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Mito da perfeição

Filósofa francesa fala sobre mito da perfeição materna em entrevista

24/07/2011 00:00h

Por mais assustador que possa parecer, algumas coisas não costumam ser ditas porque não são usuais, por que o instituído "politicamente correto" não permite ou por medo da reação alheia. Coisa do tipo: não achamos que ser mãe é padecer no paraíso e achamos, inclusive, que essa é uma idéia muito infeliz. Queremos, sim, viver a maternidade da melhor maneira e, se possível, sem tanto padecimento.

Também não achamos que temos que dar conta de tudo, por mais que rotineiramente caiamos nesse tipo de cilada. Não achamos que apenas nós temos a obrigação de trocar as fraldas ou ensinar tarefa de casa, e queremos, sim, ter um tempo sozinhas, pra nós mesmas, um espaço pra que possamos exercitar, simplesmente, o que é ser nós mesmas.

Por mais que tudo isso já tenha sido dito neste espaço - de uma maneira ou de outra - uma entrevista publicada numa revista de circulação nacional ecoou algumas dessas questões (que sabemos que não são só nossas!). A filósofa francesa Elisabeth Badinter, autora dos livros Um amor inventado: o mito do amor materno e O conflito: a mulher e mãe, diz na entrevista que o mito da mãe perfeita é uma cilada criada pela sociedade ocidental, mas assumida como "natural" pelas próprias mulheres, instituindo como parâmetro para a maternidade "normal" colocar os desejos dos filhos acima (bem acima) de qualquer necessidade pessoal da mãe.

Para a filósofa, a ampliação dos deveres maternos está no cerne do fenômeno contemporâneo da opção por não ter filhos. Quanto mais anos de escolaridade as mulheres têm, mas elas se afastam da maternidade, pois o receio de não dar conta de seguir a vida profissional e cumprir com todas as obrigações socialmente impostas à "mãe perfeita" está fazendo com que elas optem por não ter filhos - o que é uma opção válida, claro. No entanto, o mito afasta qualquer tentativa dessas mulheres de buscar um caminho paralelo, próprio, para conduzir a criação dos filhos.

Cada cultura cria um modelo ideal de maternidade, que predomina em uma época específica. De forma consciente ou não, toda as mulheres carregam tal modelo, o que não significa que todas venham a aderir a ele: pode-se aceitá-lo, rejeitá-lo, negociá-lo, mas é sempre em relação a ele que as mullheres determinam suas opções em relação à maternidade (ter ou não ter filhos? quantos? quando?)

Badinter denuncia o atual modelo da mãe perfeita como gerador de culpas e conflitos, ao prescrever responsabilidades tão pesadas à mãe que ela nunca conseguiria conciliar de maneira satisfatória a vida profissional e a maternidade. Para a autora, a grande ironia da História configura-se no fato de que, depois de tantos avanços satisfatórios em relação à dominação masculina, a mulher se veja agora submissa a um novo senhor: o bebê.


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