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Notícias Graça Targino

13 de março de 2019

Marielle presente. Anderson ausente

Maria das Graças Targino - ([email protected])

A grande homenageada do carnaval 2019, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em escolas de sambas e em blocos de rua, além de manifestação que saiu da Candelária rumo à Cinelândia, com certeza, foi a vereadora Marielle Franco (PSOL). Seu assassinato completa um ano exatamente amanhã, 14 de março de 2019, quando faria tão somente 39 anos. Um ano de plena escuridão. Boatos espocam aqui e ali, mas os culpados e/ou mandantes continuam livres para agirem impunemente contra quaisquer pessoas que façam sombra em seu território.

Reconhecemos quão oportunas e justas são tais protestos de respeito a quem lutou arduamente em prol de segmentos marginalizados – mulheres, negros, homossexuais e favelados. Pertencente também a essas alas, além de esquerdista (seja lá o que esta expressão signifique nos dias atuais), Marielle sempre se opôs à ferocidade e à crueldade dos representantes do universo policial aliados a milícias, na condição de grupos símbolos da criminalidade. Isto é, conseguiu romper as barreiras sociais rumo à autorrealização, e, sobretudo, em direção à luta por condições de vida dignas para as coletividades onde marcava presença.

Dentre as escolas de samba que lembraram Marielle, destaque para a Estação Primeira de Mangueira e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel (Rio de Janeiro) e, também, para a Escola de Samba Vai-Vai (São Paulo). A grande vitoriosa do carnaval do Rio, a Mangueira, em sua última ala, lembrou homens e mulheres provenientes de morros, favelas e das chamadas comunidades, mas que, apesar do enfrentamento diante de mil dificuldades vivenciadas, conseguiram notoriedade por seus feitos. A viúva de Marielle, Mônica Benício, e parte de seus familiares lá estavam. Em gesto de solidariedade ou em busca de visibilidade (é sempre uma incógnita), políticos do PSOL, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta também desfilaram na Marquês de Sapucaí.

Tudo perfeito! Mas, onde estava Anderson? Lembram de Anderson? Anderson Gomes, motorista de Marielle durante o período de mais de um ano! Também jovem! Também com família! Também um trabalhador sobrevivente neste Brasil de tantas injustiças e desigualdades sociais! Também executado, sem dó nem piedade, da forma a mais covarde possível, à noite do dia 14 de março de 2018! A omissão por completo do nome do motorista nos incomodou. Foi ele morto, quando conduzia a vereadora, mesmo sem ser o alvo dos homicidas. Partiu silenciosamente no cumprimento de sua função. Se não se destacou como líder comunitário, é mais uma vítima da violência de nosso país. Portanto, não pode se transformar em mais um anônimo no universo das injustiças sociais!

A supressão do nome de Anderson Gomes em tantas homenagens carnavalescas e em muitas outras no decorrer desse ano de luto reforça nosso argumento de que os crimes têm relação direta com a representatividade da vítima, com destaque para o poderio econômico e político, na contramão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída pela Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas, Unesco. Ao completar 70 anos, ao final do ano de 2018, o documento reforça o lema de que nós todos somos iguais em dignidade e direitos, na vida e, decerto, na morte, embora seja impossível calcular, com precisão, a proporção de assassinatos e execuções que acontecem a cada momento em território nacional e que, quando muito, merecem uma notícia veiculada em segundos no universo televisivo ou brevemente mencionada na mídia em geral.

Por fim, basta analisar o extremo paradoxo! A Verde e Rosa levou para a Sapucaí o enredo “História para ninar gente grande” com a promessa de contar a história do Brasil que os livros apagaram, fazendo ressurgir os heróis anônimos e que deixaram de integrar a memória das instituições e do país como um todo. No entanto, ao trazer no enredo trecho que diz “Brasil, chegou a vez de ouvir as marias, mahins, marielles, malês. Mangueira, tira a poeira dos porões. Ô, abre alas pros teus heróis de barracões. Dos brasis que se faz um país de Lecis, jamelões. São verde e rosa as multidões”, esqueceu que há andersons, joaquins e joãos que não podem ser esquecidos no meio do caminho, como a própria escola de samba vencedora o fez!

07 de março de 2019

Mulher espancada no primeiro encontro

Maria das Graças Targino - [email protected]

Lugar comum admitir que a expansão das redes eletrônicas de informação e de comunicação, ênfase para a internet, vem transformando, mais e mais, o cotidiano do ser humano. As inovações tecnológicas estão em qualquer parte e por todos os lados, embora, paradoxalmente, sem consolidar o acesso universal, deixando de fora muita gente.

São os “novos tempos.” É o crescimento de crimes cometidos em família. São enfermidades que se expandem, a cada dia, como as síndromes de Diógenes, de Münchausen e da alienação parental, sem contar o fantasma da AIDS. São jovens que circulam com as calças milimetricamente colocadas para expor a cueca colorida. É a liberdade sexual. É a mulher presente em segmentos antes restritos aos homens. São livros construídos a centenas de mãos e de corações no espaço cibernético. É o mundo de redes sociais que viralizam verdades ou mentiras, como espaço onde qualquer um pode expor alegrias e mazelas. É o uso crescente do smartphone, com o qual o cidadão grava seu cotidiano ou qualquer “coisa”, sob a forma de fotos, vídeos, textos e áudios. É o incremento da xenofobia, pedofilia, prostituição e do terrorismo.

São aspectos bons ou ruins ou simplesmente incolores dos “novos tempos.” São tantas as transformações sociais, que é impossível nomeá-las ou numerá-las. Nas redes sociais, ganham destaque os sites de relacionamento. Algumas vezes, permitem o encontro de um grande amor e desenham um belo conto de fadas, mesmo quando os amados amantes estão em continentes distantes. Há casos de horror. Perfis construídos à base de mentiras escancaradas. Encontros marcados. Desilusões. Dores. Agressões. Roubos. Tentativas de estupro. Quer dizer, trata-se de verdadeira roleta-russa, quando alguém, em plena demonstração de coragem insensata, coloca uma única bala no tambor do revólver, gira, puxa o gatilho, e, portanto, corre o risco de ser atingido ou sair vitorioso e, então, cheio de orgulho insano da façanha.

No entanto, se encontros com desconhecidos representam, sempre, um gesto de temeridade, não importa o gênero dos envolvidos, é preciso reforçar que a violência do homem contra a mulher não se dá tão somente via redes sociais. Há mulheres agredidas por companheiros de casamentos celebrados em ritos religiosos retumbantes e que seguem há anos. Há mulheres agredidas porque saíram de casa para visitar os pais sem a devida autorização do “homem da casa.” Há mulheres agredidas porque deixaram os cabelos longos mais curtos. Há mulheres agredidas porque uma das crianças do casal caiu. Há mulheres agredidas porque romperam uma relação conturbada ou simplesmente disseram – não – a um relacionamento abusivo. Há mulheres agredidas porque... São tantos os porquês. Difícil enumerá-los. São sempre justificativas simplesmente injustificáveis.

São mulheres jovens ou não tão jovens. São mulheres pobres, de classe média ou ricas; moradoras de rua ou proprietárias de belas mansões; drogadas ou não; lindas ou não; letradas ou iletradas; famosas ou anônimas. Mesmo assim, quando o caso de Elaine Caparroz, 55, veio à tona, 2019, após ser agredida pelo estudante de Direito, Vinícius Batista Serra, 27, as críticas contra a vítima alcançaram o nível de absurdo. Os dois se conheceram pela internet, conversaram durante oito meses até que, por fim, marcaram um primeiro encontro no próprio apartamento da paisagista, momento em que preparara um jantar regado a vinho ou a champanhe. Após ser despertada com agressões físicas, como socos, mordidas, dentre muitos outros atos de violência, por quatro horas ininterruptas, a reconstrução de seu rosto demandará, no mínimo, seis meses, incluindo correção de fraturas múltiplas, da ruptura do septo nasal e do assoalho da órbita, e, em fase posterior, necessárias correções estéticas.

Porém, os ataques continuaram. Desta vez, não mais físicos, mas, morais. Doidivana. Leviana. Imprudente. Louca. Mulher de vida fácil. Inconsequente. As mulheres (as acusadoras mais cruéis) que jogaram pedras de chumbo em Elaine desconhecem as razões de sua decisão em receber o algoz em casa. Ninguém sabe a dor da solidão do outro, da mesma forma, que ninguém sabe a intensidade da esperança vivenciada por ela, mesmo que fugazmente e agora, sob a cobrança de uma fatura tão alta.

Isto é, culpar as vítimas do machismo desmente os movimentos numerosos em prol da mulher, a exemplo do “Mexeu com uma, mexeu com todas”, quando as atrizes globais se juntaram contra o assédio sexual na tevê, depois de denúncia da figurinista Su Tonani contra o ator José Mayer. É somente lembrar que, deixando de lado a falta de padronização e as não notificações, as quais impedem o monitoramento efetivo de feminicídios no país, de acordo com levantamento do G1, com base em dados oficiais dos Estados, ano 2017, 12 mulheres são assassinadas todos os dias ou uma mulher é morta a cada duas horas, em média, no Brasil. São 4.473 homicídios dolosos, dos quais 946 caracterizam-se como feminicídios. Atenção: poucos com a intervenção da internet!

27 de fevereiro de 2019

A onda do politicamente (in) correto

Maria das Graças Targino - ([email protected])

“40 anos.” Texto do jornalista brasileiro, Alexandre Eggers Garcia, publicado em diferentes meios de comunicação com expansão inacreditável nas redes sociais de comunicação, trata da diferença entre gerações e épocas, tomando como parâmetro de comparação os anos 1971 e 2011, a partir da menção de casos modelares. Por exemplo, em 1971, um meninote, por pura folia, quebra o farol de um carro estacionado próximo à casa da família. Como consequência, punição severa do pai. Mais adiante, 2011, o filho do tal adolescente repete a travessura. A mesma penalidade. Só que, desta vez, o filho não hesita. Após a surra, denuncia o pai. Este é condenado à prestação de serviços comunitários. O autor segue. Uma criança, na hora do recreio escolar, cai e se machuca um pouco. A professora o assiste com carinho. Afaga-o. Abraça-o. O menino volta a brincar, como se nada ocorrera. Em 2011, acontecimento com características idênticas ganha proporção gigantesca e chega à mídia. A escola é acusada de descuido. A diretora torna-se vítima de mil afrontas. Pouco a pouco, perde a alegria de ensinar. Aposenta-se prematuramente. Cai em depressão e enfrenta a tristeza d’alma.

Noutro caso, Alexandre Garcia faz menção à “cantada” (sem desrespeito e com humor) de um jovem a uma colega de trabalho. Ano 1971. Ela reclama, mas, ao final, aceita sair para jantar a fim de “discutir a relação.” Desde então, estão casados e, aparentemente, felizes. Em 2011, também em ambiente de trabalho, um homem elogia as belas pernas de uma colega. É acusado de assédio, demitido e obrigado a pagar indenização à “vitimada.” Sozinha, com suas pernas fatais e fatídicas, a não mais jovem mulher segue a vida... São vários causos... Muitos dos quais vivenciados ou assistidos por nós ou por alguém de nosso convívio, no passado ou no dia de hoje. Em 1971 ou 2011 ou 2019. É a estratégia utilizada por A. Garcia para alertar sobre a tirania da expressão – politicamente correto. Antes dos anos 90, de uso esporádico, ganha destaque, a partir dos Estados Unidos, depois de ser tema de uma série de artigos do prestigiado jornal “The New York Times.” Daí, segue para outras nações. E ao ser adotada, com exagero, de forma ridícula e infundada, termina por erguer barreiras e muros elevados entre as pessoas, o que não evita a onda de muito sexo sem amor; muito casamento sem afeto; muita amizade sem cumplicidade; muito camarote de carnaval sem “parças”, na acepção de parceiro e amigo verdadeiro em todas as horas. Quer dizer, politicamente correto indica algo ou alguém que segue as normas impostas por grupos e instituições sociais, de forma explícita ou implícita. É a adaptação do linguajar e do agir habitual ao contexto, de forma a evitar o uso de estereótipos ou de referências às variadas formas de discriminação existentes, como racismo, sexismo, homofobia, gordofobia, tecnofobia, automatonofobia (fobia de anões), etc. Do outro lado, está o politicamente incorreto. A precaução em evitar termos que denigram a imagem de determinados grupos sociais é

considerada estúpida e, por conseguinte, é ignorada. Por exemplo, no Brasil, os programas humorísticos, salvo honrosas exceções, exploram temáticas delicadas e tendem a desconsiderar princípios clássicos do respeito ao outro.

O que ocorre, porém, é que, na prática, as duas posições mesclam-se e se confundem, de maneira que o politicamente incorreto ganha dimensão desproporcional. A expressão que deveria indicar e denunciar o uso de linguagem e atos que tentam marginalizar, insultar e afrontar grupos sociais minoritários, como os desfavorecidos economicamente (haja vista o sofrimento dos moradores de rua, de vez em quando, mortos a pauladas em vias públicas); os homoafetivos em sua ampla categorização; os negros e / ou pardos; os gordos; etc. assume tom excessivo e disforme. Como consequência, o politicamente incorreto é, agora, adotado, mais e mais, em tom pejorativo, para indicar que essas políticas estão alcançando o ridículo. É como se perdêssemos a noção de certo e errado, indicando que conhecemos o valor material (preço) de tudo ou quase tudo, mas somos incapazes de avaliar o valor (a importância) dos sentimentos que aproximam os seres humanos.

O excesso prossegue. Recentemente, após apresentação de uma cantora e dançarina obesa num palco qualquer, alguém posta no Facebook observação cheia de humor acerca da potência do tablado ao suportar o peso. Isto foi o bastante para gerar polêmicas infinitas e forçá-lo a se desculpar ante a acusação de difundir a gordofobia. Pior ainda. Muito mais grave. Postamos “40 anos”, como forma de reflexão, numa página eletrônica de uma universidade pública qualquer. Seu final diz: “[...] o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é? [...] É a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto!” Fomos solicitados a retirar o texto, sob o argumento de estímulo ao politicamente incorreto. A censura num ambiente de geração de novos saberes e de discussão das mudanças contemporâneas é uma das provas evidentes da decadência intelectual nacional!

21 de fevereiro de 2019

O amargo sabor do envelhecer

Maria das Graças Targino - ([email protected])

A posição da grande repórter e apresentadora de imprensa brasileira, ênfase para a TV Globo, Glória Maria Matta da Silva, ou, simplesmente, Glória Maria, 69, faz parte do anedotário nacional, quando o tema é idade. Em entrevista à revista “Veja” (8 de abril de 2018), quando questionada acerca do porquê de sua aversão declarada ao tema, responde literalmente: “tenho uma teoria de que, quando [se] fala muito em idade e no tempo, atrai o tempo contra você.” Prossegue: “Para evitar problema, esqueço que ele existe”, acrescentando não ter aderido a qualquer tratamento estético, como plástica ou botox, nem mesmo a exercícios em academia de ginástica. Em sua opinião, pilates e orientação de bons profissionais no campo da nutrição e da dermatologia são suficientes, até porque, ao que parece, ela possui boa herança genética, mas, sobretudo, lhe resta muito o que fazer ao lado das filhas. E conclui: “você acha que vou me preocupar com o tempo?”

Decerto, essa mulher de inteligência inquestionável e de profissionalismo para lá de reconhecido, se iguala às mulheres mais frágeis e vulneráveis, até porque sua teoria inexiste: o tempo não para. O tempo não é tacanho ou miserável com quem o repudia da mesma forma que não é pródigo ou “bonzinho” com quem o acaricia, ao costurar lembranças ou bordar com fio de ouro sonhos e devaneios. Simples assim: ele existe. Deixa marcas no corpo e na alma. Deixa cicatrizes visíveis e invisíveis. Está ao nosso lado todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Estou entre os seres humanos – não importa o gênero – que defendo a ideia de que é melhor ser velha sem remendo do que velha remendada, mas respeito quem adere à plástica, até porque há sempre chance de mudar de ideia (risos!). No entanto, combato, com vigor, a violenta pressão social que cobra, sobretudo, das meninas, uma beleza ímpar, nem que seja fabricada em clínicas estéticas ou em cirurgias precoces. É importante ser magra, corpo perfeito, rosto angelical, para se enquadrar na imagem de sexo frágil e maleável, e, então, perfeito para servir ao outro. Isto é, se beleza hollywoodiana ou global e juventude eterna não se fazem possível, lutar contra o tempo fingindo ignorá-lo, alcança o outro lado extremo da questão.

As reações das mulheres que envelhecem e já deixam a chamada meia idade (seja lá o que isto signifique) para adentrar na velhice são múltiplas e variáveis. Num momento qualquer de minha vida, viajei lado a lado da atriz Fernanda Montenegro [Arlette Pinheiro Esteves da Silva Torres], 89 anos, num assento de uma aeronave qualquer. O rosto sereno e pleno de marcas de uma vida produtiva me encantou. Nenhuma maquiagem. Nenhum artifício. Seu porte alentador exala tanta beleza que nega (sem ocultar) o envelhecimento corporal.

Do outro lado, eis Maria Odete Brito de Miranda Marques ou a mirabolante Gretchen, 59 anos declarados, que exala vigor num corpo encapado por mil plásticas, como se fora outra pele. Não lhe atiro pedras. É sua opção de vida e um exemplo de quem crê nos benefícios supérfluos de driblar o tempo, como na teoria de Glória Maria. Cláudia [Maria Patitucci] Jimenez, 60, atriz, humorista, dubladora e roteirista, por sua vez, mostra-se publicamente incomodada com quem a vê e exterioriza, mesmo sem palavras, preocupação diante da possibilidade de sua morte iminente, devido a problemas cardíacos. Ela diz: “não posso ter uma enxaqueca, uma dor de barriga, que já acham que estou morrendo [...]”

Ainda mais recentemente (13 de fevereiro de 2019), também à “Veja”, Maria da Graça Xuxa Meneghel declara: “[...] queria que as pessoas aceitassem que estou velha, vai doer menos para elas, porque para mim não dói mais. Eu me olho no espelho e me aceito do jeito que sou.” Isto porque se sente cansada das polêmicas que rolam nas redes sociais acerca de seu processo de envelhecimento, não obstante cuidados contínuos com o físico ao longo de toda uma vida.

Há, ainda, o posicionamento de Marília Gabriela [Baston de Toledo Cochrane] ou Gabi, 70 anos. A brilhante jornalista, eventual atriz e cantora, escritora e excelente apresentadora confessa: “eu virei um animal solitário mesmo. Leio, vejo série, fico em silêncio. Meu celular não toca mais.” Não acreditei no que estava lendo! Era eu quem falava. Estou, a cada dia, mais silenciosa (não mal-humorada), mais só, mais agarrada aos escritos, mais ciente de que fracassei em tudo a que me propus. Não consegui manter uma união estável e uma família enlaçada. Lutei por uma universidade séria e de cunho social, não consegui. Tentei reconhecimento do que fiz no campo da educação pelas sementes que plantei, falhei: carecia de padrinhos políticos...

De qualquer forma, segundo o grande educador Darcy Ribeiro, “meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem venceu.” Afinal, acredito e acreditarei até o fim de meus dias que vencer na vida não significa vencer os outros, tripudiar os outros ou pisar nos outros. Vencer, ainda que com gostinho de derrota, é ser capaz de exercer a gratidão rumo aos que permanecem a nosso lado, de sorrir para quem se alimenta da ilusão de uma gargalhada, de exercitar a complacência e a generosidade e de amar os que ainda nos restam.

14 de fevereiro de 2019

Adoro brincar de ser filha!

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Em Recife, num sábado ensolarado de carnaval, Ana Carla chegou ao mundo. Chegou em meio à folia que espocava entre serpentinas, confetes, corsos de rua, etc. Chegou em meio à dor

sempre inesperada do primeiro parto de uma quase adolescente. Recebi uma menina pequenina. Não das mãos do Rei Momo, mas das mãos de Deus, sob a forma de um médico e cunhado

querido por toda a vida. Ali, em meus braços, eis alguém frágil, mas me dizendo – vamos em frente, que a vida e os sonhos nos esperam! Realmente, os anos correram. Minha filha trilhou o

caminho natural da vida. Deixou de ser bebê para se tornar criança, adolescente, mulher e, sobretudo, ser humano, no que a expressão contém de mais nobre.

Somos mãe e filha.

Somos mãe e irmã. Somos mãe, filha e companheiras. Somos cúmplices, mas somos, essencialmente, amigas. Mesmo distantes fisicamente, há muito tempo,

em respeito profundo à sua opção de atuar fora do Piauí, sempre estivemos umbilicalmente juntas. No meu coração, a certeza de que minha filha está a meu lado. Em seu coração, a certeza

de que há uma mulher a seu lado para o que der e vier. Sempre nos quisemos muito. Sempre respeitamos a liberdade de ir e vir da outra. Isto não significa dizer que vivemos, sempre, um

mar repleto de calmarias ou um céu sem nuvens e de azul perene. Como natural, tivemos nossos mares de “ressaca” e nossos céus sombrios. Nossos desacertos nos acertaram e nos aproximaram

mais e mais. Nossas diferenças – uma vaidosa ao extremo; e a outra, de jeans e camiseta – nos fazem rir. Dentre tudo isto, vivemos experiência extraordinária no que há de mais fantástico em

qualquer relação entre as pessoas: nunca construímos um muro de mentiras.

À minha filha, ensinei, e que bom, ela aprendeu! Respeitar o outro, não importa quem

seja ou o que seja, fugindo de qualquer rótulo, mesmo quando este parece ser o caminho mais fácil. Honrar compromissos de qualquer natureza. Lutar por um lugar ao sol sem jamais “puxar o

tapete do outro.” Cultivar a gratidão, uma vez que os ingratos são pessoas impiedosamente estéreis, porque incapazes de fecundar no coração a semente do amor e do reconhecimento.

Exercitar a complacência a cada dia e o perdão, a cada hora, mesmo quando parece difícil. Olhar o passado com a certeza de que é ele que permite a cada um ser o que é.

O que Ana Carla é? Uma filha com coração de filha; uma grande mãe para seu filho; uma grande amiga para os que lhe rodeiam; uma profissional comprometida com o que faz; uma

mãezona para suas cadelinhas; uma mulher com coragem infinda de desbravar o mundo para melhorá-lo com a obstinação silenciosa de expandir a reciclagem; uma sobrevivente em meio à

miséria humana, que escorre em vales de hipocrisia, violência e cinismo na sociedade de hoje.

Não é à toa que seu aniversário de 50 anos, 9 de fevereiro, tem o odor de rosas e de amor,

mas, sobretudo, de gratidão. Nossos amigos sabem o susto que nos afetou nos meses de abril afora no ano passado. A gratidão persiste como elemento maior em todo esse processo. Sim,

minha “única menina mulher” adoeceu. Não precisamos do SUS. Não precisamos abrir uma ficha numa UPA. Não precisamos de internação em hospitais públicos. Agradecemos aos céus e

ao Deus misericordioso a possibilidade negada à maioria do povo brasileiro: possuir excelente plano de saúde; possuir o apoio incondicional da empresa onde minha menina trabalha; e

usufruir da chance de recorrer a um dos chamados hospitais de referência do país.

Na imensidão dos corredores longos e no fluxo intenso de cirurgias e curativos, somos

insignificantes. Somos a doença e nada mais do que ela. Por tudo isso, não consigo esquecer que muitos e muitos outros não tiveram a oportunidade de minha filha, e continuam a esperar no

meio do caminho um atendimento, qualquer que seja. Lembro dos médicos – poucos – que mesmo bem-sucedidos olharam em seu rosto, tentaram entender o contexto de sua vida e de sua

agonia e não se perderam nos longos caminhos da indiferença. Lembro, mais. Lembro de uma médica – Juliana – que denunciou o caos da saúde no país, num relato que viralizou na internet e

que transcrevi num dos meus livros. Ela diz: "Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. Eu, cirurgiã-geral “do trauma” [...], que carrego no carro o manual da equipe militar que atendia na guerra do Afeganistão, chorei. Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similar aos que pregamos samambaias. A seu lado, seu filho [...] E toda vez que eu abria a portinha da sutura, ele estava lá [...] Teve um momento em que desmoronou. Ajoelhou-se no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse “não é para mim, é para o meu pai, uma maca.” [...] Saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca da ala feminina".

Ou seja, ao tempo em que agradeço ao nosso Deus, à equipe que salvou a minha filha e à corrente dos amigos que por ela pediram, clamo aos céus para que mais julianas atuem em

hospitais públicos ou particulares, em hospitais de referência ou precários postos de saúde nos recantos do Brasil. Clamo por mais julianas, que mantenham a capacidade de chorar e de olhar

no rosto dos enfermos e dos familiares, enxergando sua aflição e sua dor! As dores do corpo e da alma são sempre anestesiantes e indescritíveis – nada mais solitário do que a dor de cada um de

nós. E minha filha lutou como uma leoa ou uma tigresa. Foi mais forte do que eu. Resistiu mais do que eu. Enfim, foi e é uma heroína! Teima em ser minha mãe! E se é para falar a verdade,

brincar de ser sua filha!

06 de fevereiro de 2019

Brumadinho: tragédia que se repete

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Dor. Sofrimento. Aflição. Angústia. Amargura. Desespero. Infortúnio. Pena. Ansiedade. Esperança. Desesperança. Agonia. Perdas. Morte. Corpos inertes. Corpos mutilados. Restos mortais. Feridos. Pessoas. Animais. Sobreviventes. Surpresa. Espanto. Dúvida. Certeza. Mágoa. Desalento. Tristeza. Pesar. Desgosto. Gritos. Brados. Estridência. Horror. Inquietação. Noites de

contar estrelas. Insônia. Preocupação. Padecimento. Tortura. Suspiros. Choros. Soluços. Prantos. Lágrimas. Clamor. Depressão. Dó. Condolência. Complacência. Benevolência. Rios. Lama. Queda. Derrocada. Resíduos. Rejeitos. Abrasão. Adesão. Apoio. Responsabilidade social. Ação. Solidariedade. Acolhimento. Socorro. Amor. Compaixão. Bombeiros. Voluntários. Socorristas. Cidadãos. Populações. Casas. Plantações. Restos. Ruínas. Aniquilamento. Destruição. Extermínio. Desastre. Inconformação. Não resignação. Revolta. Velório. Velas. Orações. Pragas aos céus. Indenizações ao léu. Tarde. 25 de janeiro. 2019. Tragédia. Setor de mineração. Rompimento. Barragem da Mina Feijão. Brumadinho. Minas Gerais. Brasil. Mundo. Mineradora. “Vale.”

Antes, “Companhia Vale do Rio Doce”. Mineradora multinacional brasileira. Uma das cinco maiores e mais importantes mineradoras do planeta, mas, sobretudo, lembrada como “Vale de Lágrimas.”

Afinal, qual brasileiro não se recorda de desastre similar, em 2015, com o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco (“Vale” e a empresa anglo-australiana BHP),

quando uma enxurrada de lama destruiu, sem misericórdia nem clemência, várias residências no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana? Há mais. Muito mais. Por exemplo, desta vez, sob a

responsabilidade de outras mineradoras e, também, em MG, registram-se ocorrências funestas na Mineração Rio Verde, Nova Lima, ano 2001; Mineração Rio Pomba Cataguases, em Miraí,

2007; Mineração Herculano, em Itabirito, 2014.

Reincidência. Irresponsabilidade. Omissão. Ganância. Poder público. Órgãos responsáveis pela regulação e pelo acompanhamento da mineração em território nacional. Empresas privadas. Dinheiro. Fortunas. Não fiscalização. Fiscalização indevida, corrupta ou corrompida. Descumprimento das normas. Insegurança. Desprezo à saúde do trabalhador. Descaso à vida humana. Danos sociais, ambientais e econômicos incalculáveis. É preciso reforçar que o drama de Brumadinho caracteriza-se como gravíssimo acidente de trabalho, ocorrido no ambiente da empresa e ao longo das atividades rotineiras, incluindo tanto funcionários da “Vale” quanto os chamados terceirizados. Portanto, não cabe em nenhum substantivo simples ou adjetivado nem tampouco em qualquer expressão ora citada. As palavras não são capazes de descrever a tragédia que inundou a localidade de Brumadinho, município que abriga cerca de 40 mil habitantes, e, conhecida, sobretudo, por manter o Museu Instituto Inhotim. Nenhuma desses termos nem todos juntos e mais outros que queiram acrescentar, a exemplo de indignação, e, em especial, mobilização coletiva, para que não ocorra com os brumadinhenses o que se passa com as vítimas de Mariana – total esquecimento e descaso – conseguem abarcar o sofrimento das vítimas que partiram, das que permanecem recobertas por rejeitos, dos familiares ou amados que por lá prosseguem à espera...

Como adendo, acrescemos que, por coincidência (amarga coincidência), em agosto de 2018, passamos por aquelas bandas em visita às cidades históricas mineiras, com um dia dedicado ao Instituto Inhotim. Antes, uma pequeníssima comunidade situada numa fazenda, Inhotim é, hoje, a maior galeria a céu aberto do Brasil, de beleza surpreendente e ímpar. Graças a um projeto paisagístico paradisíaco, comporta espelhos d’água, lagos, galerias, restaurantes e 25 pavilhões que guardam um acervo de 450 obras de arte. Inhotim está ileso num milagre dos céus em meio à localidade destroçada! No 13º dia de buscas intensas e interruptas, salvo em momentos de intensa chuva, são, até então, computados 134 mortos e 199 desaparecidos (dados de segunda-feira, dia 4). E eis que, por fim, encontramos a palavra representativa da tragédia de Brumadinho, em sua acepção mais cruel, na condição de crime contra os trabalhadores da “Vale” – GENOCÍDIO. Triste assim!

30 de janeiro de 2019

A desserviço da informação e da cidadania

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Inexiste tom demagógico quando se ressalta a informação como elemento inerente ao exercício da cidadania, cujo conceito incorpora três elementos: o civil, o político e o social. O elemento civil congrega os direitos essenciais à liberdade individual, como: liberdade de ação; liberdade de associação; liberdade de consciência e de crença; liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação; liberdade de iniciativa; liberdade de locomoção; liberdade de trabalho, ofício ou profissão; e liberdade de acesso à informação. Os direitos políticos referem-se ao direito de vivenciar o exercício do poder político, como membro de organismo investido da autoridade política ou como eleitor. Por elemento social, entende-se tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem estar econômico e segurança ao direito de participar da herança social e viver de acordo com os padrões sociais prevalecentes.

Sem detalhar a concepção de cidadania, vale lembrar que, nos diferentes países, suas respectivas constituições, no mínimo, em termos teóricos, garantem à sua gente bens e serviços essenciais, como educação, assistência médica, moradia, trabalho, segurança, lazer, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Quer dizer, um mínimo de direitos legalmente reconhecidos é (deveria ser) concedido pelo Estado, mas o que interessa ao cidadão é a superestrutura das expectativas legítimas. Pode ser relativamente fácil fazer com que toda criança frequente a escola. Difícil, porém, é satisfazer as expectativas de um sistema educacional apto a reduzir ou pôr fim ao analfabetismo em suas várias nuanças, de modo que todos se sintam aptos a compartilhar da vida pública de seu país, de forma consciente.

No caso da educação, base elementar dos direitos sociais, é útil lembrar que as crianças exercitam a formação da cultura cidadã desde cedo, na família e na escola. Sua educação vincula-se à concepção de cidadania, pois o objetivo do processo educacional durante a infância é formar o adulto em perspectiva. Considera-se não o direito da criança à escola, mas o direito do cidadão adulto ter sido educado e informado. O termo educação não se restringe ao preparo do indivíduo para o previsto, o que está próximo do adestramento. Prepara-o para o imprevisto. Tudo isto dentro de um processo global de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano, com vistas à integração individual e social, o que demanda informações.

Diante desses argumentos, depois de lutas incessantes ao longo de décadas, no caso do Brasil, a Lei de Acesso à Informação n. 12.527, de 18 de novembro de 2011, foi, enfim, promulgada e posta em prática desde maio de 2012, quando do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Vana Rousseff. A LAI regula o acesso previsto a informações na Constituição

de 1988 e dispõe sobre os procedimentos previstos para União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com o fim de garantir a demanda informacional e, portanto, a prática cidadã.

O mérito maior da Lei em pauta é estabelecer a transparência da administração pública. No entanto, como necessário, resguarda os interesses do Estado. Isto porque, permite, em casos excepcionais, que alguns documentos sejam considerados reservados ou secretos, numa escala em que o sigilo varia de cinco a 25 anos, competindo tão somente ao Presidente e/ou Vice-Presidente, ministros de Estado, comandantes das Forças Armadas e chefes de missões diplomáticas ou consulares permanentes no exterior fixar tal categorização.

Em meio a pouco alarde e muito silêncio – talvez por falta de compreensão da gravidade do que significa a medida e da procedente tragédia de Brumadinho de proporções ambientais e humanas que, como natural, desvia a atenção de todos – o general Hamilton Mourão, no exercício da Presidência, por meio do Decreto n. 9.690, de 23 de janeiro do ano em curso, altera a LAI, de tal forma que, na prática cotidiana, ela dificilmente alcançará o Governo Federal. E mais, ao longo de seu Artigo 30, Parágrafos 1o, 2o e 3o, o Decreto permite que servidores comissionados, dirigentes de fundações, autarquias e empresas públicas determinem o sigilo secreto e ultrassecreto às informações públicas.

Trata-se de agressão à conquista de 2011 e nítido desserviço à informação e à cidadania. Afinal, a concessão para a classificação de documentos oficiais a um número elevado de servidores públicos, é, em sua essência, a fragilização da tão sonhada transparência, com vistas a reduzir a improbidade administrativa e mil outras formas de corrupção. É realmente uma lástima. Rememora-se que a informação está contida no bojo do processo educacional como direito social, previsto no Artigo 5, Inciso XIV da Constituição Cidadã: "É assegurado a todos o acesso à informação [...]”, como fator de integração, democratização, igualdade, cidadania, libertação e dignidade pessoal. Em suma, a máxima – informação é poder – não é mera retórica!

23 de janeiro de 2019

Meu querido filho

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica Contato: [email protected]

Na Tunísia, pequeno país da África do Norte, 99% da população seguem a religião islâmica, o que facilita a expansão do Estado Islâmico em seu radicalismo doentio e perverso. País pouco conhecido no Ocidente, sua realidade é propalada, pelo menos em parte, graças ao filme “Meu querido filho.” Weldi (título original) marca presença no cinema, nas grandes telas mundo afora, desde maio de 2018 e em algumas nações, como Brasil, desde janeiro de 2019, incluindo os cines de Teresina, Piauí. Embora conste como selecionado para a chamada “Quinzena dos Realizadores 2018” (Cannes 2018) e para a “42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, sua ficha técnica não traz nomes conhecidos para o grande público nacional. Sob direção e roteiro de Mohamed Ben Attia, cuja obra anterior mais conhecida é “A amante”, conta com Dora Bouchoucha Fourati na produção.

Apesar de ter como foco a Tunísia, o drama, coprodução Tunísia, Bélgica e França, trata de temas universais. Famílias sobrevivem em meio à imensa solidão e ao vazio existencial. Pais e o filho único quase não se tocam. Quase não se olham. O amor está presente na preocupação insana e intensa em torno dos estudos do garoto às vésperas do vestibular para o tão sonhado ingresso na universidade. Eis a primeira verdade universal – instintivamente, tendemos a impor aos filhotes nossas aspirações, que, com certa frequência, não coincidem com as deles. No caso, enquanto a mãe Nazli, vivida por Mouna Mejri, e o pai Riadh (Mohamed Dhrif), motorista do porto de Tunes (capital da Tunísia), sonham com a vida acadêmica e o futuro promissor do filho Sami (Zakaria Ben Ayyed), atribuindo suas frequentes enxaquecas e seu visível quadro depressivo às tensões do exame, de forma sorrateira e bem planejada, o jovem, 19 anos, envolve-se na teia do recrutamento do Estado Islâmico. Quando tudo parece tranquilo, após consulta a um psiquiatra, simplesmente, some e segue rumo à Síria, país que enfrenta violento conflito armado desde 2011, sob a liderança do Presidente Bashar Assad em conluio com a Rússia.

Em que pese o cerco dos pais ao menino adorado, na verdade, único elo existente entre o casal, os três pouco se conhecem. O amor se mantém lá fora, sozinho e deslocado. Louco de dor ante o sumiço de Sami, Riadh, a esta altura, cidadão aposentado, como “chefe” de qualquer outra família de classe média baixa vive as agruras de sobreviver. Decidido, vende o único bem (um carrinho velho) e segue numa viagem para lá de perigosa em busca do filho. Encontra-o, mas não consegue afastá-lo da intenção de seguir adiante. Após algum tempo, casado, com um bebê no colo e mulher ao lado, Sami entra em contato com os pais via Skype ou tecnologia similar para contar as “novidades.” Mais adiante, a morte o leva.

Nazli se afunda, mais e mais, num trabalho em cidade distante, até que marido e mulher concluem que não há salvação para um casamento que deixara escapar o amor. E eis o ponto alto de “Meu querido filho”: em vez de demonizar a atitude do jovem, o diretor tunisiano mostra como, diante da tragédia de perder seu único filho, aquele homem simples consegue representar o sentimento de desmoronamento que acomete “n” famílias, quando perdem seus entes queridos para o terrorismo ou para outros males do mundo atual. Riadh consegue compor um ser humano impecável, sem ser piegas ou extremamente dramático. Um pai que se sente feliz ao vivenciar coisas mínimas. Pode ser a compra de um casaco chamativo para o adolescente (o mesmo que Sami veste no reencontro com o pai no decorrer de sua fuga) ou pode ser a chance de trazer para casa o cereal preferido pelo garoto como se fora um troféu. Um pai que descansa no carro, em plena madrugada, por horas a fio, para levar de volta o filho que se diverte numa festa... 

E mais, em meio à dor da perda, ainda resta a Riadh coragem de retomar o trabalho como forma de redenção e realização – curiosamente, o único momento em que consegue esboçar um sorriso contido ao lado dos companheiros de jornada. É como se mostrasse ser preciso continuar mesmo ante perdas devastadoras. É preciso encontrar forças para lutar pelo que restou. Não basta chorar o passado. É preciso enfrentar o presente, em busca da felicidade. Efêmera (ou não), ela sempre vale a pena. 

Na realidade, os 104 minutos de projeção expõem a falha mais visível da produção – certa morosidade em momentos pontuais, diante de escolhas visuais (edição de Nadia Ben Rachid), às vezes, equivocadas, conjugadas com uma fotografia, sob o comando de Frédéric Noirhomme, que se impõe muito mais como elemento meramente funcional do que como item estético capaz de enriquecer o roteiro. Porém, nada reduz o valor do “Meu querido filho.” Afinal, este não explora o horror do radicalismo islâmico. Seu foco está nas consequências que traz às famílias, ou seja, não analisa a expansão do terrorismo em suas motivações escusas ou em seu senso de organização maléfica, mas, sim, no mal irreparável que inflige à humanidade. Isto é, Weldi é, em si mesmo, profunda reflexão em torno da sociedade contemporânea, sobre a qual paira, sistematicamente, a sombra do terrorismo galopante e cruel. 

17 de janeiro de 2019

Mudanças nossas de cada dia

Contato: [email protected]

Frase atribuída ao cineasta, produtor e roteirista norte-americano, Steven Allan Spielberg, a qual circula em redes sociais, diz literalmente que “todos nós, em cada ano, somos uma pessoa diferente. Eu não creio que sejamos a mesma pessoa durante toda a nossa vida.” Ouso contestar sua afirmação. Isto porque, ao tempo em que nós, seres humanos, estamos em permanente evolução – nunca devemos nos julgar prontos para o enfrentamento de cada dia – nossa essência mais profunda e nossos valores mais consolidados permanecem inalterados. A convivência sistemática com idosos atesta o recrudescimento de suas virtudes e eventuais falhas. É visível! 

As transformações integram o próprio viver, como forma de acompanhar o progresso social e o aperfeiçoamento individual. Assim, reitero uma das letras musicais mais ricas do repertório nacional, “Metamorfose ambulante”, Raul Seixas, quando propaga a vantagem de ser uma metamorfose ambulante em vez de manter velhas e arraigadas opiniões formadas sobre tudo e sobre todos. É vital. É difícil. Mas, é possível brincar com a vida e os imprevistos que perfazem o viver. São mudanças inevitáveis que integram ou desintegram o cotidiano. Repito: “[...] prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião [empedrada] [...] sobre o que é o amor; sobre o que eu nem sei quem sou. Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou. Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor. Lhe tenho amor. Lhe tenho horror. Lhe faço amor [...]” Não é à toa que, para espanto de muitos, sempre me posicionei como uma mulher volúvel! Volúvel, sim! Liberta de amarras ante experiências inovadoras, sem que isto signifique, necessariamente, ser infiel a princípios, anseios e amores.

No entanto, as viradas de ano por si só não nos tornam uma pessoa diferente. Em primeiro lugar, claro está que a adoção de calendários é inevitável para sequenciar e acompanhar períodos históricos. Países, povos e determinadas religiões mantêm, até os dias de hoje, calendários diferentes. Porém, face à expansão da cultura ocidental mundo afora, sobretudo, nos últimos séculos, o calendário gregoriano prevalece em muitas e diferentes nações como o calendário oficial e a data de 1º de janeiro marca a virada do ano, como no precedente calendário romano, mesmo onde se conservam as tradições em dias distintos, a exemplo de Israel e China. 

Os judeus celebram o seu Ano Novo (Rosh Hashaná) com mel, maças e romãs, no que corresponde aos meados de nosso setembro. O primeiro dia do ano intitula-se Tishrei e a data exata é estabelecida pelas fases da Lua. Em se tratando da China, a virada do ano se dá ao final de janeiro ou início de fevereiro. Os chineses seguem o calendário lunar, elaborado com base no tempo que a Lua leva para dar a volta em torno da Terra – cerca de 29 dias e 12 horas –, mas, entre os seus, costumam utilizar seu próprio calendário, baseado no zodíaco chinês. 

Em segundo lugar, claro está que a chegada de um novo ano não determina o caráter e a dignidade dos cidadãos mundo afora, o que soa hilário de tão improvável. De qualquer forma, é interessante relembrar que janeiro é um termo advindo de Jano (Janus, em latim), deus romano de transformações e transições. “Reza a lenda” que ele exerce domínio sobre quaisquer começos. Em seu poder, estão os rituais de mutações, haja vista que Jano possui duas faces: uma voltada para frente (futuro); outra para trás (passado). É a evidência indireta de que prosseguimos em longas caminhadas. O homem, em qualquer circunstância, é resultado do passado vivido, com suas parcelas de felicidade e dissabores, ao tempo em que seu futuro resulta do complexo somatório passado + presente.

Logo, não é tão simples ou simplório: ano novo; gente nova. Inexiste dia ou mês específico para transformação! Estamos em 2019. Deixamos para trás o ano de 2018, mas nada mudará num passe de mágica. Precisamos ser a mudança que desejamos para o ano que ora se inicia, buscando a construção contínua de um indivíduo melhor, sem relegar nem nossos valores mais sólidos nem tampouco a metamorfose decantada tão sabiamente por Raul Seixas!

*Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica 

09 de janeiro de 2019

Michelle: mais do que um nome

Michelle surge em carro aberto ao lado do Presidente eleito e literalmente rouba a cena

Agressões mútuas e de baixo calão desagregaram o Brasil em três frações, a partir do segundo semestre de 2018, alcançando o ápice, quando dos dois turnos das eleições presidenciais, respectivamente, 7 e 28 de outubro desse ano. De um lado, os aliados do Partido dos Trabalhadores, representado pelo advogado Fernando Haddad, quando, por fim, o PT concluiu sobre a impossibilidade de emplacar o “candidato natural” do Partido, em que pese o rastro de lama à sua volta, Luís Inácio Lula da Silva, à frente da nação, entre 2003 e 2011.

 De outro lado, os adeptos do mais improvável Presidente da República até então, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva e político do Partido Social Liberal (PSL), por uma série de motivos. Praticamente, uma figura desconhecida de parcela significativa da população, apesar de sete mandatos entre 1991 e 2018, como deputado federal, “passeando” por mais oito diferentes partidos, o que atesta a fragilidade de suas convicções ideológicas. Aliada à sua atuação ínfima, atribui-se a ele uma série de tiradas ao longo de sua vida pública contra homossexuais, negros e mulheres, reiteradas, dizem, por três filhos e por um irmão, todos eles políticos e reeleitos, em 2018, para seus respectivos cargos.   

No meio do caminho, entre as frações mais numerosas, eis os indecisos e/ou indiferentes ao destino de sua nação, sob o argumento de que, num país cabisbaixo e sem rumo, tudo ou todos são “farinha do mesmo saco.” Raciocinam como se a situação calamitosa dos setores primordiais, como saúde, saneamento, educação e, sobretudo, corrupção e segurança pública, não atinja a todos. E é assim que os dias passam. Na disputa, muitas acusações, agressões, mentiras (glamourosamente, fake news), ataques pessoais e posturas aéticas, que constroem um profundo fosso entre coletividades, grupos de amigos, companheiros de trabalho, vizinhos, condôminos e até no seio das famílias.

Afinal, eis o dia 1 de janeiro de 2019, que marca a posse do “miliciano” ou “coiso”, algumas das denominações reles adotadas pelos adversários inconformados com a derrota. Chama atenção os preparativos prévios voltados à segurança, tanto pelo aparato de 12 mil policiais, agentes infiltrados no público e mísseis antiaéreos quanto por estratégias diversificadas e tecnologicamente avançadas, como o uso de drones, face ao ataque a faca sofrido por ele, em campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, 6 de setembro de 2018. Há muita expectativa. Algumas pertinentes: sobre formação dos ministérios e escolha dos ministros; rumos da economia... Algumas bem fúteis: vestuário do casal presidencial; onde vão morar – como se o risco de “sem teto” os rondasse! 

No grande dia, como num conto de fada, Michelle surge em carro aberto ao lado do Presidente eleito. Porte elegante. Beleza não fabricada. Ternura infinda no olhar com que se dirige ao marido e aos “súditos”. Literalmente rouba a cena. Não o faz por sua postura impecável ou seu vestido convencional e adequado de uma estilista pouco conhecida. Rouba a cena, quando deixa evidente para todos, homens e mulheres, que não será nem uma boneca de porcelana nem tampouco uma peça decorativa para postagens eletrônicas, fotos e viagens. Se a liturgia do cargo exigir, assim o fará, mas, exercerá, sobretudo, sua função de companheira e cúmplice do primeiro mandatário do país, com vistas a lutar em prol das coletividades, com ênfase para o segmento tão esquecido de deficientes auditivos, o que justifica seu breve e significativo discurso em Língua Brasileira de Sinais [Libras], uma antiga e confessa paixão.

A Libras tem conquistado visibilidade mediante sua introdução em cursos de graduação e pós-graduação, presenciais e/ou a distância, sobretudo, com a promulgação da Lei n. 10.436, ano 2002, que a reconhece como a língua oficial dos surdos e a Lei n. 12.319, ano 2010, que regulamenta a profissão de intérprete de Libras. Afinal, dentre os deficientes auditivos, estão petistas e bolsonaristas; ricos e pobres; sulistas e nortistas; pessoas que se definem muito além dos gêneros masculino e feminino; negros, pardos e eventuais brancos (num país multirracial como o Brasil), o que demanda treinamento em Libras por parte da própria família.

Decerto, no decorrer da cerimônia e de todo o aparato que o Protocolo requer, a primeira-dama Michelle deve ter se atrapalhado, como qualquer mulher comum o faria. De origem humilde, sem formação superior, deixa claro para feministas e algozes, que a grandeza de alma e a vontade de acertar podem ser tão ou mais decisivos do que diplomas universitários obtidos ou adquiridos de forma arbitrária para mudar a triste realidade de tantas comunidades de forma genuína e não ideológica ou impregnada por credos, incluindo a Igreja Evangélica.

Eis nossa expectativa. O futuro e somente ele dirá se a doce e firme Michelle é o que pareceu ser aos meus olhos crédulos, além de ter entrado para a história como a primeira dama que usou a fala numa posse presidencial! E de que forma grandiosa o fez! Falou ao povo com a alma e tocou o coração de muitos, como eu, com carinho, desvelo, serenidade e beleza.

Pensando não em Michelle, mas no dia a dia de nossa gente, atordoada com a insegurança pública que ronda as capitais e seus bairros, periféricos ou não, a exemplo da vizinha Fortaleza, é o momento de deixar lutas partidárias e integrar o batalhão dos que lutam, de fato, por direitos humanos. Isto sim, é democracia: respeitar resultados. Reitero o dito anteriormente: resistir, sim, contra nossos problemas de saúde, saneamento, educação, corrupção e segurança pública.

 Contato: [email protected]

03 de janeiro de 2019

João-de-Barro

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

João. João Luís. João Batista. João Carlos, João Gilberto e assim vai. Afinal, João é um dos prenomes judeus mais comuns em todo o mundo desde a Antiguidade, passando, com o tempo, a ser adotado em diferentes países e idiomas, a exemplo do espanhol, italiano e irlandês. Sua popularidade é atribuída a dois personagens do Novo Testamento, ambos reverenciados e reconhecidos. O primeiro, João Batista, profeta filho de Zacarias, é considerado o antecessor de Jesus Cristo; o segundo, São João Evangelista, um dos 12 apóstolos de Cristo e autor do Evangelho Segundo João.

Num dia que se faz longínquo, 24 de junho de 1942, chega ao mundo mais um João. Na pequena Cachoeira de Goiás, nasce João Teixeira de Faria. Não seria, no entanto, um João qualquer. Pouco a pouco, sente-se privilegiado pela luz divina e descobre o poder da cura que carrega consigo. Não tarda a erguer um centro de atendimento, a Casa Dom Inácio Loyola, no meio do cerrado brasileiro, no até então pacato Município de Abadiânia, também no Estado de Goiás, ano 1976. De início, alguns poucos crentes o buscam. Mas, sua fama corre a passos largos. Atrai celebridades de diferentes segmentos do mundo político, artístico, empresarial, etc., tanto do Brasil quanto do exterior. Segue a serviço rumo aos Estados Unidos da América e a outras nações, como Alemanha, Áustria, Austrália, Nova Zelândia e Suíça. O jovem pobre e humilde torna-se referência na mediunidade mundial! 

Sua força espiritual exerce forte efeito sobre a vida dos que o buscam. São crianças, adolescentes, adultos e velhos. São homens e mulheres. São pobres, remediados e milionários. São pessoas crédulas que entregam nas mãos daquele homem sofrimentos, mágoas, pesares e aflições. Todos têm algo em comum: são sempre indivíduos em desespero por dores d’alma e/ou do corpo. Recorrendo à origem etimológica primitiva da palavra João, advinda do hebraico e que significa nada menos do que “Deus é propício”; “Graça divina”; “Deus é clemente”; “Deus é misericórdia”, etc., não tarda muito para que João Teixeira de Faria se auto-intitule João Curador. Mas é pouco: João de Deus é uma expressão mais impactante. Assim, ao tempo em que brinca de ser Deus, de forma paradoxalmente diabólica, consegue fazer muitos acreditarem que está a semear paz, generosidade, complacência, fé, perdão e misericórdia. 

A cobiça descabida toma conta de sua alma. Ao tempo em que diz nada cobrar por sua benevolência e clemência, instala na Casa Loyola verdadeiro centro comercial, onde água “benta” e medicamentos “milagrosos” são cobrados a preço de ouro, mediante o auxílio de um cortejo de séquitos que o cercam e o veneram. Como Abadiânia é dividida pela rodovia federal BR-060, de um lado, está o mundo dos espiritualizados; do outro, o mundo dos pagãos. Porém, é na lado santo que se expande, com força total, o comércio a serviço dos quase 300 mil peregrinos transbordantes de esperança, que chegam em caravanas ou às escondidas, a cada ano. Apesar da separação da cidade, por todos os recantos, a certeza de que o município possui um só dono: homem inclemente, que fere, pune e agride os não adeptos à expansão de seu império.

De fato, denúncias espocam desde as décadas de 70 e 80 (século XX). Incluem tráfico de drogas; contrabando de minérios; sessões de tortura; ameaças veladas ou explícitas. Agora, o escândalo traz à tona um patrimônio incalculável; uma fortuna suspeita para lá de protegida em suas propriedades; um surpreendente arsenal... Se a ambição de João de Deus já não passa desapercebida, sua luxúria demoníaca traz revelações de assédio sexual, abuso e estupro de meninas e mulheres vulneráveis, dentre as quais está uma das próprias filhas, Dalva, violentada a partir de 10 anos, e, hoje, aos 49 anos, ainda escrava dos momentos de terror vividos. 

O incrível é que tudo foi devidamente arquivado ou escondido pelas autoridades locais, incluindo eventuais prisões. A razão: suborno, extorsão. Sei lá o quê. O médium misericordioso confunde-se com o charlatão monstruoso, até que, em 16 de dezembro de 2018, depois de tantos anos de impunidade, João de Deus transforma-se, publicamente, em João-de-Barro. Com imenso respeito à linda ave, símbolo da vizinha Argentina e cuja característica é o belo ninho de barro em forma de forno, referimo-nos à fragilidade da argila e de sua aparência, às vezes, enganosa.

Acusações de todo tipo não param a cada dia. Os dados policiais falam em 500 mulheres. Ele está trancafiado num complexo prisional; elas, no universo de suas áridas lembranças, onde procuram paz, serenidade e coragem para um recomeço. Se João-de-Barro errou como homem, deve ser punido conforme a lei dos homens, que não exclui o amplo direito de defesa. Longe do linchamento inclemente, nós, cidadãos brasileiros, precisamos lutar para resgatar a crença na Justiça deste país, que se mostra tão cabisbaixa e envergonhada... 

Fazer o bem a anônimos ou famosos, graças ao dom que lhe foi concedido pelo bom Deus, não dá a João Teixeira de Faria o direito de fazer tanto mal, aproveitando-se da vulnerabilidade dos que padecem. Segundo sábias palavras do médium Christian Bittencourt, quando invocamos o nome de Deus “em nossas orações, estamos humildemente pedindo por sua intervenção e não assinando aquela demanda em seu nome. Não há um único ser humano [...] com procuração divina [...] embaixo do braço para falar e agir em nome da autoridade máxima de Deus.” Se não assimilarmos tal verdade, prosseguiremos vivenciando tremenda e dolorosa desilusão com religiosos de diferentes credos, que se travestem em ovelhas para explorarem a fragilidade humana. 

19 de dezembro de 2018

Feliz Natal, menino pobre

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Cerro os olhos e o vejo. Cabelos louros, longos e esvoaçantes à brisa da manhã. Vi seus cabelos num dia molhado de chuva e choroso de amor. Vi seus cabelos num dia de calor seco de brisa e sedento de amor. Talvez esses cabelos tão lindos, tocando os ombros, façam com que nós, os adultos, eternos classificadores e catalogadores dos seres humanos, das ações humanas, dos erros humanos, das aparências humanas, o classifiquemos de imediato – hippie, malandro ou qualquer coisa assim. Mas você não o é.

Hippies são os meninos ricos, os meninos classe-média cansados. Sim, cansados. Cansados da solidão de seus “lares”, enfastiados ante a falta de objetivos, enojados pela hipocrisia social dominante, desnorteados diante da possibilidade de “ser um ser integral.” E é este cansaço imenso, sufocante, pesado que nem chumbo, que os leva a outros caminhos. Caminhos estes, que mais tarde, às vezes, tarde demais, já não lhes bastam, pois na verdade, não sufocaram nunca sua angústia, não lhes deram amor, ternura, carinho, não lhes fizeram nunca menos sós.

Não, rapazola louro. Você não é hippie. Os meninos pobres nunca o são. Hippies e pobres arrastam chinelas, cultivam roupas surradas, carregam sacolas, ostentam colares multicoloridos. Mas o hippie, quase sempre, está impregnado daquele ar de quem pôde optar, aquele ar de quem conheceu mesas fartas, bebidas caras, escolas particulares. O pobre carrega dentro do olhar o ar de pobre.

Vejo você. De relance. E eis sua muleta. Ela expõe sua mutilação. Ela está lá. Tenta suprir a falta que a perna lhe faz. Denuncia sua dor. Denuncia sua luta. Denuncia, sobretudo, sua vontade de viver. Os jornais estão seguros em suas mãos magras e já calejadas. E você não os carrega apenas. É um abraço. É uma carícia. Você os protege tal qual uma mãe que soube ter coração de mãe. Eles são sua arma. Através deles, você se sente gente, você se sente útil, você se sente vivo. Eles são sua vida. E quem sabe, sua paz.

O sinal fechou. Paro o carro. Recebo o jornal de suas mãos. Meu gesto não é caridade. Mas amor. Meu gesto nem é filantropia nem tampouco assistencialismo natalino. Mas agradecimento. Sim, agradecimento. Eu preciso de você. Sinto imensa gratidão por você. É você, que nessa hora amarga, segura minha barra, me joga na cara uma lição de vida: coragem! É você que me fala silenciosamente de minha covardia.

Ah! Menino louro, gostaria de conhecê-lo. Conhecer seu mundo mais profundamente. Conhecer quem conhece como vencer a vontade de não viver. Você não transmite paz. Você é a própria paz. Paz que escorrega de seus olhos castanhos, paz que rodeia seu corpo cansado. Tanta paz você envia, que ela chega até meu corpo cansado.

Por tudo isto é que lhe agradeço. Assim de longe. Anonimamente. Não importa que jamais você leia o que escrevi para você nessa noite. Noite linda! A lua domina a noite. Seu reflexo sobre as ondas sugere às águas do mar um canto de amor. Os coqueiros também cantam. E eu dedico a você, toda a beleza dessa noite e desse canto, menino pobre! Feliz Natal, meu jornaleiro único sem ser só! 

12 de dezembro de 2018

Nevou no Rio de Janeiro, pela primeira vez na história!

Maria das Graças Targino - jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Eis um título plagiado na íntegra! Mas nada mais significativo, neste momento, para refletir sobre os exageros quase patológicos que tomam conta de nossa sociedade. Em nome da igualdade de gêneros, etnias, credos, faixas etárias, posturas, vestimentas ou nudes, estamos segmentando coletividades, grupos de trabalho, equipes de estudo, clubes sociais e por aí. É preciso rotular os companheiros para ver onde se encaixam. É fundamental posicioná-los em alguma tribo para que não se sintam excluídos. A partir daí, é só um pulo para apregoarmos o politicamente correto e tudo se transforma em politicamente incorreto. 

Há casos que beiram ao hilário. Muitas e muitas cidades nos diferentes continentes mantêm em algum lugar público uma frase-padrão, que diz, por exemplo, “eu amo Teresina.” Pois bem, recentemente, começam a clamar que estas exaltações exageradas diminuem a relevância ou a beleza de outras cidades. Um galanteio do “rei” Roberto Carlos dirigido a uma jovem atriz da Rede Globo de Televisão, agora, quando do espetáculo anual por ele elaborado para as festividades de final de ano nessa tevê, gera polêmicas tolas e um montão de cliques em sites de fofocas, insinuando a possibilidade de assédio sexual. 

Assim, xenofobia, preconceito, intolerância, ódio irracional, aversão às diferenças abrigam novos termos, a exemplo da gordofobia. Tipos de beleza produzidos na mídia conduzem jovens (ou não) a enfermidades, como bulimia ou anorexia. Ser feliz ou parecer feliz passa a ser um imperativo, com o risco de você ser enquadrado no amostra de pessoas “pesadas” e chatas. Ter alguém para chamar de seu é obrigatório, seja de que tipo for... 

Ao tempo em que palavras da moda – empoderamento, inclusão e /ou exclusão – são adotadas sem consciência do que significam e nos podam diante das relações especiais que podemos manter com o universo e com o outro, o texto de Fernando Lucas (https://www.linke din.com/pulse/nevou-rio-de-janeiro-pela-primeira-vez-na-hist%C3%B3ria-fernando-lucas) descreve a escravidão que ora vivenciamos como robôs. Ele resume, integralmente, sentimentos que também são meus: 

Nevou a noite toda. 

8:00h Eu fiz um boneco de neve.

8:10h Uma feminista passou e me perguntou porque eu não fiz uma mulher de neve.

8:15h Eu fiz uma mulher de neve.

8:17h Minha vizinha feminista reclamou do perfil voluptuoso da mulher de neve dizendo que ela ofende as mulheres de neve em todos os lugares.

8:20 O casal gay que mora nas proximidades teve um ataque de raiva e protestou, porque eles poderiam ter sido dois homens de neve.

8:22h O transgênero me perguntou porque não fazia um boneco com partes removíveis.

8:25h Os veganos no final da rua se queixaram do nariz de cenoura, já que os vegetais são comida e não decoração para bonecos da neve.

8:31h O muçulmano do outro lado da rua exige que a mulher de neve use uma burca.

8:40h A polícia chega dizendo que há uma denúncia anônima contra mim, de alguém que foi ofendido pelo meu racismo e discriminação, porque os bonecos são brancos.

8:42h A feminista vizinha reclamou novamente que a vassoura da mulher de neve deveria ser removida porque representa a mulher num papel doméstico.

8:45h A equipe de notícias da TV apareceu. Eles me perguntam se eu sei a diferença entre bonecos de neve e mulheres de neve. Eu respondo: as "bolas de neve" e agora elas me chamam de sexista.

9:02h Estou no noticiário como um terrorista suspeito, racista, delinquente com tendências homofóbicas, determinado a causar problemas durante o mau tempo. Quem me mandou fazer a p** dos bonecos de neve!!!”

9:10h Estão me perguntando se tenho cúmplice ou alguma organização me incentivou a fazer os bonecos nas redes sociais.

9:25h As feministas me xingam e pintam minha casa com a palavra “machista.”

9:45h Os católicos me acusam de querer imitar Deus, tendo criado um homem e uma mulher de neve, e querem que a Inquisição me queime por heresia. Eles dizem que eu realizei um ritual pagão.

9:55h Organizações ambientais me acusam de poluir a neve.”

A quem interessar possa: em locais distintos do Rio de Janeiro, constam nevascas nos anos de 1867, 1928, 1970, 1973, 1975, 1985, 1988, 1991, 1994, 1999, 2000,2001, 2004, 2006 e 2012, sem que os bonecos de neve de então mantivessem sabor amargo ou cor de sabão!

05 de dezembro de 2018

"Por escrito", a obra de Elvira Vigna

Elvira, escritora e desenhista carioca, 1947, formou-se em literatura pela Nancy-Université (Lorraine, França) e finalizou Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Elvira Vigna deixou assegurado espaço único como um grande nome da literatura brasileira. Há anos, escutamos seu nome. No meio de mil atividades, fomos deixando para trás o acesso à sua produção. Notícias de vez em quando, como na premiação das obras “Deixei ele lá e vim” (2006) e “O que deu para fazer em matéria de história de amor” (2012), além de outros romances, a exemplo de “Coisas que os homens não entendem” (2002); “Nada a dizer” (2010); “Por escrito” (2014); “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (2016), referendado com o prêmio “Associação Paulista de Críticos de Arte”, e “A um passo”, publicado em 2018, após sua morte, ocorrida em 2017.

Elvira, escritora e desenhista carioca, 1947, formou-se em literatura pela Nancy-Université (Lorraine, França) e finalizou Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao primar pelo não tradicional, desde os anos 80 / 90, com o lançamento de seus primeiros textos “Sete anos e um dia” (1985); “O assassinato de bebê Martê” (1997); e “Às seis em ponto” (1998), consegue imprimir um estilo próprio e um universo particular. Este comporta uma linguagem cortante e nada sentimental para expressar sua visão de mundo impregnada por desesperança, desencontros e muitas dor. 

Eis nossa descoberta imediata ao entrar no universo do belíssimo livro “Por escrito”, um dos vencedores do prêmio “Oceanos” de melhor romance. Ganhei como presente de um amigo. Feliz da vida, coloquei-o naquela prateleira que todos (ou quase todos) possuem – os livros que esperam. Observam nossos passos. Sonham com nossos olhos sobre suas letras. Pensam em nossas mãos lhes folheando. Até que enfim, me dei conta de que era chegada a hora. “Por escrito”, lançado em 2014, com 312 páginas e sob encargo editorial da Companhia das Letras, que se manteve fiel à autora ao longo de sua produção, saíra da prateleira para minha mesa de cabeceira. Confesso que não o li. Devorei-o. 

Suas personagens caminham trôpegas em meio à devastação afetiva e emocional ante a história de uma separação. No entanto, ao contrário do que podemos imaginar num primeiro momento, não há mulheres chorando ou chorosas perdidas nos recantos da casa. É o relato de cada personagem que, num vai e volta, entre o passado e o presente, se entrelaça o tempo todo. Em linhas gerais, “Por escrito” é uma carta redigida, ao longo de uma viagem a Paris para o casamento do irmão Pedro, pela narradora Valderez, a um homem, Paulo, que aparece como um amor antigo, desses que persistem em nossas vidas, quase sempre impregnado de impossibilidade e angústia, como a compositora e cantora Maria Betânia exalta na canção “Eu não existo sem você”: “[...] Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim, que nada nesse mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe, a distância não existe. E todo grande amor só é bem grande se for triste [...]” Assim, é possível resumir: o cenário central de “Por escrito” é, em sua essência, o indefinido ou o indeterminado. 

Pois bem, como as demais personagens, a exemplo de Molly e Izildinha (Zizi), Paulo vai e volta, entremeando passado, presente e nenhuma ansiedade ante o futuro. Enquanto isto, Valderez passa grande parte de seus dias sentada no que chama de pré-moldados (rodoviárias, táxis, aeroportos e salas de espera) a dissecar a existência dos que a cercam. Veementemente, em distintos momentos de sua obra, expõe sua aversão a qualquer tipo de união formal. Por exemplo, diz literalmente, em nítida crítica sagaz e irônica à instituição casamento: “[...] quando eu voltar, venho de vez pra tua casa, largo as viagens e ficamos os dois, o dia todo, um de costas pro outro, cada um numa tela do facebook. Ô vida boa, né [...]” Na realidade, a vida da protagonista e das outras personagens exalam desassossego, carregando cada uma suas próprias pedras. São imprevisíveis tal como a autora. Nessa história de desencontros, as pessoas parecem não visualizar quem está à sua frente. Quem está presente vai sumindo, pouco a pouco. Ninguém percebe sua ausência. Mas, de repente, surge quem não era esperado. Trata-se de uma história de esperas, erros e de muita solidão, vivenciada pelas personagens.

No mínimo, trata-se de um romance que consegue diluir todas as relações mas sem imposição de verdades, até porque Elvira Vigna constrói suas obras em meio a ditos e não ditos, onde as palavras parecem fluir ou voar, deixando como herança para o leitor todas as inquietudes. Como decorrência, o texto favorece ao leitor ser ele mesmo um dos coautores da história, haja vista que inexistem certezas no enredo. Como decorrência, compete a ele explorar as possibilidades que o não explícito dos fatos narrados permite: é a troca da certeza absoluta ao fim da leitura por um leque de cogitações, senões e incertezas. É a chance de recriação!

30 de novembro de 2018

O adeus aos cubanos

O “Programa Mais Médicos” foi mais um golpe contra o povo brasileiro

Pouco a pouco, vem à tona o que quase toda a população brasileira já sabia desde sempre: o “Programa Mais Médicos”, inserido em território nacional no dia 8 de julho de 2013, no Governo Dilma Rousseff ou no de Luís Inácio Lula da Silva (dá igual), em sua essência, foi mais um golpe contra o povo brasileiro e uma forma escusa de ajudar uma ditadura algoz. Não vamos discutir números! Vamos discutir a essência: proclama-se mundo afora a excelência da educação e da saúde cubana a partir de publicidade e propaganda desde o início do poderio dos irmãos Fidel e prossegue até hoje por meio do mandatário-fantoche, o civil Miguel Díaz-Canel, à frente da Assembleia Nacional do Poder Popular da República de Cuba, desde 19 de abril de 2018.

Para se descobrir a excelência da educação cubana, a princípio, basta se matricular em curso de espanhol a preço de ouro voltado para estrangeiros e descobrir que os pobres docentes apagam a lousa (nosso quadro-negro) com as mãos e estão sempre atrasados ou bem adiantados, por conta da irregularidade dos transportes públicos. Também vale visitar o chamado Museo de la Alfabetización (capital Havana), antes Comissão Nacional de Alfabetização, onde estão as “provas contundentes” do fim do analfabetismo, quando a cada escolarizado cabia escrever uma carta ao El Comandante, hoje, devidamente arquivada. E só.... Instituído no dia 29 de dezembro de 1964, o Museu ocupa parte do complexo militar (Ciudad Libertad), ponto de encontro das Brigadas Conrado Benítez, após a Revolução Cubana. Esta, como movimento armado e sob a liderança de Fidel Castro, conseguiu destituir Fulgencio Batista de Cuba, em 1959, com flagrante apoio soviético visando alinhar a Ilha ao chamado bloco socialista. Num terceiro momento, visita às bibliotecas, às livrarias fantasmas e aos laboratórios de tecnologias para acesso ao alunado (em qualquer nível) complementa a visão de excelência ou decadência da educação no país.

Quanto ao quesito saúde, é possível que a formação prime pela excelência. Porém, e é muito lógico que isto seja sussurrado a pessoas de extrema confiança, de pouco vale a graduação esmerada, se tudo ou quase tudo, na rede hospitalar, está roto. Cuba não é um país em dificuldades. Por detrás do retrato vendido ao turista, há uma nação sofrida e plena de contradições. Apesar da beleza estonteante de seu território, com Varadero, Trinidad, Cienfuegos, Cayo Largo do Sul, Santiago de Cuba, Havana com seu El Malecón e sua Habana Vieja (tombada, como Trinidad, como Patrimônio da Humanidade), e seus poucos hotéis de luxo, como o Hotel Nacional, há um país literalmente roto (quebrado), para usar uma das palavras que muito cedo aprendi. Tudo está roto: telefones públicos; o serviço de abastecimento de água e luz; o sistema de transporte público; as companhias de aviação e até mesmo o que se pensa que Cuba tem de melhor: educação e saúde. 

Os médicos que estão indo de volta a Cuba, chegados ao Brasil mais ou menos em 2015, seguem com coração partido. Foram eles vitais às coletividades mais carentes e mais longínquas de nosso território, incluindo aldeias ribeirinhas e indígenas, como Macuxi, Ingaricó, Wapixana e Yanomami, dentre muitas outras, que até então nunca haviam contado com assistência médica, de tal forma que deixam por aqui muitas pessoas desnorteadas. Os cubanos são naturalmente generosos, salvo exceções. Afinal, precisam enfrentar, no dia a dia, a miséria que ronda sua gente, a exemplo dos velhos. Estão sempre nas ruas ou entradas das casas ou, ainda, nas sacadas dos prédios. Os primeiros vendem de tudo para sobreviver: guloseimas, jornais, cigarros, cafezinho fraco e requentado... Os que estão nas sacadas já não conseguem descer as escadas íngremes e permanecem a olhar a vida que se vai... Às vezes, seu ponto de contato com o mundo é o jaba, saco que fazem descer por uma corda para receber ou enviar coisas variadas. 

Enquanto, paradoxalmente, a expectativa de vida do povo cubano cresce para 77,5 anos (no caso da mulher) e 73,5, para os homens, a renda mensal média dessa parcela populacional é em torno de oito dólares e as condições de vida deploráveis. Não sei exatamente o salário de um médico, mas comprovo, ao longo dos seis períodos onde lá estive, que um professor universitário com cargo de chefia recebe menos de 20 dólares em meio ao conformismo de que há o auxílio da libreta. Com o mísero salário mensal, a cada família é possível comprar o mínimo do mínimo, como arroz, açúcar, feijão, sabão, sal, café, fósforo, azeite e algumas coisinhas mais. Tive acesso à libreta: para duas mulheres, um dentifrício, três meses; um pacote de absorventes higiênicos, quatro meses; um pacote de sal, quatro meses e por aí vai. 

Por tudo isto, é óbvio que todos estavam contentes por estar aqui. A Organização Pan-Americana da Saúde, na condição de organização internacional especializada em saúde, surpreendentemente, se permitiu intermediar o não intermediável – a entrega de 70% dos salários dos médicos cubanos que aqui estavam aos ditadores. Mesmo assim, os doutores estavam em júbilo pela oportunidade ímpar de vivência profissional, de manter moradia e alimentação dignas, advindas de municípios e distritos indígenas além de lanches fartos e atenção humana... Ao embarcarem de volta, sorrisos mesclados com infinita tristeza deixam à mostra o orgulho de carregar tevês e mil outros merecidos presentes para filhotes e parceiros. 

O incrível! Ainda há quem sustente, a exemplo da própria OPAS, que não havia proibição explícita de os cubanos trazerem consigo qualquer membro familiar! E mais, há quem creia que, em países pobres (não é caso do Brasil!), onde há médicos cubanos, tudo é custeado pelo Governo cubano, como em Nepal, Angola, Haiti e Congo. Está chegando o Natal! Vale a pena redobrar a crença em Papai Noel!