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Notícias Sebastião Nery

23 de dezembro de 2019

O que é a verdade

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO - A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia.

Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horacio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império mas não teria sido uma Civilização.

A Itália é Dante e o depois dele. A Inglaterra é Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha é sobretudo Goethe, Portugal Camões.

Por que? Porque a poesia é o Genesis. “In principio erat verbum”. No principio era a palavra. No inicio era a poesia. E “o poeta é um pequeno Deus”.

Platão sabia disso : - “O poeta é um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus”.

Shakespeare também: - “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra para o céu. Quando a imaginação toma corpo, captura a essência das coisas”.

E Goethe: - “Poetas não podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas”.

E Victor Hugo: - “Um poeta é o mundo dentro de um homem”. 

Impalpável, intangível, só ela, a poesia, é a verdade. Etérea. A verdade alada de Platão, a verdade ensanguentada do Cristo.

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmão de Herodes, o antipático Antipas, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.

Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos de Pilatus, disseram que ele era “ríspido e intratável”. Mas não queria matar Jesus. Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica – “Jesus Nazarenus Rex Judeorum” – ,  Pilatos lhe perguntou quem ele era :

- “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. Pilatos outra vez lhe perguntou:

- O que é a verdade?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.

Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta, em latim:

- “Quid est veritas”? (O que é a verdade?).

Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta :

- “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

Nem a verdade disse o que é a verdade, porque indefinível.

Como a poesia. Ninguém a definirá. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizível. Nasce e morre no mistério. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. É  feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia é o mágico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte. 

Na impossível busca da verdade, só a poesia é a verdade.

Um pequeno, belo, talvez anônimo poema traduz magnificamente o que vai pela alma dos homens em cada Natal, cada virar de Ano Novo, cada começo de novo ano.

Consta, embora jamais comprovado, que é de Che Guevara. No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolívia, nas derradeiras trincheiras da inviável guerrilha, cercado de solidão e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:

- “Cristo, te amo / não porque desceste de uma estrela /

mas porque me revelaste / que o homem tem lagrimas, angustias /

e chaves para abrir as portas fechadas da luz. / Tu me ensinaste que o homem é deus / um pobre deus crucificado como tu./ E aquele que está à tua direita no Gólgota / o bom ladrão / também é um deus”.

12 de dezembro de 2019

Em 1968 o exército mandou buscar em casa “o Bosco da PUC”

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Às 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditório da Universidade Católica, o estudante de Direito Bosco Barreto (João Bosco Braga Barreto), paraibano, orador da turma, começava o discurso de formatura fazendo comovida e entusiástica saudação ao “grande comandante revolucionário Ernesto Che Guevara”, que morrera um ano antes. 

Muito azar. Naquele exato momento, em todas a rádios e TVs, Costa e Silva apavorava o país, lançando o AI-5 (Ato Institucional nº 5), jogando a Nação no mais fundo porão da ditadura. De manhã cedo, o Exército mandou buscar em casa “o Bosco da PUC”. Erraram de Bosco. Em vez do Bosco Barreto, o orador da turma de Direito, levaram o Bosco Tenório, também “Bosco da PUC”, aluno da PUC, jovem vereador recém-eleito de Recife.

No quartel, foi recebido pelo major Raimundo Sá Peixoto.

Desafiante, com o discurso na mão, o major lia uma frase e interrogava:

- Senhor Bosco, o senhor confirma este elogio desbragado a Che Guevara que o senhor fez ontem no seu discurso?

- Não confirmo não, major.

- Como não confirma? O senhor está louco? O senhor falou ontem à noite e hoje de manhã já não confirma? E este trecho aqui, o senhor confirma?

E o major Peixoto leu mais um longo pedaço do discurso e perguntou:

- E isso, confirma ou não confirma? Não sustenta o que disse ontem?

- Major, eu até concordo com o discurso que o senhor está lendo. Mas não confirmo nem sustento, porque não fui eu que disse isso. Quem falou foi  o orador da formatura. Como é que eu podia ser orador de formatura, se não me formei e ainda sou estudante? Esse Bosco aí é outro Bosco, major.

O major quase esganou o Bosco numero 2. Em outubro de 1969, o Bosco Tenório, valente vereador do MDB de Recife, hoje advogado, foi cassado. 

O Bosco Barreto, formado, voltou para sua terra, Cajazeiras, na Paraíba. Advogado dos camponeses fugidos da seca e do povão das periferias, ganhou enorme popularidade. Em 1972, saiu candidato a prefeito pelo MDB, quase ganhou. Logo em seguida, organizou uma romaria a Juazeiro do Norte para agradecer os votos ao Padre Cícero. 30 mil romeiros atrás dele, todos a pé.

Em 1974, Bosco Barreto se elegeu deputado estadual pelo MDB, com

9.326 votos, quase todos em Cajazeiras. Mas havia alguém muito importante que não gostava nada dele, e que ele também detestava e se combatiam: era o bispo de Cajazeiras por 40 anos, dom Zacarias Rolim de Moura. 

Culto, dedicado ao ensino, diretor de colégios e do seminário, criador da Faculdade de Filosofia, Dom Zacarias era um poço de conservadorismo e reacionarismo, critico de dom Helder Câmara e dom José Maria Pires, o dom Pelé arcebispo de João Pessoa, e inimigo da Teologia da Libertação. 

De repente, em 2 de julho de 75, às 21 horas, durante a exibição do filme “Sublime Renuncia”, que contava a história de um assalto a banco com bomba-relógio, uma bomba poderosa explodiu no cinema de Cajazeiras, abalando a cidade de 30 mil habitantes, matando duas pessoas, ferindo muitos. 

Escândalo nacional, em plena ditadura. A bomba explodiu exatamente ao lado da cadeira cativa do bispo, apaixonado por cinema, que escolhia os filmes em Recife e levava para lá. Naquela noite, por sorte, estava em Recife. 

- “Atentado terrorista”, gritaram os jornais. O primeiro “suspeito” de organizar o atentado tinha que ser ele, o “subversivo” deputado Bosco Barreto. 

Outros suspeitos foram a linha-dura militar, para desestabilizar a “abertura” do general Geisel, como mais tarde fizeram no Riocentro e na OAB, no Rio.

Dez anos depois, já morando em Brasília, como advogado do CNPq e suplente de senador, Bosco Braga tentou reabrir o caso, mas nada se apurou.

Essa historia está toda em um livro muito bem documentado sobre a política da Paraíba e do Nordeste (“Do Bico de Pena à Urna Eletrônica” -  Editora Bagaço, Recife, 2006),  de Francisco Cartaxo Rolim, paraibano de Cajazeiras, advogado, economista, escritor, secretario de Planejamento do Estado, chefe de gabinete da Sudene e parente de Dom Zacarias Rolim. 

03 de dezembro de 2019

A metralhadora do professor

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – Gilberto Amado, gênio da raça, foi embaixador do Brasil no Chile. Houve uma crise diplomática, ele voltou, ficou no Rio em disponibilidade. O ministro do Exterior, Macedo Soares, não o indicava para novo posto.Gilberto Amado perdeu a paciência, avisou:

- Qualquer dia desses, entro no Itamaraty com uma metralhadora embaixo do braço, vou ao gabinete do ministro e disparo: “tatatatatatatatatatá”: Macedo para um lado, Soares para o outro.

 Desde o Império, os Andradas e os Bias Fortes foram donos de Barbacena, em Minas Gerias. Mandavam e desmandavam. Às vezes, desmandavam mais do que mandavam. Séculos de poder político.

Até que chegou a Barbacena, por concurso publico, um professor de Matemática, para ensinar na histórica Escola Preparatória de Cadetes do Ar, da Aeronáutica. Vinha de longe, de Bananeiras, perto de Campina Grande, na Paraíba, nas fraldas da Serra da Borborema, que o saudoso José Américo jurava que produz os melhores abacaxis do mundo.

O professor até que era amigo dos Andradas e dos Bias, mais dos Bias do que dos Andradas, mas achava que era Andradas e Bias demais para  séculos demais. E decidiu pegar a metralhadora do voto do povo e “tatatatatatatatatá”, jogar os Andradas para um lado e os Bias para o outro.

 E foi o que fez. Tinha o saber camoneano de experiência feito. Chegado da Paraíba em 1951, como eu da Bahia, em 52 fez vestibular para Matemática na FAFI (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) da Universidade Federal, como também fiz para Filosofia. E fizemos o que um estudante consciente (e nordestinos, imaginem!) faz numa Universidade, em um pais em tempos de crise política. Participamos de tudo. 

Ele foi diretor do jornal do Diretório Acadêmico (“Filosofia”), tesoureiro do DCE (Diretório Central dos Estudantes), membro do Parlamento dos Estudantes Mineiros, nosso representante junto à UEE (União Estadual dos Estudantes)e à UNE (União Nacional dos Estudantes).

   Até que veio o golpe de 64 e encontrou o professor ensinando matemática no Colégio da Aeronáutica de Barbacena. Foi logo preso e logo solto. Continuou ensinando. Preso de novo, solto de novo. Continuou ensinando. Em 66, ajudou a fundar em Minas o MDB,  partido da oposição.

Um dia, o professor saia da aula e encontrou no corredor o sargento José Morais, do Departamento de Ensino da Escola de Cadetes :

- Fui bem hoje, sargento?

- Hoje eu não estava gravando.

O sargento, além de outras tarefas no Departamento de Ensino, comandava o sistema de gravação das aulas de todos os professores. Anos mais tarde, era da Casa Militar de Itamar Franco, no governo de Minas.

Em Barbacena, os Andradas e os Bias, acocorados compulsoriamente no ninho da Arena, foram obrigados a unir-se. A cada eleição, municipal ou estadual, em 70, 72, 74, 78, o professor lançava um candidato ou se candidatava ele mesmo. Ganhava mas não levava, porque os Andradas e os Bias somavam as sublegendas e ficavam com a vitoria.

Mas veio e 1982 e “tatatatatatatatatá”, foi Andradas para um lado e Bias para o outro. O MDB (já PMDB) do professor Manoel Conegundes ganhou todas em Barbacena: elegeu o prefeito Lídio Nusca, fez maioria na Câmara, Conegundes se elegeu deputado estadual com uma grande votação e deu mais de 20 mil votos a José Aparecido para deputado federal.

Era a primeira vez, em séculos, que os Andradas e os Bias perdiam. 

Nessa campanha de 82, Aparecido, sábio e diabólico, e Conegundes, sábio e santo, candidatos a federal e estadual, andavam em dobradinha pelo interior, visitando amigos e correligionários. Em Carandaí, lá pelas bandas de Barbacena, foram visitar Jamerson Rodrigues Pereira, mais de 70 anos, velho aliado dos Andradas e curtido de finórias malícias. Recebeu-os na sala modesta, encantado com a visita:

- Estou muito satisfeito de ter os doutores em minha casa. Vejo que são dois nomes muito bons para representarem Minas. Mas quero dizer aos senhores que o líder maior da oposição, em todo o Brasil, não está nos partidos, nem na Câmara e no Senado. Está ali, atrás dos senhores. É  aquela coisa quadradinha ali, a televisão. Ela, o líder maior da oposição. É só ligar que vem noticia de aumento. E aumento é voto contra o governo. 

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26 de novembro de 2019

O ACM que não foi contado

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – Em 1952, Antonio Carlos Magalhães, médico sem medicina, funcionário sem função da Assembleia Legislativa da Bahia (“redator de debates”) e repórter político do jornal “O Estado da Bahia” na Assembleia, ficou furioso com um discurso do líder do PSD criticando o ex interventor e líder da UDN no Estado, Juracy Magalhães, e gritou:

- Cala a boca, idiota!

Perdeu o emprego e ganhou a proteção de Juracy, amigo de seu pai, o médico e ex-deputado Francisco Magalhães, e de seu padrinho, o reitor da Universidade Federal Edgard Santos. Em 1954, Juracy o pôs na chapa para deputado estadual. Não se elegeu, ficou como primeiro suplente.

Mas naquele tempo havia “eleição suplementar” sempre que, por algum motivo, não se realizava em algum município. Antonio Balbino, o governador eleito pelo PTB, a UDN e uma dissidência do PSD, forçou a barra e garantiu a eleição de Antonio Carlos na “eleição suplementar”.

Antonio Carlos chegou à Assembleia e virou “líder da oposição” de mentirinha ao governo de Balbino. O líder do governo era Waldir Pires, do PTB-PSD. Em 1958, Antonio Carlos e Waldir se elegeram deputados federais. Antonio Carlos pela UDN, Waldir pelo PSD. Waldir eleito por Balbino. Antonio Carlos por Juracy e por Balbino, a quem sempre chamou de “patrão”.

Na Câmara, embora da bancada da UDN, liderada por Carlos Lacerda, que agressivamente combatia Juscelino, logo Antonio Carlos se tornou amigo de infância de JK, com direito a poderes federais na Bahia. Lacerda cobrou:

- Soube que você esteve ontem em segredo com o Juscelino.

- Estive com ele, sim, às 11 horas. E o Magalhães Pinto esteve às 7:30.

Em 1961, na Câmara, o deputado Tenório Cavalcanti, seu colega da

UDN do Rio, atacava o ex-ministro da Educação de Dutra e ministro da Fazenda de Jânio,o baiano Clemente Mariani, dono do Banco da Bahia. ACM o aparteou: 

 - V. Excia pode dizer o que quiser, mas na verdade o que V. Excia é mesmo é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.

Tenório sacou um revolver:

- Vai morrer agora mesmo!

- Atira!

Nem Tenório atirou nem Antonio Carlos morreu.

Dez anos depois, em 1972, Antonio Carlos, governador nomeado da Bahia, soube que o banqueiro Clemente Mariani, pressionado por Delfim Neto, ia vender o Banco da Bahia ao Bradesco. Chamou Mariani ao palácio:

- Doutor Mariani, isso é ruim para a Bahia. Se o senhor quer vender o banco, o Estado compra pelo preço que o senhor vai vender. 

- Não, Antonio Carlos. Não vou vender. Você acha que eu teria condições de vender o Banco da Bahia e me enterrar na Bahia? 

No dia 2 de julho de 1973, Antonio Carlos voltava da parada da Independência da Bahia, o advogado Prisco Paraíso lhe telefonou do Rio comunicando que o Banco da Bahia tinha sido vendido ao Bradesco. O governador chegou ao palácio, fez um decreto desapropriando a casa de Clemente Mariani e transformando-a numa escola para excepcionais.

Não era uma casa qualquer. Era um belo latifúndio urbano, no alto do morro da Barra, por cima da praia da Barra. O mundo quase veio abaixo. Mariani era o dono da Bahia. Recorreu à justiça, que manteve a desapropriação, “por interesse e utilidade publica”.

 Em 1967, presidente estadual da Arena, Antonio Carlos foi  nomeado prefeito de Salvador. Eu cassado, encontrei-o no hotel Califórnia, no Rio:

- Antonio Carlos, você é jovem (40 anos), não cometa o erro de Juracy, que quis fazer da Bahia uma Capitania Hereditária e não fez nem o sucessor.

- Pois vou fazer mais do que ele fez. Juracy mandou 30 anos na Bahia, de 32 a 62. Vou mandar 40 anos. (Mandou. De 67 a 2007).

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19 de novembro de 2019

A gôndola afogada

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – No dia 3 de novembro de 1966, Veneza acordou debaixo d'água. Uma violenta “mareggiata” (ressaca com ventos fortes), vinda do Adriático, caiu sobre a cidade, jogando em seu labirinto de canais uma quantidade de água dois metros acima do nível do mar. A água invadiu tudo, destruiu a rede elétrica, encheu os canais de lixo, ratos e pombos mortos.

O desastre pôs dramaticamente a nu uma dolorosa realidade: a frágil cidade estava lenta mas inexoravelmente afundando nas águas da própria lagoa que a fez nascer e a mantinha viva. Era uma gôndola afogada. E todos se lembraram do belo e profético poema de Byron, que nela morou: 

- “Veneza, oh Veneza!, quando teus muros de marmore forem cobertos pelas aguas, levantar-se-á um lamento das nações sobre tuas praças submersas, um alto lamento longo como o mar devastador”.

Veneza não é bem uma cidade. É um museu universal, cercado de água por todos os lados, todas as praças, todas as casas. São 18 ilhas, 400 pontes, 117 canais. Não por acaso, no século 18 ela transformou-se no maior centro de diversões da Europa, com um carnaval que humilhava o da Bahia: 6 meses.

O primeiro grande teatro fechado do mundo está aqui: o Grande Teatro Fenice, de 1792. O palácio dos Doges, em estilo gótico renascentista, tem mestres da pintura como Carpaccio, Veronese, Tintoretto. A basilica de São Marcos, com suas peças em dourado, seus mosaicos e cúpulas, no mais puro estilo bizantino, não parece com nenhuma igreja ocidental. Todo ano, em junho, eles têm a Bienal de Artes e em setembro o Festival de Cinema.

 A Republica de Veneza é uma das mais curiosas, surpreendentes e duradouras  experiências politicas da historia humana. Durou de 697 a 1797.  Mil e cem anos. O historiador Antonio Carlos de Amaral Azevedo conta:

1. - “Os Doges eram eleitos. (E havia uma “Assembleia Popular”, um “Conselho de Sabios”, o “Grande Conselho”). Do século 7 ao 12, esses magistrados foram os verdadeiros dirigentes da sociedade, da economia e da política, dotados de plenos poderes. Suas tentativas visando a hereditariedade do cargo ocasionaram mudanças no sentido de ser limitada a sua autoridade”.

2. – “A partir do século 12, a aristocracia veneziana criou órgãos constitucionais que se encarregaram de algumas funções administrativas antes centralizadas nas mãos do doge. Este, porem, continuaria a ser escolhido entre as famílias mais influentes da cidade, ocupando o posto até a morte. A ele competia solucionar todas as divergências internas, bem como proteger a cidade contra qualquer ameaça externa”.

As centenas de milhares de turistas do mundo inteiro, espremendo-se pelas praças e passeando nos barcos e gondolas, nem desconfiam como esta maravilha está ameaçada. Mas o mundo vai acordando: é preciso salvar Veneza. Se os gelos polares derreterem, os tornados e nevascas se despejarem, as águas se rebelarem, os mares enlouquecerem, Veneza será a primeira grande vitima.

Depois de 66, muita coisa foi feita. Mas os cientistas estão com medo e com pressa. A “The Venice in Peril Fund” (Fundação Veneza em Perigo”), da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicou estudo magnífico de 130 cientistas de todo o mundo, advertindo e apresentando soluções, que estão no livro “La Scienza per Venezia”,de Caroline Fletcher e Jane da Mosto. Avisam:

1. - “16 milhões de pessoas que todo ano vêm a Veneza vêem as restaurações sendo feitas. Mas a realidade é menos rósea do que parece. A cidade mais bela do mundo tem os dias contados. A frequencia da “água alta” aumenta e hoje Veneza não está em condições de defender-se de uma catastrofe maior do que o grande aluvião que sofreu em 66” .

2. - “O alarmismo dos ecologistas tem fundamento. Veneza não poderá ser salva sem investir tanto nas “barreiras moveis” como na lagoa. As mudanças climaticas provocadas pelo homem ameaçam Veneza: em 2100, o nível do mar pode estar aumentado de 12 para 72 centimetros”.

3. – “A lagoa de Veneza é geralmente pouco profunda : o nível médio da água é de um metro. Nos fundos da lagoa, foram escavados canais de navegação, alguns com até 20 metros de profundidade. Cerca de 60% da lagoa é perenemente submersa. 25% emergem periodicamente com as baixas marés. O resto (15%) é constituido de ilhas teoricamente sempre elevadas (acima do nível do mar), mas hoje ameaçadas pela “água alta”.

4. – “A cidade desce, o mar sobe. Veneza abaixa 0,5 milimetros por ano. Estudos arqueológicos, sobretudo na basílica de São Marcos, calculam uma perda de altitude de 1 a 1,5 milimetros todo ano, prevendo uma redução da diferença altimétrica, entre a terra e o mar, de 14 centimetros cada século”.

5. – “Em menos de 50 anos, dos anos 20 aos anos 70, Veneza afundou 10 centimetros mais do que Trieste (ali ao lado, tambem no mar Adriatico). 

No dia 12 de novembro de 2019, Veneza acordou assustada com uma histórica “acqua alta”.

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04 de novembro de 2019

A história do presidente Itamar Franco

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar.

Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma terça-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal Correio Braziliense, quando a secretária da redação me chama:

- Silvestre Gorgulho, é do Palácio do Planalto.

Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, então Secretário-Geral da Presidência da República. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Brasília. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa da filha Márcia na véspera.

- Ótimo! Então aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.

Foram dois ou três longuíssimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da República? Uma nota no jornal? O que será, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranças passadas, diz:

- Silvestre, tomei uma decisão. Estou morando aqui numa casa da Península dos Ministros, mas o Henrique (Hargreaves), a Ruth (Hargreaves) e o pessoal da segurança, todos estão pressionando muito para eu me mudar para o Palácio da Alvorada. O que você acha?

- Presidente...

- Presidente não! Itamar.

- Sim, sim Presidente Itamar... Acho uma sábia decisão. O senhor já devia ter feito isso há mais tempo. Lá é a residência oficial do Presidente da República. Vai lhe dar mais tranquilidade...

- É o que todos falam. Mas eu só vou numa condição. Não quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residência de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar lá no Alvorada assim sem mais nem menos.

- Como sem mais ou menos, Presidente... Itamar! O Palácio é a residência oficial...

- Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistério. A áurea do Presidente Juscelino domina o Palácio da Alvorada. Não que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada até o piano toca sozinho à noite.

Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: “A dona Sarah está em Brasília?”

- Presidente... Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua intenção de ir para o Alvorada? Vou pedir para ela ligar para o senhor.

- Fale com ela. Se ela quiser me ligar é um prazer. Você sabe de minha admiração pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleição para o Senado em 1974. Quem sabe ela e Márcia passam toda a manhã comigo lá no Alvorada.

Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda história. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palácio da Alvorada. Depois de alguns outros comentários, concluiu:

- Silvestre, conheço bem o presidente Itamar Franco. Ele é uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele não quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou lá recebê-lo com “honras de Chefe de Estado e espírito de Minas Gerais”.

Diante da aprovação e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

- Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a decisão do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.

Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Márcia irem ao Palácio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da República, Itamar Franco se muda para o Palácio da Alvorada. Além de receber “as Honras de Estado e o espírito de Minas”, Itamar proporcionou uma das maiores emoções à dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palácio da Alvorada pela última vez em 30 de janeiro de 1961. Há 32 anos ela não voltava à sua primeira residência em Brasília.

Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para o jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma repórter de tevê:

- Dona Sarah, é verdade que aqui no Palácio da Alvorada o piano toca sozinho?

- Olha, minha filha – respondeu dona Sarah – este Palácio traz energias extras aos presidentes. Se à noite o piano toca sozinho, está provado o alto astral do Palácio da Alvorada. Há coisa melhor do que uma boa música neste ermo encantado do Cerrado?

Aplausos!

Antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

- Vivi um sonho, Presidente. São 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na Capelinha do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abençoado.

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28 de outubro de 2019

Dois em um: a disputa de Jânio Quadros ao governo de São Paulo

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – Voltando de Londres, depois da renúncia à Presidência da República em agosto de 1961, Jânio surpreendeu mais uma vez o país lançando-se candidato ao governo de São Paulo contra Adhemar de Barros e José Bonifácio Nogueira, candidato de Carvalho Pinto.

Jânio saiu numa campanha forte, responsabilizando as “forças terríveis” que haviam levantado um muro diante de seu plano de governo. O slogan do publicitário, depois deputado, João Dória era a síntese do esquema da campanha: “A renúncia foi uma denuncia”.

Ademar, contido a duras penas pela sua assessoria política e publicitária, mudou o velho tom, bonachão mas duro. Não atacava Jânio, não falava na renúncia, pregava a paz e a tranquilidade para um Estado ainda traumatizado pelo gesto do ex-presidente, que deixara o país e sobretudo São Paulo deserdados pela renúncia.

- A campanha ia chegando ao fim. Jânio crescendo nas prévias eleitorais, Ademar impaciente, mas obedecendo ao staff. No comício de encerramento, em São Carlos, explodiu. Deixou de lado os conselhos e o projeto de discurso discutido com a assessoria e voltou ao velho tom, direto, irreverente, aberto, cara a cara com o povo. Foi um sucesso:

- Povo de São Paulo, eu não aguento mais. Esse homem é maluco. Ele vai botar o professor Carvalho Pinto na cadeia. Ele vai me botar na cadeia. Outra vez! Meu Deus, lá vou eu de novo para a Bolívia!

Estava em lágrimas. Ganhou por 30 mil votos. Com aquele discurso.

No meio dessa campanha de 1962, em que se candidatou pela segunda vez ao governo de São Paulo contra Ademar, o vice de Janio era o brigadeiro Faria Lima. Laudo Natel saiu candidato sozinho, em faixa própria. Parecia clara a vitoria de Jânio e de Faria Lima.

Amador Aguiar, o homem do Bradesco, telefonou para o ex-presidente e marcou encontro na casa de um funcionário do banco. Queria que Jânio retirasse a candidatura Faria Lima para apoiar Laudo, diretor do Bradesco e presidente do São Paulo Futebol Clube:

- Dr. Jânio, sei que sua campanha está com muitas dificuldades financeiras. Poderíamos resolver o assunto e assim seriam eleitos o senhor e o Laudo, que eu trouxe comigo para o senhor conhecer pessoalmente.

- Meu caro, já estou eleito. O povo já manifestou sua preferência. Mais uma vez, Dr. Amador. Vou ganhar em São Paulo e em todas as grandes cidades. Nem vou mais às pequenas, porque não precisa. Está na hora de ver quem é ou não é meu amigo, para não haver queixas depois.

- Mas, presidente, o Laudo está mais forte do que o Faria Lima. Juntos, daremos uma surra no Ademar.

- Não posso, meu caro. Não posso trair o Faria, que é meu amigo dileto. Di-le-to, entendido?

 Na ponta da mesa, baixinho, caladinho, ao lado de José Aparecido, Laudo não tugia nem mugia. Jânio chamou-o para sentar-se mais perto:

- Doutor Laudo, o senhor já foi candidato antes a alguma coisa?

- Não, presidente. Não gosto de política. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, é o pai que eu conheci.

- Mas de futebol o senhor gosta. É presidente do São Paulo.

- Também não gosto de futebol, presidente. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, foi o pai que conheci. O senhor não imagina o homem bom que ele é.

O acordo não foi feito. Jânio perdeu por 30 mil votos (das pequenas cidades que não visitou). Laudo (quer dizer, seu Amador, o pai que ele conheceu) ganhou para vice. E Ademar se elegeu governador.

23 de outubro de 2019

O revólver do almirante

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – Alto, desengonçado, mal ajeitado, um dos melhores repórteres da historia da imprensa mineira, Felipe Henriot Drummond chegou à porta da suíte presidencial do Hotel Financial, em Belo Horizonte. Dois seguranças de preto e mal encarados pediram os documentos. Felipe mostrou a carteira do “Estado de Minas”. Aprovada. Tocou a campainha.

A porta abriu e lá de dentro uma voz esganiçada gritou: 

- Entre!

Felipe entrou. Não viu ninguém. Atrás da porta, um homem baixinho, fardado, apontava um revolver para as costas dele:

- Sente-se ali. Por que chegou antes, se a entrevista é às 12 horas? 

Felipe não sabia se dava uma risada ou ia embora. Daí a pouco, fomos chegando nós, outros jornalistas, para a entrevista coletiva do almirante Penna Botto, presidente da Cruzada Brasileira Anticomunista, que foi a Minas fazer campanha contra a posse de Juscelino e João Goulart na presidência da Republica, eleitos dias antes, em 3 de outubro de 55. 

Logo no dia 5, Penna Boto tinha dado entrevista ao “Globo”:

- “É indispensável impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos”.

A entrevista a nós foi uma palhaçada. O atarracado almirante queria nos convencer de que o Partido Comunista estava criando um “Soviet” no Triangulo Mineiro, que iria instalar-se logo que JK tomasse posse.

Não houve “soviet” mas por pouco não houve a posse. Nas redações, passávamos madrugadas agarrados às rádios do Rio, que transmitiam a crise ininterruptamente. Até que o presidente Café Filho teve (ou fingiu) um infarto, passou o governo para o presidente da Câmara, Carlos Luz, víbora gorda do PSD mineiro que, no dia 10 de novembro, demitiu do  ministério da Guerra o marechal Lott, vermelhão, olho azul, mais Caxias do que Caxias, e o substituiu pelo general udenista-golpista Fiúza de Castro, numa ação articulada para impedir a posse de Juscelino e Jango.

De madrugada, Lott e Denis, comandante do Iº Exercito, fizeram o “11 de novembro” (terça fez 53 anos), “retorno aos quadros constitucionais vigentes”: puseram os tanques na rua, a Câmara votou o impeachment de Carlos Luz e entregou o governo ao presidente do Senado, Nereu Ramos. 

Em Minas, quando a noticia chegou ao amanhecer, corremos para o palácio da Liberdade. Juscelino, presidente eleito, já estava lá, trancado com seu vice, o governador Clovis Salgado, e o comandante da região, general Jaime de Almeida. Os dois tentaram de todo jeito segurar Juscelino, mas ele resolveu ir de qualquer forma para o Rio. Abre-se a porta e ele sai:

- Bom dia, vocês já aqui? Vou agora mesmo para o Rio.

- Mas, presidente, há notícias de que a Aeronáutica está ao lado de Carlos Luz, que foi para Santos com Lacerda no “Tamandaré”, comandado pelo Penna Boto e o brigadeiro Eduardo Gomes já chegou lá para tentar a resistência com a cobertura do governador Jânio Quadros. Como é que o senhor vai descer no Santos Dumont ou no Galeão? Derrubam o avião.

- Já discutimos tudo, eu, o governador e o general. Eles estão contra, mas a decisão é minha e já a tomei. Vou a qualquer risco.

Entrou em um carro e disparou para o aeroporto. Fomos atrás, repórteres e fotógrafos. Lá, uma cena dramática. Juscelino dava ordens, aos gritos, a João Milton Prates e outro piloto, queridos amigos seus, para levantarem vôo em um pequeno avião particular. Mas havia uma ordem definitiva da Aeronáutica: ninguém podia decolar.

Impedido, encostou os dois cotovelos no balcão do aeroporto, cobriu o rosto com as mãos trêmulas e chorou de sacudir. Era o choro da audácia impotente: - “Meu Deus, isso não pode acontecer. Preciso assumir”! 

Foi no dia seguinte. Em 31 de janeiro, o presidente era JK. Assumiu, mas só depois de Café Filho sumir, também empichado. O cruzador “Tamandaré”, comandado pelo pequenininho  Penna Boto, levou três tiros de festim do Forte de Copacabana e seguiu para São Paulo, onde Jânio não quis nada com eles e voltou de rabo (popa e proa) entre as pernas. Lacerda foi direto para a embaixada de Cuba,asilado pelo ditador Fulgêncio Batista. A tentativa de golpe não conseguira apagar os milhões de votos de Juscelino. Mais uma vez o golpe de 50, 54 e 55 fora adiado para 64. Terça, “O Globo” informava que “o Instituto Histórico e Geográfico homenageou (sic) o almirante Penna Boto pelos 53 anos do bombardeio (sic) sofrido pelo cruzador Tamandaré, em 55, ao tentar sair da baia da Guanabara”. 

www.sebastiaonery.com   [email protected]

21 de outubro de 2019

O revólver do almirante

O atarracado almirante queria nos convencer de que o Partido Comunista estava criando um “Soviet” no Triangulo Mineiro

RIO – Alto, desengonçado, mal ajeitado, um dos melhores repórteres da historia da imprensa mineira, Felipe Henriot Drummond chegou à porta da suíte presidencial do Hotel Financial, em Belo Horizonte. Dois seguranças de preto e mal encarados pediram os documentos. Felipe mostrou a carteira do “Estado de Minas”. Aprovada. Tocou a campainha.

A porta abriu e lá de dentro uma voz esganiçada gritou:

- Entre!

Felipe entrou. Não viu ninguém. Atrás da porta, um homem baixinho, fardado, apontava um revolver para as costas dele:

- Sente-se ali. Por que chegou antes, se a entrevista é às 12 horas?

Felipe não sabia se dava uma risada ou ia embora. Daí a pouco, fomos chegando nós, outros jornalistas, para a entrevista coletiva do almirante Penna Botto, presidente da Cruzada Brasileira Anticomunista, que foi a Minas fazer campanha contra a posse de Juscelino e João Goulart na presidência da Republica, eleitos dias antes, em 3 de outubro de 55.

Logo no dia 5, Penna Boto tinha dado entrevista ao “Globo”:

- “É indispensável impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos”.

A entrevista a nós foi uma palhaçada. O atarracado almirante queria nos convencer de que o Partido Comunista estava criando um “Soviet” no Triangulo Mineiro, que iria instalar-se logo que JK tomasse posse.

Não houve “soviet” mas por pouco não houve a posse. Nas redações, passávamos madrugadas agarrados às rádios do Rio, que transmitiam a crise ininterruptamente. Até que o presidente Café Filho teve (ou fingiu) um infarto, passou o governo para o presidente da Câmara, Carlos Luz, víbora gorda do PSD mineiro que, no dia 10 de novembro, demitiu do ministério da Guerra o marechal Lott, vermelhão, olho azul, mais Caxias do que Caxias, e o substituiu pelo general udenista-golpista Fiúza de Castro, numa ação articulada para impedir a posse de Juscelino e Jango.

De madrugada, Lott e Denis, comandante do Iº Exercito, fizeram o “11 de novembro” (terça fez 53 anos), “retorno aos quadros constitucionais vigentes”: puseram os tanques na rua, a Câmara votou o impeachment de Carlos Luz e entregou o governo ao presidente do Senado, Nereu Ramos.

Em Minas, quando a noticia chegou ao amanhecer, corremos para o palácio da Liberdade. Juscelino, presidente eleito, já estava lá, trancado com seu vice, o governador Clovis Salgado, e o comandante da região, general Jaime de Almeida. Os dois tentaram de todo jeito segurar Juscelino, mas ele resolveu ir de qualquer forma para o Rio. Abre-se a porta e ele sai:

- Bom dia, vocês já aqui? Vou agora mesmo para o Rio.

- Mas, presidente, há notícias de que a Aeronáutica está ao lado de Carlos Luz, que foi para Santos com Lacerda no “Tamandaré”, comandado pelo Penna Boto e o brigadeiro Eduardo Gomes já chegou lá para tentar a resistência com a cobertura do governador Jânio Quadros. Como é que o senhor vai descer no Santos Dumont ou no Galeão? Derrubam o avião.

- Já discutimos tudo, eu, o governador e o general. Eles estão contra, mas a decisão é minha e já a tomei. Vou a qualquer risco.

Entrou em um carro e disparou para o aeroporto. Fomos atrás, repórteres e fotógrafos. Lá, uma cena dramática. Juscelino dava ordens, aos gritos, a João Milton Prates e outro piloto, queridos amigos seus, para levantarem voo em um pequeno avião particular. Mas havia uma ordem definitiva da Aeronáutica: ninguém podia decolar.

Impedido, encostou os dois cotovelos no balcão do aeroporto, cobriu o rosto com as mãos trêmulas e chorou de sacudir. Era o choro da audácia impotente: - “Meu Deus, isso não pode acontecer. Preciso assumir”!

Foi no dia seguinte. Em 31 de janeiro, o presidente era JK. Assumiu, mas só depois de Café Filho sumir, também empichado. O cruzador “Tamandaré”, comandado pelo pequenininho Penna Boto, levou três tiros de festim do Forte de Copacabana e seguiu para São Paulo, onde Jânio não quis nada com eles e voltou de rabo (popa e proa) entre as pernas. Lacerda foi direto para a embaixada de Cuba,asilado pelo ditador Fulgêncio Batista. A tentativa de golpe não conseguira apagar os milhões de votos de Juscelino. Mais uma vez o golpe de 50, 54 e 55 fora adiado para 64. Terça, “O Globo” informava que “o Instituto Histórico e Geográfico homenageou (sic) o almirante Penna Boto pelos 53 anos do bombardeio (sic) sofrido pelo cruzador Tamandaré, em 55, ao tentar sair da baia da Guanabara”.

15 de outubro de 2019

A Bahia canta a sua santa

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

A Bahia sempre foi múltipla. Mas desta vez se superou.

De um jantar no Hotel Fasano em Salvador, onde estavam Durval Lelys, Licia Fábio, Nizan Guanaes e outros produtores musicais, nasceu a ideia de gravar uma canção em homenagem à Irmã Dulce cujo processo de canonização o Vaticano acaba de consagrar.

A música é excelente, a letra criativa. Começa como se fosse adotar um tom marcial e no entanto é uma doçura do princípio ao fim: 

  “A Bahia Canta a Sua Santa

A Bahia inteira canta

Para celebrar nossa santa

Que cuidou de nós

Tocam sinos e atabaques

De um povo que viu seus milagres

Foste a voz daqueles que não tem voz

Pequena e tão gigante

Mãe desses Filhos de Gandhy

Que entram em Roma

Soltando as pombas

Pombas da paz

Ouve teu povo cantando

Nas portas do Vaticano

Ele tem fé, ele tem axé

Ele veio a pé

É a Bahia que canta

Santa Dulce, a nossa santa

Que está no céu

Cuidando da gente

Diariamente

Pequena e tão gigante

Ouve teu povo cantando”

Cantores baianos ligaram as suas trombetas: Margareth Meneses, Preta Gil, Léo Santana, Márcia Freire, Vanesca Pinheiro, Vina Calmon, Eber Lima e Miguel,  Will Carvalho, Átila Lima e a luminosa Ivete Sangalo.

Às sete da manhã ela passava lá, toda magrinha, seguindo para sua jornada, suas obras de caridade. Durante anos pegou caronas de amigos. Ninguém acreditava que chegaria ao fim da tarde. Sempre chegou, com seus olhinhos miúdos, em qualquer canto da cidade baixa de Salvador,  como se fosse uma pomba ferida. E era. Era a pomba da paz da Bahia.

Faz bem Salvador celebra-la e cantá-la.

Neste mundo de doideiras, ainda bem que a Bahia dá esta lição de ternura, de bondade. Sabe bem seu parceiro de tantos anos doutor Taciano Campos.

Santa Dulce dos Pobres da Bahia.

www.sebastiaonery.com  [email protected]

07 de outubro de 2019

Histórias potiguares - Café Filho, de vereador a presidente do Brasil

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro, filho daqui (nasceu em 3 de fevereiro de 1899, em dois meses faria 110 anos), Café Filho fez uma biografia política continua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia). 

Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

  - Rubem, preciso de você.

  - De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equivoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da Republica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

 Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café,escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

No segundo ano da escola primaria, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar,de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para ultimo. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum.  Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor?

José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Rui Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas,ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio,alguém começou a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

 - Um momento. Passei 50 anos na vida publica e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

 Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Charteaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

- Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

- Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha joga é descer de paraquedas nos discursos dele.

Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. EM 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluisio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três,o novo governador não chegava.

A mulher mandou chama-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

- Ainda bem que ele chegou.Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder. 

Histórias potiguares

Café Filho fez uma biografia política contínua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente

RIO - Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro,filho daqui (nasceu em 3 de fevereiro de 1899, em dois meses faria 110 anos), Café Filho fez uma biografia política continua: de vereador e varias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia).

Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

- Rubem, preciso de você.

- De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equivoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da Republica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café,escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

No segundo ano da escola primaria, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar,de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para ultimo. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum. Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor ?

José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Rui Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas,ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio,alguém começou

a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

- Um momento. Passei 50 anos na vida publica e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Charteaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

- Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

- Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha joga é descer de paraquedas nos discursos dele.

Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. EM 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluisio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três,o novo governador não chegava.

A mulher mandou chama-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

- Ainda bem que ele chegou.Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

02 de outubro de 2019

Histórias de Eleições: Jânio Quadros x Juracy Magalhães

www.sebastiaonery.com [email protected]

Na manhã da convenção da UDN para lançar a candidatura de Jânio Quadros à presidência da Republica (8 de novembro de 1959), contra Juracy Magalhães, até há pouco presidente do partido, conta Carlos Lacerda em suas memórias, Jânio chamou Lacerda à suíte do hotel Gloria, no Rio, onde estava hospedado, já lançado candidato pelo PL, PDC e PTN:

- Carlos, não aguento essa sua UDN. Não aguento mais o que vem me dizer o Afonso Arinos, as condições que querem me impor.

- Jânio, não é bem assim. Você vai ganhar a convenção. - Não, não e não!

Afonso Arinos, que estava com outros dirigentes da UDN na sala da suíte, empurrou a porta:

- Governador, nós já vamos à convenção para começar os trabalhos e daqui a pouco uma comissão virá busca-lo.

- É engano seu, senador. Não sou mais candidato. Quero lhe pedir o obsequio de ser o meu porta-voz, porque não quero comprometer o Carlos, que já se comprometeu demais, coitado, com a minha candidatura.

Afonso Arinos quase teve um treco:

- E agora?

Lacerda entendeu o golpe:

- Ô Jânio, parece-me que você não quer se atrelar só a uma candidatura udenista à vice-presidência. Não é isso? (Havia Leandro Maciel, da UDN, e Fernando Ferrari, do MTR).

- Talvez. Não é só isso. Mas talvez seja também isso.

- Bem, Jânio, não tenho condições de liberta-lo de compromissos. Mas, se vou aceitar sua candidatura pela UDN, PL, PDC, PTN, PR e não sei mais o que, você realmente não depende de ninguém.

- Está bem. Faço o sacrifício. Foi para a convenção e teve 205 votos, contra 85 de Juracy. Já estava treinando para a renúncia.

Padre Giordani, vereador do PDC e coordenador da campanha de Jânio em Caxias, no Rio Grande do Sul, preparou um comício para a noite, na praça da cidade, e convidou a população para saudar o candidato nas ruas, às seis da tarde, logo depois da chegada dele ao aeroporto.

No aeroporto, um carro aberto esperava o candidato para a entrada triunfal na cidade. Jânio ficou irado:

- Nada disso, senhor padre! Quero um carro pequeno e fechado. Vou direto daqui para o hotel, por ruas ínvias, onde ninguém me veja, sem passar pelo centro. Tu-do-mui-to rá-pi-do.

- E o povo, presidente?

- O povo? Quem conhece o povo sou eu, senhor padre. Nas faces e na alma. O povo quer mais me ver do que me ouvir. Pois, se quer me ver, que vá também me ouvir, no comício, à noite. Ver-me-á e ouvir-me-á.

Oito da noite, Caxias estava toda na praça. Vendo e ouvindo Jânio. 

Aluísio Campos, advogado, economista, fazendeiro, empresário muito rico na Paraíba, foi do Banco do Nordeste, da Sudene e duas vezes deputado estadual pelo Partido Socialista. Duas vezes candidato a senador pela Arena, perdeu as duas vezes para Rui Carneiro, do MDB. Depois, elegeu-se duas vezes deputado federal pelo PMDB.

Em 66, João Agripino, governador, encarregou os arenistas Ivan Machado e Osvaldo Trigueiro do Vale de coordenarem em João Pessoa a campanha ao Senado de Aluisio, que era de Campina Grande. Já perto das eleições, planejaram uma grande concentração popular no bairro da Torre, onde ele faria o pronunciamento final. Ivan e Osvaldo se desdobraram.

No dia do comício, nove da noite, o governador João Agripino e Aluísio foram para o bairro da Torre.Uma decepção. Palanque, luzes, escola de samba, tudo lá. Mas, povo, quase nenhum. Aluisio chamou Osvaldo:

- Tudo bem, Osvaldo?

- Tudo bem, senador. Tudo arrumado, como o senhor mandou.

- Mas, e o povo, Osvaldo?

- Ora, doutor, eu armei o palanque, providenciei a iluminação, consegui a escola de samba, fiz os convites aos oradores. Agora, se, alem de tudo isso, ainda tivesse de trazer o povo, o candidato era eu. Não houve comício. Nem eleição de Aluisio. José João Botelho deputado federal do Pará no Rio (46 a 51), passou muito tempo sem ir a Belém. Voltou candidato a prefeito da capital. Um dia inteiro anunciou o primeiro comício, à noite, na praça Brasil. Chegou lá, não havia ninguém. Imaginou um engano, perguntou ao assessor.

- Não houve engano nenhum, deputado. A praça é esta mesma. Botelho foi ao bar mais próximo, pediu dois caixotes de madeira, pôs no centro da praça, subiu e passou a gritar, como um alucinado:

- Socooooooorrro! Socoooooorrrrro!

Correu gente de todo lado para ver o que era.Com a platéia, ele começou:

- Socorro para um candidato...

E fez o comício. Não se elegeu, mas fez o comício.


23 de setembro de 2019

Histórias de Minas

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo

RIO – No dia 5 de setembro de 1933, ele apareceu morto dentro da banheira do palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. “Era celibatário” (78 anos, nasceu em 1855), diz o Dicionário Biográfico de Minas Gerais, edição da Universidade Federal e da Assembleia Legislativa de Minas.

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo. Deputado de 1880 a 1911, abandonou a política e voltou a ser fazendeiro. Em 1922, foi chamado para vice-presidente do Estado, com o “presidente” (governador) Raul Soares. Raul Soares adoeceu de 1923 a 1924, ele assumiu. Raul Soares morreu em 1924, ele assumiu de novo.

Fernando de Mello Viana foi eleito para completar o quatriênio, mas foi escolhido vice de Washington Luiz Maciel cumpriu o resto do mandato. Em 30, torna-se “presidente” (governador) de Minas, vem a “revolução” de 30, Getúlio o confirma interventor e ele morre na banheira, em 33.

Gustavo Capanema, poderoso secretario do Interior, achava que ia ser o sucessor. Virgílio de Melo Franco também. Getúlio deu uma rasteira nos dois e nomeou o jovem Benedito Valadares, que chamou Juscelino Kubitschek para chefe de gabinete.

Foram inaugurar um retrato de Maciel. Acabada a solenidade, saíram no mesmo carro Benedito, Juscelino e Capanema. Capanema, intelectual, culto, vaidoso, irado por não ter sido nomeado, começou a agredir Benedito com uma aula de como governar :

- Olha, Benedito, governo é cultura. Você tem que esquecer Pará de Minas e ver que agora você é o chefe político de Minas. Tem que cercar-se de intelectuais, ler, estudar, para poder estar à altura de governar Minas.

Benedito foi ficando vermelho, furioso, perdeu a paciência :

- Olha, Capanema, nada disso. Se suas lições prestassem, você é quem teria sido nomeado pelo presidente Vargas. Governar não é nada disso que você disse. Esse negocio de cultura é para intelectual. Governar é ação, é trabalho. E é isso o que vou fazer. Não vou ler nem estudar coisa nenhuma. Aliás, tenho lá em casa uns cinco ou seis livros e vou jogar tudo fora.

Anos depois, Juscelino relembrava essa historia para seu oficial de gabinete na Presidência, Antônio Carlos Sá, e dava gargalhadas. Aliás, Benedito fez exatamente o que Capanema recomendou: cercou-se da maioria das melhores cabeças de Minas (Orosimbo Nonato, Mario Casassanta, Cristiano Martins, Ciro dos Anjos, outros) e até deixou alguns bons livros : “Esperidião”, “A Lua Caiu”, “Tempos Idos e Vividos”.

E mandou em Minas exatamente doze anos: de 33 a 45.

Benedito chegou a Curvelo, Minas Gerais, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

- Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimo agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

- É o contrário, governador!

- Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

E continuou. Estava conversando com Ciro dos Anjos, deu sono:

- Ciro, vou dormir. Vou entregar-me aos braços de Orfeu.

- Faltou um M, doutor Benedito.

- Não faltou, não, Ciro, Orfeom é um instrumento musical. Eu estou é com sono mesmo.

E foi dormir.

Pesquisa ferroviária em Minas, na antiga Rede Mineira de Viação, apurou que o vagão mais atingido nos desastres era sempre o último. Benedito, interventor, recebeu o estudo, leu, chamou Ciro dos Anjos:

- Prepare um decreto suprimindo o último vagão.

Gustavo Capanema, ministro da Educação d Getúlio, encontra-se com Benedito Valadares, interventor de Minas, na ante sala do gabinete do presidente. Benedito estava com os olhos inflamados:

- O que é isso, Benedito, nos seus olhos?

- O médico me disse que é conjuntivite na vista.

- Conjuntivite na vista não, Benedito. Isso é pleonasmo.

Getúlio chamou, Benedito entrou:

- O que é isso nos seus olhos, governador?

Agora estou na dúvida, presidente. O médico, lá em Belo Horizonte, tinha dito que era conjuntivite na vista. Mas o Capanema, que é muito inteligente, acaba de me dizer, aí fora, que não é não; que é pleonasmo.

Cada tempo tem suas historias, cheias de sutilezas e lições. O competente jornalista e professor Rosental Calmon Alves, dizia em um seminário no Globo sobre o futuro do jornalismo:

- “Agora, o jornal não vai mais ser apenas jornal. Pode se expandir para outras formas de comunicação com o leitor, desde que perceba que seu negocio é contar historias. Sempre fomos contadores de histórias. Só que agora, com a internet e os blogs, podemos fazer isso de forma mais ampla”.

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histórias. Exatamente pela razão do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.

10 de setembro de 2019

Um homem chamado livro

Confira o texto publicado pelo colunista Sebastião Nery no Jornal O Dia.

RIO – No dia 28 de janeiro de 1938, Getulio Vargas escreveu em seu “Diário” (Editora Siciliano/FGV, vol. II, pág. 176):

- “À noite, procura-me a Alzira (a filha Alzira Vargas) dizendo que a mulher do livreiro José Olimpio, que editara “A Nova Politica do Brasil” (livro de Vargas em vários volumes), procurara-a chorando para dizer que o meu telegrama circular aos interventores, desaprovando a compra do livro, arruinava moral e materialmente seu marido. Fiquei realmente penalizado, mas não podia voltar atrás, porque quem me prevenira que se estava fazendo exploração para forçar a venda do livro fora o interventor de São Paulo (Ademar). Passei mal esta noite. Não pude dormir. Levantei-me e fui trabalhar até as três horas da madrugada. Excesso de fumo e café”.

Até 1º de maio de 1942, quando o “Diário” se encerra, Getulio não toca mais no assunto.Como podia ter feito aquilo com quem continuou editando seus livros, inclusive a serie “O Governo Trabalhista do Brasil”? 

O mistério só foi decifrado mais tarde. O jornalista Arlindo Silva, da revista “O Cruzeiro”, publicou reportagem na edição de 19 de abril de 1947, sobre a administração de Ademar de Barros em São Paulo (“O Governador Presta Contas”). Ademar tinha sido interventor de 1938 a 1941 e foi eleito governador para 1947 a 1951. Arlindo Silva reproduziu o recibo da “Livraria José Olympio Editora”, referente à venda de 5 mil coleções dos cinco primeiros volumes de “A Nova Política do Brasil”, em 13 de dezembro de 1938, por 315 contos de reis. 

Entre 28 de janeiro e 13 de dezembro de 1938, Getulio, que não confiava em telefone (desde aquela época), deu um jeito de mandar pedir (ou ordenar) a Ademar que resolvesse o problema. Ademar resolveu.

Essa é uma das numerosas historias e documentos de um livro-monumento, do incansável jornalista, pesquisador e também grande editor (da Topbooks) José Mario Pereira, sobre 60 anos (de 1931 a 1990) de pioneirismo de um “civilizador do Brasil”, José Olympio Pereira Filho:

- “José Olympio – O Editor e sua Casa” (Editora Sextante). 

São 421 paginas, projeto gráfico do consagrado artista Victor Burton, primorosamente impresso, com centenas de ilustrações, fotografias, documentos e a capa dos principais livros editados por José Olympio em   meio século (nasceu em dezembro de 1902 e morreu em maio de 1990). 

José Olympio foi sobretudo um liberal da cultura e da política, um homem sem preconceitos, aberto a todas as ideias e todos os debates. 

Sua  editora nasceu em plena efervescência do renascer cultural, ideológico e político do Brasil, no começo de década de 30, depois da Semana de Arte Moderna de São Paulo. E deu a principal contribuição. 

Era um tempo em que Tristão de Athayde, Padre Helder Câmara, Miguel Reale, Gustavo Barroso, Santiago Dantas, Octavio de Faria,  Candido Mota Filho, Augusto Frederico Schmidt, ajudavam Plínio Salgado a construir e comandar o Integralismo, o mais poderoso movimento da direita intelectual e política do pais, sob o lema “Deus, Pátria e Família”.

Do outro lado, Pedro Ernesto, Anísio Teixeira, Gilberto Freyre, José Américo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond, comunistas ou próximos a eles. José Olympio editou a todos.

De Getulio a Sarney, todos os presidentes passaram pela “Casa”.

 Logo no principio da editora, no começo da década de 30, ele lançou pioneira e audaciosamente a coleção “Problemas Políticos Contemporâneos”  inaugurada com “O Estado Moderno Liberalismo, Fascismo, Integralismo”, de Miguel Reale (1934). Segundo livro: -“O Sofrimento Universal”, de Plínio Salgado. Também dele,“Despertemos a Nação”,“Psycologia da Revolução”. E “No Limiar da Idade Nova”, de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), “Panorama do Brasil”, de José Maria Belo, “A Aventura Política do Brasil”, de Azevedo Amaral, “Formação Brasileira”, de Helio Viana. 

Em 1936, outra coleção : “Documentos Brasileiros”, dirigida por Gilberto Freyre, Otavio Traquino e Afonso Arinos. Primeiro livro: “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda: 207 livros até 1989.

Em meio a esses, os grandes romances dos anos 30. José Américo, Jorge Amado (começou como vendedor), José Lins, Graciliano, Guimarães Rosa foram lançados por José Olympio, que fez os primeiros livros bonitos do pais, com capas de artistas: Santa Rosa, Luis Jardim, Poty, Eugenio Hirsch 

02 de setembro de 2019

O Brasil saqueado

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio

RIO - O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele.

Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o sub gerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506.

Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira.Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : - “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

- “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”.

Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas.

Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”.

A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.