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Notícias Sebastião Nery

19 de agosto de 2019

Histórias de Jânio Quadros

Confira o texto publicado na coluna Sebastião Nery na edição desta segunda-feira (19) no Jornal O Dia.

RIO – Veiga Brito era presidente do Flamengo e deputado federal da Arena, em 1966, quando Lacerda tentava organizar a “Frente Ampla”. Foi a Santos negociar um jogador com Athiê Jorge Curi. Jânio estava lá. Sabia que Veiga era amigo de Lacerda, telefonou, marcaram um encontro, conversaram longamente em um quarto, sentados na cama.

Jânio não entendia porque Lacerda havia chamado Juscelino e Jango para a “Frente”, feito as pazes com eles, e não aceitava a participação dele:

- Deputado Veiga Brito, o que é que o Carlos tem contra mim? Ele procura os antigos adversários e ao seu companheiro de lutas repele. O senhor pode explicar-me por quê? Sei que o senhor é muito amigo dele.

- Presidente, eu acredito que ele não entendeu e ainda não absorveu o episódio da renúncia.

- Ele só não, deputado. Todos. Ninguém entendeu. O senhor entendeu?

- Olha, presidente, eu acho que o senhor armou uma jogada para sair e voltar mais forte, e não deu certo.

- Pois é, deputado. Joguei no porco e deu jacaré.

E deu uma gargalhada.


Jânio foi ao “Barzinho do Museu”, na avenida São Luis, onde um grupo de gente amena e talentosa, comandada por Francisco de Almeida Sales, dissolvia em gelo a crise financeira e as angústias humanas. E Jânio contou esta:

- Vocês sabem, eu sofro de uma insônia horrível. Quando ela vem, ponho-me a caminhar e pensar. Era governador, ela veio. Levantei-me, pus o capote para defender-me da neblina e saí perambulando pela cidade, pensando no meu Estado e no meu povo. Passei em frente a uma delegacia, resolvi entrar para fazer um teste pessoal. Na portaria, ninguém. No plantão dos investigadores, ninguém. Lá dentro, com as pernas sobre a mesa, o senhor delegado conversando com o senhor escrivão, igualmente sonolento e repousante. Estirei a cabeça. Pu-la à porta:

- Senhor delegado!

Ninguém respondeu. Pu-la mais à frente.

- Senhor delegado!

Ninguém respondeu, Gritei:

- Senhor delegado!!!

O senhor delegado nem se mexeu, perguntou ao escrivão:

- Quem está chateando ai?

O escrivão, sem se mexer, olhou-me de soslaio, respondeu ao delegado:

- Um cara, que é a cara do maluco do Jânio. Está ali chamando você.

Josélio Gondim, diretor da revista Espelho, de Brasília, bebia a história de Jânio:

- E o que o senhor fez, presidente?

- Fui-me, meu caro. Fui-me embora. Pensei em prendê-los, aos dois. Mas, e se eles pensassem que eu era um sósia de mim e me prendessem? Eu estava sem documentos. Só de pijama e sobretudo. Fui-me.


José Paulo Freire, o “Zé do Pé”, era menino de calças curtas em Araçatuba, São Paulo, 1954, quando Jânio Quadros saiu candidato a governador. Nacib Curi, turco, grandão, elegante, charuto enorme na boca, mandou fazer escondido um folheto em papel ruim, impresso em gráfica velha, de igreja, com uma foto exótica de Jânio, os olhos estrábicos arregalados e a boca torta:

“Procura-se um louco, É esse aí. E se diz candidato a governador”.

Mas como distribuir? Chamou “Zé do Pé”:

- Zé, tome esse dinheiro para você distribuir isso de manhã, na barbearia, e meio-dia no fórum. Não diga a ninguém que fui eu que lhe dei. Se perguntarem quem foi responda que foi o passarinho.

Na barbearia, estavam três figurões da cidade: Dr. Trancoso Peres, médico. Zé entregou. Raul Vieira da Cunha, fazendeiro. Zé entregou. E o Dr. Coelho, advogado do Banco do Brasil. Zé entregou. Dr. Coelho recebeu, olhou, leu:

- Zé, quem te deu isso?

- Um passarinho, Dr. Coelho.

- O passarinho fuma charuto, Zé?

Zé parou, amarelou, as pernas tremeram:

- Fuma, sim senhor.

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13 de agosto de 2019

Todo mundo desconfia de todo mundo nos aeroportos da Europa

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A bomba

Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e minha namorada, com nosso medo. Impossível não ter medo. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Sobretudo voos em direção ao Oriente. Cada um ficava imaginando onde o outro tinha escondido a bomba, a granada, o revólver que daí a pouco explodiria lá no céu, o avião e todos juntos. Estávamos no aeroporto de Roma, para pegar o voo da Alitalia  para a Grécia. Na fila ao lado, para Damasco, na Síria, homens com turbantes, barba cerrada e cara fechada, mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça. A fila deles começava a andar, todos ficavam olhando, calados. O pensamento coletivo boiava indisfarçado, no ar. Quantos iranianos havia ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo vai andando devagar, seguindo desaparece. Agora é nossa vez. O policial do controle pegou o passaporte do árabe do turbante que estava a nossa frente, olha, esmiúça, confere, visivelmente, constrangedoramente desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar. Os nossos passaportes ele mal olhou. Pergunta: - “Brasile”? E carimba. O africano do camisolão, atrás de nós, empaca. O mesmo ritual da desconfiança. Viraram o passaporte de cabeça para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada consta, mesmo assim não se conformaram, olharam agressivamente para o rosto negro, árido, meio escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, sai. E a fila se arrastando medrosa.

Depois do passaporte, outro obstáculo: o controle de bagagens, bolsas,  objetos pessoais e o próprio corpo. Vem a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passou tranquilo. Não havia um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano no camisolão ficou, vem o apito fino, estirado, estridente: -“piiii”. Todo mundo olha. É ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu vermelho de italiana, óculos italianos, botas italianas. Uma terrorista italiana. Logo aparecem três policiais femininas, levam-na ao lado, como se estivessem perguntando: - “Abra logo o jogo, e arma”? Não era. Apenas o isqueiro. Deixou o isqueiro, voltou, atravessou de novo a passarela metálica, sem apito nenhum. Se fosse um árabe ou africano, mesmo sem o segundo apito, a devassa ia continuar. O medo do terrorismo estava virando racismo.

Afinal, estávamos na sala de espera. Chamam nova fila. A metade passa, pedem para a outra metade esperar, porque vamos de ônibus para o avião. Pelo vidro, vimos o ônibus encher e seguir até o “air-bus” da Alitália, lá longe, no campo úmido, na manhã de 10 graus. O ônibus para, mas ninguém salta, ninguém entra. Os funcionários da Alitália, atenciosos e perplexos, comunicam que “houve um pequeno problema”, mandam-nos sair para esperar nova chamada. E os outros, dentro do ônibus, junto ao avião. Não havia dúvida. Era ela, a bomba. Estariam tentando desativar. E voltam os que haviam ido. O voo vai atrasar. Era para sair ao meio-dia, deu uma hora, duas horas, nada. Às 15 horas, afinal, embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado mar adriático. A aeromoça, bela, com seus imensos óculos redondos, servia o vinho para o almoço já atrasado, quando o comandante pede atenção: -“Desculpem, mas a partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros e os mantenham apagados até que o sinal de proibição também se apague. É uma pequena emergência. Espero que dentro de 15 minutos já voltemos à normalidade.” Durou uma hora a proibição. Não havia realmente mais dúvida alguma. Era ela, a bomba. A bomba terrorista, afinal flagrada a bordo. Acender o cigarro era acender a bomba. E voar tudo pelos ares. Ela estava, certamente, descoberta e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida. O murmúrio foi crescendo, ninguém sabia o que estava acontecendo, também não foi dito. E nada, absolutamente nada aconteceu. A aeromoça de óculos enormes atendeu a meu pedido, deixou comigo uma tranquilizadora garrafa de vinho tinto e logo comecei a ver as escarpadas colinas da Grécia lá embaixo, como o céu crespo do céu.

Para o brasileiro, Grécia é Sócrates, Platão, Aristóteles e Onassis. No máximo, a Jaqueline, viúva de Kennedy, viúva de Onassis. O teatro, o alfabeto, os oradores, a cultura, a civilização grega estão dentro de nós, desde a escola primária, qualquer que seja o nível educacional do brasileiro, como a  nossa mais forte referencia cultural. Mas tudo coisa de séculos atrás. Dois para três mil anos. Grécia é o passado, a antiguidade, quase a eternidade. A língua, morta. A geografia, perdida ali entre o Mediterrâneo, os Balcãs, o fim do Ocidente, o começo do Oriente. Grécia é coisa distante. Grego, sinônimo de total desconhecimento: -“Isto para mim é grego.” E no entanto a Grécia está sempre junto de cada um de nós, em grande parte da língua que falamos, e, principalmente, na poderosa herança cultural, ela que foi a mãe da civilização latina, portanto avó de nossa civilização.


05 de agosto de 2019

A outra cama do papa

O simpático e civilizado Gouthier foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma

RIO – No dia em que se fizer o inventário completo das injustiças cometidas pelo golpe de 1964, é preciso contar a ignominia que foi a alegação para a cassação do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simpático e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Irã, no governo do Xá da Pérsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palácio Pamphilli. A UDN alegou que foi “uma negociata”. Não conheço negócio melhor para o país, feito por qualquer Governo.

Os herdeiros da família Pamphilli não sabiam o que fazer do velho palácio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famílias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberação dos magníficos salões com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belíssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o “palazzo” com quatro promissórias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhões, pagos em vários anos). Só as obras de arte que estão lá valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhões de dólares para ter uma sede como aquela.

O palácio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona até a Igreja de Santa Inês, em frente da qual fica a magnífica “Fonte dos Quatro Rios”, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praça de São Pedro: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata, até então os quatro maiores do mundo, pois ainda não conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palácio, a família Pamphili não quis vender também “o apartamento do Papa”, a parte que liga o palácio à Igreja de Santa Inês, da mesma altura do palácio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

Ali o Papa Inocêncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palácio para a cunhada Olímpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. Até hoje estão lá, originais, a cama, os móveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre pão e água que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa não dormia apenas lá. Dormia também com a cunhada viúva. E até hoje há quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olímpia fazendo barulho na praça e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei lá, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olímpia não me deu a graça de vê-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palácio, Gouthier pôs um item deixando para o Brasil a opção de compra do “apartamento do Papa”. Quando a família resolveu vender, foi no governo Figueiredo. Não sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabeça de bagre. Pediram 800 mil dólares. O Brasil, que tinha direito de compra, não quis comprar. Continuaram achando que era “a negociata de Gouthier”.

O Brasil não quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televisões, revistas e jornais, depois deputado e primeiro ministro) comprou por 10 milhões de dólares (só o apartamento, menos de 10% do edifício todo, que o Brasil comprou por 2 milhões, em vários anos).

Depois, Berlusconi vendeu “o apartamento do Papa”. Por 15 milhões de dólares.

E pensar que uma das razões da cassação de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palácio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier também.

23 de julho de 2019

O “Pathê” e o Pateta

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Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê. Fayermann dos pais judeus. Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

- “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

- “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

- “Conceição, estava no morro a sonhar”...

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

- “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

- “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.


22 de julho de 2019

O “pathê” e o pateta

Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê

RIO – Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê. Fayermann dos pais judeus. Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

- “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

- “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos

e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

- “Conceição, estava no morro a sonhar”...

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

- “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

- “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.

16 de julho de 2019

Mikonos, a ilha de Jaqueline

Foi aqui que Jacqueline Kennedy começou a trocar de casa branca: a Casa Branca de Kennedy pela casa branca de Onassis

RIO – Foi aqui que Jacqueline Kennedy começou a trocar de casa branca: a Casa Branca de Kennedy pela casa branca de Onassis. Não teria sido mesmo fácil resistir aos encantos do fascinante iate de Onassis, pousado nas águas muito azuis, embaixo dos penhascos de terra muito escura, com as casas e igrejas inteiramente brancas lá em cima e um armador petrolífero, pequeno, feio e bilionário, resolvido a arrematar a mulher do presidente dos Estados Unidos.

As ilhas gregas são promontório de pedras cercadas de mar e historia por todos os lados. Nós, baianos, nos orgulhamos das 365 igrejas de Salvador, uma para cada dia do ano. Mykonos, uma ilhazinha de 16 quilômetros de comprimento, 11 de largura (a metade de Itaparica), um punhado de habitantes (e centenas de milhares de turistas todo ano), tem mais de 500 igrejas, quase todas branquíssimas, com suas cúpulas e telhados circulares pintados de azul ou vermelho forte.

A mais famosa de suas igrejas, uma das mais fotografadas do mundo (esta em todos os cartões postais da cidade) a “Paraportiani”, é um imenso bolo de noiva, todo branco e redondo, cinco igrejas numa só, quatro embaixo e uma em cima. Haja devoção.

Duas outras marcas da ilha: os moinhos e os pombais, que os habitantes constroem em cima das casas e no alto das escarpas, para enfeitarem (e comerem). A “ilha branca” é um presépio, E tem uma coisa raríssima nestes mares azuis empedrados: praias. A areia não é branca como os lençóis estirados da costa brasileira, mas praias de areia cinza, ocre, meio grossa.

Jaqueline tinha razão: traição por traição, que fosse aqui, com cara e cheiro de paraíso.

Mykonos só existe por causa de uma ilhota vazia, “onde ninguém mora mais” (como na bela canção de Lula Freire, inesquecível na voz de Elizete Cardoso): Delos, a ilha-sagrada de Apolo.

Durante mil anos, Delos foi o centro político e religioso do Mar Egeu. E Mikonos, a meia hora de barco, seu porto e infra estrutura. Com 4 quilômetros quadrados, nenhuma casa, nenhum habitante, Delos não é uma cidade fantasma porque aqui mora Apolo, o mais charmoso dos deuses da antiguidade, deus da luz, da verdade e da beleza.

Conta a mitologia (a historia vestida de lenda) que Leto, namorada de Zeus, o senhor do universo, estava grávida de Apolo e Artemisa, mas Hera, a mulher de Zeus, mandou expulsá-la de todos os lugares. Zeus pediu a Poseidon para resolver o problema. Ele bateu seu tridente no mar e de lá surgiu a ilhote rochosa, Delos, onde nasceram Apolo e Artemisa, a deusa da caça e da virgindade.

Como na história, a mentira costuma ser mais poderosa do que a verdade. Mas a história está aqui, em pedra, mármore e mistério. Há restos de construções de 3 mil anos antes de Cristo. Na época “micenica” (1580 a 1200 antes de Cristo) houve uma importante urbanização na ilhota. No ano 700 (antes de Cristo) Delos já era o mais famoso culto a Apolo. E virou um centro comercial. No século VI (antes de Cristo) o grego Persistratos, achando que haver mortes em Delos era um sacrilégio, mandou tirar daqui todos os túmulos. E logo depois proibiram nascer e morrer aqui, expulsando para a Ásia toda a população (426 antes de Cristo).

Apesar disso, como era uma encruzilhada marítima entre três continentes, Delos tornou-se um centro mercantil, sobretudo de escravos: os romanos chegaram a vender mil escravos por dia. Embaixo das barbas de Apolo. O castigo veio logo: Mitridates, rei de Pontus, atacou a ilha (que era romana), matou todos os 20 mil habitantes. E arrasou templos e monumentos.

Mesmo assim, pelo que sobrou, dá para ver a poderosa civilização que eles tinham construído, em Delos e também em Mykonos (sobretudo depois das escavações que a Escola de Arqueologia da França começou em 1873). Praticamente toda Delos é coberta de ruínas, algumas ainda belíssimas, como as pilastras, colunas e capitéis dos templos, os cinco leões de mármore com as patas estendidas, as casas de Dionisius e de Cleopatra (a outra), água corrente embaixo das casas, canalizada.

Tudo monumental, como se fossem numerosas catedrais jogadas no chão. Aqui mandaram fenícios, gregos, romanos, turcos, e cada um foi carregando seus pedaços de riqueza e de história.

Mykonos, ao lado, também sofreu o furor da loucura humana. Quando Delos era “porto livre” dos romanos, de 166 antes de Cristo até a destruição de Mitridates em 88 (antes de Cristo), também era rica. Passou séculos esquecida, até que em 1207 Veneza tomou e entregou aos irmãos Ghisi, cujo nome e brasão estão na entrada da catedral católica.

Em 1537, os turcos de Barbaroxa, (o império Otomano), tomaram a Grécia toda, Mykonos e Delos, até que, na guerra da independência grega em 1822, duas mulheres valentes comandaram as ilhas e expulsaram o exercito turco: Mando Mavroiennis e Boubulina.

Para quatro mulheres, havia um homem só. E o tarado do Onassis ainda foi buscar uma em Washington.

02 de julho de 2019

Viagem com Jorge Amado

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Ele Não queria ir de avião. Preferia o trem, de Roma até o sul da Itália e de lá para a Sicília. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, achavam demorado. Acabou se convencendo e voamos direto para Palermo. 

Jorge Amado passou em Roma em 1990, deu entrevistas como sempre, participou como jurado da entrega do “Premio Internacional União Latina de Literatura” e fez um debate no “Centro de Estudos Brasileiros”, na embaixada brasileira, ali na magnífica Piazza Navona, onde  eu era adido cultural.

Ele ia receber em Palermo, capital da Sicília, o “Premio Mediterrâneo”, mais importante da Sicília. 

Jorge foi, durante décadas, o embaixador da cultura brasileira no mundo e o autor  brasileiro mais lido em todos os países. Zélia Gattai fez muito bem em eternizá-lo, fazendo da casa do Rio Vermelho o “Memorial Jorge Amado”.

Nas ruas de Roma, nas esquinas da Sicília, era inacreditável a alegria do casal Hilda e Geangaspare Ferro em Palermo, ela brasileira, numa feijoada perfeita, estavam quatro casais que se conheceram por causa dos livros dele.

Eram italianos ou italianas que descobriram o Brasil, a Bahia, o Rio, nos livros dele, vieram conhecer o país, aqui encontraram brasileiras ou brasileiros, conheceram-se, casaram e foram agradecer a Jorge, santo casamenteiro. E algumas belas Gabrielas nascidas do romance de 1958.

Na Faculdade de Línguas e Literatura de Palermo, com os muros cobertos de slogans da esquerda, Jorge dez, durante horas, um debate com os estudantes. O que eles mais queriam saber era como o Brasil conseguiu misturar suas raças e a Europa vive cada dia mais envolvida no brutal conflito entre suas populações nativas e os imigrantes. Jorge ensinou sua sabedoria:

“Racismo só acaba na cama. Quando o primeiro português amou a primeira índia, começava no Brasil o mistério da nossa língua e nossa Nação”.

À noite, na entrega do prêmio, no Parlamento lotado, lá estava a Sicília oficial: o governador da província, o presidente do Parlamento regional, o pomposo cardeal Salvatore Pappalardo, escritores, professores, jornalistas. 

O grego Homero a chamou “Ilha do Sol”. Mas quem a definiu foi Goethe: “Sem ver a Sicília, não se pode fazer uma ideia da Itália. É na Sicília que se encontra a chave de tudo”. Tomasi di Lampedusa, escritor siciliano, disse no clássico “Il Gattopardo”.

- “Somos velhos, velhíssimos. Há 25 séculos, ao menos, carregamos mas costas o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora, nenhuma germinada aqui. Somos tão brancos quanto a rinha da Inglaterra. No entanto, há 2 mil anos somos colônia”.

A Sicília não é filha da Itália. É mãe. Não veio do Império Romano. É anterior. A civilização grega, antes de chegar a Roma, já estava na Sicília. Roma é a mãe da Europa. A Sicília é a avó. Uma vovó mafiosa, mas vovó.

Os fenícios, já instalados no norte da África, em Cartago, chegaram à Sicília e criaram sua primeira cidade, Panormo, hoje Palermo matriz fenícia e grega, depois romana, da Europa. Só no século 3º antes de Cristo, Roma chega à Sicília, com Pirro, para ajudar os gregos contra os fenícios. Roma derrota Cartago, expulsa os gregos e fica dona da ilha.

Durante séculos a Sicília foi o mais importante centro da civilização ocidental: desde o ano 1000 antes de Cristo, com os fenícios; depois, nos anos 500 antes de Cristo, com os gregos; antes de Roma foi o centro do Império Romano, com os romanos; e com os normandos, quando o Império Romano desabou, até 1250, quando morreu Frederico II e os franceses e espanhóis, protegidos pelos Papas, puseram a Sicília em séculos de opressão.

Primeira universidade do mundo e primeiro parlamento do mundo, em Palermo, em 1130, a Sicília surpreendeu Jorge Amado. Na catedral, flores frescas, do dia, no tumulo de Frederico II, “o rei sábio”, enterrado lá. Até hoje o povo enfeita sua morte, uma espantosa ternura por quem viveu até 1250.

18 de junho de 2019

Histórias políticas

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Para preencher cargos-chave do governo, havia norma de consultar o SNI, para saber os antecedentes da pessoa. Logo que o governador Paulo Egídio assumiu o ministério (Industria e Comercio, do governo Castelo), Golbery explicou:

- A diferença entre um informe e uma informação é a seguinte: o informe é “ouvi dizer”, é para ser verificado, é um primeiro boato. A informação é um fato que está comprovado. Quando você receber uma informação com um visto meu, é para cumprir. 

Um dia recebeu uma informação com o visto do Golbery, dizendo que um alto funcionário do Ministério era um pederasta que mantinha relações com contínuos no gabinete dele. Pedia que o demitisse.

Começou a levantar a vida do tal rapaz. Como não constatou nada, não assinou nenhum decreto. Golbery cobrou:

- Ministro, lamento muito mas não constatei aquelas informações. 

- Paulo eu não disse a você que uma informação com o meu visto era para ser cumprida? 

- O senhor disse, mas acontece que caberia a mim a responsabilidade de exonera-lo. Não constatei nada. Não cumpri. 

- Mas isso é muito grave. Precisa ser cumprido.

- Então ponha outro ministro no meu lugar, porque não vou cumprir. 

Na saída de uma outra reunião, Golbery deu um tapinha nas costas:

- Paulo, você se lembra daquele caso? Você tinha razão. Era um homônimo. Assunto encerrado”.

“Castelo tinha assinado um decreto, publicado no Diário Oficial, proibindo o aumento de salário dos procuradores públicos. Leônidas Bório, considerando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) uma autarquia, concedeu um aumento aos procuradores do Instituto. O presidente interpelou Bório diretamente:

- O senhor não comunicou ao seu ministro. Como explica isso?

- Sou presidente de uma autarquia e considero que cabe a mim.

- O senhor não está entendendo a política de meu governo. Não está entendendo coisa alguma. Vai ter que revogar isso de qualquer maneira.

O presidente bateu na mesa, ficou transtornado. Foi uma cena muito desagradável. 

Bório recuou, foi até o fim do governo como presidente do IBC. 

O coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 1950 na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleófas, para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua região. Depois da eleição, foi ao palácio. Agamenon eufórico: 

- Chico, use e abuse de meu governo. 

- Muito obrigado, governador. A secretaria da Fazenda e a de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Só peço para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso. Um dia, voltou ao palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função. Agamenon não podia atender:       - Mas, Chico, isso é muito difícil. 

– Se fosse fácil, eu não vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

*

Zé Pequeno era o líder dos carroceiros de João Pessoa. Comandava desfiles de carroças em homenagem ao interventor Argemiro Figueiredo e ao prefeito Fernando Nóbrega, na ditadura de Getúlio Vargas.

De repente, Argemiro caiu, Nóbrega também. Zé Pequeno guardou sua carroça, plantou-se dentro de casa. Um dia, dois, ninguém o viu mais. No terceiro dia, engraxou os sapatos, vestiu a roupa de domingo, pôs a gravata e passou pela casa de Fernando Nóbrega:

- Chefe, vou ao palácio apoiar o novo interventor, Rui Carneiro.

- Por que tanta pressa, Zé Pequeno?  

- Ah, doutor, três dias longe do governo é demais. Se eu ainda fosse um Zé Grande, mas sou apenas o Zé Pequeno.

11 de junho de 2019

O melhor de nós

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Éramos 11. Hoje já somos 2. Morreu ontem em Salvador, o melhor de todos nós: Padre Carlos Formigli.  Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifícia  Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma – Itália, 1952/56. Pos-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la  Transformation – Faculdades Católicas de Lilli – França – 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundação da Criança e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 – Salvador.

Os primeiros alunos do Seminário da Imaculada Conceição de Amargosa, na Bahia. A prefeitura estava inaugurando a “Biblioteca Pedro Calmon”,  filho mais ilustre da cidade. Estavam lá o homenageado, professor, escritor, acadêmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florêncio Sisínio Vieira, os professores do seminário e os locais, e um jovem estudante de Direito também nascido lá, Waldir Pires.

Padre Correia escreveu um texto em latim, um diálogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de começar e a alegria de terminar debaixo de palmas, Não erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

- “Eus, Carole, quo vadis”? (Alô, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inauguração da biblioteca. Falávamos sobre a importância da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudação à cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clássico, claro, que pronunciamos com segurança, até porque o autor estava ali e, se errássemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

Tenho aqui em mãos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

“- Caro Sebastião, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitórias conquistadas, as dificuldades vencidas, os serviços prestados. Com certeza, não fomos inúteis e, nem tão pouco, mais um na história do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheço sua história (a NUVEM não deixa dúvidas) e você sabe por onde andei, tentando realizar a minha missão de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se não optamos pelo repouso, já sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudência.

Você, meu caro, tem uma história rica de momentos empolgantes e não duvido em afirmar que os dias de “prisão” contribuíram, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polêmico, o cidadão consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabéns, Sebastião, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua história, pelo que você fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com você, agradeço a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.”


04 de junho de 2019

Três que eram seis

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Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas:

- “Ciente senador Ismar (irmão de Pedro e Silvestre e também general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas têm em vista provocações ocasião comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmão dos outros dois), aconselhei a este a não ir”.

“Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relógio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Góis e a rompeu, rasgando-a à vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relógio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibição, deu ordem até de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel”. 

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar:

- “O governador sabe, e se não sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligencia, já que não respeita o cargo que ocupa” 

Eram assim, como gato e cachorro, os três irmãos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dúzia. Ainda houve mais três: Cícero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.   

É caso único na história do Brasil, de seis irmãos políticos atuando ao mesmo tempo.

1. - Logo depois da proclamação da Independência, os irmãos José Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro Iº fechou para impor sua Constituição de 1824.2. – Os irmãos Mangabeira, baianos: Otavio, João e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e João elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacêutico e prefeito de Bagé, no Rio Grande do Sul, também foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os três,

3. – Na década de 90, Alagoas teve três irmãos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B.      Democracia é no voto e não na bala.

O general-governador Silvestre Góis Monteiro levou o maior susto quando começaram a ser contados os votos das eleições de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaças diárias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas não teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmão o poderoso general Aurélio Góis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposição (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafia-lo, disparou. O candidato a senador, Jerônimo da Rocha, também. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que não passaria o governo.

No comando do 20º Batalhão de Caçadores do Exercito, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da historia, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: “Sururu Apimentado”, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas.


28 de maio de 2019

O múltiplo embaixador

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível.

Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freire. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo dai a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. 

Ai aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com  Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau e Lopo do Nascimento de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Savimbi. 

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

- Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze 

anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes. 

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes:

“Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude.

Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

Não por acaso, hoje a Academia Brasileira de Letras presta homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro estão convidando para o 

Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, às 16:00 , no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. 

www.sebastiaonery.com    [email protected]

27 de maio de 2019

O múltiplo embaixador

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível

RIO – O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freire. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo dai a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. 

Ai aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com  Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau e Lopo do Nascimento de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Savimbi. 

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

- Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze 

anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes. 

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes:

“Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude.

Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

Não por acaso, hoje a Academia Brasileira de Letras presta homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro estão convidando para o 

Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, às 16:00 , no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. 

21 de maio de 2019

Histórias políticas

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Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960.

Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido:

- Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 é 

porque planeja outras muito mais altas aos 60. 

Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

- Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

- Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

- Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de 

Alagoas. O Aurélio Viana alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e leva-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

- Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai. 

Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas. 

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

20 de maio de 2019

Histórias Políticas

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960

RIO – Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960.

Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido:

- Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 é porque planeja outras muito mais altas aos 60.

Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

- Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

- Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa

Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

- Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de

Alagoas. O Aurélio Viana alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e leva-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

- Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai.

Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

14 de maio de 2019

A Turquia não é um país. É uma salada de frutas

A Macedônia também já foi. Tantos povos moraram e mandavam lá, que na Itália a salada de frutas se chama “macedônia”. Pois a Turquia é muito mais. É o único país do mundo que já teve 12 capitais.

Uma salada de frutas

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do século 18 ao século 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lícia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Pérgamo, capital do reino de Pérgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizâncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Império Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Império Otomano, também antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que de Constantinopla;  Niceia, quando a IV Cruzada cristã tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

Os povos que vieram e construíram têm nomes estranhos e belos, vieram desde o começo dos tempos, neste pequeno e fantástico país de 780 mil quilômetros quadrados e 75 milhões de habitantes.

Os turcos são herança de todos eles, de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Há marcas de presença humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta é sua grandeza mas também sua tragédia.

Os turcos dizem que a Turquia é o “maior museu a céu aberto do mundo”. E é por causa de sua fantástica história. Cada cidade tem um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações.

Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligação da Europa com a Ásia, do Mediterrâneo com o Mar Negro, da civilização ocidental com a civilização islâmica, dos projetos de dominação mundial dos Estados Unidos com a muralha que é a União Europeia?

Toda a história antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bósforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia, há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. É por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaçam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bósnia.

A Turquia, como a Grécia, Roma, Jerusalém, Paris, China, tantos outros, é um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espaço tão pequeno, nem mesmo na sagrada Grécia e na Roma divina, haja, tão numerosa e diversa, a presença da humanidade através da história.

Aqui, a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotamia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio. E viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 – Aqui nasceram Homero, o poeta,  São Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sábios. Aqui ensinaram Platão e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 – Quando Noé ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos três mais importantes rios da antiguidade, são daqui. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, estão (estavam) aqui. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para cá e aqui morreram. São Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maomé também estão aqui.

3 – A primeira moeda foi cunhada aqui, em Pérgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Império Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

Aqui, a historia troca de roupa: os gregos construíam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristãos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austríacos, alemães, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua imenso museu do homem.

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