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Que bicho é esse?

Entre a vida tecnológica e nossa porção mamífera, descobrimos que tipo de bicho somos

27/07/2014 00:00h

Apesar de manter os cabelos cacheados por convicção e falta de paciência para viver dentro de salões de beleza, apesar de ter sustentado um visual quase hippie quando estudante universitária e de tentar ter uma vida descomplicada, sou um bicho urbano.

É claro que detesto engarrafamentos, mas as muriçocas que atormentam minhas noites e deixam minha filha pintadinha me irritam muito mais. Gosto de dirigir, de poder comer fast food uma vez na vida (até porque quem tem crianças sabe a necessidade de ter uma boa alimentação no dia a dia), usar telefone celular, acessar internet, enviar fotos pelo “zap-zap”, andar pelos corredores do shopping, etc, etc, etc.

Gosto de asfalto e desculpem quem ainda prefere o calçamento, mas torço muito para que a rua que dá acesso à minha casa receba logo esse presente. Cresci morando em apartamento e sabendo que a camada de ozônio já estava ameaçada.

Por isso, sempre tive um pouco de dificuldade para lidar com situações em que nossa metade bicho se impõe. Na gravidez, que volto a experimentar agora, a enxurrada hormonal associada ao processo biológico da gestação mostra a cada dia que somos mamíferos, bicho gente, feitos de carne e osso. Ao passar dos dias, o corpo vai sendo esculpido para receber em seu ventre um outro bichinho (que coisa mais louca...) até o momento em que estará pronto para ver a luz do mundo aqui de fora e, quando isso acontecer, esse mesmo corpo estará apto a alimentá-lo.

Nesse processo, a pele muda, os cachos do cabelo já não mais os mesmos, os fios bancos não podem ser “maquiados”, os pés ficam desconfortáveis dentro das sapatilhas preferidas, as roupas de costume estão longe de fechar como antes, a direção está mais perto do corpo do que deveria e os simples atos de deitar, sentar ou levantar já precisam ser realizados em outro ritmo – lento, é claro.

Antes que alguém possa achar que a descrição acima apresenta a gravidez apenas pelo viés do desconforto, digo de antemão que não se trata disso. O desconforto existe sim, mas é transitório e minimizado pelo sentimento construído a cada chute que recebemos na nossa costelinha, brincadeira.

A questão que hoje me conduz nestas linhas é somente a necessidade de reconhecer, com toda a resignação necessária, que nascemos como um bichinho e depois de tanta fumaça de escapamento na cara, conexões wi-fi e viagens intergalácticas dentro de nossas cabeças, esquecemos daquela lição básica do ensino infantil: que na vida nascemos, crescemos, procriamos (ou não) e morremos. O que vamos fazer no meio disso tudo, sim, isso será construído a cada escolha, a cada reflexão certa ou errada, mas caberá ao ser humano que nos tornamos decidir. O fato é que uma hora ou outra a porção bicho – guardadinha “em nuvem” na maior parte do tempo – volta e se impõe. 

Fonte: Por Elizângela Carvalho

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