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Caminhada da Fraternidade: um abraço de acolhida aos necessitados

Cerca de 60 mil pessoas abraçaram as ruas de Teresina em uma manifestação de solidariedade, amor e inclusão.

11/06/2019 09:26h - Atualizado em 11/06/2019 10:26h

Um gesto recíproco de compreensão, admissão, aceitação e acolhimento. Este é o significado mais simples que pode ser atribuído à palavra “abraço”. Em sentido literal, trata-se de “envolver com os braços” algo ou alguém. No corpo, tem efeitos calmantes e até mesmo curativos, com a liberação de hormônios que causam o bem-estar. Mentalmente falando, o significado de “abraço” é de derrubada de barreiras psicológicas, um ato de quebra de resistências e de abertura para com o outro.


(Galeria de fotos: Assis Fernandes, Biá Boakari, Nathalia Amaral)

O abraço ou ato de abraçar expressa uma gama de sentimentos, que vão desde o carinho, passando pela congratulação, pela manifestação de saudade, até chegar à proteção. Ou, como retratado nos versos de Vinícius de Moraes, trata-se de “um aconchego que enfatize a vida e amenize as dores [...], Dizer ‘eu estou aqui, estou com você” [...] transfusão de forças, a fusão de energia que harmoniza, que integra e que se traduz no cosmo, no tempo e no espaço”.

Teresina viveu essa transfusão de forças e de energia harmonizadoras neste domingo (09), durante a 24ª Caminhada da Fraternidade. O evento, que já é tradição no calendário da Capital, trouxe como tema justamente o poder do acolhimento e da aceitação: “Abraço – nosso laço com o outro”. Um lembrete de que não estamos sozinhos no mundo e que antes de levantar muros e construir barreiras, devemos transpassa-las, deixar de lado as diferenças e enxergar o outro como a nós mesmos.

A 24ª Caminhada da Fraternidade trouxe como tema o poder do acolhimento e da aceitação. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Foi o que explicou o presidente da Ação Social Arquidiocesana de Teresina (ASA), Padre Tony Batista: “neste mundo de tanto egoísmo, isolamento e exclusão, precisamos valorizar o abraço, porque este é o nosso laço. Estamos abraçando com a alma a causa dos pequeninos, abraçando os pobres, abraçando os enfermos, abraçando a nossa igreja. Precisamos nos abraçar e acolher”.

O pároco define o abraço como um ato de conhecer e reconhecer o outro, entendendo suas qualidades, mas também suas fraquezas. É colocar-se à disposição e permitir que o irmão se aproxime e se sinta acolhido. Trata-se, sobretudo, de acabar com a exclusão e o preconceito que divide a sociedade.


Inclusão no lugar de exclusão. Foi justamente isto que a Caminhada da Fraternidade 2019 celebrou. Percorrendo a Avenida Frei Serafim e a Avenida Raul Lopes até chegar à Ponte Estaiada, a multidão de fiéis abraçou as ruas de Teresina, proclamando que o amor é mais forte quando se dá em união e partilha, pois, é também através do abraço que manifestamos o nosso amor pelo outro e expressamos o nosso cuidado, principalmente pelos mais necessitados. 

“É o nosso laço de amor no Espírito, para abarcar a todos aqueles que o senhor faz cruzar os nossos caminhos” - Dom Jacinto Brito.

É o que explicou o arcebispo de Teresina, Dom Jacinto Brito, em mensagem aos fiéis durante a Missa que iniciou a Caminhada. Segundo ele, o amor é o dom maior e é ele que nos leva a dar o abraço que “é o nosso laço de amor no Espírito, para abarcar a todos aqueles que o senhor faz cruzar os nossos caminhos”.

Dom Jacinto Brito em mensagem aos fiéis durante a Missa que iniciou a Caminhada. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“Nós sabemos que a nossa Caminhada da Fraternidade é uma proclamação de que o amor é mais forte do que o egoísmo, que o amor é mais forte do que o fechamento, do que a autorreferencialidade. Ele é o laço que nos une em amor com todas as pessoas, particularmente com aqueles que mais necessitam e estão fragilizados”, disse.

O laço construído no abraço só é possível através do amor de Cristo. É através das obras que desempenhamos durante a nossa caminhada que amadurecemos a nossa fé. A caridade é o maior de todos os dons e é por meio dela que nos identificamos com o Espírito Santo de Deus. 

Caminhada da Fraternidade levou milhares de católicos às ruas de Teresina. (Foto: Assis Fernandes/ ODIA)

“O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Sem o amor de Deus não teríamos força para caminhar, não teríamos braços para ajudar, não teríamos corações para consolar, para confortar, para aquecer o coração do outro, não teríamos esse abraço de amor para dar a todos aqueles que necessitam”, enfatizou Dom Jacinto em sua mensagem.

Cadeirante, a psicóloga Vanessa Rodrigues, 26 anos, traduz o abraço em um sentimento de empatia. Para ela, abraçar alguém significa resgatar o que há de melhor no nosso coração e compartilhá-lo com o coração o do outro. Como tema da Caminhada da Fraternidade, ela acredita que o abraço possa suscitar debates pertinentes não só para os portadores de necessidades especiais como ela, mas para a sociedade como um todo.

"Precisamos ter essa empatia para abraçar o outro e a Caminhada da Fraternidade manifesta essa necessidade do acolhimento que nós temos” - psicóloga Vanessa Rodrigues.

“Políticas públicas poderão entrar em discussão e é algo que estamos precisando. O mundo está mudando e escolher um tema que dialogue diretamente com questões sociais mostra que a igreja está acompanhando isso e que nós não continuamos parados, mas sim em movimento. Precisamos ter essa empatia para abraçar o outro e a Caminhada da Fraternidade manifesta essa necessidade do acolhimento que nós temos”, pontuou.

Cadeirante, a psicóloga Vanessa Rodrigues, 26 anos, traduz o abraço em um sentimento de empatia. (Foto: Biá Boakari/ODIA)

O abraço é acolhimento aos enfermos

A própria Caminhada da Fraternidade nasceu do abraço. É que foi a partir das ações sociais desenvolvidas pelo Lar da Fraternidade, em prol dos portadores do vírus HIV em Teresina, que a iniciativa começou a tomar a forma. O Lar da Fraternidade foi criado em 1995 e há 24 anos acolhe pacientes soropositivos, oferecendo-lhes moradia, alimentação, atenção psicológica e social, e também assistência médica. 

O Lar da Fraternidade tem capacidade para atender até 30 pessoas, recebendo entre 700 e 800 portadores do vírus HIV durante todo o ano. Os custos para a manutenção da casa em condições dignas para os que a ela recorrem são altos e ante a necessidade de manter as atividades da entidade funcionando, a Arquidiocese de Teresina iniciou a venda dos kits para a Caminhada da Fraternidade. 

Lar da Fraternidade abraça os enfermos há 24 anos. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Ao longo destes 24 anos, a celebração da acolhida aos enfermos se estendeu para um leque bem mais amplo de causas sociais a serem abraçadas. Outras entidades como o Lar da Esperança e a Casa São José também são beneficiados com os valores arrecadados com a Caminhada.

“Nós abraçamos a necessidade dos portadores de HIV que precisavam de acolhimento, precisavam de um lugar para dormir, precisavam comer, se vestir, se locomover. Acolhemos a necessidade deles e hoje vemos nosso trabalho, de certa forma, sendo acolhido pelas pessoas, que se dispõem a estar aqui e abraçar essa causa, participando da Caminhada. É recompensador”, afirma Mara Beatriz Pinheiro, coordenadora do Lar da Fraternidade. Para ela, o evento é um ato de solidariedade que une as pessoas pelo desejo de fazer o bem.

Abraço também é gratidão à acolhida e confraternização

O ato de acolher, ajudar e abraçar o outro nas suas necessidades foi levado à prática pelas pessoas presentes na Caminhada da Fraternidade. O seminarista Edmundo Araújo da Silva, de 21 anos, é um dos exemplos de como a acolhida é uma via de duas mãos. Recebido todas as semanas na residência da aposentada Maria das Dores Lima, de 77 anos, para as reuniões da Paróquia de São Pedro Apóstolo, o seminarista retribuiu a acolhida ao acompanhar a idosa durante a caminhada.

O seminarista Edmundo Araújo da Silva, de 21 anos, e a aposentada Maria das Dores Lima, de 77 anos. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“Todos os finais de semana, ela nos acolhe na casa dela, e hoje viemos juntos para voltarmos juntos. Vamos acompanhar até certa parte, sempre respeitando os limites de cada um, e depois iremos para casa”, afirma. Já a idosa ressaltou a importância de acolher, escutar e estar sempre atento às necessidades do outro. “O abraço é muito importante, se todo mundo se abraçasse mais, conversasse mais, as coisas seriam mais fáceis”, frisou.

Desde os mais novos até os mais velhos, a caminhada é um local para confraternização entre famílias inteiras. Com apenas 1 ano e 5 meses, a pequena Natalya Maria esteve presente na Caminhada da Fraternidade pela segunda vez. A mãe, a dona de casa Maria de Jesus Fernandes, 47 anos, explica a importância de educar as crianças no caminho da fé para que sigam os ensinamentos de Cristo desde a infância. “Desde novinha que eu participo da Igreja, não só eu, como também o meu esposo. Nós temos que olhar para o próximo, assim os outros olham pela gente, por isso gosto de estar sempre participando desses eventos da Igreja”, relatou.

Natalya Maria, de apenas 1 ano e 5 meses, junto com os pais na 24ª Caminhada da Fraternidade. (Foto: Nathalia Amaral/ODIA)

Já a idosa Maria Mota, de 103 anos, é uma das figuras cativas na caminhada. Presente desde a primeira edição do evento, a idosa, que já não consegue andar e precisa ser levada em uma cadeira de rodas, manifestou a sua fé e o seu amor por Cristo acompanhada da filha, Sara Mota, de 57 anos. Com um rosário em mãos e uma bandeira do Brasil, a centenária acompanhou o percurso atenta à animação do público à sua volta. “Além de processar a fé, é fazer com que ela, mesmo com a idade que está, participe também. Ela gosta de vir demais, se prepara um dia antes”, contou a filha.

Maria Mota, de 103 anos, é uma das figuras cativas na Caminhada da Fraternidade. (Foto: Nathalia Amaral/ODIA)

 “Nós devemos abraçar todas as pessoas e sermos mais humildes com os seres humanos e com os animais”, diz a assistente social Bruna Castro.

No entanto, não foram apenas os fiéis que acompanharam de perto a Caminhada neste ano. Seguindo os ensinamentos de São Francisco de Assis, santo protetor dos animais, vários fiéis levaram os seus cães para o evento neste domingo. A assistente social Bruna Castro foi acompanha da sua cadela Amora e enfatizou que a Caminhada é um momento de confraternização e os animais também merecem ter essa descontração com os humanos. Os abraços em Amora eram recorrentes durante todo o percurso, demonstrando o afeto da assistente social com a sua filha de quatro patas. “Nós devemos abraçar todas as pessoas e sermos mais humildes com os seres humanos e com os animais, porque acho que a fraternidade é isso”, disse.

A assistente social Bruna Castro levou a sua cadela Amora para a caminhada. (Foto: Biá Boakari/ODIA)

Quem também se deixou envolver pelo espírito da fraternidade foi a família de Francisca Santos. Moradora do Dirceu II, ela, o marido, a filha e a neta participaram pela primeira da Caminhada da Fraternidade, movidos pelo desejo de acolher o próximo e estender os laços de amizade. “Somos da Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, no Dirceu II, e resolvemos vir até aqui para engrossar o coro de acolhida aos nossos irmãos. Quando a gente se junta, a gente é mais forte e queremos mostrar que estamos dispostos a servir”, explicou Francisca Santos.

“Vamos nos abraçar, porque o abraço é a forma mais expressiva e forte da aproximação com o outro” - Dom Jacinto Brito.

A Caminhada da Fraternidade 2019 reuniu cerca de 60 mil pessoas, percorrendo as ruas do Centro de Teresina, em uma celebração da união e do amor por meio do abraço. “Vamos nos abraçar, porque o abraço é a forma mais expressiva e forte da aproximação com o outro e quando a gente se aproxima, a gente conhece e ama mais”, finaliza Dom Jacinto Brito.

"O abraço é a forma mais expressiva e forte da aproximação com o outro". (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Abrace a São Benedito

Durante a mensagem aos fiéis na celebração que deu abertura à Caminhada da Fraternidade, o vigário-geral de Teresina, padre Tony Batista, enfatizou a importância dos pobres abraçarem a causa da Igreja São Benedito, um dos principais cartões postais da cidade, e que está fechada para reformas desde janeiro de 2016. O principal entrave para o andamento da obra é de ordem financeira. A reforma está orçada em quase R$ 500 mil e esses recursos são oriundos de doações.

O padre Tony Batista enfatizou a importância dos pobres abraçarem a causa da Igreja São Benedito. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A Caminhada da Fraternidade serviu também como um clamor da Arquidiocese aos teresinenses para que eles ajudem nas arrecadações e contribuam para a reabertura da São Benedito. “A São Benedito é nossa. Abrace-a também. Não espere ninguém de fora não. Os pobres, abracem essa igreja e ela será reaberta. Vamos abrir a Igreja São Benedito. Abracem esta causa”, pediu o padre Tony Batista.

Veja como contribuir

As contribuições para a reforma da Igreja São Benedito podem ser feitas por meio da maquinha virtual, com doações a partir de R$ 25,00 pelo site https://www.vakinha.com.br/vaquinha/abrace-a-sao-benedito. Além disso, os interessados em ajudar podem também doar pelo carnê de pagamento com valores pagos mensalmente até outubro deste ano ou por meio de transferência bancária ou depósito na conta da Arquidiocese de Teresina: Banco do Brasil, agência 3219-0, operação: 003, Conta Corrente: 9802-7. Doações dietas também podem ser feitas na secretaria do convento.

Por: Nathalia Amaral e Maria Clara Estrêla

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