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Celso Pires

Nacionalismo e Intolerância nos E.U.A.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires na edição desta quinta-feira (8) no Jornal O Dia.

08/08/2019 11:52h

Os Estados Unidos registraram dois ataques envolvendo atiradores em um espaço temporal de apenas 24 horas. O primeiro tiroteio aconteceu em uma loja da rede Wal-Mart em El Paso, Texas e foi seguido por outro tiroteio em frente a um bar na cidade de Dayton, Ohio. Juntos, os dois incidentes deixaram ao menos 29 mortes, e dezenas de outros feridos. Estes terríveis incidentes acontecem menos de uma semana depois do tiroteio em um festival gastronômico na Califórnia, quando três pessoas perderam a vida. No caso de El Paso, onde ao menos 26 pessoas ficaram feridas, o ataque aconteceu em uma loja do Wal-Mart próxima ao shopping Cielo Vista Mall, a poucos quilômetros da fronteira entre os E.U.A e o México. A polícia local e o F.B.I investigam se o tiroteio está relacionado a um "manifesto" nacionalista branco que foi compartilhado em um fórum online, e que teria sido escrito pelo atirador. O texto afirma que o alvo do atentado era a comunidade hispânica. Segundo as informações das autoridades sobre o tiroteio na cidade de Dayton, Estado do Oregon, os disparos teriam acontecido na rua, em frente a um bar. Policiais mataram o atirador no local. No caso do atentado da cidade de El Paso, o atirador de 21 anos de idade está preso, sendo que os policiais não precisaram disparar nenhum tiro para prendê-lo. O grande questionamento em momentos como esse é se a indignação com os atos de violência vai catalisar alguma espécie de resposta política, como aconteceu no Reino Unido após o massacre em uma escola em Dunblane, na Escócia, ou na Austrália depois dos assassinatos em Port Arthur ou, mais recentemente, na Nova Zelândia, em sequência aos ataques a tiros a mesquitas em Christchurch. Entre os ativistas americanos por um maior controle de armas existe certa resignação quando uma nova tragédia ganha as manchetes. A ideia é que, se a opinião pública não exerceu pressão suficiente em 2012, no episódio do massacre em Newtown, quando 26 pessoas, incluindo 20 crianças, foram mortas em uma escola em Connecticut, dificilmente o fará desta vez.  Entretanto, algumas particularidades do momento atual podem fazer com que os ataques em El Paso, Texas, e em Dayton, Ohio, tenham um desfecho diferente. As causas apontadas para os ataques a tiros mais recentes nos E.U.A são várias. Vão de “juventude rebelde” nos casos envolvendo escolas em Parkland, na Flórida, e em Santa Fe, no Texas, a distúrbios mentais, no episódio do ataque a um jornal em Annapolis, Maryland. De frustrações ligadas ao trabalho no caso do massacre em Virginia Beach, a brigas familiares, apontada como possível motivação para o massacre em uma igreja em Sutherland Springs, no Texas. O mais mortal desses incidentes, o tiroteio em uma casa noturna em Las Vegas em 2017, que deixou 58 mortos, ainda não tem uma motivação clara. No caso deste fim de semana, entretanto, todas as evidências indicam que o massacre em El Paso foi uma ação premeditada e alimentada pela retórica do nacionalismo branco que tem ganhado cada vez mais destaque na política americana. Nesse sentido, se aproximando tanto ao ataque a tiros em uma sinagoga em Pittsburgh no último mês de outubro de 2018, que provocou discussões sobre o aumento do antissemitismo nos E.U.A, quanto aos episódios de violência em uma marcha de supremacistas brancos em Charlottesville em 2017. Ainda que a autoria do manifesto racista postado na internet pouco antes dos ataques e atribuída ao suspeito de ser o atirador, ainda tenha que ser confirmada, alguns fatos importantes sobre o caso devem ser levados em consideração. O atirador não realizou o ataque em sua cidade natal, mas dirigiu por oito horas, do norte do Estado do Texas à cidade que está a poucos quilômetros da fronteira com o México, e abriu fogo em uma área sabidamente frequentada por hispânicos. Por essa razão, as autoridades locais estão caracterizando o caso como um episódio de "terrorismo doméstico". Isso coloca o incidente no centro do atual debate nos E.U.A sobre imigração, segurança de fronteiras e identidade nacional. Os americanos costumavam se perguntar o que levavam jovens em outras partes do mundo a se envolverem em atos de violência política contra inocentes. Agora veem o fenômeno acontecer no próprio país. A natureza do ataque em El Paso pode desencadear uma reflexão sobre a ameaça doméstica representada por grupos nacionalistas brancos e sobre caminhos para frear o avanço desses movimentos, incluindo medidas de controle de venda e compra e de posse e porte de armas. Desta vez, além de manifestações de políticos do Partido Democrata, vozes mais conservadoras também protagonizaram as críticas. Senador pelo Texas, Ted Cruz, que concorreu contra Trump nas prévias republicanas das eleições presidenciais de 2016, condenou a intolerância contra os hispânicos. O comissário do “Escritório Geral de Terras do Texas”, George P. Bush, filho do então pré-candidato republicano à presidência em 2016 Jeb Bush, neto do ex-Presidente George Bush e sobrinho do ex-Presidente George W. Bush, publicou uma declaração afirmando que os chamados "terroristas brancos" são uma ameaça real. A comoção com os massacres deste fim de semana e a ligação que muitos dos políticos de oposição fizeram entre os episódios e o comportamento beligerante do presidente Trump, devem trazer o tema da regulamentação das armas de volta aos holofotes, assim como a discussão sobre medidas para evitar que novas tragédias aconteçam. Logo após o massacre em uma escola em Newtown em 2012, o Congresso estudou instituir uma série de medidas para endurecer o controle de armas do país, entre elas a ampliação da checagem de antecedentes criminais dos compradores de armas. Apesar de a medida ter sido apoiada pelos partidos Democrata e Republicano no Senado, uma minoria conseguiu bloquear a tramitação por meio de procedimentos regimentais. O texto não chegou nem a ser apreciado pela Câmara de Deputados, então controlada pelos republicanos. Depois do ataque a tiros em uma escola em Parkland, na Flórida, Trump demonstrou maior inclinação para apoiar uma legislação de maior controle a armas, declarando inclusive ser a favor de uma checagem de antecedentes criminais detalhada. Apesar de Trump ter tuitado condenando o ataque em El Paso como um "ato odioso", ele será pressionado para ir além e se manifestar sobre o nacionalismo branco. O fato de democratas o estarem acusando de contribuir com um ambiente retórico que encoraja atos de violência, pode terminar por desincentivar Trump a tomar medidas mais concretas. Trump poderia ver algo nesse sentido como uma possível admissão de culpa. Nesse caso, a situação atual poderia acabar como uma espécie de reprise da resposta presidencial à violência protagonizada em Charlottesville em 2017 por supremacistas brancos, onde após condenar as ações de simpatizantes do neonazismo, Trump declarou em uma coletiva de imprensa que a culpa era "dos dois lados". Quanto mais pré-candidatos democratas a corrida presidencial de 2020 acusarem Trump, maior a probabilidade de que ele conteste e fomente um ambiente infértil para uma solução a este tão grave problema.


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