leitor: seus rendimentos aumentam 48% de um ano para outro?


28 de agosto de 2019

Fumaça nos olhos

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickmann no Jornal O Dia.

As queimadas na Amazônia foram politicamente boas para todos os lados: o presidente francês Macron se mostrou preocupado com a floresta, com a ecologia, e ganhou também com a grosseria de Bolsonaro, que foi atingir a primeira-dama da França; e Bolsonaro, que comprovou ter apoio de Trump, e obteve também o suporte de Japão, Canadá, Alemanha, Inglaterra. De certa forma ganhou o Brasil, já que a política de preservação da Amazônia acabou entrando em discussão, prós e contras. Mas que Bolsonaro não permita que a fumaça da Amazônia prejudique sua visão política: tem a popularidade em baixa, e o motivo, obviamente, não é queimada nenhuma. É a economia.

Estão no forno algumas reformas importantes, mas nenhuma tem efeito imediato no que importa: na baixa do desemprego, no desenvolvimento, no aumento do poder de compra. Há muito menos gente interessada na floresta do que nas contas a pagar, no emprego, nas necessidades da família.

Por isso a pesquisa da Confederação Nacional de Transportes, CNT, está tão ruim para o Governo: Bolsonaro é avaliado como ruim ou péssimo por 39,5% dos pesquisados, enquanto 29,4% o consideram bom ou ótimo. Se os índices são ruins, ficam piores quando se nota que estão em queda. Em fevereiro, 39% o avaliavam como bom ou ótimo. Velhos tempos, belos dias.

Brigas internas, insultos externos, embaixador chamando o presidente de meu paipai, tudo é teatro. Mas quem vota é o bolso. A Argentina é o exemplo.

Quem diria

A imprensa europeia mostrou uma jovem que, estarrecida pelo incêndio, foi à Amazônia e salvou uma girafa, bicho que ali nunca houve.  Bolsonaro criticou a Noruega num vídeo que mostrava a caça de baleia por dinamarqueses. Macron disse que a Amazônia é o pulmão do mundo (não é: plantas adultas consomem o oxigênio que geram). Para Bolsonaro, a menos que se reduzam reservas indígenas e quilombolas, e áreas de preservação, não haverá espaço para a agropecuária. Haverá: o Projeto Jari, monumental, preserva 90% da mata, é produtivo e dá lucro. A Alemanha protesta contra o incêndio, mas uma indústria pertencente ao Governo alemão, a Volkswagen, promoveu há tempos o que chamou, em anúncios, de “a maior queimada da História”, na Amazônia, em sua Fazenda do Vale Cristalino. Uma empresa cujo capital é 30% da Noruega, a Norsk Hydro, tem na Amazõnia uma imensa jazida de bauxita, que só poderá explorar se tirar a floresta de cima.

Brasil brasileiro

Há anos, o Incra leiloou terras na Amazônia. Os vencedores investiram para cercar as terras, instalar-se, aí veio a Funai e os tocou de lá, porque era região de índios. Cadê os índios? Eram poucas dezenas, chefiados pelo cacique Manuel. Se eram poucos, por que tanta terra? Os índios perambulavam, disse a Funai. Bom, este colunista fez as contas: andando dia e noite, a tribo levaria seis meses para ir de uma ponta a outra da reserva. E quem comprou a terra do Governo, pagou e investiu? Talvez pudesse recorrer ao papa, porque a lei vedava saídas judiciais. Como a reportagem foi publicada, o Incra ofereceu aos vencedores do leilão terras de valor equivalente, em outro local. E toca a fazer o investimento de novo, gastando mais tempo e mais dinheiro. Segurança jurídica? A expressão é bonita.

 A verdade, enfim

Falou-se muita bobagem – como atribuir a atual queimada a uma só causa, quando a Amazônia brasileira é do tamanho da União Europeia. Há várias causas: a seca própria da época; queima dos rejeitos da colheita; o crime, que desmata para criar fazendas clandestinas, ou ampliar fazendas (legais) já existentes. E os malucos: o grupo paraense Sertão (este a Polícia deve pegar), combinou por WhatsApp provocar incêndios no Dia do Fogo, 10 de agosto, para ocupar uma reserva florestal de 1,3 milhão de hectares. Contrataram motoqueiros para botar fogo no capim seco à beira das estradas e operadores de motosserras para que nada sobrasse. No grupo há garimpeiros, grileiros, fazendeiros interessados em expansão, gente da cidade que quer virar fazendeiro sem se dar ao trabalho de comprar terra. Talvez haja também fanáticos políticos, como os que encheram de pragas os cacaueiros baianos. A culpa só é do Governo porque passou uma ideia errada, de que não era lá muito importante preservar o meio-ambiente. Isso acabou no liberou geral.

Atenção

Fique atento aos movimentos do ministro da Justiça, Sérgio Moro: apesar da pesada campanha contra ele, da troca de mensagens com os procuradores, do mau gosto de tantas mensagens (como ridicularizar o luto de Lula pela morte de seu irmão, de sua esposa, de seu sobrinho – que coisa feia!), apesar de estar no Governo apenas decorativamente, Moro continua sendo o mais popular dos ministros. Talvez espere ir para o Supremo (embora não seja, como quer Bolsonaro, “terrivelmente evangélico”). Mas, se não for, pode sair candidato à Presidência, com Bolsonaro ou contra Bolsonaro. Ainda falta tempo, talvez até lá ele se enfraqueça. Mas hoje é um nome de peso.

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21 de agosto de 2019

Quem comprou jatos com financiamento do BNDES não cometeu ilegalidade

A Embraer teve apoio do BNDES para financiar suas vendas. Foram financiados 134 aviões em cinco anos.

O bom do silêncio

Bolsonaro disse que não adianta exigir dele a postura de estadista, por que não é estadista. Ele tem razão – e nem precisava ter dito. Aliás, há muita coisa que não precisava ter dito. Não precisava fazer brincadeira com motosserra, aludindo à questão do desmatamento. No duro mundo dos negócios, em que agricultores europeus menos eficientes que os brasileiros adorariam proibir as importações de carne e grãos “produzidos em áreas desmatadas da Amazônia”, a brincadeira se transforma em coisa séria. O agronegócio brasileiro não tem nada a ver com o pessoal que desmata a Amazônia, garimpeiros e madeireiros ilegais. Mas vá explicar esse fato a quem está feliz com a oportunidade de recuperar seu mercado perdido.

A imprensa europeia já chamou Bolsonaro de Borat, já disse que os brasileiros querem cultivar pastos e soja na Amazônia desmatada, já pediu sanções contra o Brasil (no grupo está a maior revista alemã, Der Spiegel), já obteve a suspensão das doações alemãs e norueguesas à preservação da floresta (“por que doar dinheiro para conservar as matas a um Governo que não quer preservá-las?”). Bolsonaro já ignorou o chanceler francês, acusou a Noruega de matar baleias por meios cruéis (é verdade – mas, se eles não têm autoridade moral, têm influência política), sugeriu que os alemães reflorestem seu país – o que eles já fizeram faz tempo. Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. O pior é que nós é que pagamos a conta.

Questão de imagem

Bolsonaro passou a impressão de que seu Governo não se importa com o meio-ambiente e não gosta de índios. Resultado: exatamente aquelas ONGs europeias de que ele não gosta ganharam espaço para divulgar suas versões (exageradas) sobre desmatamento. De acordo com o Banco Mundial, 94% da Amazônia estão intactos. Mas em negócios o que vale é a versão – no caso, a de que a floresta tropical já está em agonia. E o que se disser sobre maus-tratos a índios vai valer como verdade. Há pouco tempo, informou-se que garimpeiros tinham invadido a terra dos índios wajãpi, no Amapá, e assassinado seu cacique Emyra. Líderes internacionais protestaram. Só que não há nenhum sinal de invasão na terra wajãpi. O cacique morreu, mas não há indício de assassínio.

Aldo Rebelo, ex-PCdoB, ministro de Lula e Dilma, adverte para as falsas acusações ao Brasil (http://www.chumbogordo.com.br/27268-as-vitimas-do-drama-da-terra-indigena-wajapi-no-amapa-por-aldo-rebelo/o ). O mundo como ele é.

A voz da América

Abraham Lincoln, notável presidente americano (e republicano, como Trump, ídolo de Bolsonaro), disse que é melhor se calar e deixar que os outros pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida.

A dança das cadeiras

Não leve a sério as corporações que ameaçam se rebelar se Bolsonaro escolher um procurador-geral da República ou um diretor regional da Polícia Federal que não aprovem. Não vão se rebelar, não. As modificações vão ocorrer – e já estão ocorrendo. O subsecretário-geral da Receita, José Paulo Fachada, foi exonerado, numa tentativa do secretário da Receita, Marcos Cintra, de manter o cargo. Mas não deve durar, apesar de ter demitido seu subsecretário. E Paulo Guedes não se moverá para segurá-lo.

Com a passagem do Coaf para o Banco Central, seu presidente Roberto Leonel, escolhido pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, deve sair. Guedes disse que iria mantê-lo; mas, como o Coaf saiu da Economia, tudo mudou.

Abusos, sim

O Ministério Público e o ministro Sérgio Moro pedem que Bolsonaro vete vários artigos da lei que pune abusos de autoridade. Devem ter razão em alguns pedidos, mas há pontos óbvios exigindo punição. Por exemplo, alguém, sem ser intimado, vê na porta de sua casa um forte aparato policial, que o detém e leva para depor, sem advogado – sendo que, por lei, poderia se recusar a fazê-lo. Ou quando as acusações vazam do inquérito para os meios de comunicação.

Um bom exemplo: Eduardo Jorge, que foi secretário-geral do Governo Fernando Henrique, sofreu perseguição por parte de procuradores, que o acusaram de corrupção e vazaram as acusações para a imprensa. Ele abriu processo. Levou 17 anos, mas a União foi condenada a indenizá-lo em R$ 100 mil. E os procuradores que, agora comprovadamente, o perseguiram? Não vão pagar nada. Julgados por seus pares, um foi suspenso e um advertido. Ou seja, eles perseguiram e nós vamos pagar a conta da perseguição, com nossos impostos.

Os jatinhos do BNDES

Há certa confusão no ar: quem comprou jatos da Embraer com financiamento do BNDES (a juros baixíssimos) não cometeu ilegalidade, nem está na “caixa preta”. A Embraer teve apoio do BNDES para financiar suas vendas. Foram financiados 134 aviões em cinco anos.

14 de agosto de 2019

Cada quadrado no seu quadrado

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickman na edição desta quarta-feira (14) no Jornal O Dia.

Um economista que sabe das coisas diz que se você volta à Argentina vinte dias depois de ter saído, vê que tudo mudou. Se volta depois de vinte anos, vê que nada mudou.

Faz uns noventa anos que a Argentina, com raros intervalos, é peronista. Houve até luta armada e sangrenta  entre peronistas de extrema direita e de extrema esquerda. Inimigos, inconciliáveis, mas todos peronistas. 

É difícil de entender? Por isso mesmo o presidente Bolsonaro se coloca em má posição ao envolver-se na política interna de los hermanos. Põe em risco, por exemplo, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, importantíssimo para nosso futuro. Ameaça as boas relações com nosso terceiro maior parceiro comercial, que nos rende uns 4 bilhões de dólares ao ano de superavit. Esquece que a Argentina é o país que mais importa carros brasileiros. Não se diga que que lutar contra a esquerda é mais importante do que manter boas relações comerciais e de amizade com nosso vizinho. A China é uma ditadura comunista, que mantém fortes laços com um partido que faz oposição ferrenha a Bolsonaro, o PCdoB, mas com a China ninguém mexe. Será a Argentina mais esquerdista que a China? Não: essa história de fronteiras ideológicas é para boi dormir. Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.

Cartão amarelo

Se na eleição argentina se repetir o resultado da prévia, Macri estará derrotado no primeiro turno, e Alberto Fernandez, o poste escolhido por Cristina Kirchner (sua  candidata a vice) será o próximo presidente. Se deixar a raiva de lado, Bolsonaro verá claramente o motivo da fraqueza de Macri: ele era a esperança de reverter o caos econômico do kirchnerismo. E não atendeu as expectativas. Seu liberalismo econômico foi para o brejo na primeira oportunidade: como a inflação não cedia, congelou os preços. E, como de costume, não deu certo. Ruim por ruim, escolheram o passado.

Manda pra nós

As incessantes declarações de Bolsonaro sobre qualquer tema que se apresente são levadas a sério no mundo desenvolvido. Já teve problemas com Noruega e Alemanha; e continua falando. A Alemanha cortou 150 milhões de dólares da ajuda à Amazônia como protesto pelo aumento da derrubada da floresta, e Bolsonaro disse que os alemães deixam de comprar  a Amazônia em prestações e que não precisamos desse dinheiro. Mas é um dinheiro que faz falta, e que vem a fundo perdido: é dado, não emprestado.

Retrato do Brasil

Os cálculos são da Anefac, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, instituição que há meio século se dedica a fazê-los. De março de 2013 até julho de 2019, considerando-se todas as mudanças na taxa básica Selic, os juros reais baixaram 17,24%, caindo de 7,25% ao ano para 6% ao ano. Já os juros cobrados de pessoas físicas subiram 29,05%, subindo de já espantosos 87,97% ao ano para 117,02%. As pessoas jurídicas também foram esfoladas, mas menos: no seu caso, os juros subiram 11,68%, passando de 43,58% para 48,67% ao ano.

Onde se gasta, e como

Vale a pena acompanhar a newsletter Don’t LAI to Me – um trocadilho bilingue que mistura o “não minta para mim” à LAI, Lei de Acesso à Informação. Nela estão os gastos dos diversos presidentes da República em seus cartões corporativos. Dá trabalho acompanhar, mas vale a pena. É grátis: basta entrar no Google em Don’t LAI to me e fazer a ficha. É uma fonte de informações inestimável – e tudo com dados oficiais.

Dinheiro não falta

O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia decidiu, no dia 9 último, conceder aposentadoria a um técnico de nível médio, com R$ 30.956,00 mensais. O salário do técnico de nível médio é de R$ 5.767,91 – o restante é penduricalho, tipo vantagem pessoal eficiência, vantagem pessoal AFI símbolo, função gratificada, etc. Como há o teto constitucional para quem recebe vencimentos do Tesouro, o técnico receberá R$ 30.471,10. Mas dá para viver. Reforma da Previdência só vale para nós, não para eles. 

Chegando ao destino

A Reforma da Previdência deve estar pronta para votação na segunda quinzena de outubro. Com isso, o Governo ganha fôlego para investir e, se trabalhar direito, iniciar a recuperação da economia. Já está no forno a medida provisória da liberdade econômica, que reduz a interferência do Governo nas atividades privadas. A reforma tributária, a proposta pelo deputado Baleia Rossi (que se baseou em estudos do economista Bernard Appy), talvez combinada com a de Paulo Guedes, deve rapidamente ser submetida ao Congresso. Pois, como Macri está demonstrando na Argentina, se a economia não andar o Governo perde as eleições.

24 de julho de 2019

Dedo no gatilho

Confira o texto publicado pelo colunista Carlos Brickman na edição desta quarta-feira (24) no Jornal O Dia.

Nosso futuro está sendo decidido bem longe daqui, às margens do Golfo Pérsico, onde o Irã apresou um petroleiro britânico e se recusa a devolvê-lo. O Irã, como há alguns anos o Iraque, parece convencido de que pode vencer uma guerra contra uma grande potência. E a Inglaterra, ainda mais que os Estados Unidos, não costuma aceitar provocações. Já armou uma frota para reconquistar as Ilhas Falklands, ou Malvinas, sem grande valor ou posição estratégica, apenas para retribuir a tomada da área pela ditadura militar da Argentina. Foi uma operação exemplar: desembarque, cerco do inimigo, e em seguida a questão foi entregue aos gurkhas, soldados do Nepal que há séculos formam uma temida unidade de elite do Exército britânico.

São eméritos lutadores no corpo a corpo, com punhais. Defendem a tese de que, uma vez desembainhado, o punhal só pode voltar à bainha depois de ser molhado com o sangue do inimigo. O Reino Unido tem uma excelente frota aérea, produz bombas nucleares, faz parte da OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, e conhece o Irã desde o tempo em que foi o aliado favorito do xá Reza Pahlevi. Aliás, o pai do xá, Reza Xá, andou se aproximando dos nazistas e foi deposto pelos ingleses, que passaram o trono a seu filho. Os ingleses conhecem a fundo a economia do país: a Anglo Persian (depois Anglo Iranian) Oil Company foi por eles estruturada

Os riscos

Os ingleses criaram os comandos, que tanto atrapalharam os nazistas na Segunda Guerra Mundial; e têm o internacionalmente famoso SAS, Strategic Air Service, grupo de elite para intervenções rápidas O Irã, como antes dele o Iraque, parece convencido de que está bem protegido contra grandes potências. Não está: lembremos que o porta-voz do Governo iraquiano foi à TV proclamar a vitória contra os invasores americanos e, por trás dele, já se viam tanques americanos tomando Bagdá. O Irã pode estar bem preparado, mas mexer com grandes potências não é coisa que costume dar certo.

E para nós?

Queira ou não, o Brasil está envolvido nessa questão. Primeiro, pelo preço do petróleo: não apenas uma guerra, mas o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo do mundo, farão o preço subir E não esqueçamos de que o presidente Bolsonaro já disse que estamos alinhados aos Estados Unidos – que, por sua vez, estão alinhados com a Grã-Bretanha, seu mais tradicional aliado. Talvez o Brasil até lucre com a alta dos produtos que exporta, mas a tendência é que a guerra prejudique todos os envolvidos.

Novo comando

Boris Johnson ganhou a disputa interna e é, a partir de hoje, o novo primeiro-ministro britânico. Johnson quer, em primeiro lugar, completar a saída da Grã-Bretanha da Comunidade Europeia, com acordo ou sem acordo. E certamente, por seu temperamento, será mais agressivo que Thereza May, a primeira-ministra que ele substitui. Johnson está mais próximo de Margaret Thatcher do que de Thereza May. E foi Margaret Thatcher que determinou a invasão da Ilhas Falklands (que teve como consequência quase imediata, a queda da ditadura militar argentina).

Ficaram de mal

Marcos Cintra, secretário da Receita Federal, não aceita a proposta de reforma tributária em discussão no Congresso (elaborada por um economista conceituado, o ex-secretário do Tesouro Bernard Appy, que propõe a união de cinco tributos num só). Cintra diz que será “o maior imposto do mundo”, embora ele venha defendendo há anos o imposto único, que reuniria num só todos os impostos arrecadatórias hoje cobrados no país. Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, defende a reforma que o Congresso discute, e ataca: diz que Cintra tem “inveja e recalque” da proposta de reforma tributária, e o chama de ”bajulador”. Tudo bem, esse pessoal costuma fazer as pazes logo e esquecer a troca de insultos, mas o clima entre Congresso e Receita é ruim.

Os vários pesos 1

O prefeito tucano de São Paulo, Bruno Covas, diz que se o ex-governador mineiro Aécio Neves não sair do PSDB, por livre e espontânea vontade ou expulso, quem sai do partido é ele. O governador tucano João Dória já faz tempo que defende a saída de Aécio, queimadíssimo após a gravação de uma conversa em que pede dinheiro a Joesley Batista. Mas Aécio não é o único: o ex-governador goiano Marconi Perillo está envolvido em vários inquéritos e já esteve preso. Perillo, amplamente derrotado nas eleições (embora houvesse duas vagas para o Senado, não conseguiu nenhuma; e seu candidato a governador, José Elinton, tomou uma surra de Ronaldo Caiado. Por que a pressão sobre Aécio e a tolerância com Perillo?

Os vários pesos 2

O ex-governador paranaense Beto Richa, também envolvido em inquéritos, continua no PSDB. Só sua esposa, Fernanda, optou por sair.

17 de julho de 2019

Filhote do espelho meu

A reforma tributária, que tem tudo para dar um impulso na economia, segue para o Congresso até o fim do mês.

Filhote do espelho meu

A reforma da Previdência marcha triunfalmente, e se não é a aquela com que o Governo sonhou está dela muito próxima. A reforma tributária, que tem tudo para dar um impulso na economia, segue para o Congresso até o fim do mês. A inflação está abaixo de 4% ao ano, ótimo resultado; a safra foi ótima, a balança comercial tem saldo, o capital estrangeiro vai voltando, há bons projetos de infraestrutura a ser tocados pela iniciativa privada. E Bolsonaro, comemora? Não: prefere desviar o foco das atenções para a escolha de seu filho 03, Eduardo, para a Embaixada em Washington, uma ideia no mínimo controvertida – e com o risco de ser rejeitada no Senado.

Aparentemente, Bolsonaro se irrita quando falam em Governo, e não nele ou em sua família. A cada vez que tem uma vitória, muda o foco da discussão para algo em que os Bolsonaros se tornem o centro das atenções, seja demitindo antigos aliados de política, seja trazendo ao debate assuntos como a defesa do trabalho infantil. Prefere ser malhado a ficar fora do foco, mesmo que seja prejudicado por isso – pois afinal, se o Governo der certo, quem terá louvores não serão ministros ou parlamentares, mas o presidente Bolsonaro.

Mas, garantindo que uma das qualidades do filho para ser embaixador nos EUA é ter fritado muito hambúrguer, proclamando que quem manda é ele, dando ênfase a brigas internas, propondo mudanças ruins para seu Governo no projeto da Previdência, mostra que Narciso acha feio o que não é espelho.

A luta por espaço

Que é que ganha espaço nos meios de comunicação: a inflação em recorde de baixa ou as divergências entre Carluxo, o 02, e o vice Hamilton Mourão? Não há dúvida: como dizia um notável político, Adlai Stevenson, derrotado duas vezes por Eisenhower em eleições presidenciais americanas, o editor é quem separa o joio do trigo, e publica o joio.

Apoio ao presidente – e agora?

Após a aprovação da reforma da Previdência na votação de primeiro turno da Câmara (e as excelentes probabilidades de que o Congresso se decida a aprová-la o mais rápido possível) a aprovação a Bolsonaro deu um salto no mercado financeiro. De 14% em maio, subiu para 55% em julho, de acordo com pesquisa da XP Investimentos. Só foram ouvidos investidores institucionais, gente de mercado. É o melhor índice de Bolsonaro no mercado desde fevereiro. A expectativa de um bom Governo também cresceu muito, de 24% para 55%. É a segunda melhor posição de Bolsonaro desde o início de seu Governo. A melhor é ainda a de abril, 60%.

Com esses dados positivos, qual será o factoide a ser criado por Bolsonaro para desviar as atenções dos bons resultados? Talvez – e essa é a expectativa de mercado – uma piora de relações com o Congresso e, especialmente, com o deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que articulou a aprovação da reforma da Previdência e conseguiu mais votos do que eram previstos nas mais otimistas previsões.

Onde já se viu admitir que um político que não faz parte da aliança bolsonarista (e, pior, possível candidato à Presidência) possa receber parte dos méritos pela aprovação de uma tese do Governo? Pode ser.

Muito bom

Hoje devemos receber uma boa notícia: um acordo no Mercosul para acabar com o roaming, o truque das operadoras telefônicas para cobrar mais caro pelos telefonemas de quem viaja pelo Exterior. Ao menos dentro dos países do grupo o roaming deixará de ser cobrado.

Muito ruim

Grandes operadoras de planos de saúde colaboram num projeto de lei para aumentar ainda mais a mensalidade de seus clientes Em princípio, serão 90 artigos destinados a facilitar o aumento de preços por faixa de idade, derrubar os prazos máximos de espera por exames e tratamentos e tirar ao máximo os poderes da Agência Nacional de Saúde, que consideram pouco favorável a eles. O projeto será oferecido ao Governo. Mas, se o Governo não topar, não faltará algum parlamentar amigo pronto a esfolar os clientes das operadoras.

Debate bravo

O ministro da Economia, Paulo Guedes, acaba de enviar ao presidente Bolsonaro uma proposta de emenda constitucional que acaba com a inscrição obrigatória na OAB. Na justificativa, diz que hoje há risco de burocratização pela criação de procedimentos e rotinas que só atendem às corporações. Medida semelhante atinge ainda outros conselhos profissionais. No caso da OAB, a medida é controvertida e não será aceita sem resistência da categoria. Entre outras coisas, se a inscrição na Ordem não for obrigatória, como fica o Exame de Ordem? Qualquer bacharel que se formar em Direito poderá automaticamente ser advogado? E a quem recorrer contra maus advogados?

A hora do adeus

Fernanda Richa, esposa do ex-governador paranaense Beto Richa, deixou o PSDB. É provável que o marido siga seu exemplo, evitando ser expulso.

10 de julho de 2019

A verdade mostra a cauda

Embaixador de Israel violou norma política e come lagosta no almoço com Bolsonaro.

A história é deliciosa: duas pessoas comendo algo que ambas apreciam, que se sabe que eles apreciam, mas que por motivos políticos não poderiam devorá-lo em público. Algum desavisado os fotografou; algum mentiroso mandou esconder o prato; algum incompetente fez o trabalho, bem mal feito. A deliciosa história envolve o embaixador de Israel e o presidente do Brasil.

As leis alimentares judaicas, que só os ortodoxos seguem, proíbem o consumo de lagosta. Não é o caso dos governantes de Israel, laicos – mas, como dependem do apoio de partidos religiosos, não comem em público alimentos proibidos. Shelley violou essa norma política e, pouco antes do jogo entre Brasil e Peru, comeu lagosta no almoço com Bolsonaro – que, como tenta demonstrar, só gosta de hambúrguer, cachorro-quente, bandejão e pão com leite condensado. Lagosta é coisa de ministro do Supremo, gente chique, que usa toga francesa em vez de camiseta do Palmeiras. Shelley e Bolsonaro gostam de lagosta, claro, mas não gostam que isso seja divulgado.

Algum desavisado fotografou o almoço (para a Embaixada de Israel, que postou as imagens). Algum pouca-prática mandou retocar a foto, apagando a lagosta (um photoshop a transformaria numa saladinha). Algum inepto rabiscou as lagostas, mas sobrou cauda suficiente para identificá-las. Outro desavisado postou a foto assim mesmo. Onde já se viu isso, políticos que nem mentir sabem direito? Viraram notícia até no Washington Post.

Tudo errado

Imaginemos que o inepto que rabiscou as lagostas tivesse feito um bom serviço. Todos iriam querer saber o que é que Shelley e Bolsonaro mandaram ocultar. Não podia dar certo. Por que não os flagraram enquanto ainda estavam no couvert, comendo azeitonas, cenoura, pão e ovinhos de codorna?

A Previdência...

A reforma da Previdência, espera o Governo, será aprovada até o fim da semana na Câmara; daí seguirá para o Senado. Joice Hasselmann, a líder do Governo no Congresso, está confiante nisso. Bolsonaro mais atrapalhou do que ajudou – e, diga-se em seu favor, não distribuiu cargos nem pixulecos a deputados de cujo voto precisa. Liberou R$ 1,4 bilhão de verbas para emendas parlamentares, mas previstas em lei. O máximo que fez pela reforma foi demitir alguns ministros para que reassumissem na Câmara e garantissem mais votos à aprovação. Jogou limpo. Mas quem realmente está empurrando a reforma é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

...e daí?

Imaginemos que a reforma passe por Câmara e Senado, sem grandes modificações. E que é que o Governo vai fazer no dia seguinte? Como fará para que a reforma gere empregos e dê algum empuxo à economia do país? O próximo passo é a reforma tributária. Mas mais uma vez o Congresso toma a frente: enquanto a equipe econômica ainda não definiu a sua reforma, a Câmara retomou a proposta do líder do MDB, Baleia Rossi, assessorado pelo competente economista Bernard Appy, que de início unifica cinco impostos e toma medidas contra a guerra fiscal entre os Estados. Acaba a mamata de hoje, em que o empreendedor negocia com vários Estados para ver qual lhe oferece mais vantagens, o que faz com que alguns bilhões de impostos não sejam arrecadados. Serão atingidos interesses como os da Zona Franca de Manaus, e não se tem ainda ideia de como compensá-los. Mas o trem anda.

O caminho das urnas

As várias reformas previstas poderão mexer positivamente na economia, o que fortalece a candidatura de Bolsonaro à reeleição, em 2011 (sim, é cedo, mas João Dória já é candidato e Rodrigo Maia flerta com a ideia). Bolsonaro tem hoje o apoio de um terço do eleitorado: a pesquisa XP-Ipespe, feita a pedido da corretora XP, informa que 34% da população consideram que o Governo é ótimo ou bom (a pesquisa Datafolha é semelhante: 33%), 28% regular (Datafolha, 31%) e 35% ruim ou péssimo (Datafolha, 33%). Mas o fato é que Bolsonaro perdeu boa parte de seus adeptos do início do Governo até hoje. Em parte, por motivos políticos: ele conseguiu simbolizar a luta contra o PT. Hoje, parte de seus aliados volta ao centro e busca candidato.

Os partidos

O caro leitor acha que os 33 partidos de hoje são muitos? Bom, eram 35, e dois desapareceram: o PRP foi incorporado pelo Patriotas e o PPL pelo PCdoB. Outro deve sumir; o PHS, absorvido pelo Podemos. Mas tudo para por aí: já há no TSE dois pedidos de novas legendas, o Partido Nacional Corinthiano e o Partido da Evolução Democrática. A UDN espera renascer a partir da anulação do Ato Institucional nº 2, que em 1965 extinguiu todos os partidos políticos. E há 73 legendas que iniciaram processo de formação. Montar partido é bom e barato, já que dão acesso ao Fundo Partidário. Há anos, antes do aumento brutal dos recursos do Fundo, o dirigente de um partido nanico se queixava de ter só R$ 100 mil por mês para as despesas.

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03 de julho de 2019

O Governo dos passos perdidos

A reforma da Previdência é condição necessária, mas não suficiente, para que o país volte a crescer.

O Governo dos passos perdidos

A reforma da Previdência será votada em breve e deve passar. Talvez não seja exatamente aquela que o ministro Paulo Guedes queria, mas não é tão diferente assim. Prometia o Governo que, aprovada a reforma, o país voltaria a crescer, amparado em imensos investimentos internacionais. Só que não: a reforma da Previdência é condição necessária, mas não suficiente, para que o país volte a crescer. Qual investidor gosta de colocar seu dinheiro num país em que é praticamente impossível fechar uma empresa, em que o cálculo do pagamento dos impostos leva muito mais tempo e consome mais recursos do que na maior parte de outras nações, em que ações trabalhistas nunca param?

Em resumo, a reforma da Previdência abre uma janela de oportunidade para a retomada do crescimento. Mas não funciona sozinha: é preciso fazer outras reformas (a tributária, principalmente), mexer na área de segurança jurídica (hoje, sozinho, um ministro do Supremo adia por quanto tempo quiser uma transação de bilhões de dólares), criar condições para que clientes de bancos ganhem pouco quando aplicam e muito quando devem, isso para dar apenas alguns exemplos. É preciso ter estabilidade política, para que o mercado saiba quem decide. É preciso deixar claro que receber ou cobrar propinas não é tolerável. Cadê as propostas oficiais? Há propostas que são discutidas pelo Congresso mas não são as do Governo, e são bombardeadas pelos bolsonaristas. É preciso botar ordem na casa. Sem isso não se cresce.

Quem é quem

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assumiu o papel que deveria ser o do articulador político do Governo, colocou a reforma da Previdência como prioridade, buscou propostas anteriores (boa parte ainda da administração de Michel Temer) e está, objetivamente, ajudando Bolsonaro. Mas é atacado como se estivesse planejando a deposição do presidente. Os bolsokids, ativos na Internet, procuram desmoralizá-lo – até de gordo ele já foi acusado. Seu projeto de segurança pública não é o de Moro? E daí? É o de Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo. É pior que o de Moro? Pode ser; mas a pergunta é se a coisa fica melhor ou pior com a aprovação do projeto. Ao que tudo indica, a segurança pública pode ganhar. Mas se os “ideólogos” do bolsonarismo (outros os chamariam de “radicais”) desconfiam de que a lei a ser aprovada é diferente da proposta pelo presidente, mordem no pescoço.

Metade do ano

O fato é que, hoje, há muitos congressistas profundamente irritados com o presidente da República e dispostos a derrotá-lo sempre que possível. Foi o que fizeram com as medidas provisórias, as armas, e que prometem repetir. Os bolsokids prometem publicamente (e quem falou por eles foi Eduardo Bolsonaro, o filho 03) que todas as vezes que o Congresso “não se comportar” jogarão as ruas contra eles. Confiam que os manifestantes são de total confiança, dispostos a apostar tudo em nome da verdade oficial.

O lado de Moro

A manifestação de domingo foi pró-Moro. Os filhos do presidente não trabalharam por ela. Há quem tema que Moro queira o Planalto.

E os militares?

A elegância no trato não é, já se sabe, uma característica do Governo de Bolsonaro. Aparentemente, tanto ele quanto seus adeptos mais intransigentes passam boa parte do tempo à procura de inimigos, mesmo que sejam amigos de décadas, amigos a toda prova. Isso faz com que o número de inimigos cresça. Bebianno caiu, Santos Cruz caiu, o general-ministro virou presidente de estatal à venda – e soube das intenções do presidente pelo jornal. Agora o alvo é o general Augusto Heleno, amigo de Bolsonaro, que vira alvo do 02, Carluxo, o filho do presidente. O problema é que militar, por mais simpático que seja, anda armado e é treinado para comandar. Até quando aceitará provocações e humilhações? Lembremos que Olavo de Carvalho, lá de sua casa nos Estados Unidos, já ofendeu com palavrões o general Santos Cruz.

Solidariedade

No caso do ataque ao general Augusto Heleno, dizem que, conversando com jornalistas, Bolsonaro se disse solidário com ele. Como diria o próprio Bolsonaro, “talkey”. Mas ficar impassível diante de ofensas públicas e só se manifestar em particular é a mesma coisa que participar das ofensas. E, no caso, as ofensas buscaram atingir a boa reputação do general, já que puseram no Gabinete de Segurança Institucional, que ele dirige, a culpa do caso do sargento que traficava cocaína. Carluxo disse também que anda sem seguranças oficiais porque são  “subordinados a algo em que não acreditam”. Bolsonaro se recusou a responder a perguntas sobre o tema, mas apareceu em companhia do general, uma forma de mostrar que tem prestígio. E nada falou em defesa do amigo e ministro: limitou-se a dizer aos repórteres que deveriam procurar o 02 – como se até agora as opiniões do filho 02 não tenham se confirmado com as decisões do papai.

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