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Notícias Sebastião Nery

24 de setembro de 2018

O Kim - 1 que me prendeu

Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo

Alucinante aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Há apenas dois anos, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, quiçá cardeal. Na “Tribuna de Minas” a manchete era minha: 

- “Confirmam-se as Acusações da TM sobre as Ligações do sr. José Mendonça com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de ‘O Diário’, justamente o homem de confiança do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

O “Diario da Tarde”, também com manchete na primeira pagina:   

- “Desmantelada Pela Policia uma Reunião Comunista - Varejada a sala de um prédio da rua Carijós. Efetuadas numerosas prisões. Apreendido farto material de propaganda vermelha”. 

O “Estado de Minas”, como o “Diário da Tarde” também dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era “O Diário”), abriu manchete:

- “Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades”.

O campeão de títulos berrantes era o “Diário de Minas”:

- “Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ação”. 

Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuávamos  presos, réveillon no xadrez, e a “Tribuna de Minas” não me dava folga: 

- “Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ação mais louvável desse mundo, é o tarefeiro comunista Sebastião Nery, de “O Diário”, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor José Mendonça, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastião Nery foi preso com uma malta de desclassificados”.   

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. Éramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabíamos muito bem que estávamos em uma ação política proibida pela policia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. Não havia crime nenhum. 

Só uma frustração. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do paletó, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e não sabia, porque ninguém me dizia. 

Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista,   sua bela filha Helia Ziller estudante, Luis Bicalho nosso professor na Faculdade de Filosofia, Aluisio Ordones meu colega de Faculdade e vários outros.

Todos presos, socados em rádio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simpático e magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:

- O senhor é muito rápido, coronel. Foi o único que conseguiu fugir. 

- Meu filho, não repita isso. Não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.

A reunião era uma ação disfarçada do Partido Comunista e da UJC, União da Juventude  Comunista, drasticamente reprimidos pela policia. Para atuarmos politicamente, lançávamos mão de atividades legais. Naquele dia, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”,criado na Finlândia para“combater a guerra”   

A guerra da Coréia dividia a opinião publica mundial e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensávamos e denunciávamos, “havia criminosamente invadido a Coréia do Norte”, socialista e aliada da União Soviética e China. 

E por defender a Coréia do Norte e denunciar a Coréia do Sul é que tínhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepção ao ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Premio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itália.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coréia, havia começado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coréia do Norte é que tinha invadido a Coréia do Sul e não como dizíamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coréia. 

10 de setembro de 2018

Lições e saudade de JK

Ninguém me contou, eu vi

Ninguém me contou, eu vi. Foi há muito tempo, na década de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista político (“O Diário”, “DiáriodaTarde” e “Jornal do Povo”). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getúlio Vargas ao suicídio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas à Presidência da República, em 1955.

Todos os dias, invariavelmente, íamos ao Palácio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no país e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartéis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados. 

Enfrentou tudo: a oposição desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, às vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televisão e, sobretudo, a resistência de uma banda do PSD dentro do seu partido, a começar por Benedito Valadares, em Minas.

Para comemorar os 116 anos de nascimento de JK, agora dia 12 de setembro, vale lembrar a grande virtude de JK cantada em verso e prosas, hoje, pela classe política brasileira:

Juscelino era um determinado. Sem condições materiais, estudou, formou-se e se aperfeiçoou em medicina em Paris. Nunca olhou para trás. Sempre para frente. 

O que a UDN fez, naquela época, para detonar a candidatura de JK pareceria hoje inacreditável. Só não era pior do que a artilharia do PT hoje. Como vimos em Juiz de Fora essa semana com o atentado ao líder nas pesquisas à Presidência da República.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro à vontade: “Correio do Dia”. Nele escreviam os líderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia. 

Nas salas de aula eram sábios varões gregos. Nos palanques e jornais, demônios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, José Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatíveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhães Pinto, Zezinho Bonifácio, pelo determinado JK.

Para ganhar tiveram que rasgar a história libertária de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros, de 1943, indo buscar nos quartéis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e, em outubro de 1955, elegeu-se Presidente.

Em 1955, a UDN dizia que Minas “massacraria” Juscelino na eleição. Quem garantiu a vitória de JK com 36,8% dos votos nacionais (não havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votação esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitória de Adhemar de Barros, em São Paulo, e de Juarez Távora, no Rio. Assim como Minas e tirando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do País também deu a vitória a Juscelino.

Agora, em 2018, a eleição bate novamente à nossa porta. O Brasil cansou de conviver com as maracutaias e falcatruas de Lula, da Dilma e do PT com escândalos como do Mensalão, do Petrolão, do BNDES e tantos outros que surpreenderam até os fundadores do Partido. 

Agora a nação já sabe que o PT (Lula, Dilma, Gleisi, José Dirceu, Palocci, Vaccari, Haddad e toda direção nacional) instalou na Petrobrás e nas empreiteiras amigas a mesma “organização criminosa” que a Polícia Federal, o Ministério Público, o juiz Sérgio Moro e os Tribunais Superiores denunciaram, condenaram e prenderam.

As investigações mostraram que Lula, o operário do ABC, descobriu o dinheiro. O triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, o contubérnio com as empreiteiras e, mais grave, o escândalo dos escândalos que está surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhões de dólares do BNDES distribuídos com os ditadores amigos e em propinas externas.

Saudade do democrata Juscelino Kubitschek de Oliveira.   

13 de agosto de 2018

Eles fizeram o novo mundo

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo. Escreveu o “Diário de Florença”.

Stendhal, o francês, em 1826 também viu: 

- “Florença, pavimentada com grandes blocos de pedra branca é talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante”.

E Mary Mc Carthy a americana, em “As Pedras de Florença” diz:

- “Os florentinos, inventaram a Renascença, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno”.

Em 1957, a primeira vez em que estive em Florença, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Tantos anos rolaram  e eu a redescobri em um vôo de Paris para Roma, lendo o seu excelente livro “Florença Berço do Renascimento”, que diz tudo em 200 páginas: 

1 – “Parece exagero. Em Florença estruturou-se a língua italiana  a partir de Dante. Lá Galileu deu início à ciência moderna. Lá nascia a nova concepção de política com Maquiavel e se deu a revolução que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Média. Em Florença o homem redescobriu a importância de seu papel no mundo”.

2 – “Florença conta mais de 2 mil anos de história. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavações da “Piazza de la Signoria” na década de 1980. Os etruscos chegaram à região na segunda metade do século VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no século III aC”.

3 – “O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem várias explicações. Alguns acham que é uma referência aos jogos florais da época romana. Outros aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipotese menos provável seria uma homenagem ao general de César, Fiorinos, que ali acampou em 63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o símbolo da cidade é a flor de lis”.

4 – “Em 1348 uma peste matou metade da população”.                                   

Florença é um mistério da civilização universal. Teve três homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de 1265 a 1321. Antes da “Divina Comédia”, sua obra prima, que estruturou a língua italiana, ele já havia escrito em latim “De Monarchia” onde defendia a autonomia do poder temporal em relação ao espiritual.

Depois, já em italiano, escreveu “Il Convivio” sobre a sabedoria.

Petrarca,  de 1304 a 1374, também poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Cícero e faz com que a Renascença adote o latim clássico como a língua dos eruditos.

Boccacio, de 1313 a 1375, deixou sua obra prima “Decameron”, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: ‘um grupo de sete mulheres e três homens, refugiados no campo para fugirem da peste,  de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira tradução de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante. Os três plantaram assim a Renascença. 

         

Os Medici

“Desde 1382 grandes famílias dominavam Florença: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florença não seria Florença sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de três séculos. 

“Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, são responsáveis pelos tesouros artísticos da cidade”. 

Foi também em um agosto 1968, que nasceu o Socialismo Democrático na Primavera de Praga. 

30 de julho de 2018

As tragédias da Nicarágua

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino.”

Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da pátria.” O embaixador americano sorriu: “Qual? A sua ou a nossa?”

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avião, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso é que a unidade nacional tão poderosa se fez na hora da luta final. A história destes povos tão miseráveis e tão sofridos da América Central está sendo escrita com sangue, mas também com uma dura lucidez. Eles aprenderam em séculos de dominação e dependência que o caminho da liberdade é a decisão de lutar. Como Bolívar e Sandino ensinaram.

Desço no aeroporto, está lá em letras enormes: “Bem vindos à Nicarágua livre.” E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o herói da independência nas lutas contra os Estados Unidos no começo do século: chapéu, lenço no pescoço e o lema: “Pátria livre ou morrer.”

Não parece que este povo acaba de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfândega é apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e me menos de um minuto para ver se há armas, e uma garota na caixa cobrando um dólar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiança ou de receio.

Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no máximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: “Bienvenido.” E só. Nada daquele clima de terror policial que se vê em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que só há uma segurança: a vontade nacional.

Não sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrível terra de jovens. Só se veem jovens. Chego ao Palácio da Revolução – que era o Palácio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto – um garoto de farda verde e metralhadora na mão pergunta se estou armado e passa a mão em minha cintura.

- Por que esse cuidado todo?

- Os inimigos. Ainda não ganhamos tudo. Há inimigos ainda por toda a parte.

Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicarágua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, é muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dólares nos bancos dos Estados Unidos. Manágua é a cidade mais pobre de toda a América Central.

Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza dez daqui uma fazenda sem metáfora. Atrás do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o único edifício alto da cidade, o Banco da América. Lá no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelão espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rádio no quarto do hotel cantando a vitória sobre a ditadura:

“Rádio amor, pobre mas honrada como a Pátria.”

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16 de julho de 2018

Na Croácia de Tito

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”.

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslávia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretário geral do PC soviético, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrítica já vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos nós. E começou o degelo no leste. Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polônia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos já passados, quando fui pegar meu cartão de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

- Os meninos estão arrancando os dentes do velho leão, depois de morto.

- Que leão?

- Stalin.

A história rodou, a experiência socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslávia um país inteiramente novo, reconstruído da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com índices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando político e nacional, muito mais nacional do que político, do mesmo Tito que arrancou a autocrítica de Bulganin e Kruschev. Por que? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do país, porque o seu grande herdeiro vivo.

Os heróis são filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a história às vezes faz alguns coabitarem com a glória e, em vida, serem sinônimos de sua pátria. Quando De Gaulle dizia – “Se quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo” – ele estava apenas traduzindo a sua consciência de herói vivo, Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslávia. Um homem sinônimo de seu país e de seu povo.

- Nossa filosofia básica de governo é o respeito à liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista – dizia-me no almoço no clube de imprensa, o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redação e foi para as montanhas, de fuzil na mão, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece camponês eslavo. E não é outra coisa esse filho da Croácia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experiência nacional de seu povo:

- Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

- É a única maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Croácia.

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30 de abril de 2018

Uma família heróica

Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945, era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas

Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no pátio, Agildo, baixinho, mãozinha miúda, deu dois passos à frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria matá-lo em público.

O guarda ficou parado, imóvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Começou o corre-corre. Chamaram o médico do presídio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruçou-se sobre ele, gritando desesperada:

- “Meu amor, não morra! Você não pode morrer! Não me deixe!”

Punha a mão nos olhos, no coração, pegava o pulso, conferindo. Chegou o médico. Não adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

- “Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Será que não é só um desmaio?”

- “Não, minha senhora. Morreu. Acalme-se. Não há mais o que fazer.”

A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histérica:

- “ Graças a Deus, doutor! Ele está morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valentão um dia se acaba!”

***

Mais um grande brasileiro o pais perdeu neste fim de semana: Agildo Ribeiro, o humorista e ator inesquecível, tanto no Brasil como em Portugal. Como eu, ele também era de 1932. Tivemos ambos uma admiração profunda pelo revolucionário Agildo Barata, cuja edição de memórias revi anos depois para a Editora Saga, do baiano Hélio Ramos. 

Ainda no Colégio Militar imitava os professores para uma plateia de colegas e preocupação dos pais. Depois do  teatro de revista seguiu para o cinema e a televisão. E tomou conta do pedaço. Passava uma peça inteira fazendo a plateia rir. Como se definia, era arrumadinho, magrinho e bonitinho. E um talento explosivo.

É mais um amigo incomparável que se foi embora. 

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16 de abril de 2018

Um Pequeno Supremo

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar os ministros do Supremo, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar os ministros do Supremo, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Tinham sido indicados para o Supremo pelos ex-presidentes cassados Juscelino Kubistchek e João Goulart. O ministro Alvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, com o apoio de todo o colegiado, avisou a Castelo: havendo cassações fecharia o STF e entregaria as chaves ao porteiro do Palácio do Planalto. O governo recuou.

Cinco anos depois, em 1969, com o draconiano Ato Institucional nº 5, os três ministros seriam afastados do Supremo. O mineiro Gonçalves de Oliveira, presidente, e o seu sucessor Antonio Carlos Lafayette Andrada, por discordarem da punição saíram do Tribunal.

Outro episódio histórico foi em 1971. O ministro Adauto Lúcio Cardoso, indicado por Castelo Branco, em 1966, reagiu com ferocidade ao Decreto-Lei 1.077, do presidente Emílio Médici. Chamada Lei da Mordaça, implantaria a censura prévia “a imprensa e todas as publicações editoriais." Aprovada a lei antidemocrática, Adauto Lúcio Cardoso, arrancou a toga preta e lançou sobre o plenário do Tribunal, abandonando a sessão e o cargo de ministro. Nunca mais voltou ao Supremo, envergonhado com a decisão de seus pares. 

Os dois episódios retratam um tempo em que, nos conflitos jurídicos que atentavam contra a Constituição, os seus ministros reagiam como guardiões da ordem democrática. Não tinha lugar para a teratologia que significa decisão absurda, contrária à lógica e a própria realidade. 

Chefe de redação do jornal “Valor” (4-4-2018), Rosângela Bittar, definiu o STF atual: “É composto por professores e, sobretudo, por advogados se digladiando diante de um júri imaginário em torno de nada, até que retome a leitura enfadonha do seu empolado voto. Até um decano age como promotor e é preciso ter compaixão da sua sina atual, a de exegeta dos votos, tão díspares e cheios de firulas que precisam ser compatibilizados para que a presidência possa proferir o veredito”.

No artigo “Meu doutorado contra o seu”, Rosângela Bittar, destacava: “Em todas as épocas e composições o Supremo enfrentou dificuldades. Mas eram catedráticos, políticos veteranos e experientes, embaixadores, presidentes da Câmara e do Senado, presidente de tribunais de Justiça dos principais Estados e até advogados que passaram pela política. Octavio Gallotti, Oswaldo Trigueiro, Bilac Pinto, Aleomar Baleeiro. Paulo Brossard, Célio Borja, Oscar Correa, Prado Kelly, Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Vilas Boas, Gonçalves de Oliveira. Pessoas que emprestavam sua biografia ao Supremo e não foram lá para fazer biografia”.

Infelizmente hoje a intolerância da vida pública brasileira retrata uma crise em que Executivo, Legislativo e Judiciário se igualam  na sua sustentação. Republicanismo parece ser valor secundário para os integrantes dos três poderes. No Judiciário, a decisão de prisão após a segunda instância aprovada pelo STF, por 6x5, firmando jurisprudência é questionada pelos seus próprios integrantes. Um dos ministros, Gilmar Mendes que votara a favor, agora ao mudar o seu voto, deseja alterar a jurisprudência. Se ocorrer a mudança com o estabelecimento das quatro instâncias de julgamento de um réu, a prescrição de penas aplicada garantirá a impunidade. Prescrição é a subversão garantidora de novos crimes e consolidadora do caos jurídico.

A mudança de posição do ministro ocorre exatamente quando os oligarcas da política no PT, no PMDB, no PSDB, e nos partidos satélites da base de diferentes governos, em função da Operação Lava Jato, sabem que poderão ser presos. A condenação do ex-presidente Lula, não é fato isolado, daí o pânico dos poderosos da vida política brasileira. A mudança do voto de Gilmar Mendes atende ao desejo desses delinquentes políticos. E o mais grave: ocorrendo a revisão da jurisprudência do STF, a corrupção será a grande vitoriosa. É a alternativa para neutralizar a Operação Lava Jato.

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09 de abril de 2018

Quando os políticos eram estadistas

Hiistória de Ulysses Guimarães é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro

Houve um tempo em que os líderes políticos se preocupavam em deixar lições e não fortunas. Esta história de Ulysses Guimarães e seu “exército” em Salvador, na Bahia, em 1978, é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro.

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

  - A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao partido que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

  - Isto é ilegal, disse Ulysses. A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

  Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

  - Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites. 

  *

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um capo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

- Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

- Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

- Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamods todos à porta, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

- Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado. 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.

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02 de abril de 2018

A lição de Juscelino

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

-Qual é a verdadeira posição do Café?

-Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

-Juscelino, vamos rever o assunto de fazer a união nacional.

-Etelvino, já sei que você está contra mim, Quando você fala em 

união nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

-Então você não quer a união?

-Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. 

Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento em que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

-Deus me poupou o sentimento do medo.

*

Lúcio, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, era um bravo nacionalista. Quando os estudantes começaram em Minas a campanha de “O petróleo é nosso”, em 1953, convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares.

A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praça cheia, cercada pela polícia. E lá na frente, servindo de palanque, vazio, só o microfone, um caminhão sem as laterais.

De repente, chega o deputado e já candidato a senador Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos, A polícia não teve coragem de barra-los. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

- Ontem , chegando a Minas, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: Vai, Lúcio, vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Desabou. Acabou o comício. No dia seguinte, no Palácio, Juscelino dava gargalhadas:

-Eu bem que disse a ele. Não vai, Lúcio, não vai! Não vai!

*

Mal JK tomou posse na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, começaram os levantes militares para derrubá-lo. Juscelino sufocou e mandou para o Congresso um projeto de anistia. A bancada do PTB ficou contra. Oswaldo Lima Filho, líder da bancada, liga para Jurema e comunica que o partido está contra a anistia aos militares sequestradores de avião. Jurema informou a Juscelino, que, do outro lado do telefone, justificou:

- Jurema, diga aos petebistas que não quero governar com mártires.

A anistia foi aprovada.

Pena Botto, almirante psicopata, entrou na lista de promoções. Juscelino promoveu. Os amigos protestaram. Juscelino explicou:

-Pode ser um mau político, mas é um ótimo marinheiro.

Juscelino convidou Jurema para líder do governo na Câmara. 

Abelardo lembrou que havia outros em melhores condições, como Ulysses Guimarães. Juscelino reagiu:

-Você está doido, Jurema. Ulysses na liderança, já no outro dia 

está pensando em ser candidato à Presidência. E aí, adeus Juscelino.

*

Lula entregou o governo a Dilma e levou uma rasteira. Quando quis substitui-la era tarde. Michel entregou a Procuradoria a doutora Raquel Dodge, que esta gostando muito do poder, e agora foi atropelado por ela e pelo melífluo Barrozinho, herança de Dilma. 

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19 de março de 2018

O beijo de Ludmila

Ludmila era interprete, jovem e bela

Ludmila era interprete, jovem e bela. Falava espanhol e português, no Festival Mundial da Juventude, em Moscou, em 1957. Tinha a mãe em Moscou, um irmão em Praga e um avô no Cáucaso.

Acabado o Festival, destacaram-na para acompanhar-me como tradutora em debates e palestras em Moscou, na Universidade da Amizade dos Povos. No fim dos debates, almoçávamos ou jantávamos juntos. Cada dia mais debates, cada dia mais juntos. Falávamos de tudo, sobretudo de nós, que tínhamos exatamente os mesmos 25 anos e os mesmos sonhos. Quando eu passava para a política soviética, ela sorria um sorriso enigmático e calava. Estava profissionalmente impedida de avançar o sinal político.

Ela não avançava, avancei eu. Já me desmanchando de encantos, depois de um doce jantar no restaurante do hotel “Ukraina”.

*

Escrevi ali um poema, se é que podia chamar de poema. Era um beijo gráfico, quente e túmido como os beijos de amor: “Rosa de Moscou”. Falava dos jardins de papoulas que cobriam Moscou naquele outono. Pediu para assinar, assinei:

- “Para Ludmila, Rosa de Moscou”.

Ela não podia subir a meu apartamento, eu não podia ir à casa dela. Nunca mais fomos os mesmos.

Uma outra noite, caminhando depois do jantar no jardim de papoulas perto do hotel, Ludmila começou a cantar “Móscova Vétchera” (“Tardes de Moscou”) e pela primeira vez me levou à sua casa. O avô estava doente, sua mãe fora para o Cáucaso. A casa, nos subúrbios de Moscou, pequena e ajardinada, era nossa para o fim de semana. E de metrô. Na sala, emoldurado e pendurado, meu “Rosa de Moscou” para ela. Ludmila não falava do pai. Eu perguntava, ela ficava calada, os grandes olhos caucasianos parados, longe. Insisti, disse apenas:

- Morreu. Era jornalista, como você. E chorou devagarinho. De madrugada, já quietos de amor, forcei : - Seu pai morreu de que?

Ludmila passou a mão embaixo do queixo, como se fosse uma navalha, fez uma cara de horror e disse baixinho :

- Stalin.

E dormiu chorando em meus braços a saudade do pai assassinado por Stalin.

*

No fim de semana em Moscou, voltamos à casinha pequena e ajardinada. O avô de Ludmila nunca mais voltou do Cáucaso. Morreu lá, sem ela revê-lo. Prometi jamais escrever-lhe nem falar em seu nome no que escrevesse ou publicasse. Perderia emprego, carreira, quem sabe a liberdade. Guardei minha “Rosa de Moscou” só para mim.

Quando Ludmila apareceu no hotel de manhã, com o bilhete na mão, para levar-me até a estação ferroviária, meu coração vacilou. Sabia que ia perde-la para sempre. Aquele era um mundo que engolia as pessoas. Como poderia dar-lhe um beijo de despedida? Queria, mas não devia. Percebeu : - Não fique triste assim, que ainda vai ser pior para mim do que já é. Não falta muito para eu perder você. Nunca pensei que aquele jantar, aquele poema, aquelas noites, fossem fazer comigo o que fizeram. Se eu pudesse, sumiria com você. Mas não vamos estragar nosso ultimo almoço. Marquei seu trem para o fim da tarde. Vamos almoçar em um restaurante pequeno, muito bonitinho, perto da ferroviária. Juro que não vou chorar. * E chorou. No fim, brindamos nossa devastadora e silenciosa dor como Stalin brindava com Churchill. Com um conhaque da Geórgia. Quando o trem deu o segundo aviso de partida, fraquejei: - Perdão, não resisto, vou lhe dar um beijo. - Aqui há olhos de todo lado.

Nunca mais a vi. Em 1990, Adido Cultural em Paris, voltei a Moscou para tentar descobri-la. Impossível. Cada esquina continuou uma fantasia.

Um pedaço de mim está até hoje na estação de Ludmila. www.sebastiaonery.com [email protected]

04 de março de 2018

Folclore e realidade

Folclore e realidade

Folclore e realidade

O homem é a palavra. O mais é circunstância. A história é a palavra. O resto é consequência. Por isso a história do homem é a história de sua palavra. É a crônica de sua linguagem. É o cotidiano do possível dizer.

Na Grécia livre de Péricles, o discurso era a palavra. Na Judéia oprimida do Cristo, o discurso era a parábula. Na Idade Média torturada de Galileu, o discurso era o silêncio. O que é a Bíblia senão a fábula do povo judeu tiranizado sob os salgueiros da Babilônia? O que foi a tragédia grega senão a metáfora da liberdade? E as fábulas do escravo Esopo, cordeiro respondendo ao inquérito do lobo? E Bernard Shaw roendo a empáfia do império britânico? 

Menino de fazenda, cedo aprendi que quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna. Desde o começo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore não é história. É a versão popular da história. Folclore político não é história política. As histórias vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato: “Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro”.

Se Maurice Latey diz que “a história é o povo em ação”, está pondo o folclore como categoria científica, crônica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestréis.

Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional, lancei o Folclore Político nº 1 no Clube dos Repórteres Políticos da Guanabara, com a presença de José Américo de Almeida, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo político, José Américo com sua competente precisão de linguagem, colocou o livro nos termos preciso: “É folclore. Nenhuma das histórias a meu respeito é inteiramente exata, mas nenhuma é inteiramente inexata, E são todas muito engaçadas”. E Alkmin: “Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?” A tiragem de 100 mil exemplares, em três edições, provou inteiramente sua atualidade.

As histórias não são minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, no Pais inteiro, exatamente como me foram contadas. Mas tenho consciência de seu valor político, antropológico, sociológico. Elas provam duas verdades verdadeiras, nestes dias de tanta verdade mentirosa. 

1 – A liderança histórica e permanente do homem político na vida nacional. No distrito, na cidade, no Estado, no País, sempre foi o político quem deu a palavra final. Daí a história das nações ser, antes de tudo, a história de seus políticos, dos que carregam nas mãos o sentimento do povo, sua representação e liderança.

2 – O compromisso de diálogo e da liberdade no dia a dia da vida política brasileira. Os grandes personagens de nosso folclore político, e portanto de nossa política, são em geral homens bons, às vezes primários, mas compreensivos, liberais, humanistas, sábios. A crônica do ódio, da violência, da truculência, da tirania que tanto se vê hoje por ai, não faz parte deste livro. Ela é um grito, um gemido, um ai de exceção. Não está no cotidiano de nosso viver.

Constatar isso já é ver abertas as janelas do amanhã.

19 de fevereiro de 2018

Historias paraenses

Historias paraenses

Historias paraenses

  RIO – Magalhães Barata, revolucionário de 1924 a 1930, interventor de 1930 a 1945, constituinte de 1946 , senador de 1946 a 1954, governador de 1955 a 1959, amigo de Getúlio Vargas, mandou 35 anos no Pará.

  Um dia Abelardo Conduru, respeitável chefe político, rompeu com ele. Fez carta, mandou um vaqueiro levar. Barata abriu, leu, ficou indignado. Conduru mandava tirar o nome da chapa do governo e comunicava que seria candidato pela oposição. Chamou o mensageiro até o gabinete:

- Quer dizer que o doutor não quer ser mais candidato? Preciso

 Substituí-lo hoje. Como é o seu nome?

  - José Pingarrilho.

  - Bom nome. Ótimo nome para voto. O senhor vai ser candidato no lugar do doutor Conduru.

  - Não posso, governador. Sou amigo dele, empregado dele e não entendo nada de política.

  - Nada disso. Vai ser, sim. Quem manda no Pará sou eu.

  Pegou um papel, escreveu ao dr. Conduru:

-“Recebi sua carta, lamento a desistência, mas já providenciei o

substituto. É o José Pingarrilho, nosso amigo comum, um nome à altura das tradições do Pará.”

Foi eleito, derrotando o patrão Conduru.

  *

Um compadre,  notório contrabandista, chegou ao posto fiscal

de Belém com muitas tartarugas e não quis pagar imposto:

-  As tartarugas são presente para o compadre Barata.

O fiscal telefonou para o chefe, que telefonou para o secretario do

governador, que falou com o governador.

  Diga ao compadre que presente se dá completo. Ele que pague o imposto e mande logo as tartarugas.

  *

  Foi visitar uma cidade do interior. Em frente ao trapiche, onde desembarcou, ficava o “Grupo Escolar Zacarias de Assunção” (o general Assunção era da UDN e tinha sido governador antes dele, derrotando-o). Chamou o prefeito:

-  Este grupo vai mudar de nome. Vai chamar-se Magalhães

Barata, que é quem manda no Pará

Chama-se até hoje.

  *

Governador, mandou fazer concorrência para todos os

fornecimentos ao Palácio. Vieram as listas de preços, ele mesmo quis conferir. De repente, vê uma firma oferecendo tudo mais barato (Manoel Gonçalves e Filhos, famosos pelos preços altos que sempre cobravam). Escreveu embaixo:

“Indefiro. Eu te conheço, ladrão”.

  *

Interventor do Pará desde a revolução de 1930, Magalhães Barata

Prendeu um filho de José Augusto Meira Dantas, professor da Faculdade de Direito, velho chefe político do Estado, depois senador. Meira Dantas telegrafou a Getúlio Vargas protestando. Getúlio encaminhou o telegrama a Vicente Rao, ministro da Justiça, que mandou um rádio ordenando soltar o rapaz.

  Barata estava de saída para uma solenidade no bairro da Pedreira, em Belém. Subiu ao palanque, leu o telegrama e gritou para a multidão:

- Não vou soltar, não. Com Rao ou sem Rao, comigo é no pau.

E não soltou.

  *

Uma professora do Estado requereu licença-gravidez para o parto

do quinto filho. Mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposição. Pegou o processo, deu o despacho:

  -“Indefiro. Nego a licença. Gravidez não é doença. Apanha-se por gosto.”

    *

  Tinha um candidato a prefeito de Santarém. O diretório municipal do PSD queria outro. Vendo que ia perder, foi lá, conversou, pediu, fez a eleição. Perdeu mesmo: 15  x  5. Levantou-se, pegou o microfone:

-  Meus senhores, pela primeira vez a maioria vai ganhar. Está

escolhido o candidato que perdeu.

  Todo mundo bateu palmas. Ele encerrou os trabalhos:

-  E, pela primeira vez, a maioria ganhou por unanimidade.

06 de fevereiro de 2018

O sonho do sultão

O sonho do sultão

O sonho do sultão 

RIO – Um sultão todo poderoso acordou desesperado. Sonhou que havia  perdido todos os dentes. Ao despertar, mandou chamar o adivinho da Corte para as devidas interpretações.
  - Que sonho terrível! Cada dente perdido significa a perda de um parente de Vossa Majestade.
  - Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui, insolente!
  Enfurecido, o sultão chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 50 chibatadas.

Mandou chamar outro bruxo, que foi logo interpretando o sonho do sultão:
  - Meu grande e excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.
  O sultão sorriu. Sua fisionomia iluminou-se. Chamou o guarda e mandou dar 200 moedas de ouro ao novo adivinho.

Quando o adivinho saía do palácio, um guarda lhe disse ao pé do ouvido:
  - Incrível, sua interpretação do sonho foi a mesma de seu primeiro colega. Ao primeiro, o sultão mandou dar 50 chibatadas. A você 200 moedas de ouro.
  - Meu amigo, tudo depende da maneira de dizer. O fato é o mesmo, a comunicação pode ser interpretada a favor ou contra. O importante é dizer o que a plateia ou o interlocutor quer ouvir.

Conclusão: a comunicação é uma arte. É como pedra preciosa. Se atirarmos nos olhos de alguém, pode ferir. Se a embalamos e oferecemos com ternura, é amizade e alegria.

Em tempos de "fake news", de buscar todas as mídias para se tornar conhecido e de fazer da comunicação uma ferramenta de primeira necessidade, nada como relembrar de um texto de anos atrás.

Na França o debate sobre as “fake news” esta indo a pleno vapor. Quem é a favor, aplaude, quem é contra, repele. O presidente Emmanuel Macron que é um líder moderno e esperto já encontrou a solução: vai fazer uma lei que está sendo chamada Lei da Primavera, para definir as “fake news”.

Já começa enquadrando os ingleses e americanos. Se a França tem como traduzir por que pedir a tradução em inglês?

O anúncio de Macron informa que a pesquisa Odoxa mostra o apoio dos franceses ao projeto para lutar contra as “fake news” em período eleitoral.

Este movimento pode fazer temer uma rejeição maciça a ideia. De fato sobre 54.300 mensagens postadas em quatro dias praticamente a metade exprimia uma rejeição clara ao controle dos conteúdos pelo Estado.

O espectro da censura foi largamente denunciado mas essas reações refletiram sobretudo a visão deformadora da realidade da opinião pública. Em compensação a opinião pública no conjunto, tem largamente uma posição contrária. Este é o ensinamento maior da sondagem.

  A expressão  designa falsas informações que circulam sobre a internet, afinal vazia de sua substância. O Figaro chama a atenção para o termo que surgiu na campanha presidencial americana. Apareceu finalmente no dicionário de Donald Trump. Nas últimas semanas o presidente dos Estados Unidos não parou de denunciar as “fake news”: compreendam, as informações segundo as mentiras das mídias desonestas.

O que é uma “fake news”? Dar uma definição curta que engloba todas as facetas não é coisa fácil, sobretudo em francês. Sempre traduzida por “falsas informações” a expressão “fake news” perdeu uma parte de seu senso original. O inglês distingue “fake” de “falso”, o que é errado, o que é falsificado.

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27 de novembro de 2017

Dom Helder

Sem Marx

Dom Helder

     Sem Marx

RIO – A Bahia fazia 400 anos, em 1949. Houve um congresso eucarístico em Salvador. Muitos bispos e padres se hospedaram no nosso multissecular Seminário Central, que é hoje o magnífico Museu de Arte Sacra, com suas imensas janelas coloniais.

Cada um de nós do Seminário Maior ficou encarregado de secretariar um bispo ou um padre. A mim, com 17 anos, coube o magérrimo, falante e simpático padre Helder Camara.Ajudei-lhe as missas,carreguei o Breviário, acompanhei-o pela cidade, a caminho dos atos públicos do congresso.

Uma noite, ele teve uma longa conversa com professores e seminaristas, sobre o pais e a política. Tínhamos alguns padres fervorosamente integralistas. Lembro uma frase dele :

- Também eu fui algum tempo integralista. Naquela época, depois da revolução de 30, o Brasil se dividia entre o Integralismo cristão e o Comunismo ateu. Fiquei com o Integralismo cristão. Hoje temos a doutrina social da Igreja, mais cristã e mais profunda que o integralismo.

Em 1964, depois do golpe, ele já arcebispo de Olinda e Recife, mandou para o quartel do 19º BC do Exercito, em Salvador, onde sabia que eu estava preso, um bilhete que só me foi entregue na saída :

- ‘Meu caro sacristão. Estão maltratando você? O Cristo há de lhe dar forças. Rezemos. A) Padre Helder”. 

Numa tarde de 1971, eu estava na avenida Rio Branco, no Rio, na pequena redação do POLITIKA, o primeiro semanário de oposição ao golpe de 64 (houve o Pif-Paf e havia o Pasquim, mas eram de humor).

Fundado e dirigido pelo saudoso Oliveira Bastos e por mim, o jornal enfrentava uma dura censura prévia toda semana. Apareceu o jornalista, professor e escritor pernambucano Harrison de Oliveira, mestre de história do Colégio Pedro II e da Universidade Cândido Mendes,com uma jóia rara.

Tinha na pasta uma longa e polêmica entrevista de Dom Helder Câmara, o valente arcebispo de Olinda e Recife, que estava desafiando a ditadura aqui dentro e denunciando-a em conferências pelo mundo. O padre Henrique Neto, assessor dele, tinha sido barbaramente assassinado.Era no governo Médici, uma  censura terrível e Dom Helder falava sobre o Nordeste, o Brasil, o mundo e a Igreja. Harrison, amigo e compadre dele (tem um filho chamado Helder), não conseguiu publicar a entrevista em nenhum jornal. Não deixariam sair também no POLITIKA.

Oliveira Bastos estava no Pará, resolvi não mandar a entrevista para a censura, publicar de surpresa e ver no que dava. Deu no que deu. Fizemos a capa com uma foto grande de Dom Helder e apenas esta manchete:

- Dom Helder entre Cristo e Marx!

Harrison telefonou avisando para Dom Helder, que vetou:

   - Não estou com Marx coisa nenhuma. Sou de Cristo e dos meus pobrezinhos. 

Quando o jornal ficou pronto, estávamos preparados para o que desse e viesse. De madrugada, entupimos a kombi do jornal e iamos felizes e vitoriosos para a Distribuidora Chinaglia, na Zona Norte. Na praça Mauá, já na espreita, um carro da polícia nos cercou.

Prenderam tudo: o jornal, eu e o Harrison. Foi um dia inteiro de ameaças e sufoco na Polícia Federal. Ficaram furiosos com o nosso golpe falho. Por pouco não conseguimos. Diziam:

- Dom Helder, nem a morte da mãe.

20 de novembro de 2017

A hora da previdência

Os poetas sabem das coisas

A HORA DA PREVIDÊNCIA

RIO - Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos:

- “O homem e a hora são um só /quando Deus faz e a historia é feita /

O mais é carne, cujo pó / a terra espreita”.

Os três acabam sendo uma coisa só: o homem, a hora e a história. A história é a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a história acontecer. Com as lutas do homem, a história vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois séculos, para construir a Previdência Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversível. Cada fato precedido de muitos e muitas lutas.

É uma bela história, que ninguém contou melhor do que uma brilhante equipe do ministério da Previdência, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mônica Cabañas Guimarães, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro “Os 80 Anos da Previdência Social”.    

Os três grandes marcos da Previdência  no Brasil são a lei do paulista Eloi Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criação do ministério do Trabalho, Industria e Comercio (e Previdencia), por Lindolpho Collor (avô de Fernando Collor), na “revolução”de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgânica da Previdência Social (nº 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecível deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.  

Mas as Nações não caem do céu, como estrelas. Para cada vitória, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito pratico foi o decreto  9.912, de 26 de março de 1888, regulamentando o direito à aposentadoria dos empregados dos Correios. Também em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Império.

Ainda nos fins do século XIX, foram instituídos o Fundo de Pensões do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferroviários, o Montepio Obrigatório dos empregados do ministério da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e pensão por morte para os operários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.

 Em 1894, José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de São Paulo, de 1916 a 20, apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

   Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio  (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras,  pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operários, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Código do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horária de 8 horas diárias de trabalho e proibição de trabalho aos menores de 14 anos.

  Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que não foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe  mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais:

  - “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a historia é feita”

  Como o poeta, o povo também sabe : o Bolsa Família é a Aposentadoria dos pobres e a Previdência dos miseráveis.

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