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Notícias Nosso Filhos

08 de abril de 2019

Por que sentimos inveja?

Por que sentimos inveja?

A vida completa que temos é uma só: a nossa. Que seja possível concentrar-se nela.

“ – Por que eu não sou um Guiomar Novaes?... 

–Por que eu não fui estudar na Europa?... 

–Se eu tivesse ido, eu seria uma Guiomar Novaes!...”.

A fala é de Ernesto Nazareth. Segundo a (ótima) pesquisa realizada pelo Instituto Moreira Sales, foi dita e redita por ele depois de um recital de Guiomar Novaes no Theatro Municipal. Durante a apresentação, Nazareth teve uma crise de choro, saiu do teatro e pegou o primeiro bonde, onde repetiu inúmeras vezes o trajeto de uma estação final a outra. Até chegar em casa para lamentar não o que era, mas quem não era.

Você conhece o Ernesto Nazareth? Talvez sim, talvez não. Mas é bem possível que conheça esse lamento. Esse desejo, ainda que temporário, de ser um outro, ou uma parte dele. Inveja? O Michaeles define a palavra como um desejo muito forte de possuir ou desfrutar de algum bem possuído ou desfrutado por outra pessoa; avidez, cobiça, cupidez. 

'Algum'. Um desejar que não se sabe todo, desejo de parte. De Guiomar Novaes, Nazareth queria o talento e a experiência vivida na Europa. Só e nada mais. Embora seja impossível saber o que fez o talento possível, o que veio antes ou depois dele, saber da experiência completa do período fora do Brasil, o que foi preciso, ou possível viver por lá? Nazareth não sabia o que significava ser um Guiomar Novaes. Talvez (e muito provavelmente) nem mesmo o Guimar Novaes tenha tido essa dimensão. 

O que pensamos conhecer e, por que não, o que invejamos no outro além de ser parte é pouco preciso – a princípio no sentido de precisão, mas em uma análise mais profunda no sentido de necessidade mesmo. Aquela viagem à Europa (para ficar no exemplo de Nazareth) acompanhada nas redes sociais, é um fragmento de viagem. É uma imagem congelada de um filme longo e complexo. Aquele talento arrebatador, aquele acerto desconcertante do colega de trabalho é retalho de vida. A vida completa que temos é uma só: a nossa. Que seja possível concentrar-se nela. E sim, em um único clique no youtube você descobrirá que conhece o Ernesto Nazareth. Ele foi grande e sinto pensar que precisou chorar por não saber. Boa semana queridos.

A imagem que ilustra esse texto é de Elaine Breinlinger

06 de abril de 2019

Desde quanto mansa é elogio?

Desde quanto mansa é elogio?

“A ovelha mansa mama na sua e na alheia. E a brava nem na sua nem na alheia”

Ouvir a conversa dos outros é feio? É. É irresistível? Também. Eu faço? Desde pequenininha. Amo e desenvolvi técnicas eficientes de disfarce para que os falantes não se incomodem com a minha escuta curiosa. Os restaurantes são meu terreno favorito para a prática, mas museus, rua aberta, cafés, livrarias, salas de espera e pracinhas também funcionam perfeitamente. Foi nesta última que ouvi o diálogo que reproduzo aqui. 

Eram duas mães desfilando elogios a uma criança que, aparentemente, era muito diferente das suas, que tomavam o sol ali no carrinho.

–Queria que a Malu fosse como a Cacá, ela é muito boazinha, dorme a noite inteira. Quase não chora.

–Sim. Tão mansa. Sábado, ficou quietinha olhando o Leo pegar os brinquedos dela. Era meio dia e a menina não reclamava de fome, nem de calor, uma graça.

Eu não vi graça. Senti por Cacá. Desde quando não chorar, se deixar invadir, calar diante da fome e do calor é invejável? Desde quando ser mansa é um elogio. Mansa? Senti pelas mães, querendo um outro filho, incapazes de olhar para os seus  bebês, de escutar seus barulhinhos reclamando o direito sair dos carrinhos e aproveitar a praça. Senti por Malu e por Leo que dali do carrinho, ouviam os shhhhs das mães que ao terem a conversa interrompida balançavam as crianças em um tipo de consolo desagradável e sem sentido. Que dali, ouviam as mães desejarem que fossem outro. Senti por mim que, atenta à conversa e desatenta ao exercício da empatia, fui inábil no meu mantra de observar sem julgar. Quem sabe se não estavam jogando conversa fora, quem sabe se não criticavam veladamente a postura da menininha...

De qualquer modo, conheço meu incômodo. Cresci em uma família que tinha também um mantra para chamar de seu. Mãe, tias e avós repetiram durante grande parte de minha infância que “A ovelha mansa mama na sua e na alheia. E a brava nem na sua nem na alheia”. Era um chamado para a menina boazinha e mansa que fui durante muitos anos. Que tentamos ser, nós mulheres, durante muitos anos. Um seta iluminada e piscante dando ordens de para onde, como e quando se deve ir. Pois quebrei cada uma das luzes desta danada com alguma dificuldade, mas com muito gosto. Seta no lixo. Em minha casa, para minhas filhas, essa frase nunca foi repetida. Boazinha, mansa e calada não. Que chorem, reclamem e peguem seus brinquedos de volta. E que façamos também o mesmo. Boa semana queridos.

A imagem que ilustra esse texto é de Ofir Dor

03 de abril de 2019

Você se interessa pela vida dos outros?

Você se interessa pela vida dos outros?

Há tempo para tudo. Para o real e para a ficção

Esses dias, uma amiga comentou que perdera o entusiasmo pela ficção há bastante tempo. “Será que já não quero saber das histórias dos outros?”, me perguntou com alguma preocupação? “Meio sério isso, não?”. Vindo dela, respondi rapidamente que “não, tá tudo certo!”.

Quando a encontro (como no dia em que tivemos essa conversa) é quase possível respirar seu interesse no que penso sobre isso ou aquilo, no que sinto, no que quero dizer quando falo, no que leio, no que vivo. Uma escuta generosa e atenta que encontra em mim total reciprocidade. Claro que se encanta pelo outro, claro que valoriza, se preocupa e se deixa enternecer. Acontece que tem raízes profundas que não se contentam com o que não encontra paralelo com o real. É pés plantados no chão, sonhos possíveis e fatos comprovados. Minha amiga não-ficção.

Lembrei-me dela ontem. Saí para comprar flores e não consegui escolher uma se quer. Trouxe plantas em jarros. Sempre amei flores em casa, de todos os tipos, mas ando em uma fase plantas. Das que não são trocadas no fim da semana, das que precisam de cuidados: água, vitamina, poda e mudança de vasos. Das que crescem conosco, surpreendem com uma folha nova (ou até um cogumelinho), amarelam e, eventualmente, despedem-se. Natureza não-ficção. 

Há tempo para todo tipo de história, não é? E vocês? Como têm lido o mundo?


A imagem que ilustra este texto é de Dado Schapira

15 de março de 2019

Estou louco?

Estou louco?

Quem nunca se fez essa pergunta?

Em resposta à uma de minhas colunas passadas, recebi algumas (muitas – que bom!) mensagens. Eram depoimentos, perguntas, comentário, descontentamentos. Dentre elas, uma em particular chamou a minha atenção. Faço aqui a reprodução exata do e-mail enviado da Austrália (embora este texto não seja publicado por lá, há alguém nos lendo de longe – novamente, que bom!):

Roberta
Minha vida é ótima. Família. Trabalho. Amores. Até conta bancária. Gosto de mim. Gosto de tudo. Gosto. Não mudaria uma vírgula. Ainda assim quero fazer análise. Quero começar já. Se possível hoje. Estou louco?*

Meu trecho preferido é, sem nenhuma dúvida, o “Na verdade não mudaria uma vírgula”. Por que? Porque no e-mail inteiro, nenhuma vírgula foi usada. Nem umazinha. Um e-mail enviado para alguém que não vive sem vírgulas, parênteses, travessões, dois pontos, reticências – muitas reticências. Para alguém que não vive sem pausas, idas e voltas em um discurso que não cansa de se pensar, de se revisar, de se visitar. 

Pontos finais (como usou 12 vezes meu interlocutor de terras distantes em um e-mail de 35 palavras – quase 3 por palavra) são marcas de certeza, de fechamento de raciocínio. Já vírgulas são janelas. Abrem possibilidades, abrem novos pontos de vista, furam convicções. 

Na menção de uma vírgula inexistente está posta a oportunidade para todo e qualquer tipo de sinal de pontuação. Na menção da grande dúvida que finaliza o texto, está posta a oportunidade de questionamentos outros (tantos). Bom fim de semana queridos. 

* Como sempre gosto de lembrar, o remetende desta mensagem foi consultado para autorizar a publicação do seu conteúdo.  

13 de março de 2019

Quantas vezes você reprogramou o despertador hoje cedo?

Quantas vezes você reprogramou o despertador hoje cedo?

E o que isso diz sobre você

Quantas vezes você reprogramou o despertador hoje cedo? E o que isso diz sobre você

6h, 6h05, 6h10, 6h15, 6h20, 6h25. Ainda que o objetivo seja levantar às 6h30, não é incomum ver a programação do despertador anteceder o horário previsto. Acordar para saber que ainda se pode dormir mais um pouquinho. Menos raro ainda são os novos números que surgem acompanhados de um milhão de "Se abrir mão da minha caminhada dá tempo", "Só se eu não lavar o cabelo", "E se eu não tomar café"... De 5 em 5 minutos um sono ruim, cortado que obedece a todo tipo de rodeio. Já às 7 da manhã, está dada a certeza de que boicotar-se é mais fácil do que parece.

O despertador se presta a ótimas metáforas. Aqui estão ilustradas as minhas favoritas:

1. "Ainda bem que falta meia hora" = A delícia de saber que se pode mais

Loucura. O deleite de um segundo. O que nos faz optar pelo prazer mínimo em detrimento da manutenção do grande prazer (do sono)? Contentar-se com pequenos sopros de 5 minutos, e levar para casa 5 decepções do toque do telefone. É a cultura do agrado. "Estou me agradando, para isso sei que sofro, mas é que é tão bonzinho...". Sei…

2. "Só mais um pouquinho" = Abrir mão do que se quer (fácil e rapidamente)

Loucura. Dá até pra confundir com flexibilidade, mas tem certeza de que se trata disso? Um bom jeito de testar é trocar o compromisso estabelecido com você por um compromisso com uma outra pessoa. É uma reunião no trabalho, você vai faltar para acordar meia horinha depois? Se sim, flexibilidade. Se parece mais difícil do que faltar às reuniões com a sua caminhada, seu cabelo ou seu café da manhã… Sei…

Para as duas, tenho também duas perguntas:

1. Estamos nos dando o tempo de que precisamos? Estamos esperando nosso tempo de estar prontos? De quantas horas de sono você precisa? 6, 7, 8 horas? Pois durma 6, 7, 8 horas. É isso, sem mistério. Deite mais cedo, se organize. E leve essa reflexão para outros lugares da vida também. Há o tempo de um aprender um fazer, de mergulhar em um relacionamento, de melhorar de um mal estar, de curar uma doença, de fazer uma refeição, de viver um dissabor, um luto, um amor. De quanto tempo você precisa? Pois se dê esse tempo. Ponto.

2. Estamos olhando – de verdade – para o nosso desejo? Quais são os planos para às 7h de hoje? E para amanhã, semana que vem, mês que vem e depois? Que tal trocar o que eu queria querer pelo que eu quero de verdade? Pelo que me faz sair da cama de verdade? Que tal?

Tudo isso dito por alguém que esqueceu de carregar o celular e saiu de casa sem caminhada e sem café. O cabelo eu lavei, juro! Boa semana queridos e vamos despertar!

01 de março de 2019

Como não responder e-mails sem se sentir culpado

Como não responder e-mails sem se sentir culpado

Acredite, é possível!

Há poucas coisas em minha vida que me alegram tanto quanto o espaço de troca que cultivo aqui nesta coluna. É um contato semanal que tenho com leitores de jornais impressos e digitais do Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rondônia, Roraima, Tocantins, Estados Unidos e Canadá. Conversa que começa com o texto enviado e continua durante a semana inteira com o contato dos leitores que me acham no e-mail e nas redes. Espaço precioso de falar e ouvir. 

No entanto, há semanas em que algumas mensagens ficam sem respostas. Não por falta de tempo, ou interesse. O tempo é curto, mas é administrável, é governado pelo desejo. O interesse é grande, é presente, divide com o tempo o mesmo governador. Ambos são elásticos. Que bom. Mas elas – as respostas – essas têm limites. E por vezes, precisamos lidar com a falta delas.

E lidar com as não respostas é lidar também com o não saber, certo? Meu exercício sempre foi o de trocar um pelo outro. Responder sempre, ainda que com um "não sei o que dizer". De uns tempos para cá, tenho me permitido uma certa ausência. Tenho me permitido mais tempo. O tempo do interesse verdadeiro. Nossa urgência em responder à demanda do outro muitas vezes nos atrapalha (conversamos sobre isso na semana passada, lembram?) e atrapalha o outro também.

Tudo isso para contar um caso que me ocorreu ontem mesmo. Era o retorno a um e-mail do dia 2 de fevereiro que ficou parado na minha caixa de rascunhos. Vinha pensando sobre ele desde então. Ontem, logo depois de acordar, me coloquei a escrevê-lo. Ainda estava no "Olá caro Fernando", (Fernando que, naturalmente, autorizou este comentário) quando vi pular na caixa de entrada uma nova mensagem que tinha como remetente meu futuro destinatário. Ele dizia: Roberta, estive aqui pensando em sua resposta silenciosa e… 

Meu fazer na clínica me convoca diariamente às respostas silenciosas. Mais do que isso, aos silêncios que abrem espaço para que novas questões surjam. Sempre estive mais interessada em ampliar, amplificar, expandir. A troca que nos propomos aqui não é clínica, não é análise o que praticamos em nossas mensagens que vem e vão. Mas é lindo perceber que, para além da análise, há espaço para andarmos juntos no desejo de crescer nos questionamentos, de mergulhar mais fundo. Que bom nos ver dando conta das faltas. Fernando, obrigada. 

A imagem que ilustra este texto é de A Weyer

27 de fevereiro de 2019

Socorro! Não sei dizer não

Socorro! Não sei dizer não

O não pode mesmo ser difícil (e é muitas vezes), mas está na prateleira ao lado do sim. Lembre-se de usá-lo quando for preciso. Ou melhor, quando for de sua vontade.

– Sim, claro que pode!

Respondeu a mãe à outra mãe que convidava a menina para dormir na casa da amiguinha. Voltavam de um passeio que começara no início da tarde, lá pelas 18h se deu o diálogo ao telefone. Quem tem filhos em idade escolar costuma estar com frequência em um ou outro lado desta pergunta. 

A mãe da convidada aproveitou então o restinho do dia para emendar um cinema. Assistia ainda aos créditos quando recebeu a mensagem da filha:

– Mãe, tenho lição pra fazer. Não preciso mesmo voltar pra casa? 

Talvez não seja nem preciso dizer que era a primeira semana de aula (que lição?) e que a menina estuda à tarde e poderia perfeitamente completar suas tarefas na manhã seguinte. Pois quem tem filhos em idade escolar costuma estar em outro lado desta pergunta. A mãe, automaticamente, leu nas onze palavrinha da mensagem, uma outra que estava ali escondida e que provavelmente dizia:

– Mãe, minha amiga quer que eu durma aqui e eu não sei dizer que não quero. Socorro!

Duas questões se apresentam neste breve recorte de vida. 1. Por que é tão difícil dizer não? Por que dá medo? Medo de quê? 2. O que faz a mãe acreditar que o pedido já configura uma aceitação da filha? Como se mãe e filha fossem uma só pessoa. Como se o poder estivesse sempre sobreposto ao querer. O convite pressupõe duas camadas (a criança está autorizada a + a criança está com vontade de).

O recorte nos serve também para pensar os convites que a vida adulta nos faz. Das festa, às propostas de trabalho, das horas extras ao happy hour, das configurações de um novo relacionamento às relações já estabelecidas. O não pode mesmo ser difícil (e é muitas vezes), mas está na prateleira ao lado do sim. Lembre-se de usá-lo quando for preciso. Ou melhor, quando for de sua vontade (olha esse 'ser preciso' nos assombrando de novo!). E quando ele – o não – teimar por não sair de primeira, seja você mesmo a sua mãe, saia do cinema carregando a pipoca antes do filme começar, e corra para se buscar onde quer que você esteja. Há de haver alguma lição em casa para fazer. Nem que seja escrever quantas vezes couberem no seu caderninho mental: não, obrigada.

A imagem que ilustra este post é de Lopéz García

14 de fevereiro de 2019

O barulho da mudança

O barulho da mudança

Será que ouvir o barulho da mudança do outro nos põe em contato com nossa própria inércia?

O barulho da mudança

Recebi no início de novembro uma cartinha dos vizinhos que acabavam de comprar um apartamento no prédio. Começariam naquela semana uma reforma. Eles pediam desculpas pelo transtorno e comunicavam cada uma das etapas e seus devidos prazos. Uma delicadeza. Simpatizei automaticamente com o casal que ainda não chegou em definitivo.

Sim, fevereiro já chega na metade e a reforma segue com força. Das etapas estruturais que estariam prontas em ‘no máximo’ três semanas, ainda não sinto qualquer tom de despedida. A impressão que tenho todos os dias (exceto aos domingos), pontualmente a partir das 8h, é a de que ainda estamos derrubando paredes. Quantas paredes há mais para serem derrubadas não sei. Mas o martelo não descansa. A poeira não cansa de invadir o meu apartamento. E eu cansei. O transtorno beira o insuportável.

Veja bem, não sou contrária a reformas, mas isso não faz com que eu goste delas a 100%. Mudanças (de qualquer tipo) me/nos são incômodas. Costumam se apresentar sedutoras: “Desculpem o transtorno…”, “Nunca mais preciso olhar na cara desse chefe”, “Agora que virei mãe”… Dificilmente tardam a fazer barulho. Que parte de nós se aborrece tão rapidamente com o coitado do vizinho que comprou um apartamento de 60 anos que pre-ci-sa (!) de reforma?

Será que ouvir o barulho da mudança do outro nos põe em contato com nossa própria inércia? A vida precisa de reforma minha gente, de manutenção eterna. E, não quero ser eu a dar a má notícia, mas quanto mais adiadas forem, mais complicadas ficam. A escolha é sua, dá pra derrubar parede, trocar o encanamento e a elétrica, ou só pintar e dedetizar. Mas o fato é que vai fazer barulho. É chato, mas (quase sempre) a gente dá conta.


A imagem que ilustra este texto é de Khatuna Jibladze

07 de fevereiro de 2019

Amaciante

Amaciante

Recomeçar, olhar para si sem filtros e sem medo, simplificar, dividir, arrumar e até reformar é preciso.

Era madrugada e o calor de São Paulo me levantou da cama. Entendi que meu corpo seco precisava com urgência de um copo de água fria. Os últimos dias têm sido lindos por aqui e têm sido também desafiadores. Quentes. Muito quentes. O filtro de casa está ao lado da porta da lavanderia, que normalmente permanece fechada. Mas a noite  de ontem não era normal e qualquer possibilidade de passeio de vento nos pareceu uma boa ideia. A porta, portanto, estava aberta. E foi este detalhe fora da rotina que me fez experimentar o grande susto.

No escuro da noite vi sorrisos de ponta-cabeça, cabelos longos coloridos balançando, pernas peludas despreocupadamente penduradas, bebês que já não choravam, cachorros, girafas, baleias e ursos. Dez segundos de terror seguidos por um alívio que cheirava a amaciante. Ocorre que a manhã deste dia de verão quase agressivo tinha começado antes do previsto com espirros e tosses. Ficou claro que era preciso se livrar do máximo de poeira possível para continuar respirando por completo. Decidimos que era hora de uma limpeza profunda no quarto das crianças. Tudo que estava lá foi transportado para outros cômodos, limpamos, separamos o que já não fazia mais sentido, o que poderia passar a fazer sentido para novos donos, reorganizamos, recomeçamos.

E eu poderia lhes contar sobre a importância destes recomeços. Poderia lhes falar sobre a necessidade de tirar tudo das prateleira e dos armários e olhar para quem somos sobre outra perspectiva, em outro cômodo. Poderia relembrar a urgência de simplificar nossas vidas, de ter menos, de dividir mais. É mesmo urgente. Poderia até gastar parágrafos na existência perigosa, aflitiva e (ui!) íntima dos ácaros que nos rodeiam.

Mas o que ficou em mim, o que eu gostaria que ficasse em vocês, foi a imagem das crianças na manhã seguinte quando desceram o varal. Abraçaram cada uma das bonecas e dos bichinhos, quando guardaram de volta na prateleira um por um, quando os chamaram pelo nome, soltando, aqui e ali, um “lembra daquele dia?”, “esse foi a vovó que deu”, “dormiu bem querido?”, quando pentearam os cabelinhos já desgrenhados, quando comentaram que a casa estava cheirosa, que o quarto (que confesso, anda precisando de uma série de ajustes, para não mencionar a mais assustadora das palavras, anda precisando de um reforma) estava lindo. Quando me deixaram perceber que valorizam as suas histórias, que gostam de quem são.

Recomeçar, olhar para si sem filtros e sem medo, simplificar, dividir, arrumar e até reformar é preciso. É pra ontem. Mas parar um segundo pra pôr a vida que a gente já tem – essa meio descabelada mesmo – na máquina, deixá-la cheirosinha e macia pode ser também um convite para 2019. Eu que sempre desejei para meus leitores o desafio, o novo, o melhor, desejo também – para nós – o conforto do simples e do possível. O conforto de ser quem se é. Até semana que vem queridos.


A imagem que ilustra este texto é de Maisie Marie

02 de fevereiro de 2019

O medo

O medo

Visto assim (de longe) é até bonitinho, não é?

Balançavam as bochechas já vermelhinhas. Voava uma mecha assanhada do cabelo preso em uma trança cuidadosamente descuidada. Escapavam uns “uis!” daqui, uns “ops, desculpa!” dali. Era uma entre tantas. Estamos todos em um eterno comercial de blush em São Paulo nos últimos dias. Faz calor. Mas não era só calor. Havia ali um misto de calor e euforia de quem vivia uma peripécia, uma expressão de quem ultrapassava o (próprio) limite.

De velocidade talvez. Estava mesmo mais veloz do que nós que caminhávamos no sábado quente de feira e pracinha. Cabelos, os nossos, sem vento. Os “uis” eram os mesmos. Uma velocidade que beirava o perigo. 

Foram instaladas, por aqui, estações de patinetes elétricos que podem ser alugados por hora. A moça andava em um deles. Entre o descontrole de quem parece não reconhecer que não domina a destreza da coisa e o medo das rampinhas que separam uma calçada da outra. Mini rampinhas. E veja bem, ela protagonizou um ou dois quase encontrões com pedestres distraídos, cruzou entradas de garagens sem parar pra olhar, pendurou a mochila (fio a um centímetro do pneu, louco pra enroscar e fazer valer qualquer preocupação que envolvesse a cena), cruzou a rua sem esperar o sinal…

Ainda assim, descia do patinete com olhar de prudência e o carregava andando para vencer um ou outro entre-calçadas que lhe parecia perigoso e que, muitas vezes, nem de altura mudava, variava só na estampa. O medo pode ser enternecedor. Era claro, para quem conservava como eu o lugar de observador, que de todas as ameaças, aquela era a que oferecia menos riscos. No entanto era justo ela que fazia a moça assanhada perder (ainda que momentaneamente) o espírito de aventura.

Os grandes entraves da vida podem ser uma ilusão de ótica. Não é mesmo?


A imagem que ilustra este texto é de Ilya Volykhine

19 de novembro de 2018

I want to break free

I want to break free

Sobre bancar nossos desejos – a começar pela escolha de um filme

Eram duas da tarde do último sábado e a sala do cinema estava cheia. Sentei na F1, porque se tem uma coisa da qual tenho alguma dificuldade de abrir mão é a escolha da cadeira do corredor (fácil de sair rapidinho se for preciso). Ninguém me ensinou esse truque. Embora desde muito cedo tenha sempre optado pelas laterais. Shows, salas de aula, avião. Chego, localizo a saída e me ponho ao alcance dela. 

Os trailers cismaram em demorar mais do que o normal. Começou o filme. Nenhuma afeição extra à banda me levou àquela escolha, pensei em me arrepender, pensei em implicar, mantive o celular ligado, olhei para ele um tanto de vezes. Até que a história desenrolada na tela fez ser possível sentir o doce da pipoca ficar mais doce, a água mais fresquinha, o pescoço mais leve no espaldar da poltrona. Cantei baixinho os refrões, me entreguei à delícia de uma sessão solitária e descompromissada no meio da tarde. Nossa, fazia tempo.

Era sobre liberdade e confiança (em si e no outro). Era sobre lidar com as consequências dos próprios atos. Era sobre celebrar a vida em toda a sua complexidade. Era sobre estar diante de um fim. Lindo o filme. Nem perto da lista dos memoráveis, ainda assim comovente. De minha tarde de sábado, posso dizer que foi das mais lindas. Posso dizer que dificilmente esquecerei dela. 

Na sala ao lado, estava minha filha mais velha. Optou por outro filme. Com a naturalidade, a independência e a segurança herdadas do pai (que herança linda Henri, obrigada), propôs que cada uma de nós bancasse o seu desejo. “Veja o seu mami, eu vejo o meu”. Sua primeira sessão de cinema sozinha, minha paulistana raiz. Não quis a poltrona do corredor. “Pra mim, tanto faz”. Sinalizou ontem o fim da infância. Uma menina grande dona das suas próprias escolhas. Break free Lalá, desliga o celular, inventa teus próprios truques, entra sem pensar em sair. Vai. A vida é pipoca doce.

A imagem que ilustra este texto é de Zinaida Sibirtseva

17 de setembro de 2018

Ninguém sabe tudo (nem eu e nem você)

Ninguém sabe tudo (nem eu e nem você)

E já que o erro é democrático, questionar é preciso

Solucione o problema e corrija o enunciado se necessário. Era a primeira frase da lição de matemática que minha filha mais nova concentrava-se para responder. Tentou achar solução possível sem trair a certeza de que o que é oficial (o que vem de fonte segura – a professora) não carece de correção, mas ela acabou por canetar o papel. E com tinta vermelha para garantir o pacote completo.

Naturalmente o equívoco da lição era proposital. Tenho 56 canetas e sete estojos, quero dividi-las em quantidades iguais, de quantos estojos preciso? Estão lançadas aí duas dificuldades que são, para mim, absolutamente ilustrativas de nosso tempo: 1. Tem nos interessado dividir em partes iguais? 2. Em que medida naturalizamos a prioridade da quantidade de estojos em detrimento da quantidade de canetas? 

Que exercício interessante esse, não? Para além da divisão, operação sobre a qual dedicam a atenção neste semestre, está posta na tarefa a abertura para a dúvida, mais do que isso, esta posta a notícia de ouro: o erro é democrático. Dos professores aos pais e alunos, erramos todos.

E já que ninguém sabe tudo, questionar é preciso. Propor reparo e, para tanto, oferecer as suas ideias, pôr à prova um raciocínio capaz de não somente apontar o erro (que pode inclusive ser o seu), mas de dar conta de uma equação. Que essa medida ultrapasse os enunciados e se torne um hábito. Faz-se urgente.

A imagem que ilustra este texto é de Lee Clement

10 de setembro de 2018

Repensar, refazer, remexer

Repensar, refazer, remexer

O que um seriado nos conta sobre nosso próprio passado

Depois de alguns meses de resistência, conseguimos finalmente juntar o interesse de todos da casa em torno de um mesmo seriado. Trata-se de Anne with an ‘E’ exibido pela Netflix desde março de 2017. A produção canadense é baseada na história original de Lucy Maud Montgomery escrita em 1908. Somada a produção excelente (fotografia e direção de arte pra lá de cuidadosas) e a doçura no ponto certo do açúcar, a série surpreende tamanha a atualidade. Recomendo com empolgação especial às famílias de adolescentes e pré-adolescentes.

Para além dos temas encostadinhos nos que vivem nossos filhos (o pertencimento – ou não – ao grupo, as dificuldades na escola, as paqueras, as questões com a própria imagem, o começar a entender as possibilidades e portanto o medo e o desejo de mergulhar nelas todas) há uma camada na história que me comove a cada capítulo: a chance que as crianças nos dão de ressignificar o nosso passado.

Em um dos episódios da segunda temporada (contém mini spoiler), Matthew Cuthbert, representado por R. H. Thomson, se vê acidentalmente no palco com a responsabilidade da fala final do espetáculo de natal da escola da filha nas mãos. Ali, ele cura a recusa traumática de participar da sua própria apresentação escolar. Uma ilustração da potência do papel de coadjuvante que o papel de pais nos oferece. Bonito de ver. Impossível não se reconhecer na cena. 

A parentalidade nos permite dar as mãos à nossa criança interior, abraçá-la sempre que for preciso e dizer para ela que “passou, está tudo bem”. Que presente, não?





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