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Notícias Nosso Filhos

14 de fevereiro de 2019

O barulho da mudança

O barulho da mudança

Será que ouvir o barulho da mudança do outro nos põe em contato com nossa própria inércia?

O barulho da mudança

Recebi no início de novembro uma cartinha dos vizinhos que acabavam de comprar um apartamento no prédio. Começariam naquela semana uma reforma. Eles pediam desculpas pelo transtorno e comunicavam cada uma das etapas e seus devidos prazos. Uma delicadeza. Simpatizei automaticamente com o casal que ainda não chegou em definitivo.

Sim, fevereiro já chega na metade e a reforma segue com força. Das etapas estruturais que estariam prontas em ‘no máximo’ três semanas, ainda não sinto qualquer tom de despedida. A impressão que tenho todos os dias (exceto aos domingos), pontualmente a partir das 8h, é a de que ainda estamos derrubando paredes. Quantas paredes há mais para serem derrubadas não sei. Mas o martelo não descansa. A poeira não cansa de invadir o meu apartamento. E eu cansei. O transtorno beira o insuportável.

Veja bem, não sou contrária a reformas, mas isso não faz com que eu goste delas a 100%. Mudanças (de qualquer tipo) me/nos são incômodas. Costumam se apresentar sedutoras: “Desculpem o transtorno…”, “Nunca mais preciso olhar na cara desse chefe”, “Agora que virei mãe”… Dificilmente tardam a fazer barulho. Que parte de nós se aborrece tão rapidamente com o coitado do vizinho que comprou um apartamento de 60 anos que pre-ci-sa (!) de reforma?

Será que ouvir o barulho da mudança do outro nos põe em contato com nossa própria inércia? A vida precisa de reforma minha gente, de manutenção eterna. E, não quero ser eu a dar a má notícia, mas quanto mais adiadas forem, mais complicadas ficam. A escolha é sua, dá pra derrubar parede, trocar o encanamento e a elétrica, ou só pintar e dedetizar. Mas o fato é que vai fazer barulho. É chato, mas (quase sempre) a gente dá conta.


A imagem que ilustra este texto é de Khatuna Jibladze

07 de fevereiro de 2019

Amaciante

Amaciante

Recomeçar, olhar para si sem filtros e sem medo, simplificar, dividir, arrumar e até reformar é preciso.

Era madrugada e o calor de São Paulo me levantou da cama. Entendi que meu corpo seco precisava com urgência de um copo de água fria. Os últimos dias têm sido lindos por aqui e têm sido também desafiadores. Quentes. Muito quentes. O filtro de casa está ao lado da porta da lavanderia, que normalmente permanece fechada. Mas a noite  de ontem não era normal e qualquer possibilidade de passeio de vento nos pareceu uma boa ideia. A porta, portanto, estava aberta. E foi este detalhe fora da rotina que me fez experimentar o grande susto.

No escuro da noite vi sorrisos de ponta-cabeça, cabelos longos coloridos balançando, pernas peludas despreocupadamente penduradas, bebês que já não choravam, cachorros, girafas, baleias e ursos. Dez segundos de terror seguidos por um alívio que cheirava a amaciante. Ocorre que a manhã deste dia de verão quase agressivo tinha começado antes do previsto com espirros e tosses. Ficou claro que era preciso se livrar do máximo de poeira possível para continuar respirando por completo. Decidimos que era hora de uma limpeza profunda no quarto das crianças. Tudo que estava lá foi transportado para outros cômodos, limpamos, separamos o que já não fazia mais sentido, o que poderia passar a fazer sentido para novos donos, reorganizamos, recomeçamos.

E eu poderia lhes contar sobre a importância destes recomeços. Poderia lhes falar sobre a necessidade de tirar tudo das prateleira e dos armários e olhar para quem somos sobre outra perspectiva, em outro cômodo. Poderia relembrar a urgência de simplificar nossas vidas, de ter menos, de dividir mais. É mesmo urgente. Poderia até gastar parágrafos na existência perigosa, aflitiva e (ui!) íntima dos ácaros que nos rodeiam.

Mas o que ficou em mim, o que eu gostaria que ficasse em vocês, foi a imagem das crianças na manhã seguinte quando desceram o varal. Abraçaram cada uma das bonecas e dos bichinhos, quando guardaram de volta na prateleira um por um, quando os chamaram pelo nome, soltando, aqui e ali, um “lembra daquele dia?”, “esse foi a vovó que deu”, “dormiu bem querido?”, quando pentearam os cabelinhos já desgrenhados, quando comentaram que a casa estava cheirosa, que o quarto (que confesso, anda precisando de uma série de ajustes, para não mencionar a mais assustadora das palavras, anda precisando de um reforma) estava lindo. Quando me deixaram perceber que valorizam as suas histórias, que gostam de quem são.

Recomeçar, olhar para si sem filtros e sem medo, simplificar, dividir, arrumar e até reformar é preciso. É pra ontem. Mas parar um segundo pra pôr a vida que a gente já tem – essa meio descabelada mesmo – na máquina, deixá-la cheirosinha e macia pode ser também um convite para 2019. Eu que sempre desejei para meus leitores o desafio, o novo, o melhor, desejo também – para nós – o conforto do simples e do possível. O conforto de ser quem se é. Até semana que vem queridos.


A imagem que ilustra este texto é de Maisie Marie

02 de fevereiro de 2019

O medo

O medo

Visto assim (de longe) é até bonitinho, não é?

Balançavam as bochechas já vermelhinhas. Voava uma mecha assanhada do cabelo preso em uma trança cuidadosamente descuidada. Escapavam uns “uis!” daqui, uns “ops, desculpa!” dali. Era uma entre tantas. Estamos todos em um eterno comercial de blush em São Paulo nos últimos dias. Faz calor. Mas não era só calor. Havia ali um misto de calor e euforia de quem vivia uma peripécia, uma expressão de quem ultrapassava o (próprio) limite.

De velocidade talvez. Estava mesmo mais veloz do que nós que caminhávamos no sábado quente de feira e pracinha. Cabelos, os nossos, sem vento. Os “uis” eram os mesmos. Uma velocidade que beirava o perigo. 

Foram instaladas, por aqui, estações de patinetes elétricos que podem ser alugados por hora. A moça andava em um deles. Entre o descontrole de quem parece não reconhecer que não domina a destreza da coisa e o medo das rampinhas que separam uma calçada da outra. Mini rampinhas. E veja bem, ela protagonizou um ou dois quase encontrões com pedestres distraídos, cruzou entradas de garagens sem parar pra olhar, pendurou a mochila (fio a um centímetro do pneu, louco pra enroscar e fazer valer qualquer preocupação que envolvesse a cena), cruzou a rua sem esperar o sinal…

Ainda assim, descia do patinete com olhar de prudência e o carregava andando para vencer um ou outro entre-calçadas que lhe parecia perigoso e que, muitas vezes, nem de altura mudava, variava só na estampa. O medo pode ser enternecedor. Era claro, para quem conservava como eu o lugar de observador, que de todas as ameaças, aquela era a que oferecia menos riscos. No entanto era justo ela que fazia a moça assanhada perder (ainda que momentaneamente) o espírito de aventura.

Os grandes entraves da vida podem ser uma ilusão de ótica. Não é mesmo?


A imagem que ilustra este texto é de Ilya Volykhine

19 de novembro de 2018

I want to break free

I want to break free

Sobre bancar nossos desejos – a começar pela escolha de um filme

Eram duas da tarde do último sábado e a sala do cinema estava cheia. Sentei na F1, porque se tem uma coisa da qual tenho alguma dificuldade de abrir mão é a escolha da cadeira do corredor (fácil de sair rapidinho se for preciso). Ninguém me ensinou esse truque. Embora desde muito cedo tenha sempre optado pelas laterais. Shows, salas de aula, avião. Chego, localizo a saída e me ponho ao alcance dela. 

Os trailers cismaram em demorar mais do que o normal. Começou o filme. Nenhuma afeição extra à banda me levou àquela escolha, pensei em me arrepender, pensei em implicar, mantive o celular ligado, olhei para ele um tanto de vezes. Até que a história desenrolada na tela fez ser possível sentir o doce da pipoca ficar mais doce, a água mais fresquinha, o pescoço mais leve no espaldar da poltrona. Cantei baixinho os refrões, me entreguei à delícia de uma sessão solitária e descompromissada no meio da tarde. Nossa, fazia tempo.

Era sobre liberdade e confiança (em si e no outro). Era sobre lidar com as consequências dos próprios atos. Era sobre celebrar a vida em toda a sua complexidade. Era sobre estar diante de um fim. Lindo o filme. Nem perto da lista dos memoráveis, ainda assim comovente. De minha tarde de sábado, posso dizer que foi das mais lindas. Posso dizer que dificilmente esquecerei dela. 

Na sala ao lado, estava minha filha mais velha. Optou por outro filme. Com a naturalidade, a independência e a segurança herdadas do pai (que herança linda Henri, obrigada), propôs que cada uma de nós bancasse o seu desejo. “Veja o seu mami, eu vejo o meu”. Sua primeira sessão de cinema sozinha, minha paulistana raiz. Não quis a poltrona do corredor. “Pra mim, tanto faz”. Sinalizou ontem o fim da infância. Uma menina grande dona das suas próprias escolhas. Break free Lalá, desliga o celular, inventa teus próprios truques, entra sem pensar em sair. Vai. A vida é pipoca doce.

A imagem que ilustra este texto é de Zinaida Sibirtseva

17 de setembro de 2018

Ninguém sabe tudo (nem eu e nem você)

Ninguém sabe tudo (nem eu e nem você)

E já que o erro é democrático, questionar é preciso

Solucione o problema e corrija o enunciado se necessário. Era a primeira frase da lição de matemática que minha filha mais nova concentrava-se para responder. Tentou achar solução possível sem trair a certeza de que o que é oficial (o que vem de fonte segura – a professora) não carece de correção, mas ela acabou por canetar o papel. E com tinta vermelha para garantir o pacote completo.

Naturalmente o equívoco da lição era proposital. Tenho 56 canetas e sete estojos, quero dividi-las em quantidades iguais, de quantos estojos preciso? Estão lançadas aí duas dificuldades que são, para mim, absolutamente ilustrativas de nosso tempo: 1. Tem nos interessado dividir em partes iguais? 2. Em que medida naturalizamos a prioridade da quantidade de estojos em detrimento da quantidade de canetas? 

Que exercício interessante esse, não? Para além da divisão, operação sobre a qual dedicam a atenção neste semestre, está posta na tarefa a abertura para a dúvida, mais do que isso, esta posta a notícia de ouro: o erro é democrático. Dos professores aos pais e alunos, erramos todos.

E já que ninguém sabe tudo, questionar é preciso. Propor reparo e, para tanto, oferecer as suas ideias, pôr à prova um raciocínio capaz de não somente apontar o erro (que pode inclusive ser o seu), mas de dar conta de uma equação. Que essa medida ultrapasse os enunciados e se torne um hábito. Faz-se urgente.

A imagem que ilustra este texto é de Lee Clement

10 de setembro de 2018

Repensar, refazer, remexer

Repensar, refazer, remexer

O que um seriado nos conta sobre nosso próprio passado

Depois de alguns meses de resistência, conseguimos finalmente juntar o interesse de todos da casa em torno de um mesmo seriado. Trata-se de Anne with an ‘E’ exibido pela Netflix desde março de 2017. A produção canadense é baseada na história original de Lucy Maud Montgomery escrita em 1908. Somada a produção excelente (fotografia e direção de arte pra lá de cuidadosas) e a doçura no ponto certo do açúcar, a série surpreende tamanha a atualidade. Recomendo com empolgação especial às famílias de adolescentes e pré-adolescentes.

Para além dos temas encostadinhos nos que vivem nossos filhos (o pertencimento – ou não – ao grupo, as dificuldades na escola, as paqueras, as questões com a própria imagem, o começar a entender as possibilidades e portanto o medo e o desejo de mergulhar nelas todas) há uma camada na história que me comove a cada capítulo: a chance que as crianças nos dão de ressignificar o nosso passado.

Em um dos episódios da segunda temporada (contém mini spoiler), Matthew Cuthbert, representado por R. H. Thomson, se vê acidentalmente no palco com a responsabilidade da fala final do espetáculo de natal da escola da filha nas mãos. Ali, ele cura a recusa traumática de participar da sua própria apresentação escolar. Uma ilustração da potência do papel de coadjuvante que o papel de pais nos oferece. Bonito de ver. Impossível não se reconhecer na cena. 

A parentalidade nos permite dar as mãos à nossa criança interior, abraçá-la sempre que for preciso e dizer para ela que “passou, está tudo bem”. Que presente, não?

29 de agosto de 2018

Enquanto elas crescem, eu envelheço

Enquanto elas crescem, eu envelheço

Avançamos todas

Cada vez que acordo mais cedo para passar o café e percebo que os pés delas já apontam fora da mantinha, as crianças crescem. No momento em que preparo o lanche, que não pode ser levado na lancheira porque “Quem ainda leva lancheira, mãe?” e me descubro ajuda inútil para a lição de matemática que, no fundo, não sei fazer, crescem.

E já que doem as costas porque dormi mais do que oito horas e se durmo menos, apetite e humor dão sinais de cansaço, eu envelheço. E sempre que afasto a embalagem do leite para focar as letrinhas miúdas porque “Quem disse que já preciso de óculos, filha?” e me dou conta de que ainda não domino o exercício de dividir o tempo, cobertor curto, envelheço.

Se constroem um argumento que surpreende tamanha a sofisticação, pronto, crescem. Se escuto de relance uma conversa cuidadosa com os amigos ao telefone, se leio um texto elaborado da escola, se empresto uma roupa que fica melhor nelas, elas crescem. E se as assisto dançarem, de longe e enxergo ali o poder e a beleza das infinitas possibilidades de uma vida em seu início, não tem mais volta, crescem.

E no dia em que a simplicidade passa a comover, envelheço. Quando o encontro com uma amiga cuidadosa faz o dia, quando a leitura ajuda a elaborar, quando a moda começa a perder importância, nada pronto, tudo a desconstruir, envelheço. Quando me pego dando um baile diante das impossibilidades, quando vejo beleza nos começos, nos meios e até nos fins. Voltar para quê? Envelheço.

Enquanto envelheço, elas crescem. Avançamos todas.

A imagem que ilustra este texto é de Victoria Dael

16 de agosto de 2018

Fisgada

Fisgada

Uma mãe penosamente torta

O ar até doi, quando tenta ocupar o mesmo espaço entre cabeça e pernas. Claro que há pescoço, cervicais e torácicas, mas quando grita a lateral direita na altura da L3, nenhuma outra voz merece escuta. Nem mesmo a minha, dona do corpo choroso que abriga essa briga entre a fisgada e a tentativa de (inconcebível) relaxamento muscular. 

Há três longos dias e noites, toda a atenção voltada para o desconforto. Falam as vontades e eu calo, convidam as músicas e eu paro, empenham-se os livros e dou de ombros (com todo cuidado do mundo). Mãos nas costas e suspiro interrompido. Bolsa de água quente almofadas afofadas uma aqui outra lá.

Se é a primeira vez que travo as costas? Não, escoliose desde pequenininha. Ocorre que tem feito muito frio em São Paulo e as noites geladas convidam para dois agravantes e uma impossibilidade de tratamento. A começar por Mia, a gata que ao primeiro despencar de termômetros  transforma-se em uma criatura adesiva. Coabitamos 50 centímetros de cama em um balé lento e desastrado que contém uma humana cuidadosa e praticamente imóvel e uma gata com sono levíssimo e grande potencial para acordar aos miados todos  os membros da casa. Seguido pelo corpo tenso, resposta à sensação térmica de um dígito. Tudo isso embrulhado na falta de coragem de colar um emplastro de uma vez e sentir o gelo cortante desconsertar a birra da coluna.

Uma mãe penosamente torta que observa agora, a criança de 23 quilos retorcida no sofá, olhos fechados, sono garantido de quem ainda funciona em seu completo potencial. O roteiro aponta para um colo mais cama que me soa como o pior dos cenários. Tento acordá-la daqui, desde o “meu amor vamos deitar” até o “levanta que estou te chamando” sem nenhuma chance de obter sucesso em um futuro próximo. 

A cena a princípio trágica, me devolveu à chegada de minhas filhas, quando passei a sentir com mais frequência a lombar, resultado dos colinhos que àquela altura eram um presente cansativo ainda que muitíssimo bem-vindo. “Só sossega no meu colo” lembro de dizer convencida mesmo sabendo que mentia. Como dorme lindamente minha menina. É meu primeiro sorriso em três dias. Os filhos e suas fisgadas.

A imagem que ilstra este texto é de Russell Thurston

13 de agosto de 2018

Em casa

Em casa

O convite para agosto que marca a metade do ano, a metade de um caminho é fazer do meio começo

Você abre a porta, tira os sapatos, ainda no corredor, senta no sofá na pior de suas posturas e suspira aliviado. Está em casa. É ali, que é possível desabotoar a calça depois do jantar, tomar banho com a porta destrancada e seguir de pijamas até o meio dia de sábado. Se não é, deveria.

É preciso que se tenha esse lugar. Um lugar para ser em versão completa, sem filtros. O exercício de fazer da casa um intervalo na agonia do mundo, nos sinais quebrados, nos dias de chuva quando se esquece o guarda-chuva é grande, importante. Repõe o fôlego para o programar e desprogramar do despertador. Embora a psicanálise nos ensine que aquela outra muito engraçada, que não tem teto, não tem nada é a casa que deveria estar na nossa mira. 

Obstáculos para conquistá-la não nos faltam a começar pelo maior deles: ela não tem chão. Ainda assim com dois nãos na frase que sugere entrada, a casa sem paredes merece visita. A casa sem parede somos nós. E sem parede não significa sem limites com o mundo, mas com a possibilidade de ser versão completa até na agonia do mundo. Somos um lugar. E é preciso que se ocupe esse lugar. Mala, cuia, fotos na parede, cachorro e gato. 

O convite para agosto que marca a metade do ano, a metade de um caminho é fazer do meio começo. Abrir a porta, entra e ficar. Cada vez mais presente, cada vez mais calça desabotoada, cada vez mais em casa. 


Leia mais: Um canto todo seu 

E também: Salve-se como 

A imagem que ilustra este texto é de Michael Vincent Manalo

30 de julho de 2018

Estamos prontos para desaprender?

Estamos prontos para desaprender?

É tempo de questionar, de falar, de se fazer presente, de parar de ‘se comportar bonitinho’.

Tive a alegria de ouvir, na última sexta-feira, Bárbara Esmenia recitar um poema do seu último livro publicado pela Padê Editorial. Um experiência presenciar a força dessa mulher assim de tão de pertinho, assim ao vivo.

Em um momento de sua fala, Bárbara nos lembrou a imagem que guardamos dos poetas: homens, europeus, já mortos, de uma outra época, de um outro lugar. Não estava posta ali a defesa para que eles deixassem de ser lidos, mas o convite para visitar também o que é nosso, o que nos diz respeito, o que nos aproxima das nossas vivências ou ainda melhor, que nos apresenta a vivências outras. Dos nossas, das nossas. 

O poema que comentei no início deste texto me soou também como um chamado. Quero me juntar ao “Nós” que fala em “Desaprenderam Vocês”, busco também desaprender. Questionar o que é certeza. Refazer o que está pronto. Manter o olhar crítico. Ouvir e falar.

Saí de lá com a certeza de que precisamos mesmo ouvir mais, sempre. Mas que também é tempo de falar, de se fazer presente, de parar de ‘se comportar bonitinho’. Estendo o convite a você leitora: qual é o significado do que vem sendo silenciado em você? Quando falta a voz, qual é o nome do que te mantem calada? O que deixou de ser dito na reunião de trabalho, no jantar de família, na conversa com os amigos? Para quando guardamos o que queremos comunicar? Para quê? E para quem? Falemos. 

Viva a poeta viva!

A imagem que ilustra este texto é de Lim Miryang

17 de julho de 2018

Doce de jaca

Doce de jaca

Memórias construídas não a cimento e tijolo, mas a jaca, açúcar, coco e jogos de talheres incompletos

Pai, mãe e duas filhas tinham o desejo de ter uma casa na praia. Moravam pertíssimo do mar, morariam quase na areia alguns anos depois dos dias da “faca de se jogar fora”, e ainda assim nutriam a fantasia da casinha avarandada, com uma rede para cada um, um terraço cheio de vento quente, uma padaria para comprar pão doce de goiabada ruim (mas bom), um carro com o porta-malas cheio às sextas-feiras, um domingo de volta para a cidade. Tinham os quatro o sonho de construir memórias de veraneio.

Nunca compraram a casa, chegaram a ter um terreno e um desenho na mão, mas venderam o lugar antes do primeiro tijolo. Vez por outra, separavam um janeiro para testar o litoral. Como se comprometer sem antes experimentar a geografia? Tamandaré, Carneiros, Serrambi. Voltavam cheios de promessas e braços marcados de sol e muriçoca. Mas bastava março encostar em fevereiro e os planos das férias de julho se avizinharem para biquínis e projetos encontrarem espaço no fundo da gaveta.

Ontem, depois de um almoço no inverno paulistano gelado, tive a certeza de que mesmo sem a casa, vivemos uma infância de rede e vento quente. Veraneamos. Estávamos, meu companheiro e eu, em um restaurante nordestino, entregues a carne de sol, cuscuz e macaxeira molinha, queijo coalho e manteiga de garrafa. Já certa de negar a sobremesa e partir para o café coado, na vontade de desabotoar a calça tamanha a devoção gastronômica, ouvi dele o pedido. Queria quebra-queixo e doce de jaca. Pelo menos uns vinte anos me separavam da última vez que comi jaca. 

Já na primeira colherada do doce, lembrei-me de meu pai que a cada uma das casas de temporada alugadas, emprestadas, visitadas, resmungava aos risos que a faca que descascara a jaca para o doce era agora de se jogar fora de tão grudenda. Minha mãe levava os bagos da fruta para o fogo com água e açúcar e precisava de menos de meia hora para transformar os três ingredientes na melhor sobremesa do mundo. Lembrei-me de minha irmã me levando pelo braço enquanto perseguíamos o barulho do sininho do vendedor de quebra-queixo, patrimônio imaterial das tardes do litoral pernambucano. 

Memórias construídas não a cimento e tijolo, mas a jaca, açúcar, coco e jogos de talheres incompletos. Viva Ana Maria, João e Poly: minhas férias, meus doces, o sol nordestino que carrego sempre comigo. 


A imagem que ilustra este texto é de Diana Nicholette Jeon

03 de julho de 2018

Um canto todo seu

Um canto todo seu

Importante pensar em que lugar estivemos, estamos e queremos estar. Desde o coletivo até as decisões individuais.

Mudo meu consultório de endereço esta semana depois de um período memorável de rua Itambé. Um espaço pensado em cada milímetro, sonhado em cada taco, planejado em cada xícara de café. Paquero o prédio há muitos anos, desde o primeiro dia da formação em psicanálise e a partir de agora, é de lá que escutarei meus analisandos – os presenciais e os via Skype –, que escreverei meus textos, que me sentirei próxima de cada um de meus leitores (são 14 colunas semanais no Brasil, no Canadá e nos Estados Unidos). Será também de lá que cultivarei a delícia do silêncio. 

A semana da mudança coincide (!) com a leitura que concluí hoje: Um teto todo seu de Virginia Woolf, um livro que recomendo com força, que reli algumas vezes, que me faz muitíssimo sentido. O texto é resultado de uma palestra dada pela autora em 1928 sobre a produção literária feminina, a posição da mulher na sociedade de então e suas consequências para a expressão e a escrita da época.

Importante pensar em que lugar estivemos, estamos e queremos estar. Desde o coletivo até as decisões individuais. Me peguei pensando no valor que venho dando a meus desejos e confesso um certo orgulho pela semana que começa. Esta coluna é uma tentativa de incentivo. Uma lembrança para que você, que me lê agora, esteja atento às suas paqueras. Pode ser um consultório, uma viagem, uma mudança de carreira, um amor. Se há algo que te povoa a cabeça por um tempo, que vai e volta com uma certa frequência, que vez por outra surge em um sonho, invista. Tempo, energia, recursos. Ponha mais de você, na sua vida, se implique. Procure um teto todo seu. Tenho certeza que você merece.


A imagem que ilustra este texto é de Jackie Weisberg