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Celso Pires

O partido espanhol Vox e a ascensão de um fenômeno mundial

Celso Pires - Advogado

23/05/2019 06:12h

Criada em 2013 e com uma estrutura mínima, a legenda intitulada Vox conquistou 24 cadeiras nas eleições do início do mês de maio, marcadas pela vitória do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do atual primeiro-ministro, Pedro Sánchez. Até então, a Espanha não tinha nenhum partido da direita radical com representação parlamentar em nível nacional. Apesar da conquista, o Vox não será decisivo para a formação do governo, já que os partidos de direita ficaram longe de atingir a maioria absoluta de 176 assentos. A primeira ascensão do Vox na cena política espanhola aconteceu em dezembro de 2018, quando obteve 11% dos votos nas eleições regionais da Andaluzia e se tornou uma peça chave para a nomeação do governo local. O partido se baseia principalmente

em emoções, em reivindicações de caráter cultural, muito mais do que em políticas concretas, uma tendência que tem se expandido por vários países. Sem a crise que foi desencadeada na Catalunha, em outubro de 2017, com o referendo da independência, declarado ilegal, e a proclamação da sua independência semanas depois, seria difícil entender a ascensão do Vox. O nacionalismo espanhol é a principal bandeira do partido e do seu líder, Santiago Abascal, de 43 anos, que foi um político do Partido Popular conservador do País Basco, antes da dissolução do grupo separatista E.T.A, que tinha o objetivo de tornar a região basca um Estado independente. A principal força motriz do Vox, segundo afirmam, são as pessoas que há muito tempo tiveram de ocultar ou esconder sua identidade nacional, porque seria uma provocação, ou seriam chamadas de fascistas. O líder do partido propõe eliminar parlamentos e governos regionais para devolver o poder ao Estado, rompendo com o consenso territorial estabelecido pela Constituição de 1978 e desafiando claramente as nacionalidades históricas como a Galícia, País Basco e Catalunha. Esse fator emocional seria comparável às críticas de Trump à China e à globalização. E, na mesma linha, uma das críticas feitas ao partido é a falta de propostas concretas, à qual seu líder costuma ingenuamente responder dizendo que o Vox não é um partido de rótulos. Suas afirmações se igualam assim ao presidente eleito da Ucrânia, o comediante Volodymyr Zelenskiy, com suas propostas vagas de campanha e promessas de combate à corrupção, sem nada definido. O Vox, com sua retórica, em que abundam referências ao "senso comum" e críticas aos partidos de

esquerda, se mostra como sendo um partido de extrema-direita. Possivelmente uma dissidência à direita do Partido Popular espanhol. O partido não questiona a ordem constitucional e se declara defensor do Estado de Direito. Assevera que não tentou, até agora, ser o porta-voz dos pobres ou da classe média empobrecida, como Marine Le Pen fez com a Frente Nacional na França, tornando o partido muito mais favorável às políticas sociais e à existência de um Estado forte. Isso também diferencia o Partido Vox, da “Doutrina Trump”, que chegou ao poder graças à polarização que existia nos E.U.A e porque conseguiu expandir o apoio republicano tradicional para segmentos com pouco nível de instrução ou rural. No entanto, as propostas do Vox na esfera econômica são de viés neoliberal, como a redução e a eliminação de impostos ou a introdução de um sistema misto de Previdência com a presença do setor privado. O que o Vox compartilha da ideologia de Trump é sua fascinação por muros. O partido quer construir uma barreira de concreto em torno dos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no norte da África, para evitar a imigração, e quer que o Marrocos colabore com a construção. Ainda propõe expulsar os imigrantes ilegais e impedir que aqueles que chegam à Espanha sem documentos possam regularizar sua situação. “Doutrina Trump”

“na veia”! O Vox quer acabar com a lei de violência de gênero, por considerar que discrimina os homens, e acredita que existe apenas a família "natural", formada por um homem e uma mulher. O Vox é ainda contra o aborto; que, de acordo com a lei atual na Espanha, é permitido nas primeiras 14 semanas de gestação, sem necessidade de justificativa. Mas o partido acredita que o sistema público de saúde não deveria financiar as intervenções. Assim como Trump, o líder do partido Vox, Santiago Abascal, se apresenta como um outsider, embora tenha ocupado seu rimeiro cargo público em 1999. Ainda adota um discurso inflamado contra a imprensa, que acusa constantemente de atribuir estigmas ao partido que dirige. Por tudo isso, seu modo

preferido de comunicação é pelas redes sociais, que ele soube explorar a seu favor, e onde encontrou, segundo ele "um espaço próprio, alheio à mídia tradicional e ao escrutínio público”. Devido à ascensão meteórica, no entanto, talvez ainda seja cedo demais para fazer uma avaliação completa deste novo partido. Além disso, como outras legendas europeias de direita radical, como o partido Alternativa para a Alemanha ou o partido dos Verdadeiros Finlandeses, é de se esperar que o Vox se transforme ao longo dos próximos meses e anos. Ao final o que se resta demonstrado é a ascensão de um fenômeno global onde as insatisfações com os governos postos tem possibilitado o surgimento dos mais variados viesses, muitos deles vazios e sem um rumo definido. Simplesmente ecoando descontentamentos sem oferecer soluções.


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