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Notícias Sebastião Nery

17 de dezembro de 2018

Rubens e Eunice

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu.

 Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

- Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço. Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou: 

- Você brigou com o tio Rubens?  Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata. - Foi melhor assim.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher:

- Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.

Não fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguém chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou: 

- É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a noticia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:

- Minha filha está com vocês?

- Está, sim. O que aconteceu?

- Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir. 

Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone  (“223.1512  e  227.5362”), me entregou (guardo até hoje):

- Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro. 

Eu o conhecia desde 1953.Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por São Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva e também à de Waldir Pires. Ninguém devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.

Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Bournier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita.

Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado”.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu esta semana.

www.sebastiaonery.com   [email protected]

10 de dezembro de 2018

A educação e o PIB

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento. Sua ausência determina baixíssima qualificação da mão de obra resultando na baixa produtividade. Educação e economia estão integradas na ordem direta de um país responsável que almeje pela elevação da renda à inclusão social. Sem priorizar a educação torna-se impossível a construção de uma nação desenvolvida. Buscar um padrão educacional moderno a exemplo de países como a Finlândia, Coréia do Sul, Japão e vários outros que construíram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um Ministro da Educação comprometido com a modernização.

“Qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões: 

1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes? 

2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más? 

3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0? 

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21? 

5) Que experiências bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?”

Oportuna e lúcida indagação feita pelo excelente analista Rolf Kuntz, em “O Estado de S.Paulo” (25-11-2018). Destacando que padrões ideológicos ou religiosos não podem prevalecer na condução da educação brasileira. A ineficiência da educação brasileira tem várias causas e uma delas não é decorrente de o Brasil investir pouco na formação educacional. A baixíssima qualidade da educação nacional não tem como responsável a insuficiência de recursos. Sua origem está na inexistência de uma política educacional séria, competente e realista. Educação é política de Estado e pauta suprapartidária. A incompetência e irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos pela União, Estados e Municípios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: “Como você coloca 6% do PIB na educação e eles dizem que não sabem como garantir resultados?” Em 2017, o governo da União aplicou R$ 117,2 bilhões em educação. Sendo R$ 75,4 bilhões no ensino superior e R$ 34,6 bilhões na educação básica. O governo federal nos ensinos básicos e fundamental tem papel supletivo em relação aos Estados e Municípios. A diferença do montante de recursos exemplifica o porquê de o ensino básico e fundamental sofre de déficit educacional histórico. Exatamente as áreas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos públicos.

A síntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo União, Estados e Municípios. Prioridades erradas na administração dos recursos destinados à formação das novas gerações é realidade inquestionável. A deficiência no aprendizado, fruto de uma educação sofrível no ensino básico, é agravada pela elevada evasão no ensino médio, travando a construção do futuro de novas gerações e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhões de brasileiros. Todos vítimas de uma péssima educação, como mostra o professor Hélio Duque, autor de vários livros sobre economia brasileira e  três vezes deputado federal pelo Paraná.

03 de dezembro de 2018

Herança maldita

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas. É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas. Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal. O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.

         

Herança maldita

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas. É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas. Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal. O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.

         

26 de novembro de 2018

Realidade Virtual

Nesse tempo digital, de internet e redes sociais, é preciso preservar os valores civilizatórios do iluminismo

Quem é bom não falha. O professor paranaense Hélio Duque continua incansável: “No ciclo evolutivo da humanidade, o iluminismo no século  XVIII impôs o predomínio da razão sobre a visão teocêntrica (religiosa) que dominou a Europa por toda a Idade Média. Fundamentava-se no pensamento racional e na evolução do humanismo, daí ser qualificado como o século das luzes. Influenciou a Revolução Francesa com o trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Igualmente a Revolução Americana com a independência das colônias inglesas que originou nos Estados Unidos da América. Redigida em 1789, a Declaração dos Direitos Humanos é filha legítima do iluminismo. O francês  François-Marie Arouet, adotando o pseudônimo Voltaire, sublimou a sua essência: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante seu direito de dizê-la.”

Nesse tempo digital, de internet e redes sociais, é preciso preservar os valores civilizatórios do iluminismo. Poderosa tecnologia, as redes sociais vêm se desenvolvendo com dinamismo incomum, para o bem e para o mal, gerando grandes contribuições na informação instantânea seja nos celulares, facebook, instagram ou whatsapp. Na outra ponta vem adulterando a realidade derivado da proliferação das chamadas “fakes news.” Introduziram um novo padrão nos modelos tradicionais nas relações pessoais, influenciando a formação da opinião pública, além dos veículos tradicionais de comunicação.

Passou a ser parte integrante do cotidiano das pessoas. Negar a importância das redes sociais nas relações contemporâneas seria desconhecer a realidade. O ponto crítico é que vem se tornando força poderosa na disseminação de conflitos pessoais, políticos, étnicos e outras gradações. É o território livre para a expressão de opiniões sobre qualquer assunto, mesmo quando não se conhece o que se debate. Agrega-se que questões pessoais têm aflorado de maneira perigosa. O bom senso e equilíbrio deixam de existir pela agressão gratuita, transformando o oponente em inimigo.

No caso, a mentira e a calunia são protegidas pela ausência de uma legislação punitiva. Protege o delinquente ante a infâmia proferida. Crimes digitais e chantagens encontram nas redes sociais terreno fértil, exigindo o máximo de cuidado e responsabilidade pela enorme quantidade de notícias falsas veiculados nas redes sociais. Em certo casos estão fazendo aflorar o que o ser humano tem de pior. O jornalista Diego Escosteguy, sintetizou: “Abrir as redes sociais tornou-se um ato de fé e de coragem; a cada esquina digital, esbarra-se na ignorância orgulhosa, na incivilidade boçal, na intolerância odiosa.”

É oportuno o fato do cientista pioneiro de computação e um dos maiores conhecedores da realidade virtual no mundo, o norte americano Jaron Lanier, ter o seu quinto livro lançado no Brasil. A polêmica começa pelo título “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”. Fixando o prazo de seis meses para o internauta “retomar a consciência de si próprio”.  A jornalista Paula Soprana, especialista em on-line e novas tecnologias influenciadoras de comportamentos da sociedade, fez na Folha de S.Paulo importante entrevista com o autor, destacando os 10 argumentos de Jaron Lanier, sobre a internet:  1. “Você está perdendo o seu livre-arbítrio; 2- “Largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade dos nossos tempos”; 3-“As redes sociais estão tornando você um babaca”; 4-As redes sociais minam a verdade”; 5-“As redes sociais transformam o que você diz em algo sem sentido”; 6-“As redes sociais destroem sua capacidade de empatia”; 7-“As redes sociais deixam você infeliz”; 8-“As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica”; 9-“As redes sociais tornam a política impossível”; e 10-“As redes sociais odeiam sua alma.”

O polêmico livro de Jaron Lanier, sendo ele pioneiro da realidade virtual mundial, não pode deixar se ser lido pelos internautas responsáveis e adeptos da informação séria e consistente. Certamente a maioria daqueles que frequentam marginalmente as redes sociais, militantes da “guerrilha virtual”, desqualificarão as observações do experiente cientista, ignorando ser ele um dos internautas mais importantes do mundo e fiel defensor dos valores humanistas.”


19 de novembro de 2018

Relações externas

Nas relações internacionais a diplomacia exerce papel fundamental na construção e consolidação da visão que o mundo tem sobre o país

RIO - Nas relações internacionais a diplomacia exerce papel fundamental na construção e consolidação da visão que o mundo tem sobre o país. O livro “A diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016”, do embaixador Rubens Ricupero, é leitura fascinante. Revela 266 anos, desde os tempos coloniais, da luta dos brasileiros para integrar o país com o mundo. Enfatiza, da colônia portuguesa até a contemporaneidade, o objetivo brasileiro de ter presença na comunidade internacional. 

Leitura recomendável para os futuros ocupantes do poder que, a partir de 1º de janeiro de 2019, terão a missão de governar o Brasil. Devem estar conscientes da importância do Ministério das Relações Exteriores na manutenção de relações harmônicas entre Estados soberanos. Fundamentada nos ensinamentos da história, entendendo que a diplomacia busca resolver conflitos sem uso da ofensa ou da violência nas relações internacionais.

Como disse a jornalista Eliane Cantanhêde “política externa é de Estado e não de governo. Em política externa é o interesse do Brasil acima de tudo e de todos”. 

Não existe ideologia nas relações econômicas e comerciais. John Foster Dulles, secretário de Estado dos EUA, definiu: “Uma nação não tem amigos, tem interesses”. A defesa dos interesses nacionais é o grande balizador. O governo de Jair Bolsonaro produziu na área externa, antes de assumir o poder, três extravagâncias diplomáticas contra Argentina, China e países árabes. 

Em relação à Argentina, foi ignorado o fato de ser o maior mercado na exportação de bens manufaturados. E sólidas relações econômicas e comerciais. A China, desde 2009 é o principal parceiro e mercado mundial para os produtos brasileiros, com “superávits” crescentes na escala de vários bilhões de dólares, no comércio externo. 

Um alinhamento brasileiro com a política exterior do presidente dos Estados Unidos, em relação aos chineses, como em editorial do jornal “China Daily”, principal porta voz do governo, alertou “pode custar caro ao Brasil”. Os investimentos da China no Brasil são estimados em R$ 124 bilhões. No comércio exterior, as exportações do Brasil, até agosto, atingiram US$ 74 bilhões. Com elevado saldo que nos favorece nas exportações.

O anúncio da mudança da nossa Embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, é gratuita hostilidade aos países árabes. Negando o papel histórico do brasileiro Oswaldo Aranha, quando presidente da Assembleia Geral, apoiava a criação do Estado de Israel e defendeu igualmente a criação de um Estado árabe palestino. O Brasil sempre teve posição definida defendendo dois Estados na região. Se mantida a decisão, os reflexos econômicos e  comerciais serão claros. Em 2017, as exportações brasileiras para o mundo árabe representaram US$ 13,7 bilhões com “superávit” favorável ao Brasil de US$ 7,7 bilhões. Hoje a quarta parceria comercial do Brasil com o mundo, tem nos países árabes mercado em ascensão, destacadamente para os produtos do agronegócio. Os EUA, ao transferir a sua Embaixada para Jerusalém, tem a única companhia de um país periférico, Guatemala. Presidida pelo pastor evangélico Jimmy Morales, adepto da chamada “verdade bíblica” da eterna Jerusalém.

Por tudo isso, não deve o novo governo brasileiro insistir nas relações internacionais em posições de confronto.

22 de outubro de 2018

A lição de 1974

Quando meu saudoso colega e amigo César Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, me telefonou, no dia 15 de outubro de 1974

A lição de 1974

– Quando meu saudoso colega e amigo César Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, me telefonou, no dia 15 de outubro de 1974, intimando-me a escrever um livro sobre as eleições de 15 de novembro de 1974, tive medo de mim e do tempo. Ele me disse:

- Nery, temos exatamente sessenta dias para colocá-lo nas bancas. Um mês para você escrever até 15 de novembro e um mês para editarmos. 

- Mas, Cesar, o Brasil é muito grande. São 22 Estados. E não o farei sem visitar, pesquisar, testemunhar um a um. E ainda publicar o resultado. 

- Vire-se. É preciso guardar para a história a nitidez dos acontecimentos ainda não deformados pelo correr do tempo, nem ao sabor das interpretações. Precisamos dar ao país um livro-documento sobre as eleições de 15 de novembro. Tem que sair até 15 de dezembro.

Sai viajando e escrevendo. Conversando e escrevendo. Documentado e escrevendo. O governo, poderoso e soberbo, achava que a Arena ganharia tudo, porque, em 1970, quase havia eliminado a oposição, a ponto de muita gente do MDB achar que a oposição devia desistir e fechar o MDB.

Mas os povos só conquistam o amanhã quando têm líderes que os ensinam a pensar. Os profetas, os sábios do Oriente, os filósofos gregos, os enciclopedistas, os pais da Independência Americana, os estadistas ingleses e franceses,  esses é que plantaram a história com as mãos.

Veneza passou sete séculos sem que os doges pudessem transferir o poder para um herdeiro. Foi a mais longa república democrática da história.

À medida que ia chegando aos maiores Estados fui percebendo que havia uma reação silenciosa na população e o governo podia levar um susto.

E levou.Mais do que um susto, o governo foi literalmente atropelado.

Perdeu em 16 Estados e só ganhou em 6, como contei e documentei no livro que fez tanto sucesso : “As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil”. Dos   seis maiores Estados, perdeu em cinco: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná. E só ganhou em um: Bahia. 

No pais, a votação do MDB, somada, foi maior do que a da Arena. Só as vitórias em dez dos onze maiores Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Guanabara, Minas, Paraná, Pernambuco, Estado do Rio, Goiás, Santa Catarina, Paraíba, menos Bahia) mostraram que, se fosse para a presidência da Republica, a oposição teria feito o Presidente e 16 governadores. 

Qual o segredo da campanha e da vitoria? Era duplo. Um, orgulhosa cabeleira grisalha de galã de antigamente. O outro, modestos fiapos de cabelos inteiramente brancos na cabeça nua. Um, mestre da cátedra. O outro, catedrático da política. E aos dois, mais do que a quaisquer outros, o Brasil ficou devendo, em 1974, o reaprender da velha lição, eterna como a humanidade, do poder da palavra.

Ulysses Guimarães e Franco Montoro foram os generais da guerra que a oposição ganhou no país. E brigaram na garganta. Poucas vezes, na história do Brasil, dois homens falaram tanto a tanta gente em tão pouco tempo. Basta pesquisar jornais e revistas do segundo semestre de 1974. Eles estavam lá, dia a dia, indormidos, no plantão da palavra.

Desde o magnífico discurso com que, em 1973, navegando com Fernando Pessoa, iniciou sua campanha de anticandidato à presidência da República, Ulysses Guimarães havia continuado o caminho aberto um ano antes pela bravura de Oscar Pedroso Horta, da volta do bom texto à política brasileira. Na sessão do Congresso que elegeu Geisel, Ulysses de novo despertou o país com um pronunciamento exemplarmente bem escrito.

E poderosamente forte. Não parou mais. Nas TVs ou na imprensa, o presidente da oposição fornecia aos candidatos do MDB uma dose maciça e permanente de idéias e frases que logo eram repetidas em milhares de palanques. E quando a vitória chegou, ele a recebeu lúcido como sempre.

O tom de Franco Montoro era mais ameno, didático. Ensinava:

- Na vida pública, como na ciência, os erros devem ser investigados e não escondidos. Só a crítica pode corrigir as falhas e promover o progresso.

Tudo simples, exato e evidente como a verdade. Por isso seus programas de TV, nos Estados, estouravam índices de audiência: 

- Montoro chegou, falou, virou.

Era o poder da palavra que Padre Vieira chamava de sagrado poder.

A oposição, hoje, está perdida como o MDB de 1970. Falta-lhe um Ulysses, um Montoro, que mostre ao pais a verdade escondida nas gavetas dos Mensalões e da corrupção governamental comandada pelo PT. Lula fala com a arrogância e a certeza da impunidade dos generais de 1974.

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24 de setembro de 2018

O Kim - 1 que me prendeu

Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo

Alucinante aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Há apenas dois anos, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, quiçá cardeal. Na “Tribuna de Minas” a manchete era minha: 

- “Confirmam-se as Acusações da TM sobre as Ligações do sr. José Mendonça com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de ‘O Diário’, justamente o homem de confiança do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

O “Diario da Tarde”, também com manchete na primeira pagina:   

- “Desmantelada Pela Policia uma Reunião Comunista - Varejada a sala de um prédio da rua Carijós. Efetuadas numerosas prisões. Apreendido farto material de propaganda vermelha”. 

O “Estado de Minas”, como o “Diário da Tarde” também dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era “O Diário”), abriu manchete:

- “Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades”.

O campeão de títulos berrantes era o “Diário de Minas”:

- “Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ação”. 

Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuávamos  presos, réveillon no xadrez, e a “Tribuna de Minas” não me dava folga: 

- “Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ação mais louvável desse mundo, é o tarefeiro comunista Sebastião Nery, de “O Diário”, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor José Mendonça, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastião Nery foi preso com uma malta de desclassificados”.   

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. Éramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabíamos muito bem que estávamos em uma ação política proibida pela policia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. Não havia crime nenhum. 

Só uma frustração. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do paletó, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e não sabia, porque ninguém me dizia. 

Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista,   sua bela filha Helia Ziller estudante, Luis Bicalho nosso professor na Faculdade de Filosofia, Aluisio Ordones meu colega de Faculdade e vários outros.

Todos presos, socados em rádio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simpático e magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:

- O senhor é muito rápido, coronel. Foi o único que conseguiu fugir. 

- Meu filho, não repita isso. Não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.

A reunião era uma ação disfarçada do Partido Comunista e da UJC, União da Juventude  Comunista, drasticamente reprimidos pela policia. Para atuarmos politicamente, lançávamos mão de atividades legais. Naquele dia, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”,criado na Finlândia para“combater a guerra”   

A guerra da Coréia dividia a opinião publica mundial e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensávamos e denunciávamos, “havia criminosamente invadido a Coréia do Norte”, socialista e aliada da União Soviética e China. 

E por defender a Coréia do Norte e denunciar a Coréia do Sul é que tínhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepção ao ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Premio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itália.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coréia, havia começado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coréia do Norte é que tinha invadido a Coréia do Sul e não como dizíamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coréia. 

10 de setembro de 2018

Lições e saudade de JK

Ninguém me contou, eu vi

Ninguém me contou, eu vi. Foi há muito tempo, na década de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista político (“O Diário”, “DiáriodaTarde” e “Jornal do Povo”). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getúlio Vargas ao suicídio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas à Presidência da República, em 1955.

Todos os dias, invariavelmente, íamos ao Palácio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no país e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartéis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados. 

Enfrentou tudo: a oposição desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, às vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televisão e, sobretudo, a resistência de uma banda do PSD dentro do seu partido, a começar por Benedito Valadares, em Minas.

Para comemorar os 116 anos de nascimento de JK, agora dia 12 de setembro, vale lembrar a grande virtude de JK cantada em verso e prosas, hoje, pela classe política brasileira:

Juscelino era um determinado. Sem condições materiais, estudou, formou-se e se aperfeiçoou em medicina em Paris. Nunca olhou para trás. Sempre para frente. 

O que a UDN fez, naquela época, para detonar a candidatura de JK pareceria hoje inacreditável. Só não era pior do que a artilharia do PT hoje. Como vimos em Juiz de Fora essa semana com o atentado ao líder nas pesquisas à Presidência da República.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro à vontade: “Correio do Dia”. Nele escreviam os líderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia. 

Nas salas de aula eram sábios varões gregos. Nos palanques e jornais, demônios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, José Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatíveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhães Pinto, Zezinho Bonifácio, pelo determinado JK.

Para ganhar tiveram que rasgar a história libertária de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros, de 1943, indo buscar nos quartéis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e, em outubro de 1955, elegeu-se Presidente.

Em 1955, a UDN dizia que Minas “massacraria” Juscelino na eleição. Quem garantiu a vitória de JK com 36,8% dos votos nacionais (não havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votação esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitória de Adhemar de Barros, em São Paulo, e de Juarez Távora, no Rio. Assim como Minas e tirando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do País também deu a vitória a Juscelino.

Agora, em 2018, a eleição bate novamente à nossa porta. O Brasil cansou de conviver com as maracutaias e falcatruas de Lula, da Dilma e do PT com escândalos como do Mensalão, do Petrolão, do BNDES e tantos outros que surpreenderam até os fundadores do Partido. 

Agora a nação já sabe que o PT (Lula, Dilma, Gleisi, José Dirceu, Palocci, Vaccari, Haddad e toda direção nacional) instalou na Petrobrás e nas empreiteiras amigas a mesma “organização criminosa” que a Polícia Federal, o Ministério Público, o juiz Sérgio Moro e os Tribunais Superiores denunciaram, condenaram e prenderam.

As investigações mostraram que Lula, o operário do ABC, descobriu o dinheiro. O triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, o contubérnio com as empreiteiras e, mais grave, o escândalo dos escândalos que está surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhões de dólares do BNDES distribuídos com os ditadores amigos e em propinas externas.

Saudade do democrata Juscelino Kubitschek de Oliveira.   

13 de agosto de 2018

Eles fizeram o novo mundo

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo. Escreveu o “Diário de Florença”.

Stendhal, o francês, em 1826 também viu: 

- “Florença, pavimentada com grandes blocos de pedra branca é talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante”.

E Mary Mc Carthy a americana, em “As Pedras de Florença” diz:

- “Os florentinos, inventaram a Renascença, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno”.

Em 1957, a primeira vez em que estive em Florença, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Tantos anos rolaram  e eu a redescobri em um vôo de Paris para Roma, lendo o seu excelente livro “Florença Berço do Renascimento”, que diz tudo em 200 páginas: 

1 – “Parece exagero. Em Florença estruturou-se a língua italiana  a partir de Dante. Lá Galileu deu início à ciência moderna. Lá nascia a nova concepção de política com Maquiavel e se deu a revolução que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Média. Em Florença o homem redescobriu a importância de seu papel no mundo”.

2 – “Florença conta mais de 2 mil anos de história. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavações da “Piazza de la Signoria” na década de 1980. Os etruscos chegaram à região na segunda metade do século VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no século III aC”.

3 – “O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem várias explicações. Alguns acham que é uma referência aos jogos florais da época romana. Outros aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipotese menos provável seria uma homenagem ao general de César, Fiorinos, que ali acampou em 63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o símbolo da cidade é a flor de lis”.

4 – “Em 1348 uma peste matou metade da população”.                                   

Florença é um mistério da civilização universal. Teve três homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de 1265 a 1321. Antes da “Divina Comédia”, sua obra prima, que estruturou a língua italiana, ele já havia escrito em latim “De Monarchia” onde defendia a autonomia do poder temporal em relação ao espiritual.

Depois, já em italiano, escreveu “Il Convivio” sobre a sabedoria.

Petrarca,  de 1304 a 1374, também poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Cícero e faz com que a Renascença adote o latim clássico como a língua dos eruditos.

Boccacio, de 1313 a 1375, deixou sua obra prima “Decameron”, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: ‘um grupo de sete mulheres e três homens, refugiados no campo para fugirem da peste,  de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira tradução de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante. Os três plantaram assim a Renascença. 

         

Os Medici

“Desde 1382 grandes famílias dominavam Florença: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florença não seria Florença sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de três séculos. 

“Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, são responsáveis pelos tesouros artísticos da cidade”. 

Foi também em um agosto 1968, que nasceu o Socialismo Democrático na Primavera de Praga. 

30 de julho de 2018

As tragédias da Nicarágua

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino.”

Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da pátria.” O embaixador americano sorriu: “Qual? A sua ou a nossa?”

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avião, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso é que a unidade nacional tão poderosa se fez na hora da luta final. A história destes povos tão miseráveis e tão sofridos da América Central está sendo escrita com sangue, mas também com uma dura lucidez. Eles aprenderam em séculos de dominação e dependência que o caminho da liberdade é a decisão de lutar. Como Bolívar e Sandino ensinaram.

Desço no aeroporto, está lá em letras enormes: “Bem vindos à Nicarágua livre.” E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o herói da independência nas lutas contra os Estados Unidos no começo do século: chapéu, lenço no pescoço e o lema: “Pátria livre ou morrer.”

Não parece que este povo acaba de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfândega é apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e me menos de um minuto para ver se há armas, e uma garota na caixa cobrando um dólar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiança ou de receio.

Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no máximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: “Bienvenido.” E só. Nada daquele clima de terror policial que se vê em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que só há uma segurança: a vontade nacional.

Não sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrível terra de jovens. Só se veem jovens. Chego ao Palácio da Revolução – que era o Palácio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto – um garoto de farda verde e metralhadora na mão pergunta se estou armado e passa a mão em minha cintura.

- Por que esse cuidado todo?

- Os inimigos. Ainda não ganhamos tudo. Há inimigos ainda por toda a parte.

Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicarágua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, é muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dólares nos bancos dos Estados Unidos. Manágua é a cidade mais pobre de toda a América Central.

Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza dez daqui uma fazenda sem metáfora. Atrás do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o único edifício alto da cidade, o Banco da América. Lá no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelão espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rádio no quarto do hotel cantando a vitória sobre a ditadura:

“Rádio amor, pobre mas honrada como a Pátria.”

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16 de julho de 2018

Na Croácia de Tito

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”.

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslávia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretário geral do PC soviético, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrítica já vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos nós. E começou o degelo no leste. Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polônia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos já passados, quando fui pegar meu cartão de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

- Os meninos estão arrancando os dentes do velho leão, depois de morto.

- Que leão?

- Stalin.

A história rodou, a experiência socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslávia um país inteiramente novo, reconstruído da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com índices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando político e nacional, muito mais nacional do que político, do mesmo Tito que arrancou a autocrítica de Bulganin e Kruschev. Por que? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do país, porque o seu grande herdeiro vivo.

Os heróis são filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a história às vezes faz alguns coabitarem com a glória e, em vida, serem sinônimos de sua pátria. Quando De Gaulle dizia – “Se quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo” – ele estava apenas traduzindo a sua consciência de herói vivo, Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslávia. Um homem sinônimo de seu país e de seu povo.

- Nossa filosofia básica de governo é o respeito à liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista – dizia-me no almoço no clube de imprensa, o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redação e foi para as montanhas, de fuzil na mão, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece camponês eslavo. E não é outra coisa esse filho da Croácia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experiência nacional de seu povo:

- Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

- É a única maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Croácia.

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30 de abril de 2018

Uma família heróica

Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945, era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas

Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no pátio, Agildo, baixinho, mãozinha miúda, deu dois passos à frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria matá-lo em público.

O guarda ficou parado, imóvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Começou o corre-corre. Chamaram o médico do presídio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruçou-se sobre ele, gritando desesperada:

- “Meu amor, não morra! Você não pode morrer! Não me deixe!”

Punha a mão nos olhos, no coração, pegava o pulso, conferindo. Chegou o médico. Não adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

- “Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Será que não é só um desmaio?”

- “Não, minha senhora. Morreu. Acalme-se. Não há mais o que fazer.”

A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histérica:

- “ Graças a Deus, doutor! Ele está morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valentão um dia se acaba!”

***

Mais um grande brasileiro o pais perdeu neste fim de semana: Agildo Ribeiro, o humorista e ator inesquecível, tanto no Brasil como em Portugal. Como eu, ele também era de 1932. Tivemos ambos uma admiração profunda pelo revolucionário Agildo Barata, cuja edição de memórias revi anos depois para a Editora Saga, do baiano Hélio Ramos. 

Ainda no Colégio Militar imitava os professores para uma plateia de colegas e preocupação dos pais. Depois do  teatro de revista seguiu para o cinema e a televisão. E tomou conta do pedaço. Passava uma peça inteira fazendo a plateia rir. Como se definia, era arrumadinho, magrinho e bonitinho. E um talento explosivo.

É mais um amigo incomparável que se foi embora. 

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16 de abril de 2018

Um Pequeno Supremo

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar os ministros do Supremo, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar os ministros do Supremo, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Tinham sido indicados para o Supremo pelos ex-presidentes cassados Juscelino Kubistchek e João Goulart. O ministro Alvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, com o apoio de todo o colegiado, avisou a Castelo: havendo cassações fecharia o STF e entregaria as chaves ao porteiro do Palácio do Planalto. O governo recuou.

Cinco anos depois, em 1969, com o draconiano Ato Institucional nº 5, os três ministros seriam afastados do Supremo. O mineiro Gonçalves de Oliveira, presidente, e o seu sucessor Antonio Carlos Lafayette Andrada, por discordarem da punição saíram do Tribunal.

Outro episódio histórico foi em 1971. O ministro Adauto Lúcio Cardoso, indicado por Castelo Branco, em 1966, reagiu com ferocidade ao Decreto-Lei 1.077, do presidente Emílio Médici. Chamada Lei da Mordaça, implantaria a censura prévia “a imprensa e todas as publicações editoriais." Aprovada a lei antidemocrática, Adauto Lúcio Cardoso, arrancou a toga preta e lançou sobre o plenário do Tribunal, abandonando a sessão e o cargo de ministro. Nunca mais voltou ao Supremo, envergonhado com a decisão de seus pares. 

Os dois episódios retratam um tempo em que, nos conflitos jurídicos que atentavam contra a Constituição, os seus ministros reagiam como guardiões da ordem democrática. Não tinha lugar para a teratologia que significa decisão absurda, contrária à lógica e a própria realidade. 

Chefe de redação do jornal “Valor” (4-4-2018), Rosângela Bittar, definiu o STF atual: “É composto por professores e, sobretudo, por advogados se digladiando diante de um júri imaginário em torno de nada, até que retome a leitura enfadonha do seu empolado voto. Até um decano age como promotor e é preciso ter compaixão da sua sina atual, a de exegeta dos votos, tão díspares e cheios de firulas que precisam ser compatibilizados para que a presidência possa proferir o veredito”.

No artigo “Meu doutorado contra o seu”, Rosângela Bittar, destacava: “Em todas as épocas e composições o Supremo enfrentou dificuldades. Mas eram catedráticos, políticos veteranos e experientes, embaixadores, presidentes da Câmara e do Senado, presidente de tribunais de Justiça dos principais Estados e até advogados que passaram pela política. Octavio Gallotti, Oswaldo Trigueiro, Bilac Pinto, Aleomar Baleeiro. Paulo Brossard, Célio Borja, Oscar Correa, Prado Kelly, Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Vilas Boas, Gonçalves de Oliveira. Pessoas que emprestavam sua biografia ao Supremo e não foram lá para fazer biografia”.

Infelizmente hoje a intolerância da vida pública brasileira retrata uma crise em que Executivo, Legislativo e Judiciário se igualam  na sua sustentação. Republicanismo parece ser valor secundário para os integrantes dos três poderes. No Judiciário, a decisão de prisão após a segunda instância aprovada pelo STF, por 6x5, firmando jurisprudência é questionada pelos seus próprios integrantes. Um dos ministros, Gilmar Mendes que votara a favor, agora ao mudar o seu voto, deseja alterar a jurisprudência. Se ocorrer a mudança com o estabelecimento das quatro instâncias de julgamento de um réu, a prescrição de penas aplicada garantirá a impunidade. Prescrição é a subversão garantidora de novos crimes e consolidadora do caos jurídico.

A mudança de posição do ministro ocorre exatamente quando os oligarcas da política no PT, no PMDB, no PSDB, e nos partidos satélites da base de diferentes governos, em função da Operação Lava Jato, sabem que poderão ser presos. A condenação do ex-presidente Lula, não é fato isolado, daí o pânico dos poderosos da vida política brasileira. A mudança do voto de Gilmar Mendes atende ao desejo desses delinquentes políticos. E o mais grave: ocorrendo a revisão da jurisprudência do STF, a corrupção será a grande vitoriosa. É a alternativa para neutralizar a Operação Lava Jato.

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09 de abril de 2018

Quando os políticos eram estadistas

Hiistória de Ulysses Guimarães é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro

Houve um tempo em que os líderes políticos se preocupavam em deixar lições e não fortunas. Esta história de Ulysses Guimarães e seu “exército” em Salvador, na Bahia, em 1978, é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro.

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

  - A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao partido que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

  - Isto é ilegal, disse Ulysses. A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

  Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

  - Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites. 

  *

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um capo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

- Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

- Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

- Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamods todos à porta, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

- Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado. 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.

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02 de abril de 2018

A lição de Juscelino

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

-Qual é a verdadeira posição do Café?

-Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

-Juscelino, vamos rever o assunto de fazer a união nacional.

-Etelvino, já sei que você está contra mim, Quando você fala em 

união nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

-Então você não quer a união?

-Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. 

Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento em que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

-Deus me poupou o sentimento do medo.

*

Lúcio, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, era um bravo nacionalista. Quando os estudantes começaram em Minas a campanha de “O petróleo é nosso”, em 1953, convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares.

A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praça cheia, cercada pela polícia. E lá na frente, servindo de palanque, vazio, só o microfone, um caminhão sem as laterais.

De repente, chega o deputado e já candidato a senador Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos, A polícia não teve coragem de barra-los. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

- Ontem , chegando a Minas, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: Vai, Lúcio, vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Desabou. Acabou o comício. No dia seguinte, no Palácio, Juscelino dava gargalhadas:

-Eu bem que disse a ele. Não vai, Lúcio, não vai! Não vai!

*

Mal JK tomou posse na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, começaram os levantes militares para derrubá-lo. Juscelino sufocou e mandou para o Congresso um projeto de anistia. A bancada do PTB ficou contra. Oswaldo Lima Filho, líder da bancada, liga para Jurema e comunica que o partido está contra a anistia aos militares sequestradores de avião. Jurema informou a Juscelino, que, do outro lado do telefone, justificou:

- Jurema, diga aos petebistas que não quero governar com mártires.

A anistia foi aprovada.

Pena Botto, almirante psicopata, entrou na lista de promoções. Juscelino promoveu. Os amigos protestaram. Juscelino explicou:

-Pode ser um mau político, mas é um ótimo marinheiro.

Juscelino convidou Jurema para líder do governo na Câmara. 

Abelardo lembrou que havia outros em melhores condições, como Ulysses Guimarães. Juscelino reagiu:

-Você está doido, Jurema. Ulysses na liderança, já no outro dia 

está pensando em ser candidato à Presidência. E aí, adeus Juscelino.

*

Lula entregou o governo a Dilma e levou uma rasteira. Quando quis substitui-la era tarde. Michel entregou a Procuradoria a doutora Raquel Dodge, que esta gostando muito do poder, e agora foi atropelado por ela e pelo melífluo Barrozinho, herança de Dilma. 

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