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Notícias Graça Targino

13 de fevereiro de 2020

Livros na mira dos incautos

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo ([email protected])

Machado de Assis, consensualmente, um dos grandes escritores brasileiros, faz parte da formação de gerações e gerações de brasileiros. Euclides da Cunha, após dois meses, observando como jornalista, ano 1987, o conflito de Canudos, se antes acusara o movimento como monarquista com o intuito de derrubar a República, revê sua posição depois de conhecer de muito perto as condições de vida dos sertanejos e a organização da comunidade liderada por Antônio Conselheiro e edita, então, “Os sertões”, 1902, o primeiro livro-reportagem nacional, no qual denuncia, com maestria, um dos maiores massacres da história do Brasil. 

Aurélio de Buarque de Holanda Ferreira (isto mesmo, você não está lendo errado), com sua coletânea “Mar de histórias” e por incrível que pareça, o maranhense Ferreira Gullar, com seus “Poemas escolhidos” estão dentre as 43 obras de 13 autores nacionais e dois internacionais, censurados pelo Secretaria de Estado da Educação do Governo de Rondônia, mediante o memorando circular n. 04/2020 encaminhado às Coordenações Regionais de Educação do Estado, no dia seis deste mês, cujo assunto é identificado como “recolhimento de livros”. 

Face à reação imediata da população, com repercussão na imprensa nacional e internacional, e num ato de covardia, o Secretário Suamy Vivecananda Lacerda Abreu tentou identificar a notícia como fake news, mas o ato foi confirmado por áudio da gerente de Educação Básica de Rondônia, Rosane Seitz Magalhães, que, por meio de WhatsApp, afirma que a retirada dos livros das escolas é uma solicitação de “nosso secretário”. 

O inacreditável Index Librorum Prohibitorum do Governo de Marcos Rocha, ex coronel da Polícia Militar ultradireitista e filiado ao Partido Social Liberal (PSL), legenda com a qual o então candidato Jair Bolsonaro se elegeu, revela o conservadorismo das eleições nacionais de 2018. O que nos dá orgulho, porém, é o comportamento ágil de diferentes órgãos contra a tentativa frustrada, a exemplo do Supremo Tribunal Federal, da Academia Brasileira de Letras e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rondônia. O desrespeito à Constituição de 1988 foi o item mencionado com maior destaque. 

Afinal, do Index constam nomes consagrados, como do tcheco Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, com obras que se eternizaram em vários idiomas, como “O processo” e “A metamorfose”, além do autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe. Antes, a formação em língua inglesa incluía, inevitavelmente, suas histórias, quase sempre, coalhadas de mistério e certa dose do macabro, figurando ele como inventor da ficção policial e colaborador do gênero de ficção científica. 

Ademais, dentre nossos clássicos censurados, estão outros nomes representativos, a exemplo de Carlos Heitor Cony, Mário de Andrade, Rubem Fonseca e o até hoje polêmico dramaturgo Nelson Rodrigues. Em que pese sua morte ocorrida há 40 anos, sua obra ainda é estudada, citada, compilada e contestada, seja por suas longas tiradas de humor negro, por sua irreverência incontida, mas, sobretudo, por sua adesão a um realismo deslavado, no momento em que expressa os traços mais representativos do cotidiano.

O intuito de vetar a leitura de obras aclamadas, sem qualquer debate com a sociedade, demonstra o desprezo pelo diálogo e a incapacidade de respeitar a diversidade de pensamentos, em harmonia com a linha de ação do mandatário Bolsonaro. Recentemente, por exemplo, diante da indicação de “Democracia em vertigem” ao Oscar 2020, na categoria Melhor Documentário, de Petra Costa, cineasta brasileira e membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 2018, mesmo admitindo não ter assistido ao longa-metragem, para não “perder tempo com uma porcaria dessas”, vai além e com a deselegância e incoerência descabida que lhe são peculiares, acrescenta: “para quem gosta do que urubu come, é um bom filme”.     

Numa demonstração clara de que o ex coronel rondoniense não está só, mas apenas segue a escola do desrespeito à cultura nacional, ainda há pouco, com a conquista do Prêmio Camões 2019, maior distinção em literatura da escrita portuguesa, pelo grande Chico Buarque, o presidente se recusou a assinar o documento, em meio à ironia de que o faria em 31 de dezembro de 2026. Em rara declaração em redes sociais, o compositor respondeu que a “não assinatura do Bolsonaro no diploma [concedido pelos governos do Brasil e de Portugal] é para mim um segundo prêmio Camões”. 

Por fim, vale a pena rememorar que a censura a livros durante a Ditadura Militar (1964 a 1985) ou em 2020 assemelha-se a uma modalidade de “terrorismo cultural”, expressão cunhada por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). É preciso denunciar o cerco aos livros ou às expressões livres de pensamento, arte e cultura por incautos que teimam em embrutecer e tornar estúpida a população brasileira! 

12 de fevereiro de 2020

Livros na mira dos incautos

O intuito de vetar a leitura de obras aclamadas demonstra desprezo pelo diálogo e a incapacidade de respeitar a diversidade de pensamentos

Machado de Assis, consensualmente, um dos grandes escritores brasileiros, faz parte da formação de gerações e gerações de brasileiros. Euclides da Cunha, após dois meses, observando como jornalista, ano 1987, o conflito de Canudos, se antes acusara o movimento como monarquista com o intuito de derrubar a República, revê sua posição depois de conhecer de muito perto as condições de vida dos sertanejos e a organização da comunidade liderada por Antônio Conselheiro e edita, então, “Os sertões”, 1902, o primeiro livro-reportagem nacional, no qual denuncia, com maestria, um dos maiores massacres da história do Brasil. 

Aurélio de Buarque de Holanda Ferreira (isto mesmo, você não está lendo errado), com sua coletânea “Mar de histórias” e por incrível que pareça, o maranhense Ferreira Gullar, com seus “Poemas escolhidos” estão dentre as 43 obras de 13 autores nacionais e dois internacionais, censurados pelo Secretaria de Estado da Educação do Governo de Rondônia, mediante o memorando circular n. 04/2020 encaminhado às Coordenações Regionais de Educação do Estado, no dia seis deste mês, cujo assunto é identificado como “recolhimento de livros”. 

Face à reação imediata da população, com repercussão na imprensa nacional e internacional, e num ato de covardia, o Secretário Suamy Vivecananda Lacerda Abreu tentou identificar a notícia como fake news, mas o ato foi confirmado por áudio da gerente de Educação Básica de Rondônia, Rosane Seitz Magalhães, que, por meio de WhatsApp, afirma que a retirada dos livros das escolas é uma solicitação de “nosso secretário”. 

O inacreditável Index Librorum Prohibitorum do Governo de Marcos Rocha, ex coronel da Polícia Militar ultradireitista e filiado ao Partido Social Liberal (PSL), legenda com a qual o então candidato Jair Bolsonaro se elegeu, revela o conservadorismo das eleições nacionais de 2018. O que nos dá orgulho, porém, é o comportamento ágil de diferentes órgãos contra a tentativa frustrada, a exemplo do Supremo Tribunal Federal, da Academia Brasileira de Letras e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rondônia. O desrespeito à Constituição de 1988 foi o item mencionado com maior destaque. 

Afinal, do Index constam nomes consagrados, como do tcheco Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, com obras que se eternizaram em vários idiomas, como “O processo” e “A metamorfose”, além do autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe. Antes, a formação em língua inglesa incluía, inevitavelmente, suas histórias, quase sempre, coalhadas de mistério e certa dose do macabro, figurando ele como inventor da ficção policial e colaborador do gênero de ficção científica. 

Ademais, dentre nossos clássicos censurados, estão outros nomes representativos, a exemplo de Carlos Heitor Cony, Mário de Andrade, Rubem Fonseca e o até hoje polêmico dramaturgo Nelson Rodrigues. Em que pese sua morte ocorrida há 40 anos, sua obra ainda é estudada, citada, compilada e contestada, seja por suas longas tiradas de humor negro, por sua irreverência incontida, mas, sobretudo, por sua adesão a um realismo deslavado, no momento em que expressa os traços mais representativos do cotidiano.

O intuito de vetar a leitura de obras aclamadas, sem qualquer debate com a sociedade, demonstra o desprezo pelo diálogo e a incapacidade de respeitar a diversidade de pensamentos, em harmonia com a linha de ação do mandatário Bolsonaro. Recentemente, por exemplo, diante da indicação de “Democracia em vertigem” ao Oscar 2020, na categoria Melhor Documentário, de Petra Costa, cineasta brasileira e membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 2018, mesmo admitindo não ter assistido ao longa-metragem, para não “perder tempo com uma porcaria dessas”, vai além e com a deselegância e incoerência descabida que lhe são peculiares, acrescenta: “para quem gosta do que urubu come, é um bom filme”.     

Numa demonstração clara de que o ex coronel rondoniense não está só, mas apenas segue a escola do desrespeito à cultura nacional, ainda há pouco, com a conquista do Prêmio Camões 2019, maior distinção em literatura da escrita portuguesa, pelo grande Chico Buarque, o presidente se recusou a assinar o documento, em meio à ironia de que o faria em 31 de dezembro de 2026. Em rara declaração em redes sociais, o compositor respondeu que a “não assinatura do Bolsonaro no diploma [concedido pelos governos do Brasil e de Portugal] é para mim um segundo prêmio Camões”. 

Por fim, vale a pena rememorar que a censura a livros durante a Ditadura Militar (1964 a 1985) ou em 2020 assemelha-se a uma modalidade de “terrorismo cultural”, expressão cunhada por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). É preciso denunciar o cerco aos livros ou às expressões livres de pensamento, arte e cultura por incautos que teimam em embrutecer e tornar estúpida a população brasileira! 

10 de fevereiro de 2020

Universidade Federal do Piauí e muros

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo ([email protected])

As discussões desencontradas e não confirmadas de que a Universidade Federal do Piauí pretende ou já iniciou o processo de erguer muros entre a Instituição e as coletividades adjacentes não nos espantam, até porque há um motivo inquestionável – a falta de segurança intramuros, com casos reincidentes de assaltos e similares. Mais do que muralhas físicas, o que assusta é o distanciamento entre UFPI e sociedade. Paira isolacionismo crescente e visível. Há paralisia. Há contemplação. Inexiste discussão sistemática em torno das questões internas da Instituição e do país, pautada por respeito às diferenças ideológicas. As universidades públicas não deveriam estar vinculadas à luta pelo poder lideradas por grupos com motivações escusas. Elas possuem um DNA social, o qual se esvai, pouco a pouco, no âmago da UFPI, não obstante a existência teórica e, com frequência, inconsistente e frágil da representação universitária. 

Criada em 21 de novembro de 1968, mediante a Lei n. 5.528 e instalada no Campus Universitário Bairro Ininga adiante, em 1971, hoje mantém cinco campi espalhados pelo Estado do Piauí, a saber: Teresina; Parnaíba; Picos; Bom Jesus e Floriano. Estes comportam grandes centros de ensino, que incorporam unidades departamentais. A título de exemplo, o Campus Ministro Petrônio Portella (Teresina) possui 10 centros e mantém 62 cursos presenciais de graduação, os quais ofertam 3. 456 vagas. Ainda em termos estruturais, além do órgão supremo de deliberação da UFPI, o Conselho Universitário (CONSUN), há outros dois conselhos presididos pelo Reitor, além de colegiados de cursos, assembleias departamentais e instâncias representativas dos alunos. Quer dizer, teoricamente, a premissa é de que sobra espaço para discussões internas e consistentes pautadas na maturidade institucional e na realidade nacional. A verdade, porém, contradiz tal pressuposição.   

Aliás, sentimo-nos livres para falar sobre as universidades públicas brasileiras, em especial, sobre a UFPI, como docente, aluna, administradora, e, por que não? Como espectadora. Afinal, aos 17 anos, começamos nossa primeira graduação numa dessas instituições, e nunca mais partimos. Aos 20, iniciamos trajetória acadêmica, que inclui “passeios” em entidades das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Ingressamos na UFPI, por concurso público, em setembro de 1972, carregando nos ombros todos os sonhos do mundo que se perdiam nos galpões temporários, cuja provisoriedade permaneceu por anos e décadas. Era a época em que os administradores geriam circulando nos recintos da Universidade, distantes do trancafiamento ostensivo em luxuosos gabinetes. Sabiam o que aconteciam. Conheciam a realidade.

 A política partidária existia como leme para combater a alienação da comunidade acadêmica, mas não como elemento determinante. Os cargos eram ocupados pela competência de docentes e/ou servidores técnico-científicos, ao contrário do que se passa hoje, quando a inadequação dos “chefes”, salvo exceções, soa hilariante. Até a concessão de títulos honoris causa segue diretrizes politiqueiras em meio a conchavos nunca em prol do processo de ensino-aprendizagem. Sempre, a favor de grupos políticos partidários espúrios. No caso específico (nada contra ou a favor do Partido dos Trabalhadores), qual a justificativa para a UFPI conceder, em 2017, o título de Doutor honoris causa ao então já ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, mediante aprovação unânime dos membros do CONSUN? Mero exemplo. Há outros...

Estamos sempre atentas à realidade que nos circunda nos distintos e variados papéis que, inevitavelmente, exercemos em diferentes circunstâncias e segmentos. E é exatamente a atenção que dedicamos aos fatos circunvizinhos, que nos tornam autorreferentes em se tratando das questões educacionais brasileiras. Afinal, me fiz jovem, mulher madura, em meio aos campi das universidades brasileiras e estrangeiras. No caso nacional, confessamos com rubor na face envelhecida, que vivemos seu apogeu e assistimos, agora, seu triste e inequívoco desmoronar.

Falamos da decadência quase generalizada de nossas universidades públicas, ênfase para a UFPI. Assistimos ao esvaziamento das salas de professores. Assistimos ao declínio no nível de cobrança dos alunos. Assistimos ao favorecimento de docentes e funcionários. Assistimos ao sucateamento de laboratórios, bibliotecas, hemerotecas e restaurantes. Assistimos a muito mais, incluindo o alvoroço publicitário que ronda uma ou outra iniciativa, como um posto de Tribunal Regional Eleitoral neste período no campus de Teresina para facilitar a vida da comunidade universitária. Mas há casos flagrantes e inadmissíveis: o Hospital Universitário não atende a essa comunidade. Campanhas de vacinação não fazem parte de seu dia a dia. Os cursos de idiomas estrangeiros direcionados ao grande público, desde os anos de 70, hoje, não mais existem! 

Dedicamos uma vida inteira à UFPI. Nos dias atuais, não conseguimos contato nem sequer com a secretária da chefia de gabinete. Estão todos em suas frágeis torres de marfim. Isto porque, se na maioria dos segmentos sociais, assumir postura pedante é vergonhoso, no mundo acadêmico, coalhado de doutores, cujas credenciais, às vezes, podem ser questionadas por sua inércia social, o formalismo e o distanciamento do conhecimento acessível ao grande público integram armadura de proteção às questões que podem lhes ser direcionadas. 

Por tudo isto, para quem enxerga a educação como elemento prioritário para a formação integral do indivíduo, a qual envolve atuação ética, profissional, humana, social e política, muros físicos em torno da UFPI, representem verdade ou fake news, são bem menos importantes do que o desmoronar dos valores pedagógicos e do compromisso social. Este, sim, constitui ameaça perigosa e atroz! 

31 de janeiro de 2020

Glória aos céus

Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica -E-mail para contato: [email protected]

Glória Maria [Matta da Silva] destaca-se no cenário nacional e internacional como jornalista, repórter e apresentadora da TV Globo, numa época em que o universo televisivo como um todo não possuía referências negras significativas. No caso, Glória Maria confessa sem qualquer preocupação de ser politicamente correta que, desde seu ingresso na tevê, ainda em 1971, buscou se destacar por seu talento: “não pela cor. Não fui educada para isso. Não tive cota. Preta ou branca, eu tinha que ser boa”, diz ela. 

Carisma e impecável trajetória profissional são inquestionáveis desde sempre. Fora isto, ao longo do tempo, alimentou certo mistério em torno de sua vida privada, com ênfase para a questão da idade. Por exemplo, há pouco tempo, revelou em entrevista à revista semanal “Veja”, seção “Páginas Amarelas”, que se opõe a declarar a quantidade de anos vividos, por acreditar que quando você “[...] fala muito em idade e no tempo, atrai o tempo contra você. Para evitar problema, esqueço que ele existe.” Agora, os curiosos já sabem que a apresentadora carioca nasceu no dia 15 de agosto de 1949 e tomam conhecimento de muito mais... 

Isto porque, em novembro de 2019, de repente, o inesperado. A descoberta de um tumor maligno no cérebro. Tratamento imediato e eficiente no CopaStar, hospital da cidade do Rio de Janeiro. Recuperação rápida. E eis uma Glória renovada, após o que chama de experiência mais transformadora de sua vida. Ela que até então nunca permitia abordagem de cunho pessoal, fala de amores, eventuais ou especiais, e de um casamento fracassado; da adoção das duas filhas, por sinal, irmãs biológicas. E mais, confessa com palavras ipsis litteris: “eu fui e saí transformada. Comecei a ver máscaras caindo, uma a uma. Pessoas que pensei que estivessem do meu lado, não estão. E outras, que nunca imaginei, se prontificaram em ajudar. Teve gente da minha família perguntando: ‘quem está administrando os bens da Glória? Ela é uma incompetente com dinheiro.’ Mas também houve [...] verdadeiros anjos da guarda.”

Em depoimento à também jornalista Marina Caruso, o qual circula nas redes sociais, fãs ou meros bisbilhoteiros acompanham no texto bastante completo informações sobre a saga de Glória Maria nesse momento: o diagnóstico; a fragilidade avassaladora que vem à tona; a cirurgia em sua complexidade; o doce milagre; as mudanças que inundaram sua vida; as inevitáveis sequelas; a força das mulheres de sua família; a sensação inusitada de libertação; e, ainda, seus heróis. Dentre estes, destaque para Eldrige Cleaver, líder dos Panteras Negras e que se descobriu racista na prisão. Ao retornar de um banho de sol, descobre que o guarda retirara todas as fotos de mulheres nuas da cela. Indignado, ele diz ao homem: “Você é racista. Todos os outros presos têm fotos de mulheres nuas. Você tirou as minhas porque sou negro.” O guarda, então, responde: “Racista é você, porque as fotos eram todas de mulheres brancas. Por que não havia imagens de negras?”. É quando Eldrige percebe que o racismo de verdade é aquele que começa na gente, não no outro”, ideia com a qual a jornalista negra concorda integralmente.

Porém, ao contrário do que se pode pensar, o intuito central do texto não é relatar a cura de nossa Glória Maria e dar glória aos céus por sua possibilidade de prosseguir. É mais. Muito mais. É lamentar, em nome da maioria dos brasileiros sem a menor chance de recuperação e/ou renascimento, quando enfrenta uma enfermidade. É lembrar que bem próximo de cada um de nós, há quem espere por 90 dias (ou mais ou um pouco menos) para marcar uma consulta no Sistema Único de Saúde (SUS) ou por uma cirurgia por mais simples que seja. E o que dizer das filas dos que esperam para receber remédios? E o que falar de drogas vitais à sobrevivência de enfermos, como diabéticos, que precisam dos medicamentos cedidos pelo Poder Público (com nosso dinheiro), os quais faltam com surpreendente constância? 

Diante da crueldade da saúde pública do Brasil, a recuperação de Glória Maria (por mais que nos traga alegria), sob determinado ponto de vista, é um tapa no rosto de quem não consegue sequer os meios mais simples para tentar a superação. Afinal, ela não resulta de soluções mágicas, mas de recursos públicos, que se esvaem na correnteza da corrupção instalada no país. Minha alma sente-se cansada e esgotada frente a essa estarrecedora desigualdade de nosso país!

23 de janeiro de 2020

Professora, o que você é, quem você é?

Sou uma mulher de 71 anos. Mãe de um menino e uma menina. Avó de dois netos.

Após explanação sobre a magia da leitura e da escrita num grupo de jovens prestes a se submeter ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma adolescente visivelmente embaraçada, me pergunta: “professora, o que você é? Quem você é?” É a minha hora de constrangimento. Devo expor a alguém tão jovem o que sou. É a chance de expressar o que penso que sou e quem sou. Isto porque, como reitero, com veemência, nossa autoimagem é sempre tridimensional. Somos o que acreditamos ser. Somos o que desejamos ser. Somos o que as outras pessoas descobrem em nosso ser. Transcorridos alguns segundos, a menina prossegue à minha frente e seus olhos de um verde cristalino fitam-me à espera da resposta, que tarda a chegar. Mas não há como fugir. Continuo sem saber o que dizer ou como dizer. É sempre complexo e difícil falar sobre o que somos ou sobre quem somos. 

Aceito o desafio e lá vou eu em busca de sintetizar uma vida exaurida de amores, paixões, alegrias e tristezas. Uma vida igual a de qualquer um: plena de contentamentos em meio às dores que espocam aqui e ali. Existir junto aos outros ou com os outros. Existir só.  Irremediavelmente só nas dores mais profundas, nas cicatrizes entreabertas, nos sonhos vividos, nas esperanças desfeitas.

Mas arrisco. E lá vou eu. As palavras saem aos borbotões. Sou uma mulher de 71 anos. Mãe de um menino e uma menina. Avó de dois netos. Irmã de dois anjos travestidos de senhor e de senhora, porque um terceiro já partiu para longe. Tia de um sobrinho de sangue e muitos de coração. Amiga de meus amigos. Professora desde sempre: minha família brinca ao dizer que “nasci professora”. Sou bibliotecária, jornalista, leitora, escritora, contista, cronista – numa sequência livre de amarras. Mas, confesso: não sei o que sou, nem que sou! Sei, porém, o que não sou. Apesar de ter vivido até hoje nos palcos da vida que são as salas de aula, não sei o que dizer, menina querida. Olho com orgulho os corajosos que se autorrotulam com adjetivos magníficos e atributos invejáveis. Olho para dentro de mim. Vejo uma mulher que não sabe quem é.   

Quem sou eu? Uma mulher instalada na velhice, mas com uma criança irrequieta dentro de si, que ainda acredita no amor, nos sonhos e no outro. Quem sou eu? Uma mulher sempre com o dedo no gatilho para apontar e apostar em novos caminhos. Quem sou eu? Uma mulher que carrega consigo uma mochila de sonhos que se sobrepõe a uma mochila de desilusões. Quando criança, prefiro livros a bonecas. Quando adolescente, prefiro livros a namorados. Mas quando me olho no espelho (odeio espelhos) antigo do meu quarto de mulher só, com dois casamentos fracassados nos ombros pesados, agora, sim, me reconheço: menina frágil de olhos no futuro, vulnerável a migalhas de atenção. 

Com a convicção de que é impossível analisar alguém num único momento de vida, haja vista que passado, presente e futuro se fundem, afirmo que, hoje, o que sou tem muito a ver com meu passado e com o que serei amanhã. Imperfeita como qualquer ser humano, sou perseverante, idealista, inquieta, irrequieta, sapeca, profunda, irreverente, verdadeira, preocupada com as outras pessoas, leal, aberta a inovações, metódica, passional e intensa: amo (ou não) por inteiro. Nada pela metade. E mais, mero detalhe: há anos e anos, não uso pente ou escova nos cabelos que vivem aos deus-dará, obedecendo à ordem dos meus dedos ágeis. 

Paraibana, cresci entre o eixo Recife – João Pessoa, mas aqui vivo há muitos e muitos anos. Além do Piauí, adoro mil coisas e a vida. Minha casa é meu refúgio preferido, onde me perco entre minhas obras de arte e meus livros, que vão transformando meu cantinho num baú de doces lembranças. O voluntariado me acalma e me faz bem. A música de qualidade me transporta para o além. Amo cinema e teatro a tal ponto que já me arrisquei em ambos. Adoro praia e campo. Durante muitos anos, fiz tapeçaria quase que compulsivamente. Ensaiei pintura de porcelana porcamente. Amo cozinhar. Amo viajar. Como gosto de idiomas! Sinto-me camaleão.  Luto como leão. Sobrevivo como um pássaro azul.

Perdoe-me, menina querida. Sou tantas em uma só! Temo que mais do que te respondi, te confundi!

15 de janeiro de 2020

Guerras, amores e paixões

E-mail para contato: [email protected]

Durante as festividades de passagem do ano, incluindo o fim do ano velho e início do ano novo, apesar dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, que trazem à tona a palavra – guerra – a palavra – amor – ganha em ritmo disparado. Aliás, amor e paixão confundem-se, embora as distinções entre eles existam. Quantos escritores ou literatos, amantes ou amados escreveram sobre o tema até então? No meu caso, diante das expressões tão plenas de significado – amor / paixão – desagrado a muitos quando afirmo: amores e paixões passam; mas, paradoxalmente, ambos podem se eternizar. Ou seja, não vejo como único ponto de divergência a pretensa eternidade dos grandes amores e as cinzas quase instantâneas das paixões. 

Amores perpetuam-se quando se transmutam em companheirismo, cumplicidade, silêncios plenos de palavras ou palavras coalhadas de silêncio graças à compreensão que transcende o dito e o não dito. Em sentido oposto, podem ir esmaecendo, quando se distanciam do sentimento original, deixando espaços vazios n’alma e no coração. As paixões eternizam-se quando se transmutam em idealização do ser amado, o qual toma a forma de belo e inconfessado sonho. A gente passa a amar a miragem que nós próprios construímos e, decerto, fantasias e ilusões não comportam críticas ou olhos ávidos em busca de imperfeições. Se assim não for, o esquecimento vem a cavalo em galope veloz. 

A este respeito, o filme “História de um casamento”, escrito e dirigido por Noah Baumbach, ano 2019, é impecável ao discutir o fim de uma união aparentemente sólida que dura 10 anos. Inicia com uma listagem elaborada pelo casal Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), sob a orientação de um terapeuta de casal, em que cada um elenca as qualidades do outro, numa tentativa de recuperar o que se perdeu no meio do caminho. Nem tudo se perdeu, mas há vácuos ocos de significado.

Portanto, inexistem regras de alforria para a liberdade de viver amores ou paixões. Ambos demandam ação ou ações. O amor não sobrevive sem cuidados mínimos ou, para os mais exagerados, sem cuidados máximos. Um bom dia com cheiro de café fresquinho. Um presente-surpresa. Uma florzinha aparentemente insignificante que, de repente, está lá nos cabelos da amada ou num singelo jarrinho roto pelos anos vividos. Um jantar surpresa para comemorar pequenas celebrações – dia do primeiro encontro; dia do primeiro beijo; dia sublime do casamento formal ou informal. São gestos corriqueiros, banais, mas constantes. Não há necessidade de grandes manifestações, de balões-falantes, de outdoors estridentes, até porque o sentimento amoroso e/ou apaixonado se mantém de pequenos gestos, de confissões em horas inimagináveis, da troca de segredos que nos entregam e, paradoxalmente, nos fragilizam. Tornamo-nos escravos dos que resvalam rumo ao subterrâneo mais profundo de nossa alma... 

A diferença, talvez, é que as paixões são puros desvarios. Amores impossíveis, proibidos ou platônicos confundem-se com paixões avassaladoras em sua pequenez ou em sua grandeza. Às vezes, mantêm-se numa caixinha guardada a sete chaves. Outras vezes, estão expostos ao luar ou ao sol causticante, sem qualquer pudor. Mas a paixão termina mais depressa do que se imagina diante da falta de um projeto de vida em comum e da ausência de perspectivas, ainda que possa se manter em lembranças coroadas de flores secas, confirmando a premissa de que tanto amores quanto paixões podem morrer ou se eternizar. 

Se, ainda mais, a paixão está fundamentada na contravenção das regras impostas socialmente e/ou na ansiedade do proibido, é interessante a fala da escritora catalã Maruja Torres, para quem a rotina do adultério se fragiliza diante da convenção dos casamentos. Ela afirma sem meias palavras: “um amante é como um franco-atirador”. A postos, “espera com infinita paciência que o alvo se ponha em seu ponto de mira”. Logo, porém, o alvo se converte numa figura ridícula e inútil, como um espectador ante sua própria impotência. Afinal, o casamento está integrado a um exército fortalecido e diabólico: as imposições sociais. 

O certo é que nenhum amor se acaba de repente. Nenhuma união se rompe como um relâmpago, que traz consigo luz intensa e rápida produzida pela descarga elétrica entre duas nuvens. O amor precisa manter a chama acesa... Nas paixões, a idealização basta e se está sempre à espera de um final! Há esperas inúteis. Mas doces esperas. São esperas em que os amantes, conscientemente ou não, sabem que há mais sonho e quimera do que realidade. Para o filósofo francês Voltaire [François-Marie Arouet], “as paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar”. Há quem diga com convicção: “amo você até a eternidade”, o que não deixa de ser uma boa data de (re) encontro! A eternidade! 

 Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica


09 de outubro de 2019

Dentre os “fenômenos-armadilhas” da modernidade está o Airbnb

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Airbnb*

Dentre os “fenômenos-armadilhas” da modernidade, está o Airbnb. Indo à enciclopédia da moda, lá está na Wikipedia a apresentação do que é o aplicativo: “serviço online comunitário (grandioso! acréscimo nosso) para as pessoas anunciarem, descobrirem e reservarem acomodações e meios de hospedagem.” Surgido em 2008, como uma bolha de sabão que se esvai em meio a todo um ritual de beleza, à época, aparecem como fundadores os norte-americanos Brian Chesky, Joe Gebbia e Nathan Blecharczyk, na bela e colorida São Francisco, Estado da Califórnia, EUA. Como razão social, lá está: motor de busca de meios de hospedagem. Como proprietário, simples assim: Airbnb. A página oficial do serviço “comunitário” praticamente reitera a Wikipedia. São poucas as diferenças, como o número de fundadores. Diz assim: “O Airbnb começou [...] quando [...] designers que tinham espaço sobrando hospedaram três viajantes que procuravam um lugar para ficar. Agora, milhões de anfitriões e viajantes optam por criar uma conta gratuita no Airbnb para que possam anunciar seu espaço e reservar acomodações únicas em qualquer lugar do mundo.” 

Tudo muito glamouroso! Facilidades mil! Com passos de gigante, o Airbnb, de 2008 a 2012, se expandiu mundo afora. Nesse período, estima-se que mantém no ar uma média de 500 mil anúncios em mais de 35.000 cidades e 192 países. Desde então, já se tem ideia precisa da falta de transparência do projeto “comunitário.” Isto porque, recorrendo-se aos mais diferentes artifícios de busca, os dados de 2012 para cá tornam-se mais e mais difusos. Por exemplo, ninguém sabe, ninguém viu, quais são exatamente tais países. É possível que a iniciativa esteja mais presente no Ocidente e é certo que não marca ponto nos países ditatoriais ainda existentes. 

Mas, afinal, o que, de fato e de direito, é o Airbnb? Fora os dados vigentes em seu site, os quais giram sempre sobre valores, prazos, comodidades, compartilhamento fácil, agradável e seguro, na realidade, é uma organização sem rosto; sem conta bancária; sem supervisão sobre aqueles a quem denomina de anfitriões; e, mais grave, sem contato telefônico via aparelhos fixos (somente o quase sempre ineficiente 0800, comum a companhias aéreas, aos cartões de crédito, às infames operadoras de telefone, às agências de financiamento, etc.). Não permite contato via WhatsApp ou qualquer outro recurso tecnológico atual que possa deixar rastros mais visíveis. 

Numa das ilhas do Arquipélago de Açores, há alguns atrás, fomos parar numa imobiliária, com quitinetes à disposição dos interessados. Casas que nem de longe abrigam gente como a gente vendem a ilusão de que o cidadão, sobretudo quando de outro país, terá a chance única de praticar uma nova língua ou conhecer culturas distintas no convívio de gente alegre e atenciosa. Os usuários costumam se encantar com a magia prometida de substituir a frieza dos hotéis pelo abraço cálido de famílias. Afinal, segundo palavras literais do aplicativo, “os anfitriões de experiências do Airbnb compartilham suas paixões e interesses com viajantes e moradores locais.” E, melhor, a preços módicos! E há, sim, experiências vivenciadas de forma positiva, inclusive vivenciadas por nós. Mas, há muita mentira no ar! Muita insegurança para os menos vigilantes ou mais confiantes! Muito embuste!

Casos e mais casos estão vindo à tona sobre a falta de legitimidade desse serviço, que de “comunitário” não tem absolutamente nada. As cifras são o alvo permanente dos proprietários do sistema que não mantêm identidade. Reiteramos: como proprietário, um enunciado simples assim: Airbnb. Isto é, o pior pode acontecer. Em acontecimento recente, em horários seguidos, a empresa sem cara e sem rosto, tentou sacar a segunda prestação de uma longa hospedagem paga em três prestações. Em data próxima ao dito vencimento via cartão de crédito, este sofreu tentativa de fraude num valor superior a 28 mil – duas investidas de 14 mil e mais alguma coisa. Diante do fato, a administração do cartão não teve alternativa, a não ser bloqueá-lo, o que impediu o Airbnb de sacar a segunda prestação. O serviço “comunitário” que, com frequência, envia aos “clientes”, em temporadas mais longas, uma média de quatro a cinco mensagens de publicidade POR DIA, silenciou. Em vez de contato com o cliente, e-mail imediato para o dono da casa (não anfitrião, no sentido restrito da palavra), impondo o cancelamento imediato da reserva dos meses restantes... É possível prever o que aconteceu.

O impossível é prever a dificuldade para sanar a situação junto ao Airbnb! Quase 48 horas para resolver um problema criado por eles. As barreiras vieram à tona: nenhuma conta em nome do “serviço comunitário” para se fazer o depósito; nenhum telefone de fácil acesso. A você cabe receber ligações e instruções via numerosas e desencontradas mensagens eletrônicas. A cliente viveu, com intensidade, horas de pavor, diante da ameaça de despejo e, quem sabe, da investida da polícia. Afinal, um jovem hóspede turco confidenciara que, muito recentemente, o dono da casa expulsara duas chinesas com o auxílio da polícia, por conta de lavagem indevida de roupas no banheiro do quarto onde estavam, o que figura como transgressão para as regras da casa! Eis, então, o lado cômico! Uma noite de domingo. Uma mulher numa cidade estranha, num quarto que não poderia chamar de seu, em meio a ameaças veladas do proprietário, visualizando a cena de seu bota-fora com a supervisão da polícia! Nada ocorreu neste sentido, mas o temor foi intenso para se dissolver em bolhas coloridas de sabão!   

 É evidente que as autoridades brasileiras precisam investigar o que é o Airbnb. Casos de diferentes naturezas vêm se repetindo países afora, em meio a hospedagens cálidas e bem-sucedidas! Não se trata de acusação irresponsável e, sim, de constatação de que, enquanto o cidadão brasileiro é devorado pelo leão ou qualquer outro animal que represente a vigilância em torno do que ganha um cidadão comum da classe média, o Airbnb corre livre e solto! Cidades europeias e zelosas pela segurança verdadeira de seu povo, como Barcelona (região da Catalunha, Espanha) e Berlim (Alemanha) já não permitem o uso do aplicativo. Argumentam que leva infinita vantagem frente a setores estabelecidos da economia, ou, mais precisamente, em confronto com a rede hoteleira oficial e pagadora de altos tributos! 

É preciso saber mais sobre o universo difuso e nada transparente do Airbnb! É um pedido somente para investigar! Nenhuma acusação! Mero pedido! Nada mais! Nada menos! Afinal, investigar é a única estratégia para fugir das armadilhas da modernidade e responder ao questionamento mais genuíno: o que, de fato e de direito, é o Airbnb? 

*Publicado originalmente no JTNews

Para contato direto: [email protected]

26 de junho de 2019

Mulheres e pontes de Madison

Maria das Graças Targino - [email protected]

Ainda em setembro de 1995, o filme “Pontes de Madison”, baseado na obra “As Pontes de Madison: os caminhos da lembrança”, do norte-americano Robert James Waller chegou ao Brasil. Como sempre ocorre com o gênero romance / drama, atraiu, desde o início, olhares contemplativos por parte dos que amam amar e/ou olhares hostis para quem detesta o cinema hollywoodiano, em especial, quando a temática envolve o mais doce do sentimento humano. 

Durante 135min, a película dirigida e coproduzida por Clint Eastwood (ao lado de Kathleen Kennedy), com roteiro inteligente de Richard LaGravanese e Robert James Waller e música de Lennie Niehaus, conta uma história para lá de simples. Após a morte de Francesca Johnson (Meryl Streep), italiana que se tornara uma típica dona de casa americana da zona rural do Estado de Iowa, seus filhos descobrem, através de cartas deixadas como herança pela mãe, um grande amor vivido por ela durante quatro dias com o fotógrafo Robert Kincaid (Clint Eastwood) da revista National Geographic, período em que a família estivera ausente.

Francesca vive com o marido e os dois filhos adolescentes, em tom de submissão, sem muitas escolhas de vida. Ela poderia ser qualquer uma das mulheres – não importa nome nem nacionalidade – que deixa a vida levar embora seus próprios desejos de fêmea, mulher e profissional. Eis trecho de um dos muitos diálogos fascinantes do filme que age como uma tapa em nossos rostos: “Ninguém entende que quando uma mulher resolve casar e ter filhos, por um lado sua vida se inicia, por outro, termina. Ela constrói uma vida de detalhes e simplesmente para, fica imóvel, para que os filhos se movimentem. E quando se vão, levam sua vida de detalhes com eles. Esperam que você retome sua vida. Mas do que era mesmo que você gostava? Ninguém perguntou nesse meio tempo. Nem eles. Nem o marido. Nem você mesma.” 

É a história velha e surrada de que é preciso honrar as escolhas que fazemos ou fizemos, por mais que se fale sobre o avanço na mulher na sociedade hodierna. No caso da Francesca, casamento e família. O vasto elenco acompanha a atuação impecável dos protagonistas, o que consegue transformar uma história aparentemente comum numa lição de vida que conduz a um questionamento instigador e polêmico: as mulheres tendem a ter sua Ponte de Madison ou, no mínimo, idealizar simbolicamente uma ponte que signifique unir o que está separado, ainda que aparentemente oposto, em busca da complementação de uma vida árida ou ávida de amor? Em que pesem os olhares maldosos, confesso sem pudor: “eu tive e vivi minhas Pontes de Madison”, com a curiosa ressalva de que a verdadeira ponte onde o filme foi rodado foi destruída num incêndio, em 2002.

Ao contrário dos mais desavisados, “The bridges of Madison County”, candidato, ano de 1996, ao Oscar na categoria Melhor Atriz (Meryl Streep); ao Globo de Ouro, indicações Melhor Filme e Melhor Atriz; ao Prêmio César como Melhor Filme Estrangeiro, não tem como foco central nem a traição descarada nem o odiado adultério feminino. Afora isto, é muito mais do que a vivência amorosa sublimada em função da família. Para os estudiosos da Psicologia Analítica ou Psicologia Complexa, na linha do estudioso Carl Gustav Jung, discípulo de Sigmund Freud, o amor vivido por Robert e Francesca é um evento genuinamente sincrônico, ou seja, não está ligado por causa e efeito. Nenhum dos dois planejou o encontro ou a paixão, mas ambos precisavam inconscientemente e simultaneamente dessa experiência bendita, que os uniu para sempre e de forma indelével, pelo significado que passou a ter em suas vidas. 

Eis a sincronicidade de que Jung fala: a sincronicidade de almas, que, na realidade, existe para ser compreendida e vivida, pois é mais do que mera coincidência.  E é o que norteia “Pontes de Madison.” Em que pese o espaço curto de amor tresloucado e imensurável, numa série de momentos, a partir da hora em que o homem pede a informação à mulher de como chegar à Ponte, Roberto e Francesca vivem como se vivessem mil vidas, reiterando Guimarães Rosa, quando diz, com convicção: “as coisas mudam no devagar depressa dos tempos.” Os amantes e amados completam-se em sua idealização. Ele vê nela o amor pelo amor, sem máscaras. Ela vê nele a liberdade de ir e vir, solto pelo mundo, como ela própria gostaria de ser... 

Além do mais, concretizando a premissa de que os diálogos do filme são preciosos e reflexivos, Robert diz: “os sonhos são bons [...] por terem simplesmente existido, independentemente de terem sido realizados.” E mais adiante, ao final do diário deixado aos filhos, Francesca acrescenta: “em quatro dias, ele deu-me uma vida inteira, um universo, e deu consistência a todo o meu ser. Nunca deixei de pensar nele, nem por um momento.” Por fim, se vivemos em meio a um oceano de sincronicidades, muitas das quais imperceptíveis ao nosso olhar descuidado, perguntamos: “quem determina tais sincronicidades?” 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

19 de junho de 2019

Jeitinho brasileiro

Maria das Graças Targino - [email protected]

Salvo raríssimas exceções, tendemos a rotular populações. Lançamos mão de estereótipos. Alguns agradáveis aos ouvidos: mulher brasileira, morena e bela, sensual e lasciva; japonês, disciplinado e trabalhador; inglês, polido e pontual. Outros são ofensivos em sua essência: francês, malcheiroso; alemão, grosseiro; brasileiro, propenso a trambiques; catalão, mal-educado. Esses rótulos tendem a ser injustos. Alguns cômicos: mulher baixinha é sinônimo de frescor, porque nos pequenos frascos de perfume, está o melhor aroma; mulher altinha não sofre dificuldades para enxergar em meio à multidão a figura do exótica Lady Gaga. E outras tolices deste porte... 

Na realidade, viajar proporciona nova visão: as pessoas são o que são, independentemente de sua nacionalidade. Há pessoas boas e más, sensuais ou “sem sal”, espertas ou desonestas, limpas ou sujas, delicadas ou indelicadas, trabalhadoras ou preguiçosas, por toda a parte. Verdade que o meio cultural interfere na visão de mundo, mas sempre é possível encontrar espécimes distintos, num mesmo rincão.

Nada, porém, impede que carreguemos, nós, brasileiros, o estigma de ser esperto em excesso, burlando normas e parâmetros sociais e/ou coletivos, sempre, com o intuito de se dar bem. Verdade que a expressão – esperto – possui conotação positiva. É quando nos referimos a alguém dotado de inteligência, arguto e vigoroso. No caso, porém, o espertinho aplicado ao povo brasileiro tem a acepção de espertalhão. Esperteza em demasia corresponde ao hábito nada salutar de ocultar erros, malandragens, omissões e falhas no convívio com familiares, companheiros e amigos, recorrendo a justificativas levianas, e, portanto, aéticas. É o jeitinho decantado do brasileiro como alguém que, com frequência, recorre a atalhos, mesmo quando estes levam a caminhos cinzas ou rotos, cujos buracos ocultam subterfúgios e maledicências.

“O auto da compadecida”, peça do grande paraibano Ariano Suassuna, em 1955, que se transformou em minissérie e, também, em filme, sob a direção do pernambucano Guel Arraes, explora de forma bastante criativa os causos de Chicó (vivido por Selton Mello) e os trambiques incríveis de João Grilo (Matheus Nachtergaele), nas brenhas do Estado da Paraíba e até no além, ante Deus e o diabo. Desde o início da obra, juntos, eles reforçam a premissa de que “a esperteza é a coragem do pobre.” Com a maior cara de pau e primando pelo jeitinho brasileiro, eles atraem plateia para o filme “A paixão de Cristo.” Dizem num determinado trecho: 

“Hoje à noite, na paróquia de Taperoá, vai passá (sic) ‘A paixão de Cristo!’” (João)

“Um filme de aventura! Que mostra um cabra sozinho e disarmado (sic), enfrentando o Império Romano todinho!” (Chicó)

“Não percam! A história de um vidente que é Deus e homem ao mesmo tempo!” (João)

“Um filme de mistério! Cheio de milagres e acontecimentos do outro mundo!” (Chicó)

“A paixão de Cristo! Filme mais arretado do mundo!” (João).

Depois desta, podemos nos perguntar se o jeitinho brasileiro está impregnado nas peças publicitárias dos nordestinos “da pesada” de “O auto da compadecida.” Vemos, ainda, quão tênue é o comportamento moral, amoral e imoral, até porque os dois malandros precisavam vender o filme de uma forma bem original para garantir “o seu!” Os fins justificam os meios? Até que ponto vale a pena primar pela verdade? Até que ponto a verdade pode ser convincente ou conveniente? Restam dúvidas e, por falta de opção, sobrevive o jeitinho brasileiro! Afinal, ao longo da história mal contada do país, tornamo-nos especialistas em afrontar e enfrentar adversidades com sorriso torto nos lábios e jeitinho malandro que cabe em qualquer lugar, até na compilação de capas de livros de autores com o pretexto de que se trata de traço característico (e limitado) de um capista e não o caráter duvidoso de ambos – capista e autor-compilador!   


Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

13 de junho de 2019

Paixões à luz do dia ou velhas paixões proibidas...*

Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma. (Nilton Bonder, 1998)

Maria das Graças Targino**

A cada ano, no dia 12 de junho, eis um rebuliço maior em restaurantes, lojas, casas, motéis e alcovas. Alguns vivenciam o romantismo que nunca lhes abandonou, com mais força, como se possível fora. Outros retomam a fantasia, nem que seja por um dia. Há quem se negue a sucumbir ao apelo comercial do Dia dos Namorados. Circulam flores, bilhetes de amor, caixas de chocolate, mensagens carinhosas via WhatsApp ou declarações públicas no facebook ou fotos luminosas no instagram, e, quem sabe, para os mais afortunados financeiramente, joias, relógios e até um belo carro. Tudo vale para lembrar que sempre é época de brindar ao amor. Paixões à luz do dia ou velhas paixões proibidas. Amores eternos ou amores passageiros, transitórios e efêmeros, mas não necessariamente insignificantes... 

E o que dizer dos que não se importam com a data porque não têm a quem amar? Dentre eles, há os que ridicularizam as comemorações. Alegam que se trata de puro comércio e ponto final... Invenção ultrapassada e brega. Coraçõezinhos em gestos, papel, papelão, alumínio, não importa, tudo muito cafona. Bilhetinhos, sempre inúteis. Irão para o cesto de lixo e ponto final... Do outro lado, há trabalho, viagens, dinheiro e sucesso. Isto, sim, combina com a rotina do século XXI, que cobra, principalmente das mulheres, além de inteligência brilhante e bagagem cultural sempre à prova, beleza, esbelteza, eficiência no trato das funções que a vida lhe impõe, dentre as quais podem estar a maternidade, o voluntariado, o exercício de um hobby, um pet, a academia de ginástica, as sessões de terapia (e, agora, de hipnose), o comparecimento sistemático a reuniões sociais que rendam notícias no jornal de amanhã. 

Nesse intervalo, eis que alguém recebe a seu lado um buquê de rosas vermelhas. A curiosidade dá voltas e meias-voltas: quem será que ainda manda flores? Meio cômico, sobretudo, quando as rosas exalam cheiro de amor e encantamento no ambiente imaculado do trabalho. Pessoas assim jamais confessarão que choram num pranto silencioso os amores não vividos, os sonhos não realizados, as fantasias não alcançadas, até porque duvidam de quem diz: “enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” Não admitem jamais que dariam seu reino por uma única rosa vermelha. E ponto final...

Mas, dentre os não têm a quem amar, há os que exaltam o amor, como eu. Destino, mistérios e fantasmas que teimam em aparecer e desaparecer. É a certeza de que o dia 12 de junho é tão somente mais um dia no calendário cinza do ano que voa. É apenas mais um dia e ponto final... Falta a mim e a você o dia a dia que fortalece a cumplicidade, a conversa na intimidade do lar, a música no ar, um presente, um anel que legitime nosso bem-querer que há muito se foi. Mas sempre é tempo de lembrar os risos soltos, os abraços apertados, os beijos molhados ao Sol ou ao luar, os corpos desnudos. E ponto final...

*Texto do livro recém-lançado “Amar, viver, escrever”

**Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

29 de maio de 2019

Teclado responsável

Maria das Graças Targino - ([email protected])

No decorrer dos tempos, verdade e mentira, realidade e fantasia, lendas e fatos, boatos e ilusões sempre conviveram lado a lado. Em tempos de nossos avós, bisavós e tataravós, em grandes cidades ou em pequenos vilarejos, em metrópoles ou em aldeias, a verdade sempre conviveu com fofocas e boatos numa sucessão de intrigas, falatórios, disse me disse, disse não disse, disse que disse, diz que diz, diz que diz que, diz que me diz que, e assim sucessivamente.

Com a posse de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos, no dia 20 de janeiro de 2017, ou melhor, desde sua candidatura ao cargo, a expressão fake news passou a ser usada a torto e a direito, sem discernir o bem do mal, de forma irrefletida e a esmo. Ele se posiciona como o criador da expressão, como se fora possível identificar, com precisão, quem a adotou pela primeira vez ou quem a disseminou. Afinal, trata-se de designação, em sua essência, para lá de errônea: se é fake (falso) não é news (notícias). A notícia é um gênero textual jornalístico presente no cotidiano dos indivíduos. Para ser categorizada como tal, demanda uma série de requisitos, tais como: informar por meio de textos descritivos e veiculados na mídia, mediante linguagem formal, clara e objetiva, conteúdos credíveis, ou seja, em que possamos ou devamos acreditar. Eis, pois, a principal característica da notícia = fato / verdade / dia a dia. Essa perspectiva aliada à capacidade de discernimento deve nos conduzir ao teclado (particípio passado do verbo teclar e não dispositivo periférico do computador ou celular) responsável para emitir nossa opinião a respeito de uma informação em circulação nas redes sociais, da mesma forma que deve nos guiar até as urnas para expressar nosso voto.

Sob esta concepção, a expressão fake news é por si mesma um desvario, mas que veio para ficar graças às inovações tecnológicas e às redes sociais, que comportam não um mundo intrigante, na acepção de surpreendente, mas, sim, um mundo de intrigas. É muito fácil destruir reputações; enlamear a vida de famílias e indivíduos; propagar informações propositadamente distorcidas; pregar o ódio irracional a grupos minoritários; criar imagens falsas, transmutando sapos em príncipes ou príncipes em sapos; ou gerando “fatos” novos no lamaçal da política brasileira.

Mesmo assim, à revelia de Trump (ou não), desde 2017, o respeitado dicionário britânico Oxford Dictionaries, edição da Oxford University, acresceu o verbete fake news, para designar a geração de informações inverídicas, como expressão de sentido que se relaciona, fundamentalmente, a “[...] histórias falsas que parecem ser notícias, que se espalham pela internet ou por meio de outras mídias, geralmente criadas para influenciar pontos de vista políticos ou de qualquer outra natureza.”

Portanto, tudo isto significa que somos, todos nós, responsáveis por um mundo melhor, em que o respeito ao outro seja prática cotidiana, o que corresponde não apenas a uma vida de orações, mas de ações que se iniciem com a adoção do teclado responsável, haja vista que, na conjuntura contemporânea, as notícias falsas arvoram-se entre nós com acentuado relevo, velocidade e alcance, causando dores e inquietações ao outro, ao tempo em que nos distancia anos-luz do comportamento ético ideal e idealizado.

22 de maio de 2019

Nossa Senhora do Amparo

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Semana passada, confessei ao meu público a devoção infinita que dedico às lendas populares. Exultei de felicidade quando descobri em Portobelo (Panamá), a história do Cristo Negro, que se assemelha à de “nossa” Nossa Senhora do Amparo. Aliás, ele esteve presente há pouco tempo, no Brasil, carnaval de 2019, na escola de samba carioca, a festejada Estácio de Sá, que trouxe às passarelas “O Negrito” com o enredo “A fé que emerge das águas!” Ambos – Cristo e Santa – mantêm algo em comum: caprichosos e birrentos, estão sempre às turras com párocos e fiéis.

No caso de Nossa Senhora do Amparo, a busca de informações no espaço virtual aponta contradições, ditos e ritos. É difícil imaginar sua chegada à capital Teresina. Por este motivo, recorro a Maria Cecília Mendes, tanto por sua vocação como historiadora quanto por sua religiosidade e por seu amor ao universo de lendas, tradições, crenças e costumes do povo piauiense. Nesse momento, ela menciona a obra original do escritor Celso Pinheiro, possivelmente o primeiro registro escrito publicado sobre a voluntariosa Nossa Senhora, quando da edição comemorativa do cinquentenário da Capital, 1902, na antiga e extinta Revista Litericultura, que circulou de 1912 a 1913, período de mudanças significativas de cunho político, econômico e social no Estado do Piauí, quando os autores da Revista buscavam a consolidação da identidade literária piauiense.

As lendas representam a memória coletiva de um povo, refletindo um passado cultural, paradoxalmente, presente. Povoam o imaginário social das coletividades, tentando explicar o inexplicável. José Antônio Saraiva, Conselheiro Saraiva, advogado e político baiano, responsável pela transferência da sede administrativa da província do Piauí de Oeiras para Teresina, em 16 de agosto de 1852, visualiza em sua proposta a chance maior do crescimento econômico da Província face à nova localização geográfica, no então bairro Poti Velho. O nome escolhido é nítida homenagem à Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon, esposa de D. Pedro II. Homem influente e destemido, Saraiva inicia, à época, a construção de uma série de repartições públicas e, decerto, para agradar o clero, sua primeira obra é a edificação da Igreja Nossa Senhora do Amparo, no centro da cidade, em frente da Praça Marechal Deodoro da Fonseca, em dimensão menor do que a atual, com o término tão somente da capela-mor.

O que se deu? É provável que tenha sido o próprio Saraiva quem encomendou uma imagem da Nossa Senhora do Amparo. Não se sabe ao certo. O certo é que a Santa, em sua santa pressa, chegou antes da conclusão da Igreja, cuja pedra fundamental foi lançada em 25 de dezembro de 1850 até sua inauguração, Natal do ano de 1852, quando foi elevada à categoria de Matriz da cidade. Desde então, Nossa Senhora do Amparo figura como a padroeira da capital, cujo dia de celebrações recai a cada 16 de agosto, aniversário de Teresina.

O influente e jovem Padre Mamede Antônio de Lima, recém-ordenado no Seminário de Olinda (Pernambuco), após iniciar sua vida religiosa na paróquia de Sobral (Ceará), foi designado para a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, além de exercer o Bispado no Maranhão. Em apuros pela chegada da Santa antes de a Igreja estar pronta, o Padre decide enviar a imagem para a Capela de Nossa Senhora do Amparo, no Poti. Finalizada a Igreja, em cortejo fervoroso para trazer a imagem, os fiéis seguiram do bairro até a nova Igreja. Não deu outra. No dia seguinte, eis a Santa arisca no Poti. No dia seguinte, nova procissão. Ela não hesitou. Voltou para a Capelinha. Dizem, mais algumas vezes.

Em conluio com o sacristão, o Padre astuto idealizou um plano para enganar a Santa fujona. Esperou uma noite de lua nova. Envolvida com uma alva toalha de linho bordada em labirinto, colocou a imagem num caixãozinho de imburana perfumada fortemente lacrado. Desta vez, nada de procissão. Ela veio, no fundo de uma canoa de pesca bem cuidada e ornada, seguindo para a Igreja Nossa Senhora do Amparo pelo caminho do rio Parnaíba. Enquanto a canoa cruzava as águas movimentadas do Parnaíba, elas se aquietavam pouco a pouco e quando a embarcação atingiu o Porto das Cajazeiras, o céu estava vestido de estrelas cintilantes. Enfim, foi posta na capela-mor da Igreja, onde um nicho repleto de flores perfumadas e velas de todos os tamanhos e cores a esperavam. Sem saber como voltar, Nossa Senhora do Amparo por lá ficou, deixando dentre os potienses um sentimento de orfandade e perda!

17 de maio de 2019

Cristo Negro: do Panamá para a Estácio de Sá

Maria das Graças Targino - [email protected]

Todos nós guardamos conosco singularidades que não se explicam. Simplesmente são nossas. Por exemplo, sempre confessei meu encantamento perante artistas de rua, a exemplo dos que trazem música à vida dos que passam velozes e preocupados, às vezes, por meio de

instrumentos musicais variados; às vezes, com sua voz, treinada ou não. Há as estátuas vivas que se postam horas a fio nas calçadas das grandes cidades turísticas. Há os malabaristas que se

esforçam em distrair transeuntes e motoristas, quiçá, sonhando com o apogeu dos grandes circos. Nada importa. Eles estão por aí, clamando por um pouco de atenção ou por oportunidade!

Todo este preâmbulo apenas para lhes falar de meu fascínio por lendas populares, brasileiras ou não, muitas das quais trazem subjacentes crenças, fé e devoção. No caso específico, o foco é o Cristo Negro, cujo aparecimento ocorreu entre os anos de 1800 e 1830

d.C., momento histórico em que o Caribe registrou vertiginoso sincretismo religioso. Na atualidade, o Cristo Negro é cultuado, sobretudo, na Guatemala, nas Filipinas e no Panamá, guardando em cada nação suas especificidades. Na Guatemala, está cercado por mulheres

brancas e há certa fusão entre religião católica e vodu, culto que conjuga elementos de possessão e magia. Nas Filipinas, a Procissão do “Nazareno Negro” constitui uma das celebrações

religiosas mais populares.

São muitas as denominações a ELE atribuídas, como “Nazareno”, “Naza”, “O Negro”, “O Negrito”, “O Cristo” e “O Santo.” No caso específico, visitamos o Cristo Negro exposto na

Igreja São Felipe, em Portobelo, pequena cidade portuária (244,7 km²) panamenha da província de Cólon, distante 96,5 km da Capital, numa hora e meia de percurso em carro próprio. A estátua

de madeira boiava às margens do porto nas águas do oceano Atlântico, de forma imprecisa, em torno de 1658. Sua origem é cercada de histórias e de mistérios. Nada nem ninguém sabe como

ali chegou. Chovem especulações e ditos e não ditos. Indo adiante, dizem que o Cristo – óbvio que não importa sua cor (se branco ou amarelo ou marrom) – foi levado muitas e muitas vezes a

outras províncias. Surpreendentemente, quando menos se esperava, lá estava ELE de volta: no mesmo altar, na mesma posição. Para os mais crédulos, ostentava no rosto um doce e maroto

sorriso. Eis o momento em que a lenda de “O Negro” assemelha-se às manifestações em torno de Nossa Senhora do Amparo, em Teresina – PI, tema da próxima coluna!

Diante da insistência de “Naza”, a Paróquia de Portobelo decidiu atendê-lo. A Igreja simples, mas aconchegante, foi construída em 1814 e sua torre, concluída em 1945. Pouco a

pouco, os fiéis foram chegando e se avolumando. Nos dias de hoje, adornado com um manto, a cada 21 de outubro, lá vai ELE em Procissão. O manto sagrado é mudado tão somente duas

vezes por ano: durante a Semana Santa (cor roxa); durante o Festival do Cristo Negro (cor de vinho tinto). É usado uma única vez e é sempre doação de anônimos, o que resulta em alguns

bastante simples e outros luxuosos em demasia.

A efígie, representando Cristo carregando uma pesada cruz, permanece num pódio à esquerda do altar principal, mas é transportada para o centro da Igreja, quando do Festival, que

figura como o maior evento de Portobelo. Reúne cerca de 60.000 peregrinos vindos não só do Panamá, mas de outros recantos distantes, como do continente europeu, dos Estados Unidos e de

outras nações latino-americanas. De fato, a particularidade do Festival do Cristo Negro é que, de acordo com a fala dos nativos, em sua maioria, os devotos são ex-presidiários, entre assaltantes,

ladrões e traficantes de drogas. Juram ter se livrado das terríveis grades das fétidas cadeias, graças à intervenção do bondoso Cristo. Seguem de joelhos pelas ruelas de pedregulhos. Com

certa frequência, além do sangue que jorra dos joelhos, são açoitados por familiares ou amigos para que não voltem a infringir as leis... Há quem siga rastejando com mãos e joelhos...

Isto justifica o apodo do Cristo Negro, no Panamá, como “O Padroeiro dos Criminosos.” E ELE prossegue com seus caprichos: deve ser devolvido à Igreja exatamente à meia-noite. Nem

antes. Nem depois. Torna-se extremamente pesado para ser carregado! E mais! Poucos sabem que uma das principais escolas de samba de nosso Rio de Janeiro, Estácio de Sá, agora, carnaval

2019, homenageou o Cristo Negro de Portobelo com o enredo “A fé que emerge das águas!”

08 de maio de 2019

Emberás: fotografia retocada

Maria das Graças Targino, [email protected]

O Panamá abriga em seu território comunidades indígenas dispersas, fundamentais à sua instalação como nação, uma vez que, em tempos remotos, até o início da colonização espanhola, ali viviam tão somente índios chibchas, caribes, cholos e chocóes. Em 1501, Rodrigo de Bastidas percorre as costas caribenhas e Cristóvão Colombo, explorador italiano, responsável pela frota que alcançou o continente americano em 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, ancora na baía de Portobelo (assim, com um só L, Panamá), 1502. 

Quer dizer, tal como no Brasil, são eles, os indígenas, parte intrínseca da história do país. Após longo processo de colonização a cargo da Espanha, é a vez da Colômbia e mais adiante dos Estados Unidos. Eis, então, um povo que incorpora, a olho nu, interessante mescla de “brancos”, negros, mestiços e indígenas. Como nosso interesse maior, hoje, aqui e agora, é discorrer um pouco sobre os emberás, só acrescentamos que, dentre a população global do Panamá de cerca de 3,6 milhões de habitantes, com PIB per capita de US$ 24.300 (ano 2017) e, segundo dados do PNUD, Índice de Pobreza Extrema de 14,2%, os indígenas estão entre os que mais convivem com a extrema pobreza.

Isto significa que, em pleno século XXI, proporção significativa dos povos aborígines panamenhos (como no caso brasileiro) prossegue em situação de marginalização e exclusão social, não obstante o fato de que, pouco a pouco, seus direitos comecem a ser contemplados na Constituição da República do Panamá e em outros dispositivos legais, graças a formas de resistência por eles desenvolvidos diante de eventuais ataques e ameaças à sua sobrevivência. Uma das conquistas mais significativas refere-se à instalação de cinco regiões indígenas, cujas leis constitutivas legitimam a estrutura administrativa-política original ao lado da autonomia e da conservação da cultura genuína dessa gente como parte integrante do sistema nacional. 

Estamos nos referindo, em termos genéricos aos sete povos indígenas que somam, ano 2019, mais de 300.000 indivíduos. A grande maioria pertence aos grupos bri, corneta, emberá, kuna, naso tjerdi, ngäbe (ou ngöbe) e wounaan. Há dúvidas sobre a origem dos 993 bokota, considerados por alguns antropólogos como integrantes do povo ngöbe. Enquanto grande parcela dessas comunidades está “fechada” à interveniência do homem branco ou ao turismo, os emberás vêm se tornando bastante conhecidos, face à abertura à visitação de turistas. 

Oriundos da região Choco da Colômbia moderna, parte da tribo seguiu para o Panamá, ao final do século XVIII. Hoje, os emberás estão assentados no Parque Nacional Chagres, à beira do rio homônimo. Mantêm três aldeias no Parque, ainda que somente a terceira esteja aberta ao homem branco, onde chegamos depois de travessia ao longo do rio por cerca de uns 40 minutos, em lanche rústica, mas aconchegante. Eis um dia único! Eis uma experiência única! Como eles vivem de forma sustentável em meio à floresta e ao rio Chagres, sobretudo os mais velhos resistem à modernização, embora, extremo paradoxo, muitos deles já tenham sucumbido à pregação da Igreja Evangélica. 

Suas casas, em geral, estão edificadas sobre palafitas à beira do rio, e agrupadas numa pequena comunidade com uma casa comunal ao centro, o que facilita a manutenção de rígidas “estruturas governamentais / administrativas” e familiares. Observamos a preocupação em conservar cultura e costumes, incluindo dialeto, culinária, belas pinturas ou tatuagens de cores fortes e com motivo singulares, cantos e danças, das quais os visitantes podem participar com a coletividade. A comida preparada diante de nossos olhos foi servida em cabaças (como as brasileiras), incluindo peixe delicioso acompanhado de banana também frita, desta vez, de forma bem panamenha: cozinha-se a banana verde em pedaços por pouco tempo. Escorre-se o óleo. Amassa-se com um pisador específico para isso, à semelhança de nosso batedor de carne, e, então, se dá a fritura final. Aliás, peixe, mandioca e frutas fazem parte do dia a dia dos emberás por conta da própria localização. 

A decepção diante do artesanato produzido por crianças, jovens e mulheres emberás ganha proporção bem menor diante das precárias condições de saúde, sem calendário previsto de visitas médicas; dos baixos níveis de escolaridade, com a presença de uma escola (a qual nem vimos nem tivemos acesso) e de sua inserção em ocupações de baixa remuneração (quando isto ocorre)! Por exemplo, em termos de saúde, a mortalidade infantil dentre as crianças indígenas é três vezes maior do que a dos não silvícolas. O nível de fecundidade das mulheres é similar ao das panamenhas não indígenas há 50 anos. Por sua vez, o analfabetismo é elevado, sobretudo, dentre as mulheres, alcançando o índice de até 48%, salvo exceções, quando indígenas panamenhos têm conseguido ingresso no ensino superior. 

Decerto, este não é o retrato do cotidiano “real” dos emberás, até porque há, desde nossa chegada, a orientação de que apenas o chefe (a quem não mais chamam de cacique) pode responder a eventuais questões. Quer dizer, trata-se de uma fotografia devidamente retocada. De qualquer forma, o convívio, em especial, com crianças e mulheres nos dá alento para conviver com um mundo de menos expectativas do que aquele nos quais vivemos o estertor de dias corridos e horas contadas e recontadas. 

Postscriptum: que falta fazem as imagens em textos como este! 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

03 de maio de 2019

Campanhas publicitárias como alvo

Maria das Graças Targino - [email protected]

Em meio à surpresa generalizada, até mesmo dentre os bolsonaristas, Jair Messias Bolsonaro, que é messias (mas não faz milagres), repetindo palavras suas diante do incêndio que afetou nosso patrimônio cultural com a quase total destruição do Museu do Rio de Janeiro, setembro de 2018, age, mais uma vez, de forma inesperada e ridícula. Ciente de que os problemas mais sérios da nação podem esperar, Bolsonaro, confirmando sua natureza de ser humano preconceituoso, homofóbico e alheio à diversidade que caracteriza a realidade brasileira, veta comercial do Banco do Brasil, o qual prima pelo encanto da mescla do povo brasileiro e pela beleza subjacente aos jovens, sejam eles convencionais ou descolados. 

Em 30 segundos, a campanha publicitária divulgava, desde o início de abril, os eventuais benefícios do serviço de abertura de conta corrente junto ao BB por aplicativo no telefone móvel, sem trazer à tona qualquer cena ambígua ou chocante. Nada, além da diversidade; nada, além da descontração própria dos mais novos, independentemente de raça, faixa etária, credo ou orientação sexual. Cidadãos brancos, negros e mestiços representavam a diversidade racial e a orientação sexual vigente em nosso Brasil, em veiculação na tevê e no espaço virtual.

É evidente que homogeneizar campanhas publicitárias, além de estimular abertamente preconceito contra grupos minoritários, os quais, ao longo da história, permaneceram, sempre e sempre, fora do circuito da publicidade e propaganda, em sua lastimável condição de invisíveis, é um ato ditatorial e perigoso ao regime democrata. Afinal, a democracia prevê condição política em que todos os cidadãos de um país participam de forma igualitária da vida em sociedade em quaisquer segmentos. 

E o que também causa espanto é o apego ao poder.  Suspensa mais ou menos no dia 14 último, depois que Bolsonaro assistiu à peça publicitária e entrou em contato com o Presidente do BB, Rubem Novaes, este, ao invés de argumentar e reiterar junto ao militar as mudanças do mercado, em evidente amor ao status, decidiu pela saída do diretor de Comunicação e Marketing do BB, Delano Valentim, para não  contrariar o “El Señor Comandante” ou “El Grand Chief”, uns dos muitos apodos atribuídos ao ditador cubano, Fidel Castro, até sua morte! E pior, ninguém apresentou razões convincentes (ou não) para o fato em si, que, na verdade, envergonha nosso país e nossa gente. Ao contrário, de forma covarde, o porta-voz do Palácio do Planalto limitou-se a afirmar que não comentaria a ocorrência. É claro, por falta de argumentos. 

Não é a primeira vez que Bolsonaro envolve-se com a cadeia de comunicação. Além de tolamente proibir via decreto presidencial o uso da expressão Vossa Excelência e similares, incluindo Doutor(a), por parte de servidores e integrantes do Governo Federal em comunicados, atos e cerimônias públicas, com o pretenso intuito de desburocratizar o tratamento e romper barreiras distintivas entre os agentes públicos na esfera do Poder Executivo Federal, ainda em janeiro deste ano, determinou a suspensão da divulgação de cartilha voltada para mulheres trans. O documento estava no ar há seis meses. Neste caso, o argumento era a presença de incorreções técnicas! Pobre país! Pobre democracia! Nem as campanhas publicitárias escapam dos caprichos de Bolsonaro! 


Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.