• Teresina shopping
  • HEMOPI - Junho vermelho
  • ITNET
  • Novo app Jornal O Dia
  • TV O DIA att

Notícias Sebastião Nery

11 de junho de 2019

O melhor de nós

www.sebastiaonery.com [email protected]

Éramos 11. Hoje já somos 2. Morreu ontem em Salvador, o melhor de todos nós: Padre Carlos Formigli.  Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifícia  Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma – Itália, 1952/56. Pos-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la  Transformation – Faculdades Católicas de Lilli – França – 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundação da Criança e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 – Salvador.

Os primeiros alunos do Seminário da Imaculada Conceição de Amargosa, na Bahia. A prefeitura estava inaugurando a “Biblioteca Pedro Calmon”,  filho mais ilustre da cidade. Estavam lá o homenageado, professor, escritor, acadêmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florêncio Sisínio Vieira, os professores do seminário e os locais, e um jovem estudante de Direito também nascido lá, Waldir Pires.

Padre Correia escreveu um texto em latim, um diálogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de começar e a alegria de terminar debaixo de palmas, Não erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

- “Eus, Carole, quo vadis”? (Alô, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inauguração da biblioteca. Falávamos sobre a importância da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudação à cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clássico, claro, que pronunciamos com segurança, até porque o autor estava ali e, se errássemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

Tenho aqui em mãos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

“- Caro Sebastião, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitórias conquistadas, as dificuldades vencidas, os serviços prestados. Com certeza, não fomos inúteis e, nem tão pouco, mais um na história do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheço sua história (a NUVEM não deixa dúvidas) e você sabe por onde andei, tentando realizar a minha missão de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se não optamos pelo repouso, já sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudência.

Você, meu caro, tem uma história rica de momentos empolgantes e não duvido em afirmar que os dias de “prisão” contribuíram, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polêmico, o cidadão consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabéns, Sebastião, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua história, pelo que você fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com você, agradeço a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.”


04 de junho de 2019

Três que eram seis

www.sebastiaonery.com [email protected]

Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas:

- “Ciente senador Ismar (irmão de Pedro e Silvestre e também general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas têm em vista provocações ocasião comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmão dos outros dois), aconselhei a este a não ir”.

“Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relógio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Góis e a rompeu, rasgando-a à vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relógio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibição, deu ordem até de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel”. 

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar:

- “O governador sabe, e se não sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligencia, já que não respeita o cargo que ocupa” 

Eram assim, como gato e cachorro, os três irmãos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dúzia. Ainda houve mais três: Cícero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.   

É caso único na história do Brasil, de seis irmãos políticos atuando ao mesmo tempo.

1. - Logo depois da proclamação da Independência, os irmãos José Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro Iº fechou para impor sua Constituição de 1824.2. – Os irmãos Mangabeira, baianos: Otavio, João e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e João elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacêutico e prefeito de Bagé, no Rio Grande do Sul, também foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os três,

3. – Na década de 90, Alagoas teve três irmãos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B.      Democracia é no voto e não na bala.

O general-governador Silvestre Góis Monteiro levou o maior susto quando começaram a ser contados os votos das eleições de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaças diárias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas não teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmão o poderoso general Aurélio Góis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposição (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafia-lo, disparou. O candidato a senador, Jerônimo da Rocha, também. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que não passaria o governo.

No comando do 20º Batalhão de Caçadores do Exercito, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da historia, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: “Sururu Apimentado”, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas.


28 de maio de 2019

O múltiplo embaixador

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível.

Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freire. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo dai a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. 

Ai aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com  Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau e Lopo do Nascimento de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Savimbi. 

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

- Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze 

anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes. 

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes:

“Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude.

Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

Não por acaso, hoje a Academia Brasileira de Letras presta homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro estão convidando para o 

Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, às 16:00 , no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. 

www.sebastiaonery.com    [email protected]

27 de maio de 2019

O múltiplo embaixador

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível

RIO – O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freire. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo dai a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. 

Ai aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com  Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau e Lopo do Nascimento de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Savimbi. 

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

- Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze 

anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes. 

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes:

“Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude.

Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

Não por acaso, hoje a Academia Brasileira de Letras presta homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro estão convidando para o 

Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, às 16:00 , no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. 

21 de maio de 2019

Histórias políticas

www.sebastiaonery.com [email protected]

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960.

Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido:

- Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 é 

porque planeja outras muito mais altas aos 60. 

Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

- Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

- Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

- Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de 

Alagoas. O Aurélio Viana alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e leva-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

- Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai. 

Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas. 

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

20 de maio de 2019

Histórias Políticas

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960

RIO – Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960.

Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido:

- Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 é porque planeja outras muito mais altas aos 60.

Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

- Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

- Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa

Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

- Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de

Alagoas. O Aurélio Viana alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e leva-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

- Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai.

Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

14 de maio de 2019

A Turquia não é um país. É uma salada de frutas

A Macedônia também já foi. Tantos povos moraram e mandavam lá, que na Itália a salada de frutas se chama “macedônia”. Pois a Turquia é muito mais. É o único país do mundo que já teve 12 capitais.

Uma salada de frutas

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do século 18 ao século 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lícia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Pérgamo, capital do reino de Pérgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizâncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Império Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Império Otomano, também antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que de Constantinopla;  Niceia, quando a IV Cruzada cristã tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

Os povos que vieram e construíram têm nomes estranhos e belos, vieram desde o começo dos tempos, neste pequeno e fantástico país de 780 mil quilômetros quadrados e 75 milhões de habitantes.

Os turcos são herança de todos eles, de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Há marcas de presença humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta é sua grandeza mas também sua tragédia.

Os turcos dizem que a Turquia é o “maior museu a céu aberto do mundo”. E é por causa de sua fantástica história. Cada cidade tem um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações.

Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligação da Europa com a Ásia, do Mediterrâneo com o Mar Negro, da civilização ocidental com a civilização islâmica, dos projetos de dominação mundial dos Estados Unidos com a muralha que é a União Europeia?

Toda a história antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bósforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia, há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. É por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaçam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bósnia.

A Turquia, como a Grécia, Roma, Jerusalém, Paris, China, tantos outros, é um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espaço tão pequeno, nem mesmo na sagrada Grécia e na Roma divina, haja, tão numerosa e diversa, a presença da humanidade através da história.

Aqui, a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotamia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio. E viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 – Aqui nasceram Homero, o poeta,  São Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sábios. Aqui ensinaram Platão e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 – Quando Noé ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos três mais importantes rios da antiguidade, são daqui. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, estão (estavam) aqui. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para cá e aqui morreram. São Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maomé também estão aqui.

3 – A primeira moeda foi cunhada aqui, em Pérgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Império Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

Aqui, a historia troca de roupa: os gregos construíam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristãos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austríacos, alemães, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua imenso museu do homem.

www.sebastiaonery.com   [email protected]

06 de maio de 2019

Quinta das lágrimas

Desde a idade média, a Quinta das Lágrimas, é o oásis de paz da cidade das tensas cátedras, das rebeliões e dos abismos políticos de Portugal

Rio – Na Arcada da Capela, o belo restaurante do hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, Portugal, à beira do camoniano rio Mondego, sob as bênçãos da milenar Universidade de Dom Diniz, a mineira família Gorgulho-Juca, escolheu para rever amigos portugueses.

O lugar perfeito. Desde a idade média (a partir de 1350), a Quinta das Lágrimas, que já foi da Universidade e de uma ordem religiosa, cercada de matas e jardins cheios de araucárias e palmeiras, plátanos e figueiras, sequoias e agapantos, é o oásis de paz da cidade das tensas cátedras, das rebeliões e dos abismos políticos de Portugal.

Esta é uma casa de punhaladas, um símbolo universal das intrigas, brutalidades, violências e assassinatos a serviço da loucura humana.

Por isso a Quinta das Lágrimas se fez tema e inspiração da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos já escreveram sobre ela. Mas nenhum com a força e a genialidade de Luiz de Camões, que no Canto III dos Lusíadas celebrou o amor e o martírio de Inês de Castro, ibérica e trágica Julieta (“Estavas, linda Inês, posta em sossego”), que “depois de morta foi rainha” e cujo amor impossível está eternizado em pedra e água na Fonte das Lágrimas.

“As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram/ E por memoria eterna em fonte pura / As lágrimas choradas transformaram,/ O nome lhe puseram que ainda dura/ Dos amores de Inês que ali passaram,/ Vede que fresca fonte rega as flores/ Que as lágrimas são água e o nome amores.” Maior e mais fantástica do que a poesia de Camões é o milagre de sua vida. Soldado, doca e náufrago, com um poema fundou uma nação.

Como todas as eternas novelas maravilhosas, a de Inês de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal, dom Pedro, filho dele, era príncipe. E andava pela corte uma “galega” magnífica, filha bastarda de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho, de Castela, que o príncipe dom Pedro também era. Pedro e Inês eram primos. E se apaixonaram.

Começou o maior tititi na corte, porque o príncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com dona Constança, também prima dos dois. Inês vivia no Convento de Santa Clara, a meio quilômetro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam até o convento por um córrego que, em um cano, passa até hoje.

Dom Pedro acabou levando Inês para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, não queria aquilo e, um dia em que Dom Pedro estava nas matas, caçando, mandou três homens matarem Inês de Castro a facadas.

Ela chorou tanto, pedindo para não morrer, que fez nascer a Fonte das Lágrimas, onde há quem veja, ainda hoje, gravada na rocha, a mancha vermelha do sangue de Inês. Não sei o que é, mas tem cor de sangue.

O príncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exército e assolou o país, tentando derrubar o pai. Não conseguiu, mas logo depois o pai morreu, Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os corações a facadas, anunciou que havia casado secretamente com Inês antes de ela morrer e mandou construir o monumental túmulo de Alcobaça.

O rei fez uma marcha fúnebre de Coimbra ate Alcobaça e obrigou toda a nobreza a acompanhar, beijando a mão da morta. E pôs o corpo dela no túmulo, onde também o dele está. Por isso, Inês “depois de morta foi rainha”.

Este bucólico recanto do romantismo universal, é sobretudo um testemunho secular do ódio e da violência política. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata a facadas.

29 de abril de 2019

O vice exemplar

O vice exemplar

Sebastião Nery - Jornalista

Era um rapaz magricela, calva longa e olhar triste de seminarista de castigo, as mãos soltas  na ponta dos punhos, como balões vazios, e um pescoço longo, muito longo entre Modigliani e o gogó da ema da praia de Pajuçara em Maceió. Duas vezes vi Marco Maciel, presidente da Câmara, em pânico, na crise de abril de 1977. Quando Francelino Pereira chegou ao Planalto dizendo que a situação era gravíssima, foi ao gabinete dele, trancaram-se. Lá de fora, pela vidraça, vi Marco Maciel bater as mãos na mesa, esmurrar os joelhos, pular na cadeira como numa sela de potro bravo. Depois, foi na volta do encontro com o Presidente, quando lhe foi comunicado o recesso do Congresso, estava pálido, lívido, o rosto como cera, e o suor correndo fino pelas têmporas. Quando Célio Borja, sibilino e cortês, lhe passou a presidência da Câmara, abraçou-o:

Eu quero que Deus o preteja. Marco.

E tem protegido!

Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da oposição de Alagoas, organizou na Assembleia Legislativa um Círculo de Estudos Políticos com Teotônio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Maceió, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antonio, vê Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre até o quarto:

Painho, o mapa do Chile está aí com o Guilherme.

Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, começaram a reunir-se, em 1984, para organizar a Frente Liberal, uma dissidência do  PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo  Neves a presidente da República, contra Paulo Maluf. 

Aureliano Chaves, vice-presidente de Figueiredo, logo assumiu a liderança do grupo. Um dia, marcaram uma reunião com Ulysses Guimarães para discutirem a formação da Ação Democrática, a aliança do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

Mais no fim do ano, antes de o Colégio Eleitoral reunir-se, em janeiro, a Frente Liberal, já formada, fez uma reunião para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente e quais ministérios iriam reivindicar.

Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que não queria ser vice. Não convencia muito, Sarney, o segundo, também dizia, mas não convencia nada. Resolveram tratar antes dos ministérios. Marco Maciel propôs pedirem primeiro o da Educação. Sarney foi contra. Era um “abacaxi”, cheio de armadilhas, professores reivindicando e estudantes fazendo greves.

Preferia o da Previdência, que “tinha recursos e bandeiras sociais”. Marco não concordava, o debate continuava.

De repente, Sarney saiu para ir ao banheiro. Palmeira foi atrás. Enquanto Sarney fazia xixi, Palmeira encostado na porta, catequizava:

Sarney, o Marco quer a Educação para ele, é o sonho dele. E é a única maneira de você ser o vice.

Sarney voltou rápido e defendeu o ministério da Educação. Para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabeça de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educação e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.


Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Senado

22 de abril de 2019

Orgulho mineiro

Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte, criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo

RIO – Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte (o pai foi um dos patriarcas mineiros), criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo. O governador só dava a medalha a quem Liminha aprovava.

Bias Fortes chegou ao governo, queria dar a Medalha de Tiradentes à sogra. Augusto de Lima Júnior protestou, não adiantou nada. Bias assinou o ato, Liminha pediu demissão e no dia seguinte O Estado de

Minas publicava longa carta do chanceler demissionário, com o seguinte título: “Parir mulher de governador não dá direito a medalha”.

Morreu a mulher de Augusto de Lima Júnior. Alkmin não foi ao enterro, não telefonou, não telegrafou, não foi à missa de sétimo dia, não deu sinal de vida. E eram amigos íntimo de longa data. Liminha ficou indignado, nunca mais procurou Alkmin.

Uma tarde, encontram-se em Belo Horizonte, rua da Bahia, na Livraria Itatiaia.

- Como vai, meu caríssimo Lima?

- Vou bem. Até logo.

- Espere. Por que a pressa? Noto que você esta triste. O que é que significa essa gravata preta? Morreu alguém próximo?

- Morreu sim, Alkmin. Morreu minha mulher.

- Não me diga. Eu não sabia. Meus pêsames.

- Ela deixou essa vida com nojo dos homens, cada dia mais canalhas. Cada dia mais canalhas, Alkmin, até logo.

- É isso mesmo, Lima. A vida não está mais para gente como nós. A vida hoje é só mesmo para os canalhas. Gente como nós já não tem por que viver.

E abraçou Liminha, lágrimas nos olhos.

Augusto de Lima Júnior gostava muito de fazer discurso. Em 40, Getúlio o nomeou ministro Plenipotenciário do Brasil durante as solenidades de mais um centenário da independência de Portugal.

Liminha chegou lá de discurso no bolso, feliz com a história e a retórica. No dia seguinte, chega João Neves da Fontoura, ministro do Exterior, acompanhado de ilustre comitiva, e anuncia que vai falar em nome do Brasil. Liminha enlouqueceu. À noite, poucos instantes antes da solenidade, telefona para o hotel, diz a João Neves que chegou à embaixada um telegrama urgente do Brasil para ele.

João Neves corre para lá, tranca-se numa sala com Liminha para ler o telegrama, não havia telegrama nenhum. Quando João Neves começa a reclamar da brincadeira, Liminha sai, fecha a sala por fora. Os

funcionários haviam saído, João Neves fica preso. Liminha vai à solenidade, lê seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acaba, chega João Neves, suado, zangado, indignado, e, por cima, mentindo, pedindo desculpas às autoridades portuguesas pelo equívoco quanto ao horário, que o fez atrasar-se.

Voltou ao Rio, foi queixar-se a Getúlio. Getúlio caiu na gargalhada:

- E você não sabia que o Liminha é maluco?

Artur Bernardes, que governou Minas e sitiou o País durante quatro anos, cunhou a frase clássica: “Para os correligionários, tudo. Para os adversários, a lei, quando possível”.

Em 1918, Bernardes assumiu o governo mineiro e começou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o velho Augusto de Lima, adversário de Bernardes. Bernardes não quis demiti-lo logo e

mandou um amigo conversar, para que ele pedisse demissão. O homem chegou lá sem jeito:

- Dr. Augusto de Lima, como o senhor sabe, o Dr. Artur Bernardes...

- Já sei, já sei.

- Vou falar logo, Dr. Augusto de Lima. O Dr. Artur Bernardes mandou sugerir que o senhor peça demissão.

- Alto lá. Ao adversário, não peço nada. Nem demissão.

No dia seguinte, Bernardes demitiu Augusto de Lima.

15 de abril de 2019

Histórias de JK

Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina

RIO – Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina, continuaram estudando juntos, farreando juntos. Uma noite, havia uma festa na cidade, entrada paga. As namoradas iam, precisavam ir. Mas não tinham um tostão. Alkmin resolveu o problema:

- Vamos vender a alguém uma de nossa camisas.

Encontraram o comprador, mandaram passar uma camisa de

Juscelino, enrolaram, disseram que era nova, pegaram o dinheiro, foram para a festa. No dia seguinte, o comprador chegou uma fera:

- A camisa não era nova, estava gasta, rasgou logo.

Juscelino tomou a palavra:

- Meu amigo, aonde você foi?

- A um baile.

- Dançou o quê?

- Tudo. Bolero, samba.

- Então a culpa foi sua. Esta camisa é muito fina, só para dançar valsa.

Candidato a presidente, JK saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na

Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

- Qual é a verdadeira posição do Café?

- Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

- Juscelino, vamos rever o assunto e fazer uma união nacional.

- Etelvino, já sei que você está contra mim. Quando você fala em união

Nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

- Então você não quer a união?

- Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

- Deus me poupou o sentimento do medo.

No avião, Juscelino era um personagem de romance: um “piloto de guerra”. Suas histórias aéreas matavam de medo os companheiros da campanha e, depois, do governo. Para ele, avião era para voar e acabou-se.

Uma noite, na campanha, ia descer o interior do Rio Grande do Sul.

As luzes da cidade apagaram-se, o campo não tinha pista iluminada, o piloto quis voltar para Porto Alegre. Juscelino ordenou:

- Pode descer. Deus é juscelinista.

Desceram. Era.

Outra vez, voaram sobre a Amazônia. Pegaram uma tempestade terrível.

Raios, trovões. O avião pinoteando no ar, como pipa, os líderes do PSD e PTB apavorados, de olhos fechados, duros, rezavam, suavam. JK sorriu:

- Vou dormir um pouco.

Ninguém acreditou. Um mais incrédulo levantou-se, foi lá atrás, puxou a

cortina da pequena cabine presidencial privativa, Juscelino dormia e roncava.

Outra tarde, voltava de Salvador, anoiteceu sobre Caravelas, mas queria, precisava chegar ao Rio. O piloto avisou:

- Governador, o combustível está acabando. Pode ser que não dê para chegar ao Rio.

Vieira de Melo, Getúlio Moura, Alkmin, João Goulart, apavorados, queriam descer em Caravelas. JK insistiu:

- Vamos. Lá a gente vê se deu.

Deu.

Exilado em Paris pela violência gratuita e histérica do golpe de 1964,

Juscelino saiu uma tarde dirigindo seu carro e curtindo saudades do Brasil, numa conversa longa com seu velho amigo e secretario Olavo Drummond.

Chega à Place Vandômme, estaciona em um lugar proibido. O guarda logo aparece, alto e posudo, com seu bonezinho à De Gaulle:

- A licença (carteira) de motorista, por favor.

Entregou. O guarda posudo e alto confere:

- Oh, senhor Kubitschek? Parente do grande presidente Kubitschek, do

Brasil?

- Sou eu.

- O senhor, o próprio presidente Kubitscheck?

Já estava abrindo a porta:

- Presidente, por favor, dê-me a chave do seu carro. Eu mesmo vou

estacioná-lo. É uma honra para a França ter o senhor como seu hóspede. Aqui, apesar de exilado, o senhor continua presidente como sei que continua presidente lá.

Juscelino entregou a chave, pôs a mão no ombro de Olavo e chorou.

01 de abril de 2019

Mão cheinha

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner

Rio – Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colégio da mulher de Carter e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter, no Palácio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à Presidência dos Estados Unidos:

- Vossa Excelência, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hélcias, secretario de Industria e Comércio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

* Qual é o estado mais pobre do Brasil?

* O Piauí.

* Pois a Georgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador

do Piauí tem condições de ser Presidente do Brasil?

Anchieta também achava que não. Acontece que o povo americano achava que sim.

George Pires Chaves, advogado e cônsul do Piauí no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas não queria saber nada de negócios. Só de política:

* Dr. George, o Piauí precisa de sua ajuda. Nós estamos cansados

de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

* E quem é o candidato, Miguel?

* É aqui o nosso colega doutor Clidenor.

Mão Cheinha era louco no Ceará. Levaram-no para o Sanatório Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mão Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatório, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

* Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Vão lá para

cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, gritou:

* Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no chão.

* Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e arrebentando-se cá embaixo.

Mão Cheinha gritou:

* Manga sete!

O sete respondeu:

* Mão Cheinha, chama a manga oito, que eu ainda estou verde. 

26 de março de 2019

Os bodes pretos

www.sebastiaonery.com - [email protected]

Quando o Senado e a Câmara Federal reabriram em março de 1970,senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Médici. Chagas Freitas, então deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse:

- Preciso falar com o senhor.

Chagas ficou como uma vela de óculos. Puxou pelo braço o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de São Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

- Vocês imaginam o que seja?

- A sucessão carioca, evidentemente – disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

- Não é nada disso, e eu estou bem informado. Sua situação não está boa. Não quer dizer que você vai ser cassado. A Arena do Rio já foi avisada de que em hipótese alguma o governador será você. Problemas de organização do diretório, excessivo controle do partido. O presidente não quer uma solução do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

Chagas saiu do Alvorada em pânico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunião em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a história e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos óculos:

- Preciso tomar providência urgente. Já tinham me avisado que, se eu não fizer trabalhos seguros, o azar superará as possibilidades. Só uma força superior para enfrentar os “serviços” que estão fazendo contra mim.

Erasmo, evangélico, sorriu mole, não disse nada. Rossini resolveu:

- Sou “cambono” (acólito, ajudante de sessões de Umbanda) de “Seu 7 da Lira”. Dona Cacilda sabe de tudo e tem força para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de “Seu 7”, em Santíssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente à meia-noite, no meio da sessão. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sessão, recebeu Chagas reservadamente, para ele não ser visto pela gente toda que estava lá. “Seu 7” fez uma cara de horror:

- A situação é negra. Há muita gente convocando espíritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. Só bode.

Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos?

Os 9 carros saíram em direção a Campo Grande. Pararam à beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o pelotão dos caçadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda lá do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

- Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E começaram todos a berrar:

- Béééé! Béééé! Béééé!

Pelo berro ou pela sorte, às 4 da manhã três bodes pretos tinham sido capturados entre Santíssimo e Campo Grande, subúrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um cão de caça. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bíblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. “Seu 7” abriu os três bodes a facão, pegou as vísceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabeça aos pés. A roupa branca de Chagas parecia véu de Verônica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santíssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.


19 de março de 2019

Alberto Silva, um estadista

“O difícil a gente faz hoje. O impossível faz-se amanhã.” Esta frase, lapidar, é a abertura do livro “Alberto Silva Uma Biografia” do brilhante jornalista piauiense Zózimo Tavares.

“Nenhum político piauiense mexeu tanto com o imaginário de uma geração, na segunda metade do século 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piauí pela primeira vez, entre  1971 e 1975, consagrou um etilo de gestão que o transformaria em um mito da política estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o político piauiense mais popular de sua época.

Em sua longa e intensa trajetória política, venceu e perdeu eleições; nunca, porém, perdeu a compostura. Mesmo nos momentos mais críticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administração, portou-se com altivez e manteve a determinação para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da história do Piauí, contudo, ninguém jamais ouviu dele um destempero verbal.

Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversários, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomaníaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizáveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piauí diferente não eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessários.

O tempo também calou seus críticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarçado, deram o braço a torcer: Alberto era governante para um Estado como São Paulo, dono de condições econômico-financeiras e estruturais que permitem a realização de coisas grandiosas; não para o Piauí, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Brasília.

A importância de Alberto Silva para o Piauí esta de tal forma gravada na cabeça do piauiense que, quando alguém quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: “Tire as obras que Alberto Silva fez no Piauí e veja o que sobra”.

Ele foi o único governador do Piauí a ser entrevistado nas “Páginas Amarelas” da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gestão! Só outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espaço, ainda assim porque exerciam destacadas posições no plano nacional: Petrônio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses políticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pública tão expressiva e múltipla não tenha chamado a atenção dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lançou A Outra Face da Oligarquia do Piauí, em 1979; e Alberto Silva – O Mito e o Político, em 2010. São dois depoimentos sobre o ídolo político e o seu tempo.

Na academia, a obra mais consistente – e talvez a única – sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cláudia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí.

A obra é fruto de sua tese de Doutorado em História. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lançada na Academia Piauiense de Letras (APL). É uma densa e criteriosa pesquisa sobre o político Alberto Silva, seu objeto de estudo, à luz de um vasto aporte teórico e metodológico.

Este livro não esgota o rico manancial sobre a vasta contribuição política e administrativa de Alberto Silva. No máximo, procura assimilar o essencial do homem público que ele foi, e de sua obra, para que sua história seja conhecida também por novas e futuras gerações.

O professor e acadêmico M. Paulo Nunes, um dos luminares de nossa Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Anísio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mãos. Isto é, um homem que pensava e realizava.

O mesmo se pode dizer de Alberto Silva – um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.”

www.sebastiaonery.com     [email protected]