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Notícias Sebastião Nery

15 de outubro de 2019

A Bahia canta a sua santa

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

A Bahia sempre foi múltipla. Mas desta vez se superou.

De um jantar no Hotel Fasano em Salvador, onde estavam Durval Lelys, Licia Fábio, Nizan Guanaes e outros produtores musicais, nasceu a ideia de gravar uma canção em homenagem à Irmã Dulce cujo processo de canonização o Vaticano acaba de consagrar.

A música é excelente, a letra criativa. Começa como se fosse adotar um tom marcial e no entanto é uma doçura do princípio ao fim: 

  “A Bahia Canta a Sua Santa

A Bahia inteira canta

Para celebrar nossa santa

Que cuidou de nós

Tocam sinos e atabaques

De um povo que viu seus milagres

Foste a voz daqueles que não tem voz

Pequena e tão gigante

Mãe desses Filhos de Gandhy

Que entram em Roma

Soltando as pombas

Pombas da paz

Ouve teu povo cantando

Nas portas do Vaticano

Ele tem fé, ele tem axé

Ele veio a pé

É a Bahia que canta

Santa Dulce, a nossa santa

Que está no céu

Cuidando da gente

Diariamente

Pequena e tão gigante

Ouve teu povo cantando”

Cantores baianos ligaram as suas trombetas: Margareth Meneses, Preta Gil, Léo Santana, Márcia Freire, Vanesca Pinheiro, Vina Calmon, Eber Lima e Miguel,  Will Carvalho, Átila Lima e a luminosa Ivete Sangalo.

Às sete da manhã ela passava lá, toda magrinha, seguindo para sua jornada, suas obras de caridade. Durante anos pegou caronas de amigos. Ninguém acreditava que chegaria ao fim da tarde. Sempre chegou, com seus olhinhos miúdos, em qualquer canto da cidade baixa de Salvador,  como se fosse uma pomba ferida. E era. Era a pomba da paz da Bahia.

Faz bem Salvador celebra-la e cantá-la.

Neste mundo de doideiras, ainda bem que a Bahia dá esta lição de ternura, de bondade. Sabe bem seu parceiro de tantos anos doutor Taciano Campos.

Santa Dulce dos Pobres da Bahia.

www.sebastiaonery.com  [email protected]

07 de outubro de 2019

Histórias potiguares - Café Filho, de vereador a presidente do Brasil

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro, filho daqui (nasceu em 3 de fevereiro de 1899, em dois meses faria 110 anos), Café Filho fez uma biografia política continua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia). 

Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

  - Rubem, preciso de você.

  - De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equivoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da Republica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

 Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café,escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

No segundo ano da escola primaria, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar,de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para ultimo. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum.  Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor?

José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Rui Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas,ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio,alguém começou a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

 - Um momento. Passei 50 anos na vida publica e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

 Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Charteaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

- Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

- Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha joga é descer de paraquedas nos discursos dele.

Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. EM 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluisio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três,o novo governador não chegava.

A mulher mandou chama-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

- Ainda bem que ele chegou.Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder. 

Histórias potiguares

Café Filho fez uma biografia política contínua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente

RIO - Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro,filho daqui (nasceu em 3 de fevereiro de 1899, em dois meses faria 110 anos), Café Filho fez uma biografia política continua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia).

Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

- Rubem, preciso de você.

- De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equivoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da Republica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café,escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

No segundo ano da escola primaria, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar,de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para ultimo. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum. Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor ?

José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Rui Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas,ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio,alguém começou

a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

- Um momento. Passei 50 anos na vida publica e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Charteaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

- Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

- Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha joga é descer de paraquedas nos discursos dele.

Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. EM 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluisio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três,o novo governador não chegava.

A mulher mandou chama-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

- Ainda bem que ele chegou.Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

02 de outubro de 2019

Histórias de Eleições: Jânio Quadros x Juracy Magalhães

www.sebastiaonery.com [email protected]

Na manhã da convenção da UDN para lançar a candidatura de Jânio Quadros à presidência da Republica (8 de novembro de 1959), contra Juracy Magalhães, até há pouco presidente do partido, conta Carlos Lacerda em suas memórias, Jânio chamou Lacerda à suíte do hotel Gloria, no Rio, onde estava hospedado, já lançado candidato pelo PL, PDC e PTN:

- Carlos, não aguento essa sua UDN. Não aguento mais o que vem me dizer o Afonso Arinos, as condições que querem me impor.

- Jânio, não é bem assim. Você vai ganhar a convenção. - Não, não e não!

Afonso Arinos, que estava com outros dirigentes da UDN na sala da suíte, empurrou a porta:

- Governador, nós já vamos à convenção para começar os trabalhos e daqui a pouco uma comissão virá busca-lo.

- É engano seu, senador. Não sou mais candidato. Quero lhe pedir o obsequio de ser o meu porta-voz, porque não quero comprometer o Carlos, que já se comprometeu demais, coitado, com a minha candidatura.

Afonso Arinos quase teve um treco:

- E agora?

Lacerda entendeu o golpe:

- Ô Jânio, parece-me que você não quer se atrelar só a uma candidatura udenista à vice-presidência. Não é isso? (Havia Leandro Maciel, da UDN, e Fernando Ferrari, do MTR).

- Talvez. Não é só isso. Mas talvez seja também isso.

- Bem, Jânio, não tenho condições de liberta-lo de compromissos. Mas, se vou aceitar sua candidatura pela UDN, PL, PDC, PTN, PR e não sei mais o que, você realmente não depende de ninguém.

- Está bem. Faço o sacrifício. Foi para a convenção e teve 205 votos, contra 85 de Juracy. Já estava treinando para a renúncia.

Padre Giordani, vereador do PDC e coordenador da campanha de Jânio em Caxias, no Rio Grande do Sul, preparou um comício para a noite, na praça da cidade, e convidou a população para saudar o candidato nas ruas, às seis da tarde, logo depois da chegada dele ao aeroporto.

No aeroporto, um carro aberto esperava o candidato para a entrada triunfal na cidade. Jânio ficou irado:

- Nada disso, senhor padre! Quero um carro pequeno e fechado. Vou direto daqui para o hotel, por ruas ínvias, onde ninguém me veja, sem passar pelo centro. Tu-do-mui-to rá-pi-do.

- E o povo, presidente?

- O povo? Quem conhece o povo sou eu, senhor padre. Nas faces e na alma. O povo quer mais me ver do que me ouvir. Pois, se quer me ver, que vá também me ouvir, no comício, à noite. Ver-me-á e ouvir-me-á.

Oito da noite, Caxias estava toda na praça. Vendo e ouvindo Jânio. 

Aluísio Campos, advogado, economista, fazendeiro, empresário muito rico na Paraíba, foi do Banco do Nordeste, da Sudene e duas vezes deputado estadual pelo Partido Socialista. Duas vezes candidato a senador pela Arena, perdeu as duas vezes para Rui Carneiro, do MDB. Depois, elegeu-se duas vezes deputado federal pelo PMDB.

Em 66, João Agripino, governador, encarregou os arenistas Ivan Machado e Osvaldo Trigueiro do Vale de coordenarem em João Pessoa a campanha ao Senado de Aluisio, que era de Campina Grande. Já perto das eleições, planejaram uma grande concentração popular no bairro da Torre, onde ele faria o pronunciamento final. Ivan e Osvaldo se desdobraram.

No dia do comício, nove da noite, o governador João Agripino e Aluísio foram para o bairro da Torre.Uma decepção. Palanque, luzes, escola de samba, tudo lá. Mas, povo, quase nenhum. Aluisio chamou Osvaldo:

- Tudo bem, Osvaldo?

- Tudo bem, senador. Tudo arrumado, como o senhor mandou.

- Mas, e o povo, Osvaldo?

- Ora, doutor, eu armei o palanque, providenciei a iluminação, consegui a escola de samba, fiz os convites aos oradores. Agora, se, alem de tudo isso, ainda tivesse de trazer o povo, o candidato era eu. Não houve comício. Nem eleição de Aluisio. José João Botelho deputado federal do Pará no Rio (46 a 51), passou muito tempo sem ir a Belém. Voltou candidato a prefeito da capital. Um dia inteiro anunciou o primeiro comício, à noite, na praça Brasil. Chegou lá, não havia ninguém. Imaginou um engano, perguntou ao assessor.

- Não houve engano nenhum, deputado. A praça é esta mesma. Botelho foi ao bar mais próximo, pediu dois caixotes de madeira, pôs no centro da praça, subiu e passou a gritar, como um alucinado:

- Socooooooorrro! Socoooooorrrrro!

Correu gente de todo lado para ver o que era.Com a platéia, ele começou:

- Socorro para um candidato...

E fez o comício. Não se elegeu, mas fez o comício.


23 de setembro de 2019

Histórias de Minas

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo

RIO – No dia 5 de setembro de 1933, ele apareceu morto dentro da banheira do palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. “Era celibatário” (78 anos, nasceu em 1855), diz o Dicionário Biográfico de Minas Gerais, edição da Universidade Federal e da Assembleia Legislativa de Minas.

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo. Deputado de 1880 a 1911, abandonou a política e voltou a ser fazendeiro. Em 1922, foi chamado para vice-presidente do Estado, com o “presidente” (governador) Raul Soares. Raul Soares adoeceu de 1923 a 1924, ele assumiu. Raul Soares morreu em 1924, ele assumiu de novo.

Fernando de Mello Viana foi eleito para completar o quatriênio, mas foi escolhido vice de Washington Luiz Maciel cumpriu o resto do mandato. Em 30, torna-se “presidente” (governador) de Minas, vem a “revolução” de 30, Getúlio o confirma interventor e ele morre na banheira, em 33.

Gustavo Capanema, poderoso secretario do Interior, achava que ia ser o sucessor. Virgílio de Melo Franco também. Getúlio deu uma rasteira nos dois e nomeou o jovem Benedito Valadares, que chamou Juscelino Kubitschek para chefe de gabinete.

Foram inaugurar um retrato de Maciel. Acabada a solenidade, saíram no mesmo carro Benedito, Juscelino e Capanema. Capanema, intelectual, culto, vaidoso, irado por não ter sido nomeado, começou a agredir Benedito com uma aula de como governar :

- Olha, Benedito, governo é cultura. Você tem que esquecer Pará de Minas e ver que agora você é o chefe político de Minas. Tem que cercar-se de intelectuais, ler, estudar, para poder estar à altura de governar Minas.

Benedito foi ficando vermelho, furioso, perdeu a paciência :

- Olha, Capanema, nada disso. Se suas lições prestassem, você é quem teria sido nomeado pelo presidente Vargas. Governar não é nada disso que você disse. Esse negocio de cultura é para intelectual. Governar é ação, é trabalho. E é isso o que vou fazer. Não vou ler nem estudar coisa nenhuma. Aliás, tenho lá em casa uns cinco ou seis livros e vou jogar tudo fora.

Anos depois, Juscelino relembrava essa historia para seu oficial de gabinete na Presidência, Antônio Carlos Sá, e dava gargalhadas. Aliás, Benedito fez exatamente o que Capanema recomendou: cercou-se da maioria das melhores cabeças de Minas (Orosimbo Nonato, Mario Casassanta, Cristiano Martins, Ciro dos Anjos, outros) e até deixou alguns bons livros : “Esperidião”, “A Lua Caiu”, “Tempos Idos e Vividos”.

E mandou em Minas exatamente doze anos: de 33 a 45.

Benedito chegou a Curvelo, Minas Gerais, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

- Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimo agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

- É o contrário, governador!

- Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

E continuou. Estava conversando com Ciro dos Anjos, deu sono:

- Ciro, vou dormir. Vou entregar-me aos braços de Orfeu.

- Faltou um M, doutor Benedito.

- Não faltou, não, Ciro, Orfeom é um instrumento musical. Eu estou é com sono mesmo.

E foi dormir.

Pesquisa ferroviária em Minas, na antiga Rede Mineira de Viação, apurou que o vagão mais atingido nos desastres era sempre o último. Benedito, interventor, recebeu o estudo, leu, chamou Ciro dos Anjos:

- Prepare um decreto suprimindo o último vagão.

Gustavo Capanema, ministro da Educação d Getúlio, encontra-se com Benedito Valadares, interventor de Minas, na ante sala do gabinete do presidente. Benedito estava com os olhos inflamados:

- O que é isso, Benedito, nos seus olhos?

- O médico me disse que é conjuntivite na vista.

- Conjuntivite na vista não, Benedito. Isso é pleonasmo.

Getúlio chamou, Benedito entrou:

- O que é isso nos seus olhos, governador?

Agora estou na dúvida, presidente. O médico, lá em Belo Horizonte, tinha dito que era conjuntivite na vista. Mas o Capanema, que é muito inteligente, acaba de me dizer, aí fora, que não é não; que é pleonasmo.

Cada tempo tem suas historias, cheias de sutilezas e lições. O competente jornalista e professor Rosental Calmon Alves, dizia em um seminário no Globo sobre o futuro do jornalismo:

- “Agora, o jornal não vai mais ser apenas jornal. Pode se expandir para outras formas de comunicação com o leitor, desde que perceba que seu negocio é contar historias. Sempre fomos contadores de histórias. Só que agora, com a internet e os blogs, podemos fazer isso de forma mais ampla”.

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histórias. Exatamente pela razão do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.

10 de setembro de 2019

Um homem chamado livro

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – No dia 28 de janeiro de 1938, Getulio Vargas escreveu em seu “Diário” (Editora Siciliano/FGV, vol. II, pág. 176):

- “À noite, procura-me a Alzira (a filha Alzira Vargas) dizendo que a mulher do livreiro José Olimpio, que editara “A Nova Politica do Brasil” (livro de Vargas em vários volumes), procurara-a chorando para dizer que o meu telegrama circular aos interventores, desaprovando a compra do livro, arruinava moral e materialmente seu marido. Fiquei realmente penalizado, mas não podia voltar atrás, porque quem me prevenira que se estava fazendo exploração para forçar a venda do livro fora o interventor de São Paulo (Ademar). Passei mal esta noite. Não pude dormir. Levantei-me e fui trabalhar até as três horas da madrugada. Excesso de fumo e café”.

Até 1º de maio de 1942, quando o “Diário” se encerra, Getulio não toca mais no assunto.Como podia ter feito aquilo com quem continuou editando seus livros, inclusive a serie “O Governo Trabalhista do Brasil”? 

O mistério só foi decifrado mais tarde. O jornalista Arlindo Silva, da revista “O Cruzeiro”, publicou reportagem na edição de 19 de abril de 1947, sobre a administração de Ademar de Barros em São Paulo (“O Governador Presta Contas”). Ademar tinha sido interventor de 1938 a 1941 e foi eleito governador para 1947 a 1951. Arlindo Silva reproduziu o recibo da “Livraria José Olympio Editora”, referente à venda de 5 mil coleções dos cinco primeiros volumes de “A Nova Política do Brasil”, em 13 de dezembro de 1938, por 315 contos de reis. 

Entre 28 de janeiro e 13 de dezembro de 1938, Getulio, que não confiava em telefone (desde aquela época), deu um jeito de mandar pedir (ou ordenar) a Ademar que resolvesse o problema. Ademar resolveu.

Essa é uma das numerosas historias e documentos de um livro-monumento, do incansável jornalista, pesquisador e também grande editor (da Topbooks) José Mario Pereira, sobre 60 anos (de 1931 a 1990) de pioneirismo de um “civilizador do Brasil”, José Olympio Pereira Filho:

- “José Olympio – O Editor e sua Casa” (Editora Sextante). 

São 421 paginas, projeto gráfico do consagrado artista Victor Burton, primorosamente impresso, com centenas de ilustrações, fotografias, documentos e a capa dos principais livros editados por José Olympio em   meio século (nasceu em dezembro de 1902 e morreu em maio de 1990). 

José Olympio foi sobretudo um liberal da cultura e da política, um homem sem preconceitos, aberto a todas as ideias e todos os debates. 

Sua  editora nasceu em plena efervescência do renascer cultural, ideológico e político do Brasil, no começo de década de 30, depois da Semana de Arte Moderna de São Paulo. E deu a principal contribuição. 

Era um tempo em que Tristão de Athayde, Padre Helder Câmara, Miguel Reale, Gustavo Barroso, Santiago Dantas, Octavio de Faria,  Candido Mota Filho, Augusto Frederico Schmidt, ajudavam Plínio Salgado a construir e comandar o Integralismo, o mais poderoso movimento da direita intelectual e política do pais, sob o lema “Deus, Pátria e Família”.

Do outro lado, Pedro Ernesto, Anísio Teixeira, Gilberto Freyre, José Américo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond, comunistas ou próximos a eles. José Olympio editou a todos.

De Getulio a Sarney, todos os presidentes passaram pela “Casa”.

 Logo no principio da editora, no começo da década de 30, ele lançou pioneira e audaciosamente a coleção “Problemas Políticos Contemporâneos”  inaugurada com “O Estado Moderno Liberalismo, Fascismo, Integralismo”, de Miguel Reale (1934). Segundo livro: -“O Sofrimento Universal”, de Plínio Salgado. Também dele,“Despertemos a Nação”,“Psycologia da Revolução”. E “No Limiar da Idade Nova”, de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), “Panorama do Brasil”, de José Maria Belo, “A Aventura Política do Brasil”, de Azevedo Amaral, “Formação Brasileira”, de Helio Viana. 

Em 1936, outra coleção : “Documentos Brasileiros”, dirigida por Gilberto Freyre, Otavio Traquino e Afonso Arinos. Primeiro livro: “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda: 207 livros até 1989.

Em meio a esses, os grandes romances dos anos 30. José Américo, Jorge Amado (começou como vendedor), José Lins, Graciliano, Guimarães Rosa foram lançados por José Olympio, que fez os primeiros livros bonitos do pais, com capas de artistas: Santa Rosa, Luis Jardim, Poty, Eugenio Hirsch 

02 de setembro de 2019

O Brasil saqueado

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio

RIO - O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele.

Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o sub gerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506.

Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira.Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : - “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

- “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”.

Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas.

Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”.

A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.

27 de agosto de 2019

O pistoleiro errou o tiro

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO - Morto Lampião em 1938, Ângelo Roque, o “Labareda”, companheiro de cangaço, entregou-se às autoridades de Jeremoabo, no sertão da Bahia. Foi levado a júri. Tarcílo Vieira de Melo, futuro líder de Juscelino na Câmara, jovem promotor mas já com sua poderosa oratória, acusou-o fortemente. Oliveira Brito, juiz, também depois deputado e ministro de João Goulart, chamou-o de “desordeiro”. “Labareda” levantou-se indignado: 

- Desordeiro, não, seu juiz! Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão e me entreguei, confiando na palavra dos homens do sertão.

Vieira me disse que, a partir dali, condenaram-no, mas sem ataca-lo.

No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada. E detonou uma das mais graves crises da historia do pais. Gregório, chefe da Guarda de Getulio Vargas, encarregou Climério,subordinado e compadre,de providenciar a morte de Carlos Lacerda.

Climério pediu a Soares, também protegido de Gregório na Guarda, que arranjasse alguém para fazer o serviço. Soares contratou o pistoleiro nordestino Alcino. Os três pegaram o táxi de Raimundo, que fazia ponto perto do Catete, e foram para a rua Tonelero, 180, onde Lacerda morava.

Mas houve um erro de luz. Alcino estava acostumado a fazer tocaia no sol do sertão, naquele mundão aberto e claro, onde se vê tudo o tempo todo.

No depoimento ao coronel Adil de Oliveira, chefe do Inquérito Policial-Militar instalado no Galeão, Alcino confessou que “enfrentou problemas com a fraca iluminação na porta da garagem e atravessou a rua para atirar de um ângulo mais próximo”. E acabou matando o major-aviador da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, amigo e segurança de Lacerda. 

Lacerda levou apenas um tiro no pé. O anjo da guarda de Lacerda funcionou magnificamente. O pistoleiro fez tudo errado. E tudo o de errado que Lacerda fez acabou dando certo para ele e o salvando. Presos todos, primeiro o motorista Raimundo que “abriu o bico”, depois Climério, Soares, Alcino e Gregório, a historia pôde ser fielmente reconstituída e contada. 

Alguns livros são bem detalhados: "A Era Vargas” (José Augusto Ribeiro), “Carlos Lacerda, a Vida de um Lutador” (John Foster Dulles), “Depoimento” (Lacerda), “Uma Crise de Agosto : o Atentado da Rua Tonelero” (Cláudio Lacerda),“Quem Matou Vargas?” (Carlos Heitor Cony). 

Foi um faroeste urbano. Após um compromisso político, Lacerda e o filho Sergio, de 15 anos, chegavam em casa pouco depois da meia-noite, levados em um pequeno carro pelo major Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que lhe dava proteção. O da escala, naquela noite, era o major Gustavo Borges, futuro secretario de Segurança de Lacerda no governo da Guanabara. Mas não pôde ir e foi o Rubens Vaz. Para a morte. 

Na porta do edifício onde morava Lacerda, ainda conversaram um pouco e Lacerda saltou com Sergio, em direção à entrada principal iluminada do prédio. Mas Lacerda tinha esquecido as chaves e foi até a garagem pedir ao garagista para abrir a porta. Saiu do claro para a meia-luz. Com uma 45 na mão, Alcino atravessou a rua para atirar mais de perto.

Quando passava por trás do carro, o valente major Vaz saiu sem pegar seu revolver que estava no porta-luvas e se atracou com o pistoleiro, tentando tomar-lhe o revolver. Mas Alcino lhe deu dois tiros e ele morreu na hora.

Ao ouvir os tiros, Lacerda, com seu revolver na mão, quis sair para a rua, mas o filho se agarrou com ele e não deixou. Mesmo assim, da porta da garagem, Lacerda deu alguns tiros, que não atingiram ninguém. E do outro lado da rua também houve outros tiros, um dos quais acertou Lacerda no pé.

O major Vaz, já morto, e Lacerda, foram levados para o hospital Miguel Couto. Lacerda fez uma radiografia do pé e extraiu a bala de um 38.

Esse tiro no pé criou muitas lendas. Uns diziam que o próprio Lacerda atirou no próprio pé, pois seu revolver era um 38 e o do Alcino uma 45. Outros garantiam que não houve tiro nenhum no pé, que foi só engessado, tanto que no hospital não ficou registro algum. Mas algumas testemunhas viram Lacerda chegar ao hospital capengando, com o pé ensangüentado. 

Ao sair do hospital, Lacerda foi para casa em um taxi, com Armando Falcão (deputado do Ceará, depois ministro da Justiça de Juscelino e Geisel): 

- “Acho que vou enlouquecer. Foi uma enorme desgraça. Talvez eu tenha matado o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava à minha frente. Que horror”!

Quando chegou em casa, já muita gente estava lá, jornalistas e políticos. Entra o brigadeiro Eduardo Gomes e faz uma frase para a historia:

- Pela honra da Nação, esse crime não ficará impune.

E fez outra para o folclore politico:

- Carlos, o melhor remédio para esse seu pé é filé mignon. Mande buscar um filé cru, sangrando, e ponha no ferimento. Vai ficar logo bom.   

www.sebastiaonery.com   [email protected] 

26 de agosto de 2019

O pistoleiro errou o tiro

No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada

RIO - Morto Lampião em 1938, Ângelo Roque, o “Labareda”, companheiro de cangaço, entregou-se às autoridades de Jeremoabo, no sertão da Bahia. Foi levado a júri. Tarcílo Vieira de Melo, futuro líder de Juscelino na Câmara, jovem promotor mas já com sua poderosa oratória, acusou-o fortemente. Oliveira Brito, juiz, também depois deputado e ministro de João Goulart, chamou-o de “desordeiro”. “Labareda” levantou-se indignado:

- Desordeiro, não, seu juiz! Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão e me entreguei, confiando na palavra dos homens do sertão.

Vieira me disse que, a partir dali, condenaram-no, mas sem ataca-lo.

No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada. E detonou uma das mais graves crises da historia do pais. Gregório, chefe da Guarda de Getulio Vargas, encarregou Climério,subordinado e compadre,de providenciar a morte de Carlos Lacerda.

Climério pediu a Soares, também protegido de Gregório na Guarda, que arranjasse alguém para fazer o serviço. Soares contratou o pistoleiro nordestino Alcino. Os três pegaram o táxi de Raimundo, que fazia ponto perto do Catete, e foram para a rua Tonelero, 180, onde Lacerda morava.

Mas houve um erro de luz. Alcino estava acostumado a fazer tocaia no sol do sertão, naquele mundão aberto e claro, onde se vê tudo o tempo todo.

No depoimento ao coronel Adil de Oliveira, chefe do Inquérito Policial-Militar instalado no Galeão, Alcino confessou que “enfrentou problemas com a fraca iluminação na porta da garagem e atravessou a rua para atirar de um ângulo mais próximo”. E acabou matando o major-aviador da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, amigo e segurança de Lacerda.

Lacerda levou apenas um tiro no pé. O anjo da guarda de Lacerda funcionou magnificamente. O pistoleiro fez tudo errado. E tudo o de errado que Lacerda fez acabou dando certo para ele e o salvando. Presos todos, primeiro o motorista Raimundo que “abriu o bico”, depois Climério, Soares, Alcino e Gregório, a historia pôde ser fielmente reconstituída e contada.

Alguns livros são bem detalhados: "A Era Vargas” (José Augusto Ribeiro), “Carlos Lacerda, a Vida de um Lutador” (John Foster Dulles), “Depoimento” (Lacerda), “Uma Crise de Agosto : o Atentado da Rua Tonelero” (Cláudio Lacerda),“Quem Matou Vargas?” (Carlos Heitor Cony).

Foi um faroeste urbano. Após um compromisso político, Lacerda e o filho Sergio, de 15 anos, chegavam em casa pouco depois da meia-noite, levados em um pequeno carro pelo major Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que lhe dava proteção. O da escala, naquela noite, era o major Gustavo Borges, futuro secretario de Segurança de Lacerda no governo da Guanabara. Mas não pôde ir e foi o Rubens Vaz. Para a morte.

Na porta do edifício onde morava Lacerda, ainda conversaram um pouco e Lacerda saltou com Sergio, em direção à entrada principal iluminada do prédio. Mas Lacerda tinha esquecido as chaves e foi até a garagem pedir ao garagista para abrir a porta. Saiu do claro para a meia-luz. Com uma 45 na mão, Alcino atravessou a rua para atirar mais de perto.

Quando passava por trás do carro, o valente major Vaz saiu sem pegar seu revolver que estava no porta-luvas e se atracou com o pistoleiro, tentando tomar-lhe o revolver. Mas Alcino lhe deu dois tiros e ele morreu na hora.

Ao ouvir os tiros, Lacerda, com seu revolver na mão, quis sair para a rua, mas o filho se agarrou com ele e não deixou. Mesmo assim, da porta da garagem, Lacerda deu alguns tiros, que não atingiram ninguém. E do outro lado da rua também houve outros tiros, um dos quais acertou Lacerda no pé.

O major Vaz, já morto, e Lacerda, foram levados para o hospital Miguel Couto. Lacerda fez uma radiografia do pé e extraiu a bala de um 38.

Esse tiro no pé criou muitas lendas. Uns diziam que o próprio Lacerda atirou no próprio pé, pois seu revolver era um 38 e o do Alcino uma 45. Outros garantiam que não houve tiro nenhum no pé, que foi só engessado, tanto que no hospital não ficou registro algum. Mas algumas testemunhas viram Lacerda chegar ao hospital capengando, com o pé ensangüentado.

Ao sair do hospital, Lacerda foi para casa em um taxi, com Armando Falcão (deputado do Ceará, depois ministro da Justiça de Juscelino e Geisel):

- “Acho que vou enlouquecer. Foi uma enorme desgraça. Talvez eu tenha matado o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava à minha frente. Que horror”!

Quando chegou em casa, já muita gente estava lá, jornalistas e políticos. Entra o brigadeiro Eduardo Gomes e faz uma frase para a historia:

- Pela honra da Nação, esse crime não ficará impune.

E fez outra para o folclore politico:

- Carlos, o melhor remédio para esse seu pé é filé mignon. Mande buscar um filé cru, sangrando, e ponha no ferimento. Vai ficar logo bom.

19 de agosto de 2019

Histórias de Jânio Quadros

Confira o texto publicado na coluna Sebastião Nery na edição desta segunda-feira (19) no Jornal O Dia.

RIO – Veiga Brito era presidente do Flamengo e deputado federal da Arena, em 1966, quando Lacerda tentava organizar a “Frente Ampla”. Foi a Santos negociar um jogador com Athiê Jorge Curi. Jânio estava lá. Sabia que Veiga era amigo de Lacerda, telefonou, marcaram um encontro, conversaram longamente em um quarto, sentados na cama.

Jânio não entendia porque Lacerda havia chamado Juscelino e Jango para a “Frente”, feito as pazes com eles, e não aceitava a participação dele:

- Deputado Veiga Brito, o que é que o Carlos tem contra mim? Ele procura os antigos adversários e ao seu companheiro de lutas repele. O senhor pode explicar-me por quê? Sei que o senhor é muito amigo dele.

- Presidente, eu acredito que ele não entendeu e ainda não absorveu o episódio da renúncia.

- Ele só não, deputado. Todos. Ninguém entendeu. O senhor entendeu?

- Olha, presidente, eu acho que o senhor armou uma jogada para sair e voltar mais forte, e não deu certo.

- Pois é, deputado. Joguei no porco e deu jacaré.

E deu uma gargalhada.


Jânio foi ao “Barzinho do Museu”, na avenida São Luis, onde um grupo de gente amena e talentosa, comandada por Francisco de Almeida Sales, dissolvia em gelo a crise financeira e as angústias humanas. E Jânio contou esta:

- Vocês sabem, eu sofro de uma insônia horrível. Quando ela vem, ponho-me a caminhar e pensar. Era governador, ela veio. Levantei-me, pus o capote para defender-me da neblina e saí perambulando pela cidade, pensando no meu Estado e no meu povo. Passei em frente a uma delegacia, resolvi entrar para fazer um teste pessoal. Na portaria, ninguém. No plantão dos investigadores, ninguém. Lá dentro, com as pernas sobre a mesa, o senhor delegado conversando com o senhor escrivão, igualmente sonolento e repousante. Estirei a cabeça. Pu-la à porta:

- Senhor delegado!

Ninguém respondeu. Pu-la mais à frente.

- Senhor delegado!

Ninguém respondeu, Gritei:

- Senhor delegado!!!

O senhor delegado nem se mexeu, perguntou ao escrivão:

- Quem está chateando ai?

O escrivão, sem se mexer, olhou-me de soslaio, respondeu ao delegado:

- Um cara, que é a cara do maluco do Jânio. Está ali chamando você.

Josélio Gondim, diretor da revista Espelho, de Brasília, bebia a história de Jânio:

- E o que o senhor fez, presidente?

- Fui-me, meu caro. Fui-me embora. Pensei em prendê-los, aos dois. Mas, e se eles pensassem que eu era um sósia de mim e me prendessem? Eu estava sem documentos. Só de pijama e sobretudo. Fui-me.


José Paulo Freire, o “Zé do Pé”, era menino de calças curtas em Araçatuba, São Paulo, 1954, quando Jânio Quadros saiu candidato a governador. Nacib Curi, turco, grandão, elegante, charuto enorme na boca, mandou fazer escondido um folheto em papel ruim, impresso em gráfica velha, de igreja, com uma foto exótica de Jânio, os olhos estrábicos arregalados e a boca torta:

“Procura-se um louco, É esse aí. E se diz candidato a governador”.

Mas como distribuir? Chamou “Zé do Pé”:

- Zé, tome esse dinheiro para você distribuir isso de manhã, na barbearia, e meio-dia no fórum. Não diga a ninguém que fui eu que lhe dei. Se perguntarem quem foi responda que foi o passarinho.

Na barbearia, estavam três figurões da cidade: Dr. Trancoso Peres, médico. Zé entregou. Raul Vieira da Cunha, fazendeiro. Zé entregou. E o Dr. Coelho, advogado do Banco do Brasil. Zé entregou. Dr. Coelho recebeu, olhou, leu:

- Zé, quem te deu isso?

- Um passarinho, Dr. Coelho.

- O passarinho fuma charuto, Zé?

Zé parou, amarelou, as pernas tremeram:

- Fuma, sim senhor.

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13 de agosto de 2019

Todo mundo desconfia de todo mundo nos aeroportos da Europa

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A bomba

Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e minha namorada, com nosso medo. Impossível não ter medo. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Sobretudo voos em direção ao Oriente. Cada um ficava imaginando onde o outro tinha escondido a bomba, a granada, o revólver que daí a pouco explodiria lá no céu, o avião e todos juntos. Estávamos no aeroporto de Roma, para pegar o voo da Alitalia  para a Grécia. Na fila ao lado, para Damasco, na Síria, homens com turbantes, barba cerrada e cara fechada, mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça. A fila deles começava a andar, todos ficavam olhando, calados. O pensamento coletivo boiava indisfarçado, no ar. Quantos iranianos havia ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo vai andando devagar, seguindo desaparece. Agora é nossa vez. O policial do controle pegou o passaporte do árabe do turbante que estava a nossa frente, olha, esmiúça, confere, visivelmente, constrangedoramente desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar. Os nossos passaportes ele mal olhou. Pergunta: - “Brasile”? E carimba. O africano do camisolão, atrás de nós, empaca. O mesmo ritual da desconfiança. Viraram o passaporte de cabeça para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada consta, mesmo assim não se conformaram, olharam agressivamente para o rosto negro, árido, meio escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, sai. E a fila se arrastando medrosa.

Depois do passaporte, outro obstáculo: o controle de bagagens, bolsas,  objetos pessoais e o próprio corpo. Vem a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passou tranquilo. Não havia um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano no camisolão ficou, vem o apito fino, estirado, estridente: -“piiii”. Todo mundo olha. É ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu vermelho de italiana, óculos italianos, botas italianas. Uma terrorista italiana. Logo aparecem três policiais femininas, levam-na ao lado, como se estivessem perguntando: - “Abra logo o jogo, e arma”? Não era. Apenas o isqueiro. Deixou o isqueiro, voltou, atravessou de novo a passarela metálica, sem apito nenhum. Se fosse um árabe ou africano, mesmo sem o segundo apito, a devassa ia continuar. O medo do terrorismo estava virando racismo.

Afinal, estávamos na sala de espera. Chamam nova fila. A metade passa, pedem para a outra metade esperar, porque vamos de ônibus para o avião. Pelo vidro, vimos o ônibus encher e seguir até o “air-bus” da Alitália, lá longe, no campo úmido, na manhã de 10 graus. O ônibus para, mas ninguém salta, ninguém entra. Os funcionários da Alitália, atenciosos e perplexos, comunicam que “houve um pequeno problema”, mandam-nos sair para esperar nova chamada. E os outros, dentro do ônibus, junto ao avião. Não havia dúvida. Era ela, a bomba. Estariam tentando desativar. E voltam os que haviam ido. O voo vai atrasar. Era para sair ao meio-dia, deu uma hora, duas horas, nada. Às 15 horas, afinal, embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado mar adriático. A aeromoça, bela, com seus imensos óculos redondos, servia o vinho para o almoço já atrasado, quando o comandante pede atenção: -“Desculpem, mas a partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros e os mantenham apagados até que o sinal de proibição também se apague. É uma pequena emergência. Espero que dentro de 15 minutos já voltemos à normalidade.” Durou uma hora a proibição. Não havia realmente mais dúvida alguma. Era ela, a bomba. A bomba terrorista, afinal flagrada a bordo. Acender o cigarro era acender a bomba. E voar tudo pelos ares. Ela estava, certamente, descoberta e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida. O murmúrio foi crescendo, ninguém sabia o que estava acontecendo, também não foi dito. E nada, absolutamente nada aconteceu. A aeromoça de óculos enormes atendeu a meu pedido, deixou comigo uma tranquilizadora garrafa de vinho tinto e logo comecei a ver as escarpadas colinas da Grécia lá embaixo, como o céu crespo do céu.

Para o brasileiro, Grécia é Sócrates, Platão, Aristóteles e Onassis. No máximo, a Jaqueline, viúva de Kennedy, viúva de Onassis. O teatro, o alfabeto, os oradores, a cultura, a civilização grega estão dentro de nós, desde a escola primária, qualquer que seja o nível educacional do brasileiro, como a  nossa mais forte referencia cultural. Mas tudo coisa de séculos atrás. Dois para três mil anos. Grécia é o passado, a antiguidade, quase a eternidade. A língua, morta. A geografia, perdida ali entre o Mediterrâneo, os Balcãs, o fim do Ocidente, o começo do Oriente. Grécia é coisa distante. Grego, sinônimo de total desconhecimento: -“Isto para mim é grego.” E no entanto a Grécia está sempre junto de cada um de nós, em grande parte da língua que falamos, e, principalmente, na poderosa herança cultural, ela que foi a mãe da civilização latina, portanto avó de nossa civilização.


05 de agosto de 2019

A outra cama do papa

O simpático e civilizado Gouthier foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma

RIO – No dia em que se fizer o inventário completo das injustiças cometidas pelo golpe de 1964, é preciso contar a ignominia que foi a alegação para a cassação do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simpático e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Irã, no governo do Xá da Pérsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palácio Pamphilli. A UDN alegou que foi “uma negociata”. Não conheço negócio melhor para o país, feito por qualquer Governo.

Os herdeiros da família Pamphilli não sabiam o que fazer do velho palácio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famílias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberação dos magníficos salões com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belíssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o “palazzo” com quatro promissórias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhões, pagos em vários anos). Só as obras de arte que estão lá valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhões de dólares para ter uma sede como aquela.

O palácio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona até a Igreja de Santa Inês, em frente da qual fica a magnífica “Fonte dos Quatro Rios”, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praça de São Pedro: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata, até então os quatro maiores do mundo, pois ainda não conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palácio, a família Pamphili não quis vender também “o apartamento do Papa”, a parte que liga o palácio à Igreja de Santa Inês, da mesma altura do palácio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

Ali o Papa Inocêncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palácio para a cunhada Olímpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. Até hoje estão lá, originais, a cama, os móveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre pão e água que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa não dormia apenas lá. Dormia também com a cunhada viúva. E até hoje há quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olímpia fazendo barulho na praça e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei lá, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olímpia não me deu a graça de vê-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palácio, Gouthier pôs um item deixando para o Brasil a opção de compra do “apartamento do Papa”. Quando a família resolveu vender, foi no governo Figueiredo. Não sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabeça de bagre. Pediram 800 mil dólares. O Brasil, que tinha direito de compra, não quis comprar. Continuaram achando que era “a negociata de Gouthier”.

O Brasil não quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televisões, revistas e jornais, depois deputado e primeiro ministro) comprou por 10 milhões de dólares (só o apartamento, menos de 10% do edifício todo, que o Brasil comprou por 2 milhões, em vários anos).

Depois, Berlusconi vendeu “o apartamento do Papa”. Por 15 milhões de dólares.

E pensar que uma das razões da cassação de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palácio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier também.

23 de julho de 2019

O “Pathê” e o Pateta

www.sebastiaonery.com [email protected]

Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê. Fayermann dos pais judeus. Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

- “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

- “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

- “Conceição, estava no morro a sonhar”...

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

- “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

- “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.


22 de julho de 2019

O “pathê” e o pateta

Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê

RIO – Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê. Fayermann dos pais judeus. Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

- “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

- “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos

e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

- “Conceição, estava no morro a sonhar”...

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

- “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

- “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.

16 de julho de 2019

Mikonos, a ilha de Jaqueline

Foi aqui que Jacqueline Kennedy começou a trocar de casa branca: a Casa Branca de Kennedy pela casa branca de Onassis

RIO – Foi aqui que Jacqueline Kennedy começou a trocar de casa branca: a Casa Branca de Kennedy pela casa branca de Onassis. Não teria sido mesmo fácil resistir aos encantos do fascinante iate de Onassis, pousado nas águas muito azuis, embaixo dos penhascos de terra muito escura, com as casas e igrejas inteiramente brancas lá em cima e um armador petrolífero, pequeno, feio e bilionário, resolvido a arrematar a mulher do presidente dos Estados Unidos.

As ilhas gregas são promontório de pedras cercadas de mar e historia por todos os lados. Nós, baianos, nos orgulhamos das 365 igrejas de Salvador, uma para cada dia do ano. Mykonos, uma ilhazinha de 16 quilômetros de comprimento, 11 de largura (a metade de Itaparica), um punhado de habitantes (e centenas de milhares de turistas todo ano), tem mais de 500 igrejas, quase todas branquíssimas, com suas cúpulas e telhados circulares pintados de azul ou vermelho forte.

A mais famosa de suas igrejas, uma das mais fotografadas do mundo (esta em todos os cartões postais da cidade) a “Paraportiani”, é um imenso bolo de noiva, todo branco e redondo, cinco igrejas numa só, quatro embaixo e uma em cima. Haja devoção.

Duas outras marcas da ilha: os moinhos e os pombais, que os habitantes constroem em cima das casas e no alto das escarpas, para enfeitarem (e comerem). A “ilha branca” é um presépio, E tem uma coisa raríssima nestes mares azuis empedrados: praias. A areia não é branca como os lençóis estirados da costa brasileira, mas praias de areia cinza, ocre, meio grossa.

Jaqueline tinha razão: traição por traição, que fosse aqui, com cara e cheiro de paraíso.

Mykonos só existe por causa de uma ilhota vazia, “onde ninguém mora mais” (como na bela canção de Lula Freire, inesquecível na voz de Elizete Cardoso): Delos, a ilha-sagrada de Apolo.

Durante mil anos, Delos foi o centro político e religioso do Mar Egeu. E Mikonos, a meia hora de barco, seu porto e infra estrutura. Com 4 quilômetros quadrados, nenhuma casa, nenhum habitante, Delos não é uma cidade fantasma porque aqui mora Apolo, o mais charmoso dos deuses da antiguidade, deus da luz, da verdade e da beleza.

Conta a mitologia (a historia vestida de lenda) que Leto, namorada de Zeus, o senhor do universo, estava grávida de Apolo e Artemisa, mas Hera, a mulher de Zeus, mandou expulsá-la de todos os lugares. Zeus pediu a Poseidon para resolver o problema. Ele bateu seu tridente no mar e de lá surgiu a ilhote rochosa, Delos, onde nasceram Apolo e Artemisa, a deusa da caça e da virgindade.

Como na história, a mentira costuma ser mais poderosa do que a verdade. Mas a história está aqui, em pedra, mármore e mistério. Há restos de construções de 3 mil anos antes de Cristo. Na época “micenica” (1580 a 1200 antes de Cristo) houve uma importante urbanização na ilhota. No ano 700 (antes de Cristo) Delos já era o mais famoso culto a Apolo. E virou um centro comercial. No século VI (antes de Cristo) o grego Persistratos, achando que haver mortes em Delos era um sacrilégio, mandou tirar daqui todos os túmulos. E logo depois proibiram nascer e morrer aqui, expulsando para a Ásia toda a população (426 antes de Cristo).

Apesar disso, como era uma encruzilhada marítima entre três continentes, Delos tornou-se um centro mercantil, sobretudo de escravos: os romanos chegaram a vender mil escravos por dia. Embaixo das barbas de Apolo. O castigo veio logo: Mitridates, rei de Pontus, atacou a ilha (que era romana), matou todos os 20 mil habitantes. E arrasou templos e monumentos.

Mesmo assim, pelo que sobrou, dá para ver a poderosa civilização que eles tinham construído, em Delos e também em Mykonos (sobretudo depois das escavações que a Escola de Arqueologia da França começou em 1873). Praticamente toda Delos é coberta de ruínas, algumas ainda belíssimas, como as pilastras, colunas e capitéis dos templos, os cinco leões de mármore com as patas estendidas, as casas de Dionisius e de Cleopatra (a outra), água corrente embaixo das casas, canalizada.

Tudo monumental, como se fossem numerosas catedrais jogadas no chão. Aqui mandaram fenícios, gregos, romanos, turcos, e cada um foi carregando seus pedaços de riqueza e de história.

Mykonos, ao lado, também sofreu o furor da loucura humana. Quando Delos era “porto livre” dos romanos, de 166 antes de Cristo até a destruição de Mitridates em 88 (antes de Cristo), também era rica. Passou séculos esquecida, até que em 1207 Veneza tomou e entregou aos irmãos Ghisi, cujo nome e brasão estão na entrada da catedral católica.

Em 1537, os turcos de Barbaroxa, (o império Otomano), tomaram a Grécia toda, Mykonos e Delos, até que, na guerra da independência grega em 1822, duas mulheres valentes comandaram as ilhas e expulsaram o exercito turco: Mando Mavroiennis e Boubulina.

Para quatro mulheres, havia um homem só. E o tarado do Onassis ainda foi buscar uma em Washington.

02 de julho de 2019

Viagem com Jorge Amado

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Ele Não queria ir de avião. Preferia o trem, de Roma até o sul da Itália e de lá para a Sicília. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, achavam demorado. Acabou se convencendo e voamos direto para Palermo. 

Jorge Amado passou em Roma em 1990, deu entrevistas como sempre, participou como jurado da entrega do “Premio Internacional União Latina de Literatura” e fez um debate no “Centro de Estudos Brasileiros”, na embaixada brasileira, ali na magnífica Piazza Navona, onde  eu era adido cultural.

Ele ia receber em Palermo, capital da Sicília, o “Premio Mediterrâneo”, mais importante da Sicília. 

Jorge foi, durante décadas, o embaixador da cultura brasileira no mundo e o autor  brasileiro mais lido em todos os países. Zélia Gattai fez muito bem em eternizá-lo, fazendo da casa do Rio Vermelho o “Memorial Jorge Amado”.

Nas ruas de Roma, nas esquinas da Sicília, era inacreditável a alegria do casal Hilda e Geangaspare Ferro em Palermo, ela brasileira, numa feijoada perfeita, estavam quatro casais que se conheceram por causa dos livros dele.

Eram italianos ou italianas que descobriram o Brasil, a Bahia, o Rio, nos livros dele, vieram conhecer o país, aqui encontraram brasileiras ou brasileiros, conheceram-se, casaram e foram agradecer a Jorge, santo casamenteiro. E algumas belas Gabrielas nascidas do romance de 1958.

Na Faculdade de Línguas e Literatura de Palermo, com os muros cobertos de slogans da esquerda, Jorge dez, durante horas, um debate com os estudantes. O que eles mais queriam saber era como o Brasil conseguiu misturar suas raças e a Europa vive cada dia mais envolvida no brutal conflito entre suas populações nativas e os imigrantes. Jorge ensinou sua sabedoria:

“Racismo só acaba na cama. Quando o primeiro português amou a primeira índia, começava no Brasil o mistério da nossa língua e nossa Nação”.

À noite, na entrega do prêmio, no Parlamento lotado, lá estava a Sicília oficial: o governador da província, o presidente do Parlamento regional, o pomposo cardeal Salvatore Pappalardo, escritores, professores, jornalistas. 

O grego Homero a chamou “Ilha do Sol”. Mas quem a definiu foi Goethe: “Sem ver a Sicília, não se pode fazer uma ideia da Itália. É na Sicília que se encontra a chave de tudo”. Tomasi di Lampedusa, escritor siciliano, disse no clássico “Il Gattopardo”.

- “Somos velhos, velhíssimos. Há 25 séculos, ao menos, carregamos mas costas o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora, nenhuma germinada aqui. Somos tão brancos quanto a rinha da Inglaterra. No entanto, há 2 mil anos somos colônia”.

A Sicília não é filha da Itália. É mãe. Não veio do Império Romano. É anterior. A civilização grega, antes de chegar a Roma, já estava na Sicília. Roma é a mãe da Europa. A Sicília é a avó. Uma vovó mafiosa, mas vovó.

Os fenícios, já instalados no norte da África, em Cartago, chegaram à Sicília e criaram sua primeira cidade, Panormo, hoje Palermo matriz fenícia e grega, depois romana, da Europa. Só no século 3º antes de Cristo, Roma chega à Sicília, com Pirro, para ajudar os gregos contra os fenícios. Roma derrota Cartago, expulsa os gregos e fica dona da ilha.

Durante séculos a Sicília foi o mais importante centro da civilização ocidental: desde o ano 1000 antes de Cristo, com os fenícios; depois, nos anos 500 antes de Cristo, com os gregos; antes de Roma foi o centro do Império Romano, com os romanos; e com os normandos, quando o Império Romano desabou, até 1250, quando morreu Frederico II e os franceses e espanhóis, protegidos pelos Papas, puseram a Sicília em séculos de opressão.

Primeira universidade do mundo e primeiro parlamento do mundo, em Palermo, em 1130, a Sicília surpreendeu Jorge Amado. Na catedral, flores frescas, do dia, no tumulo de Frederico II, “o rei sábio”, enterrado lá. Até hoje o povo enfeita sua morte, uma espantosa ternura por quem viveu até 1250.