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Notícias Cineas Santos

20 de outubro de 2019

Rememorações de um velho come-giz

Por amor à verdade, confesso: não figurava no meu projeto de vida a intenção de me tornar professor.

Por amor à verdade, confesso: não figurava no meu projeto de vida a intenção de me tornar professor. Menino, a exemplo de todos os moleques da minha aldeia, eu pretendia ir para São Paulo, ganhar dinheiro graúdo e comprar uma sanfona Scandalli vermelha. Na verdade, eu queria me tornar cantor de boleros num daqueles circos ordinários que mambembeavam pelos sertões do nordeste. Sejamos mais preciso: eu queria mesmo era impressionar as mulheres...Um detalhe: esqueci-me de combinar com dona Purcina, que sempre tinha a palavra final.

Tornei-me professor por acidente de percurso. Aprovado no vestibular de Direito, em 1970, recebi um “presente” insólito: uma carta de despejo. Como não era mais estudante secundarista, eu deveria deixar, no prazo de 30 dias, as dependências do CCEP, um pardieiro onde se alojava uma legião de náufragos.

Instigado por um companheiro de infortúnio, procurei um colégio (Instituto Elias Torres) onde funcionava um curso madureza (supletivo). Assim, em abril de 1970, ministrei a minha primeira aula, uma xaropada indigesta. Para minha surpresa, os alunos aprovaram. O mais é do conhecimento de todos: permaneço em sala de aula até hoje.

Não seria exagero afirmar que o magistério me deu mais do que fiz por merecer. Deu-me visibilidade, credibilidade, o respeito de muitos e o carinho de alguns. Para um cristão do meu tope, não é pouco. Em sala de aula, sinto-me em casa.

Ao longo dessa trajetória, vivi experiências inesquecíveis. Uma delas: em meados da década de 1970, eu ministrava uma aula de literatura no cursinho Andreas Vesalius. Turma imensa, sala abafada, mal iluminada. Eu comentava a obra de Manuel Bandeira, um dos meus poetas preferidos. Lá pelas tantas, decidi falar o poema “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”. Mal comecei a dizer o poema, a luz apagou. Como sói acontecer em tais circunstâncias, os alunos começaram a assobiar, bater os pés, falar bobagens... Alguns acenderam aqueles isqueiros da BIC. À época, ainda não havia celulares.

Em vez de pedir silêncio, o que seria inútil, continuei a dizer o poema sem levantar a voz. Aos poucos, os alunos foram-se aquietando até que, na sala, só se ouvia a minha voz. Algo de mágico estava acontecendo ali. De repente, a secretária, meio atabalhoada, adentrou a sala, quase correndo, com uma vela de estearina na mão... Quebrou-se o encanto, e os alunos “brindaram-na” com uma vaia estrepitosa. Impávido, continuei o poema até o final. Nunca fui tão aplaudido em minha vida de muitos aplausos. Sou, com muito orgulho, um velho professor.

13 de outubro de 2019

A panela e os trecos

Na semana passada, um desses poetastros que infestam a Chapada declarou: “Hoje, em Teresina, quem não fizer parta da panela do Cineas está à margem de tudo”.

Já me brindaram com muitos “elogios” infames; este foi um pouco além. O cidadão me atribui poderes que nunca tive, não tenho nem pretendo ter. Desde que iniciei a minha labuta com o fazer cultural, há 50 anos, estabeleci como princípio: se eu não puder ajudar, não atrapalharei. Assim tem sido e assim será.

Como sou agregador, gosto de trabalhar com pessoas. Desde o primeiro livro que editei em Teresina em 1976, fiz questão de contemplar um punhado de poetas. Eu e Paulo Machado editamos Ciranda, uma coletânea com seis poetas do Piauí. Depois, fizemos Aviso prévio, O rio, Ô de casa!, Mão dupla (com poetas do Piauí e do Ceará),Baião de todos (1), Baião de todos(2). Ao todo, são mais de cem autores. Agora, com Adriano Lobão, estou preparando   Caçuá, uma coletânea com mais de 30 contistas piauienses. Alguns eu nem conheço. Então, o critério de seleção é o mérito e não o compadrio. Trabalhar coletivamente é diferente de construir panelas.

Em outro momento, declarei: a minha “fama” só me atrapalha. Ninguém fala dos meus livros, ninguém escreve sobre o meu trabalho, ninguém me inclui em nenhuma coletânea. O raciocínio é o seguinte: esse cara já tem poderes demais. Não podemos adubar-lhe a vaidade. Já afirmei e reafirmo aqui: a minha vaidade cabe em mim.

Editei todos os autores de expressão do Piauí, promovi eventos culturais, divulguei e divulgo a cultura piauiense no Feito em Casa, estou sempre disposto a ajudar. Não bastasse isso, não trabalho com dinheiro público, não estou concorrendo a nenhuma vaga em nenhuma das muitas academias piauienses, não quero o lugar de ninguém. Sou um livre atirador.

Quando fazíamos o Chapada do Corisco (1976), jornalzinho alternativo que circulou por mais de um ano em Teresina, um dos colaboradores comentava com os outros: “Estamos pavimentando a carreira política do Cineas”. Ele próprio me confessou e pediu desculpas por me julgar um arrivista. Como digo o que quero, não deixei barato: “O gato, do que usa, disso cuida”.

Por fim, uma provocação: se você quer participar da panela do Cineas, faça por merecer. Eu só trabalho com os bons. Nada além.

06 de outubro de 2019

O nome e o homem - Fragmento do livro "O aldeão lírico"

(fragmento do livro O aldeão lírico)

No milênio passado, Meneses y Morais escreveu um poema onde figura o verso: “O nome marca o homem”. O poeta deve saber o que diz; eu, não. O certo é que, no meu caso, seu Liberato, simples e exato, me queria João. Dona Purcina retrucou: “João e cavalo alazão não acodem a ninguém na precisão”.  Tinha um nome “especial” para mim. Meu pai, um tantinho contrariado, aquiesceu. Foi a um cartório do Caracol, levando um papelzinho no bolso com a palavra Cineas, absolutamente desconhecida na região. Por sorte, a velha não pôs o acento agudo no e. Meu pai nunca aprendeu meu nome: me chamava Cineso.

O nome já me incomodava bastante, antes do aparecimento, em São Raimundo Nonato, de uma menina acesa que também se chamava Cineas. Passei a ser objeto das brincadeiras mais infames. Como se pode ver, o  bullying não é  praga recente. Na adolescência, cheguei a consultar um causídico para saber se seria possível trocar de nome. Com ar solene, o sábio limitou-se a dizer: “Pode, meu rapaz, mas é mais fácil trocar de sexo”. Desisti. Passei a encarar a coisa como sina.

 Em Teresina, consultei um dicionário onomástico: nada. Mais tarde, fiquei sabendo que, em Valença (PI), havia um coronel com o nome de Cineas Veloso. Não me dei por satisfeito. Um dia, abro um pequeno Dicionário Lello e, para minha surpresa, lá estava o verbete Cíneas, proparoxítona, como convém a uma palavra grega. Fui inteirar-me sobre   o tal cidadão. Eis o que encontrei: “Cíneas - tido como o maior orador de seu tempo, ministro e conselheiro de Pirro II, tanto que este pregava que a eloquência de Cíneas lhe tinha conquistado mais cidades do que seus exércitos”.

 Por falta de aptidão para me tornar conselheiro ou ministro de algum tirano de plantão, tornei-me apenas um camelô da boa literatura produzida pelos outros. Hoje, já não tenho razões para queixas: O nome Cineas é a minha segunda pele e me veste confortavelmente.

19 de agosto de 2019

A Praça Saraiva era o portal da cidade na década de 1960

Confira o texto publicado na coluna Cienas Santos na edição deste fim de semana (16) no Jornal O Dia.

Portal da cidade

Portal da cidade, a Praça Saraiva era o desaguadouro natural dos que chegavam a Teresina na década de 1960. Paus-de-arara, mistos e jardineiras despejavam passageiros empoeirados e sonolentos no meio da praça, enquanto os chapeados disputavam, no grito, a bagagem dos que tinham algo a transportar. Mocinhas ágeis e prestativas se prontificavam a levar o “chegante” à “pensão mais em conta”, nunca esquecendo de  garantir ser  o estabelecimento  “um ambiente totalmente familiar”. Quem vinha a negócio fretava carros de aluguel (jipe, rural-willys),mais pose que necessidade, já que as distâncias a percorrer eram pequenas.Os que necessitavam de cuidados médicos, quase sempre muito pobres, armavam redes sujas nos galhos das árvores em busca do refrigério da sombra. Os que vinham tentar a sorte – náufragos e deserdados -limitavam-se a zanzar a esmo como moscas tontas.

A praça era uma imensa feira livre onde se vendia quase tudo: de animais vivos a óleo de puraquê, “a farmácia que o freguês carrega no bolso”, garantiam os camelôs.  Sem maior esforço, podiam-se encontrar ali especialistas nas mais diversas atividades: borracheiro, barbeiro, soldador, amolador de tesoura, cozinheiro, raizeiro, vidente e benzedor, sem contar a legião de marreteiros e descuidistas, prontos a engrupir os desavisados. Pedintes de todas as idades esparramavam-se no chão, recitando desgraças “de cortar coração”.

Numa manhã esplendente (2 maio de 1965), despejaram-me na Praça Saraiva. A poeira da estrada embaçava-me a visão e o medo latejava em cada milímetro do corpo. Por intuição, percebi o que me esperava: fome, indiferença, solidão. Uma cigana decrépita, cheirando a sarro de cachimbo, prontificou-se a ler-me a mão, mas uma das “agenciadoras de hóspedes” foi mais rápida e me arrastou para a Pensão Nova, na Paissandu. O cartão de visitas da pensãozinha era um inconfundível cheiro de urina que se fazia anunciar na calçada. Na portaria, um negro velho, com ar de mãe preta, fazia as honras da casa. Foi direto e conciso: “O pernoite, com direito a café da manhã, custa dois cruzeiros. Pagamento adiantado”. De posse do dinheiro, desmanchou-se em mesuras: “Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Eu sou que nem téu-téu: não durmo nunca!” e piscou, malicioso...

À noite, enfurnado num quartinho escuro e quente, sob o fogo cerrado das muriçocas, eu nem suspeitava que aquela ruazinha de aspecto sórdido fosse o caminho mais curto entre o Clube dos Diários e o prazer. Estrela, Fascinação, Amambay...Proxenetas, cafetinas, prostitutas, tangos, rumbas, boleros, perfume barato, bebida “batizada”, estrias camufladas, boêmios, bêbados, pedintes. A dois quarteirões da pensãozinha ordinária, diluíam-se todas as fronteiras. A Paissandu era o único espaço democrático da cidade: bem-nascidos e bundas-sujas dividiam, equitativamente , generosas rações de gonorreia ...

Aos poucos, a cidade mostrava suas múltiplas faces. Em meio às agruras, alguns encantos: o Parnaíba, o verde, as mulheres. Eu vinha de uma terra sem rios e sem lembranças de rios. Ver tanta água fluindo rumo ao desconhecido me pareceu um desperdício. O verde dos quintais me enchia os olhos: “um oásis sem deserto”. Quanto às mulheres... por elas, fiquei e não me arrependo. Com o tempo, a cidade foi-se adonando de mim, até me fazer esquecer que um dia morei em outro lugar. Teresina me basta. 

21 de julho de 2019

“Qual é o seu sonho de consumo?”

O meu é: continuar respirando sem ajuda de aparelhos e sem nada pagar pelo oxigênio consumido.

Saideira

Com incômoda frequência, perguntam-me: “Qual é o seu sonho de consumo?”. Engendrei uma resposta que, mesmo não dizendo nada, rende algumas risadas: continuar respirando sem ajuda de aparelhos e sem nada pagar pelo oxigênio consumido. A bem da verdade, como todo mundo, eu também tenho sonhos. Não sei se chegam a enquadrar-se na categoria de “sonhos de consumo”, expressão usada para designar as coisas tangíveis. O certo é que, por algum tempo, acalentei o sonho de voltar para o sertão do Caracol e reinventar Campo Formoso, onde gosto de acreditar que fui feliz.

De cara, dois problemas: hoje, Campo Formoso, ou melhor, o que sobrou do lugar, está encravado no município de Jurema do Piauí, também conhecido como “Coreia”. Já expliquei em outra oportunidade: falta-me valentia para ser um autêntico “juremeiro”. Não bastasse isso, das coisas construídas na pequena gleba sobrou apenas o velho barreiro cavado por seu Liberato. O mais é capoeira infestada de carrapichos. Tem mais um complicador: as quatro pragas que nos infernizam a vida – televisão, celular, moto e revólver – já chegaram por lá. Até em Anísio de Abreu, município sem histórico de violência, os crimes se multiplicam e aterrorizam os moradores.

Acovardado e sem saída, resolvi refugiar-me em meu quintal onde uma nesga de verde e um punhado de passarinhos me propiciam a sensação de estar num país insituável, protegido de todo mal. É só uma ilusão, mas sem ela a vida ficaria insuportável.

No final da semana passada, fui ao Espaço da Cidadania para renovar os documentos do meu carro. Enquanto esperava a minha vez de enfrentar o cipoal da burocracia, abri  uma edição antiga  da revisa Planeta. De repente, deparei-me com a manchete: Liberland – este país tem futuro? Resolvi ler a matéria e acabei descobrindo que um visionário chamado Vit  Judlicka resolveu criar (isso mesmo) um país numa nesga de “terra de ninguém”, encravada entre a Sérvia e a Croácia. São apenas 7Km2 de terra sem qualquer benfeitoria. O país foi “fundado” no dia 15 de abril  de 2015, data do aniversário de Thomas Jefferson. Recebeu o nome pomposo de República Livre de Libertand. As bases filosóficas da nova república me deixaram animado: “Viver e deixar viver”. Segundo o fundador do país, as interferências do Estado na vida dos cidadãos serão mínimas. Outra novidade positiva: a política não será uma profissão e sim um serviço. “Nazistas e comunistas não terão vez”.

Sem pensar duas vezes, decidi vender o que não tenho e mudar-me, de mala e cuia, para Liberland. O nome não me agrada, a bandeira – amarela com uma faixa negra – também não, mas não se pode ter tudo. Quando me concederem o direito à cidadania, vou propor a troca das cores do lábaro por azul e branco.

Irmãos e irmãzinhas, não me tomem por traidor, fugitivo ou vira-folha. Deus é testemunha do meu amor pela Terra Brasilis.  Mas estou um tantinho cansado de viver num país governado, ora por mulheres sapiens, ora por messias truculentos. Não me agrada viver sob a batuta de pastores espertalhões que ditam regras de conduta como os profetas do Velho Testamento. Em tempo, vou adotar um nome mais consentâneo com o meu novo país: Senilovski. Assim seja.                   

15 de julho de 2019

Melhor que o silêncio

O mundo, como se sabe, anda excessivamente ruidoso.

Reza a lenda que o músico sofria de uma enfermidade rara: ouvido absoluto, daí a necessidade de reclusão, de isolamento. Para os que padecem deste mal, o que não for música é insuportável ruído. E o mundo, como se sabe, anda excessivamente ruidoso. João deve ter sofrido muito...

Na vida de João Gilberto, é praticamente impossível saber o que é verdade e o que não passa de lenda. É certo que tinha o seu próprio tempo que não se media pelos cronômetros convencionais. Consta que, no meio da noite, poderia ligar para um amigo e “alugar-lhe” o ouvido por horas a fio com o objetivo de mostrar-lhe, em primeira mão, as sutilezas de um acorde diferente numa velha melodia. Para o ouvido comum, era impossível perceber a filigrana que tanto entusiasmo provocara no violonista. Mas ninguém ousava desligar.

Para o público em geral, João era “maluco”, “excêntrico”, “irresponsável”, “ranzinza” ou simplesmente “genial”. Antes de cada apresentação do artista, pairava no ar um incômodo suspense. “Será se vai acontecer mesmo?”. Quando acontecia, a plateia, aliviada, saia do show como que comungada. Ouvir João Gilberto ao vivo era um privilégio para poucos.

Consta que gostava de se apresentar no Japão: o silêncio da plateia o fascinava. João, deliberadamente, espichava as canções, mesmo que fosse a sintética “Bim Bom”. Ao terminar a interpretação, o público fazia alguns segundos de silêncio para, em seguida, derramar dilúvios de aplausos. Com um sorriso discreto, o músico agradecia.

A trajetória de João Gilberto sempre foi marcada por incidentes de toda ordem. Quando surgiu no cenário musical, pontificavam entre nós Orlando Silva, Vicente Celestino, Cauby Peixoto, entre outros monstros sagrados. O músico baiano até tentou cantar à Orlando Silva. Não funcionou: sua voz limitada não lhe permitia maiores voos. Além do que que ficou registrado, consta que, desencantado com o Rio, “exilou-se” na casa de uma irmã em Minas onde passava os dias trancado no banheiro, repetindo, ad nauseam, os mesmos acordes. A acústica do local teria permitido ao violonista descobrir a batida que o imortalizaria. Ao sair da hibernação, estava pronto para conquistar o mundo. E conquistou.

O mais é do conhecimento de todos: João Gilberto, na companhia de um punhado de músicos geniais, lançou a Bossa Nova, e o Brasil nunca mais foi o mesmo. O novo gênero musical não cabia no país e espraiou-se pelos Estados Unidos, Europa, Japão... Influenciou músicos de todas as latitudes, projetou a música brasileira no cenário internacional. Caetano Veloso tem razão: “Melhor que o silêncio só João”.

08 de julho de 2019

A agenda do governo Bolsonaro não contempla a vida

De uma forma ou de outra, está sempre fazendo acenos à morte.

Sob o signo da morte

Há seis meses no poder, o senhor Jair Messias ainda não emplacou nada de relevante. Afora nomear e demitir ministros e assessores enrolados, gasta parte do tempo “tuitando” e alimentando a mídia com factoides. De qualquer forma, já deixou bem claro que sua agenda de governo não contempla a vida. De uma forma ou de outra, está sempre fazendo acenos à morte.

Vejamos: até o momento, sua maior preocupação, digo, obsessão é aprovar o projeto que facilita a compra e o porte de armas, inclusive de fuzis. Ao todo, já apresentou 7 projetos, todos com o mesmo conteúdo, mudando apenas a maquilagem. Acredita que, com mais armas nas mãos dos “cidadãos de bem”, os bandidos refluirão. Especialistas, de todos os matizes ideológicos, condenam a proposta, mas o Mito acredita que Deus não o escolheu por acaso. Mais armas: mais mortes.

Em mais de uma oportunidade, já se manifestou contra a “rigidez” das leis de trânsito. Já propôs até a supressão das cadeirinhas dos bebês nos automóveis, por acreditar que “proteger os filhos é tarefa dos pais”. Quer dispensar caminhoneiros dos exames toxicológicos quando até os próprios motoristas reconhecem que muitos dirigem sob o efeito de anfetaminas, os chamados “rebites”. Menos rigor nas leis: mais mortes no trânsito.

Em seis meses de governo, mais de 200 novos pesticidas foram liberados, alguns proibidos em países civilizados. Significa dizer: mais veneno na mesa dos brasileiros. Para o Messias, é preciso incrementar a produção agrícola, que tem peso substancial nas exportações brasileiras.

Já cogitou usar os recursos do Fundo  Amazônia para “indenizar” os “proprietários” de terras griladas. Para especialistas, a medida incentivaria as invasões de áreas protegidas por lei e aumentaria os crimes ambientais na região.

Já afirmou que, no seu governo, não demarcará um hectare de terra destinada aos indígenas. No seu entender, já existem “terras demais” ocupadas por índios que nada produzem. Além disso, os “índios querem ser integrados à população brasileira”. Melhor destino não terão as comunidades quilombolas, constituídas por negros indolentes, pesando “muitas arrobas”. 

Não bastasse tudo isso, o superministro propõe a redução da carga tributária sobre os cigarros fabricados no Brasil “para combater o contrabando de cigarros de má qualidade”, oriundos do Paraguai. Mais morte por câncer e outras enfermidades ligadas ao tabaco.

Melhor parar por aqui. Entre nós, a “indesejada das gentes” está em alta. O Messias deve saber por quê.

30 de junho de 2019

O velho não sabia

Naquela madrugada do dia 1º de maio de 1984, seu Liberato não sabia que poderia permanecer na cama por mais tempo.

 Por volta das 5 horas da manhã, virou-se para a filha amada e declarou: “O Cineso deve estar chegando”.  E partiu sem me dar tempo de lhe pedir a bênção. Tinha 81 anos de idade, todos os dentes  e nenhuma dívida. Preso aos limites do seu roçado, para ele, primeiro de maio era um dia como outro qualquer, com direito a enxada, suor, canseira...

Liberato Francisco dos Santos era um sertanejo atípico a começar pelo nome. Nasceu e viveu no sertão do Caracol (PI), numa terrinha madrasta, sovina, inclemente. Trabalhava com a regularidade de um bom cronômetro. Parecia feito de paciência e resignação. Como nos versos do Dobal, “não lhe ardia o desespero de ser dono de nada”. Pautava sua vida pelo regime das chuvas, daí a necessidade de buscar seus sinais na floração dos mandacarus, na agitação das formigas, na barra do dia...

 Seu eu tivesse de defini-lo com um único adjetivo, eu diria: exato. Um homem sem transbordamentos; um cidadão que cabia em si. Nunca o vi eufórico nem colérico. Comia pouco, trabalhava muito, dormia o necessário. Melhor seria defini-lo pelo que não fazia. Não promovia queimadas; não caçava; não pescava; não maltratava os animais domésticos; não surrava os filhos; não contava vantagens, não fazia versos; não tocava sanfona; não bebia cachaça; não suportava barulho... Sabia assinar o nome, conhecia as quatro operações, o que lhe bastava para administrar seu pequeno patrimônio. Quando estava entre os seus, contava causos, alguns muito engraçados.

Seu Liberato detestava preguiçosos. Sem o saber, pregava o preceito de São Paulo: “Se alguém não quer trabalhar,  que não coma”.  Não pedia nada emprestado; nada emprestava a ninguém. No mais, era cordial, ordeiro, decente. Em sua aldeia, era respeitado.

Ao longo da vida fez apenas quatro viagens: a primeira para Juazeiro da Bahia de onde voltou impressionado com a pujança do São Francisco e a famosa ponte levadiça. A segunda, tangido pela seca de 58, foi a Brasília ajudar Juscelino (que nunca viu) a construir o seu delírio de concreto nas asperezas do cerrado. A terceira com destino a São Paulo, buscar “refrigério para a vista cansada”. Voltou praticamente cego e acompanhado de um câncer que o mataria. A quarta e definitiva, na madrugada de 1º de maio de 1984.

Com seu Liberato, aprendi coisas simples e práticas: trabalhar diariamente; respeitar o próximo; honrar a palavra empenhadas; campear nuvens na vastidão do azul; amar as chuvas brandas; tomar café forte e fazer quase tudo para agradar as mulheres... Para mim, ensinamentos de muita valia.

17 de junho de 2019

Um sósia para Neymar

Extremamente habilidoso, Neymar tem uma característica bem brasileira: a molecagem

Quando o garoto Neymar, jogando pelo Santos, começou a pavimentar a carreira que o guindaria ao topo do mundo, escrevi um arremedo de crônica com o título Um sósia para Neymar. Não era, como pode parecer, uma gozação com o garoto-revelação. Era uma preocupação, que tinha e tenho ainda hoje. Infelizmente, sem o desejar, tracei a trajetória do moço e acertei em quase tudo.

A exemplo de outros garotos da periferia, que se tornam jogadores de futebol, Neymar estudou pouco e aprendeu apenas o mínimo. Em curto espaço de tempo, saiu do anonimato para o estrelato. Como criança superdotada, que antes de aprender a engatinhar tenta acorrer, Neymar foi um pouco além: começou a voar. O Brasil tornou-se pequeno para comportar os sonhos do garoto e as ambições do Neymar pai. Na transferência para o Barcelona, o velho tentou dar uma rasteira no fisco e acabou enrolado: o processo continua vivo e os valores crescendo...

Extremamente habilidoso, Neymar tem uma característica bem brasileira: a molecagem. Para ele, como para Garrincha, Cafuringa, Joãozinho, Dener e outros, o futebol é, antes de tudo, uma brincadeira, que consiste em fazer o adversário de bobo. Garrincha, o gênio das pernas tortas, não ligava à mínima para o gol; seu objetivo era humilhar os Joões e o fazia com a alegria de um garoto travesso. Como ninguém gosta de ser humilhados, os adversários revidam com pontapés.

Mas o Neymar (pai) percebeu muito cedo que tinha à mão um Midas: o filho tinha o poder de transformar tudo – de cerveja a desodorante – em dinheiro, muito dinheiro... O mais é do conhecimento de todos. Neymar Jr praticamente trocou os gramados pelos estúdios de gravação, e pelas atividades paralelas. Ora, mesmo para um ator profissional, gravar comerciais é atividade que demanda tempo e exige ensaios e muita paciência.

Tende como vitrine o Barcelona, Neymar conseguiu a rara proeza de tornar-se mais assediado que o Messe. Mas o garoto não se contentava em dividir o Olimpo com o parceiro argentino. Queria mais, muito mais: aviões, helicópteros, mansões, barcos, tudo. E assim, tornou-se o alvo preferencial de amigos, assessores, mulheres, dilúvio de mulheres... E com elas, a enxurradas de encrencas...

 Treinando pouco, com preparo físico abaixo do recomendável, Neymar, cada vez mais caçado pelos adversários, passou a cair muito e a render pouco. Acabou ganhando o título de “ cai-cai” que,  perdoem o trocadilho, lhe cai muito bem. No Paris Saint Germain, ainda não justificou a montanha de dinheiro que o clube pagou por ele. Na seleção brasileira, está sempre contundido nos momentos cruciais. Mais do que nunca, Neymar precisa de um sósia, alguém para cuidar dos negócios, das mulheres, das encrencas...Talvez, assim, volte a fazer o que sabe: jogar futebol. Assim seja.

02 de junho de 2019

Lições de desapreço

Ao longo de sua errática trajetória, o Brasil foi governado por muitos presidentes que não tinham o menor apreço pelo parlamento.

Lula, por exemplo, chegou a afirmar que no Congresso Nacional havia uns 300 “picaretas”. Vamos recuar algumas décadas:

Em 1961, encarapitado num partido sem expressão o PDC (Partido Democrata Cristão), Jânio da Silva Quadros chegou à presidência do Brasil com um discurso moralista. Tinha como símbolo de governo   uma vassoura para “varrer a corrupção e a bandalheira”, Jânio passou pela presidência como um meteoro. Gostava de uísque, de mesóclises, de filmes de caubói e de “bilhetinhos”. Com seu viés moralista, insurgiu-se contra o biquini, as brigas de galos e coisas miúdas. Sem base parlamentar expressiva, incapaz de dialogar com os parlamentares, tentou um golpe, que não vingou: alegando pressão de “forças terríveis”, escreveu mais um bilhete, o último, e renunciou. Esperava ser reconduzido à presidência nos braços do povo. Sua contribuição histórica: precipitou o golpe que vinha sendo gestado desde a posso de Juscelino Kubitschek. Entrou para o anedotário nacional com o autor da frase: “fi-lo porque qui-lo”.

Como não aprendemos nada com os nossos erros, em 1990, elegemos Fernando Collor de Melo, o “caçador de marajás. A bordo do inexpressivo PRN (Partido de Reconstrução Nacional), assumiu o mandado prometendo combater a corrupção, modernizar o país e cuidar dos “descamisados”. Arrogante, imperial, sem base parlamentar, meteu os pés pelas mãos, confiscou a poupança dos brasileiros e, como diriam os adversários, “chafurdou no lamaçal  da corrupção” . Prestes a ser cassado, renunciou ao mandato em dezembro se 92. Entrou para o anedotário nacional com a frase: “duela a quem duela”. Continua na política sob investigação.

Ao deixar o governo em 2010, com índices de aprovação na estratosfera, Lula resolveu escolher, para “guardar-lhe a cadeira”, Dilma Rousseff, uma cidadã com fama de “gerentona” eficiente. Foi, talvez, o mais grave de todos erros do ex-presidente.  Incapaz de construir uma frase com começo, meio e fim, sem o menor traquejo político, a “presidenta” não dialogava nem com a “companheirada”. No segundo mandato, foi defenestrada, acusada de “pedaladas fiscais”. Entrou para o anedotário brasileiro como a “mulher sapiens”.

Finalmente, cansado de mandar “profetas”, Deus, que é brasileiro, resolveu enviar o próprio Messias. Nas asas de um partido nanico (PSL), com a bênção da direita, dos evangélicos e dos ruralistas, Jair Messias Bolsonaro chegou à presidência anunciando uma “nova política”. Como acredita ter sido escolhido por Deus para governar o Brasil, afirma que “os políticos atrapalham”. É cedo para fazer prognósticos, mas tudo faz crer que, depois dele, virá o Apocalipse...

19 de maio de 2019

Das coisas que não se esquecem

As vezes, no finalzinho da tarde, um dos adultos espiava a barra avermelhada do poente e sentenciava: “Hoje, a cruviana corre solta!”.

Para os do meu tope, aquilo era como a sensação do álcool na pele antes da picada da injeção. Entendíamos tudo: faria frio de congelar tutano. Para quem não sabe, no sertão do Caracol, entre os meses de maio e setembro, faz muito frio. O frio, evidentemente, seria suportável, tivéssemos algum tipo de agasalho. Mas éramos todos muito pobres. Os remediados (eu estava entre eles) dormíamos em “tipufas” (redinhas ordinárias) feitas com tecido de saco de açúcar. Os miseráveis – a maioria – dormiam enovelados, como aquele cão do poema do Quintana, próximos de uma fogueira. Inconvenientes: além dos riscos de queimaduras, enquanto uma parte do corpo ardia a outra congelava. Ásperos tempos. Para que se tenha uma ideia da pobreza de todos, seu Abraão era quase um dignitário pelo simples fato de, num raio de algumas léguas, ser o único a possuir um par de meias e um “ataia-bufa” (cobertor de lã), trazidos de São Paulo.

 Vai que, certa noite, fez um frio de matar borregos. Eu teria quatro ou cinco anos de idade. Não bastasse a cruviana, fiz xixi na rede. Levantei-me com os galos-de-campina. A casa estava silente, mergulhada na penumbra. Dirigi-me como um autômato à casa de farinha na expectativa, talvez, da quentura do forno. Infelizmente, não era tempo de farinhada.   No meio do caminho, um lenitivo: uma pequena fogueira feita com sabugos de milho. Acocorado, com as mãos estendidas na direção do fogo, um pigmeu caboclo. Atendia pelo nome de Bertim, era um dos loucos do plantel de dona Purcina. Idade inescrutável, um metro e meio de altura, barriguinha proeminente e os olhos roídos pelo tracoma. É a primeira figura humana de que me lembro na vida. Ele, como de costume, também fizera xixi no couro de boi onde dormia. Levantou-se, pegou-me pela mão e, carinhosamente, me levou para bem próximo da fogueira: “Vamos quentar fogo, meu santo”, propôs.

Nascia ali uma amizade que não envelheceria. Bertim era meio gago, tocava um berimbau com um cordão de rede e cantava sempre a mesma toada, que se iniciava assim: Andando na rua/ avistei na janela/corpinho tão lindo/carinha tão bela. Tantas fez, que acabou tornando-se meu padrinho de fogueira... Um dia, como qualquer louco que se preze, soverteu-se no breu da noite.

Ontem, no colo de uma rede “cheirando a guardado”, com a saúde  debilitada, tive a impressão de que, de algum lugar insituável  entre o nunca e o nada, meu padrinho querido me acalentava cantando a velha modinha que terminava assim: Adeus, ingrata, /até não sei quando/pelos teus carinhos/saí suspirando...

12 de maio de 2019

Muito além de mim

Quando, aos oitenta anos de idade, dona Purcina foi sequestrada pelo Mal de Alzheimer, fiquei literalmente arrasado.

Para mim, era extremamente doloroso ver a velha, que parecia feita de certezas, embarcar no trem do esquecimento sem o bilhete de volta. Incontinenti, decidi que precisaria fazer algumas anotações para manter as lembranças de minha mãe vivas em mim. Mas não pensava em livro.

A doença insidiosa, rapidamente foi transformando dona Purcina num zumbi. Em curto espaço de tempo, já não se reconhecia no espelho. Com imensa tristeza, eu acompanhava tudo, mas não fazia anotações. Fui construindo o relato na memória. De cara, duas dificuldades. A primeira: retratar dona Purcina com um mínimo de isenção; a segunda: encontrar o tom adequado para a narrativa. Eu não queria um livro sentimental e muito muito menos dramático. Na medida das minhas limitações, procurei escrever um livro lírico, leve, suave...

Quando A matriarca dos loucos foi publicado, pensei que talvez o livrinho pudesse interessar às pessoas que conviveram com a minha velha. Para minha surpresa, o livro começou a percorrer sua trajetória sem a necessidade de que eu o conduzisse.  O livro foi adotado em escolas do Piauí, tendo como público-alvo adolescentes. A receptividade foi a melhor possível. Na 5ª edição da FLOR (Feira Literária de Oeiras), crianças bem pequenas dramatizaram fragmentos do livro com resultado comovente. Em curto espaço de tempo, a primeira edição do livro esgotou-se. Fiz uma segunda que teve o mesmo destino. Agora, acabo de fazer a terceira, sem alterações. Toquei apenas uma palavra, mudei a foto da capa e acrescentei o comentário do embaixador Alberto   da Costa e Silva: “É um pequeno livro belíssimo. Comovedor. Uma lição de bem escrever porque deriva de um aprendizado afetuoso de bem viver. Deu-me orgulho de ser seu amigo”.

Ao sair da gráfica com os livros, não resisti à tentação de parar para contemplar a foto de dona Purcina estampada na capa do livro. Tive a impressão de que, de algum lugar insituável, a matriarca continua balizando a minha vida. Assim seja.

05 de maio de 2019

O velho não sabia

Naquela madrugada do dia 1º de maio de 1984, seu Liberato não sabia que poderia permanecer na cama por mais tempo.

Naquela madrugada do dia 1º de maio de 1984, seu Liberato não sabia que poderia permanecer na cama por mais tempo. Por volta das 5 horas da manhã, virou-se para a filha amada e declarou: “O Cineso deve estar chegando”.  E partiu sem me dar tempo de lhe pedir a bênção. Tinha 81 anos de idade, todos os dentes  e nenhuma dívida. Preso aos limites do seu roçado, para ele, primeiro de maio era um dia como outro qualquer, com direito a enxada, suor, canseira...

Liberato Francisco dos Santos era um sertanejo atípico a começar pelo nome. Nasceu e viveu no sertão do Caracol (PI), numa terrinha madrasta, sovina, inclemente. Trabalhava com a regularidade de um bom cronômetro. Parecia feito de paciência e resignação. Como nos versos do Dobal, “não lhe ardia o desespero de ser dono de nada”. Pautava sua vida pelo regime das chuvas, daí a necessidade de buscar seus sinais na floração dos mandacarus, na agitação das formigas, na barra do dia...

Seu eu tivesse de defini-lo com um único adjetivo, eu diria: exato. Um homem sem transbordamentos; um cidadão que cabia em si. Nunca o vi eufórico nem colérico. Comia pouco, trabalhava muito, dormia o necessário. Melhor seria defini-lo pelo que não fazia. Não promovia queimadas; não caçava; não pescava; não maltratava os animais domésticos; não surrava os filhos; não contava vantagens, não fazia versos; não tocava sanfona; não bebia cachaça; não suportava barulho... Sabia assinar o nome, conhecia as quatro operações, o que lhe bastava para administrar seu pequeno patrimônio. Quando estava entre os seus, contava causos, alguns muito engraçados.

Seu Liberato detestava preguiçosos. Sem o saber, pregava o preceito de São Paulo: “Se alguém não quer trabalhar,  que não coma”.  Não pedia nada emprestado; nada emprestava a ninguém. No mais, era cordial, ordeiro, decente. Em sua aldeia, era respeitado.

Ao longo da vida fez apenas quatro viagens: a primeira para Juazeiro da Bahia de onde voltou impressionado com a pujança do São Francisco e a famosa ponte levadiça. A segunda, tangido pela seca de 58, foi a Brasília ajudar Juscelino (que nunca viu) a construir o seu delírio de concreto nas asperezas do cerrado. A terceira com destino a São Paulo, buscar “refrigério para a vista cansada”. Voltou praticamente cego e acompanhado de um câncer que o mataria. A quarta e definitiva, na madrugada de 1º de maio de 1984.

Com seu Liberato, aprendi coisas simples e práticas: trabalhar diariamente; respeitar o próximo; honrar a palavra empenhadas; campear nuvens na vastidão do azul; amar as chuvas brandas; tomar café forte e fazer quase tudo para agradar as mulheres... Para mim, ensinamentos de muita valia.

27 de abril de 2019

O cronista de meia-tigela

O segundo ano de minha estada em Teresina não prometia muito.

 A fábrica de sandálias de borracha entrou em parafuso: fui despedido. Tornei-me auxiliar de tapeceiro. Trabalhei com o Preá, com o Edmundo, com o Luiz Passos. Não tinha salário fixo: ganhava uns caraminguás quando entrava algum dinheiro nas oficinas de fundo de quintal. No colégio, ia de mal a pior: ruim em física e péssimo em matemática. Aliás, o professor de matemática, Edgar Tito, entregava-nos as provas com o seguinte comentário: “São apenas três questões: uma é do aluno, a outra é minha; a terceira, do diabo”. Por azar, eu ficava sempre com a do torto...

Um dia, criaram, no Liceu, um jornal mural. Renascença, se não me trai a memória. Resolvi escrever uma crônica tendo como pretexto um guarda de trânsito que trabalhava na Praça João Luís Ferreira.Para minha surpresa, a xaropada fez um sucesso danado. Alguns alunos copiaram-na e reproduziram em outros murais da cidade. Sem que eu me desse conta, estava nascendo ali o cronista de meia-tigela que eu me tornaria no futuro.

Por iniciativa do grêmio, institui-se um concurso de contos para os alunos do Liceu. Resolvi inscrever-me. Escrevi um conto de feição regionalista sobre um arruaceiro dos sertões do Piauí. O título traduzia a coisa: O triste fim de Chico Facão. Quatro laudas datilografadas em espaço dois. Mostrei o texto ao Chico Viana, um dos poucos náufragos que, efetivamente, sabiam ler. Ele cortou, corrigiu, refez passagens inteiras e reduziu o texto a uma lauda e meia. Inscrevi o conto e aguardei. Um mês depois, o resultado: o meu conto estava empatado com o do Benoni Alencar, um estudante bastante conhecido na cidade. Era considerado “comunista de carteirinha”. Curiosamente, éramos colegas de turma e não nos conhecíamos. A bem da verdade, ninguém me conhecia: eu era invisível. Alceu Guimarães, professor de literatura, tornou-se padrinho do Benoni; Ray Brito, professor de gramática, apadrinhou-me. Por critérios que desconheço, acabei vencedor. Valor do prêmio: dez cruzeiros a serem pagos pela Secretaria de Educação do Piauí.

Se vencer o concurso foi complicado, receber o prêmio, uma via crúcis. Eu chegava à Secretaria por volta das oito horas. A secretária que, tempos depois, seria minha aluna, afirmava: “O secretário ainda não chegou”. Por volta do meio-dia, avisava; “O secretário já saiu”. Uns três meses, ouvindo mesma história. Eu não sabia que os políticos brasileiros têm o dom de entrar e sair sem serem percebidos. Na Faculdade de Direito, fui colega do professor Balduíno Barbosa de Deus, o ex-secretário que me enrolou por três meses. Contei-lhe a história,ele sorriu,bateu no meu ombro e afirmou: “Colega, eram muitas as demandas”. Entendi: eu era realmente invisível.

(fragmento do livro O Aldeão Lírico)

14 de abril de 2019

Dia de sofrer pela pátria

7 de Setembro era, por excelência, a data magna a ser comemorada em grande estilo.

O diretor do Ginásio Dom Inocêncio era um padre espanhol, corpulento, enérgico, disciplinador. Segundo as más línguas, teria sido oficial do exército do generalíssimo Francisco Franco. O certo é que tinha grande apreço pelas comemorações cívicas. Havia um calendário cívico-religioso que se cumpria ao pé da letra. 7 de Setembro era, por excelência, a data magna a ser comemorada em grande estilo. Às 7 horas, já estávamos no pátio do vetusto ginásio, à espera das ordens do  Fernandão. A comemoração exigia farda de gala: sapatos, meias, cinturão e gravata pretos; calças de tropical azul-marinho, camisa branca e túnica branca com botões dourados. Dir-se-ia um bando de marinheiros numa terra sem água.

No ritmo ditado pelos tambores, descíamos marchando até a Roda do Bitoso, no centro da cidade. Uns dois Km de marcha. Em frente ao antigo quartel da polícia militar, perfilados, esperávamos o pior: o dilúvio de discursos. Os oradores se revezavam num ritmo estonteante enquanto sol de setembro nos cozinhava os miolos. Como não havia água, alguns alunos passavam mal... Para coroar a falação, convidava-se o venerável professor de história, Ariston Dias Lima. Com sua vocação teatral, o velho mestre  narrava os acontecimentos como se tivesse tomado parte neles. Inflamava-se,gesticulava, suava...Terminava sua peroração com essa joia preciosa: “Finalmente, quebraram-se os grilhões que nos prendiam a Portugal! O Brasil, soberano e  altaneiro, estava pronto a cumprir o seu destino glorioso no concerto das nações livres. Tenho dito!”. Exaustos, mas felizes, aplaudíamos o fim da tortura cívica.

Durante muito tempo, envergonhei-me por me faltar o tão louvado “sentimento patriótico”. Um dia, encontrei esta pérola em Samuel Johnson: “ O patriotismo é o último refúgio de um canalha”. Respirei  aliviado. O certo é que, depois do sofrimento cívico no Ginásio Dom Inocêncio, nunca mais entrei numa fila para marchar. O joelho esquerdo avariado livrou-me de servir no Exército. Tornei-me uma espécie de “inválido da pátria”.

Eis que, por ironia do destino, o Brasil está sendo (des)governado por um ex-capitão do Exército que, recentemente, afirmou não ter nascido para ser presidente sim para ser militar.  O certo é que, por falta de um projeto político minimamente aceitável, resolveu inventar uma comemoração: 31 de março,data em que o país mergulhou numa ditadura que duraria 21 anos. Confesso que fiquei com pena da molecada. Melhor seria afirmar: fiquei com pena da minha geração que acreditou na possibilidade de construir um país melhor. Voltamos à estaca zero.